Um toque de mistério com a morte do Ministro do STF Teori Zavascki mexeu com a imaginação popular. Na América, o presidente Trump prome...



Um toque de mistério com a morte do Ministro do STF Teori Zavascki mexeu com a imaginação popular. Na América, o presidente Trump promete não dar moleza para imigrantes latinos e muçulmanos. 

No rigoroso inverno canadense de Quebec, atiradores abrem fogo contra uma mesquita matando seis pessoas. 

Pronto, 2017 começou em ebulição, mas o Brasil não está a todo o vapor.

Por aqui, o País segue vagaroso em sua marcha natural da vida e caminha repercutindo o desastre aéreo com Teori, as facções que se matam nos presídios, a crise financeira nacional e a prisão do empresário Eike Batista, em uma das fases da Operação Lava Jato.

O Brasil urgente pede outra coisa: o fim do desemprego, uma reforma administrativa para enxugar os gastos públicos e uma ação efetiva do Governo Federal para sairmos do caos financeiro.

Para efeitos de discussão, um outro Brasil quer distração e confabula um responsável pela morte de Teori. 

Não importa se houve falha do piloto, mau tempo e que existe uma dose de mistério quando se interrompe o curso natural da vida. É preciso arrumar um Lee Oswald para o caso e puni-lo.

E nesse momento todos os caminhos apontam como suspeitos os nomes citados na delação da empreiteira Odebrecht, lista que estava nas mãos de Teori e seria homologada já no início de fevereiro.

Os critérios para escolha do(s) principal vilão(ões) desta lista ainda estão bagunçados, mas fariam do escritor russo Fiodor Dostoiévski um mero aprendiz.  

Enquanto isso, o segmento desqualificado das redes sociais segue tecendo suas teias incompreensíveis sem qualquer lógica e aponta Lula como o grande artífice da trama.

Outros, mais entusiastas, preferem um enredo com intriga palaciana, sabotagem de aeronave e colocam o presidente Temer como a mente perversa que arquitetou a tragédia.

O curioso desta história toda é que em questão de meses, Teori passou de vilão das redes sociais - quando descartou os grampos em Lula como prova na Operação Lava Jato - a mocinho dos episódios mais recentes da mesma investigação. 

Aqui faço um constatação: é comovente a necessidade que parte dos brasileiros tem para fabricar heróis. Teori Zavascki era só um ministro que exercia suas funções, mas parte da população se agarrou ao seu personagem de juiz coerente como se ele fosse a lâmpada de Aladim da redenção nacional.

Para completar, tivemos ainda o exemplo mais sólido de bobagens com a declaração do juiz Sérgio Moro tratando Teori como “herói brasileiro”, o que demonstra a superficialidade e a desinformação que pautam grande parte da opinião pública assim dita “formadora”.

Depois dessa declaração, Moro deu direito a fala a um bando de desinformados que, anteriormente, só falavam algo no bar, depois de uns tragos e sem causar dano à coletividade. 

Antes, diziam a eles para fechar a boca enquanto agora, tem o mesmo direito a argumentar que um ganhador do Nobel. Lamentamos.

* Jornalista e escritor de MS

No último dia 27 o presidente da OAB de Mato Grosso do Sul proferiu o seguinte discurso na posse do Desembargador Divoncir Schreiner Mara...


No último dia 27 o presidente da OAB de Mato Grosso do Sul proferiu o seguinte discurso na posse do Desembargador Divoncir Schreiner Maran na presidência do Tribunal de Justiça do Estado. 

A íntegra do discurso é o seguinte:

Tenho grande honra de participar desse ato de posse do novo presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, Desembargador Divoncir Schreiner Maran, representando com muito orgulho a Ordem dos Advogados do Brasil de nosso Estado. 

Quero também aproveitar esse momento solene para lamentar – entristecido - a recente perda de nosso Ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, figura emblemática da justiça brasileira, intelectual conceituado internacionalmente, homem que se notabilizou pelo equilíbrio, pela honradez e pela serenidade. 

O País perdeu muito com essa morte trágica, deixando um vácuo não somente em nossos sentimentos, como também em nossas instituições. 
Triste Brasil. 

Por isso, gostaria que essa solenidade simbolizasse, em inúmeros aspectos, as qualidades e a grandeza do Ministro Teori. 

Que ele nos inspire na transformação de nosso País e na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Ainda estamos impactados com um fato que transcende o nosso imaginário. 

"Em tempos outros, cabia às autoridades judiciais decidir nos autos, de forma técnica, em estrita consonância legal; agora, cabe também às mesmas autoridades esclarecer a coletividade sobre a essência das decisões tomadas no contexto do devido processo legal."


Os últimos acontecimentos colocam o judiciário no centro do debate e das preocupações nacionais. 

O momento avoca nossas reflexões no sentido de definir o papel das nossas instituições no contexto das transformações do mundo moderno. 

Somos paradigmas de conduta, referência para a sociedade e modelo para as novas gerações. 
O Judiciário tornou-se peça fundamental para o resgate moral da nação, para a recuperação de nossa autoestima e para a reconstrução dos modelos de eficiência e eficácia de nosso desenvolvimento.

Por isso, nossa entidade tem que caminhar olhando para os dois pólos que formam a nossa estrutura de poder, no seu mais amplo sentido: o institucional e o político. 
Vivemos nas últimas décadas transformações profundas. As novas tecnologias da comunicação estão mexendo intensamente com a cultura de todas as sociedades. 

Certo ou errado, bom ou mau, correto ou equivocado, os fatos ocorrem sem que possamos, cada vez mais, ter controle sobre eles. 

Muitos dizem que vivemos a Era da Incerteza. Outros asseveram que esses são os tempos da Pós-Verdade. 

Novos conceitos estão sendo incorporados ao nosso dia a dia com uma rapidez que nos surpreende e nos impressiona. 

Não vivemos mais aqueles dias em que a sociedade era informada no dia seguinte. Ninguém mais manda cartas; ninguém mais envia telegramas. Tudo é aqui e agora. 

Tudo circula em questão de segundos. Trata-se de um processo irrefreável. 

Com isso, mudam-se as formas de protagonismos dos poderes e de seus representantes. 

Muda-se a forma de interação entre o ente público e privado. 

Mudam-se os atores sociais e suas formas de manifestação. 

Muda-se a forma de relacionamento entre as pessoas. 

Muda-se a visão de mundo. 

Enfim, estamos vivendo em outras perspectivas, em outros alcances, em outras esferas de entendimento.

Assim surgem novas formas de parcerias entre as mais variadas instituições nacionais -  que sofrem a influência dessas mudanças e passam por novos critérios de interação permanente. 

A OAB representa uma parcela importante da massa crítica de nossa sociedade. 
Nosso papel constitucional divide-se entre a defesa das prerrogativas dos profissionais que representamos e a manutenção do Estado Democrático de Direito, preocupação fundamental da nossa cidadania. 

Por dever constitucional, temos que zelar por esses aspectos que ora se separam e ora se confluem.
Em todo esse processo, temos a certeza de que o nosso colendo Tribunal de Justiça irmana-se com a Ordem dos Advogados na busca do melhor direito, da melhor justiça, da melhor cidadania. 

Não há divergências insuperáveis entre instituições e os homens e mulheres que as representam. 
Todos desejam a boa convivência. Mas todos também sabem que as mentalidades mudam, os conceitos se alteram e a filosofia de trabalho evolui. 

A Ordem, diante de suas obrigações constitucionais, não pode, em hipótese alguma, ignorar aquilo que se chama comumente de o “clamor das ruas”. 

Em tempos outros, cabia às autoridades judiciais decidir nos autos, de forma técnica, em estrita consonância legal; agora, cabe também às mesmas autoridades esclarecer a coletividade sobre a essência das decisões tomadas no contexto do devido processo legal. 

Daí a importância do televisionamento das sessões dos tribunais como forma de permitir ao povo o conhecimento de nossas leis e das decisões dos nossos juízes.

Os tempos mudaram. Felizmente, o nosso Tribunal de Justiça tem profundo conhecimento dessa realidade e tem feito um trabalho exemplar no sentido de modernizar seus procedimentos e sua atitudes.

Somos paradigmas de conduta, referência para a sociedade e modelo para as novas gerações. 
O Judiciário tornou-se peça fundamental para o resgate moral da nação, para a recuperação de nossa autoestima e para a reconstrução dos modelos de eficiência e eficácia de nosso desenvolvimento.


Senhores e senhoras, excelentíssimas autoridades de nosso Estado, 

A Ordem dos Advogados do Brasil tem profundo respeito por esse egrégio Tribunal de Justiça, mantendo sempre um relacionamento respeitoso, equilibrado e independente com os membros da corte, defendendo sua isonomia, sabedoria e conhecimento técnico. 

Saudamos a gestão do presidente que sai, Desembargador João Maria Lós, que muito realizou em prol dos advogados e dos serventuários de nossa Justiça, e conclamamos nossas sinceras homenagens ao presidente que ora toma posse, Desembargador Divoncir Maran, esperando que ele persiga e aprimore os bons trabalhos realizados pelo judiciário de Mato Grosso do Sul. 

Muito obrigado.”

O empregado abriu o portão da casa em Guarujá e disse que o presidente (na verdade, ex) Jânio Quadros me esperava.  Estávamos em novem...


O empregado abriu o portão da casa em Guarujá e disse que o presidente (na verdade, ex) Jânio Quadros me esperava. 

Estávamos em novembro de 1983, e Jânio acabara de lançar um livro de contos, que alegava ter escrito em uma semana. Era sobre isso que eu ia ouvi-lo para a Folha. Antes mesmo de dizer bom dia –eram 11 da manhã–, perguntou-me o que eu queria tomar.

Jornalistas não devem beber em serviço, mas quem resistiria a um convite para beber com Jânio Quadros? Respondi, tibiamente, "Vodca, presidente, se tiver". 

Ele ergueu um olho: "Vodca? Interessante. Acabo de voltar da URSS, onde viajei pela Transiberiana. Vamos ver o que temos aqui de vodca". Abriu uma porta de correr e o que havia ali de vodca abasteceria toda a Transiberiana ou a própria URSS. E assim começamos: eu, com uma garrafinha de Wyborowa; ele, com um litro de Cutty Sark.

Duas horas depois, zeradas as garrafas, eu já tinha o que precisava sobre sua estreia na literatura. Mas Jânio ordenou que ficasse para almoçar –"Eloá [sua mulher] insiste!", garantiu. 

E, assim, à mesa, seguimos discutindo literatura (que, para ele, consistia no uso das ênclises, próclises e mesóclises), refrescados por um suprimento de cerveja que parecia saído de um carro-pipa da Antarctica estacionado debaixo da janela.

Findo o almoço, ensaiei uma despedida, mas Jânio mandou vir licores e, de copinho na mão, guiou-me numa excursão por suas estantes, vergadas de livros de direito –e, aí, sim, num canto, um nicho contendo uma linda coleção de romances policiais ingleses. Fã do gênero, cumprimentei-o por ela, e só então ele me deixou ir. 

Dois anos depois, Jânio elegeu-se prefeito de São Paulo e, em 1992, morreu aos 75 anos.

Nesta quarta, 25, tivemos seu centenário de nascimento. Ninguém, com razão, se lembrou de sua literatura.

* Jornalista e escritor

A recessão econômica vivida pelo Brasil colocará dentro em breve a sociedade num dilema crucial: como será possível reajustar salários no...


A recessão econômica vivida pelo Brasil colocará dentro em breve a sociedade num dilema crucial: como será possível reajustar salários nos patamares exigidos pelos trabalhadores do setor público e privado quando a escassez de recursos não é apenas mera abstração e sim um dado concreto da realidade?

Como se dizia antigamente, uma coisa é dever, outra é poder. No caso da iniciativa privada, dificilmente se poderá conceder reajustes generosos sem que as empresas tenham que fazer cortes de pessoal, fechamento de unidades de negócios, redução de atividade, aumentando o desemprego e a escassez geral. 

Existe o caminho da redução das margens de lucro, dos juros e da carga tributária, mas essas são lentas, graduais e restritas pelo modelo contratualista brasileiro, que impõe altos custos à mão de obra e à burocracia pesada que a nossa legislação exige, incidindo de maneira deletéria sobre a produtividade. 

No setor público, a situação é mais dramática porque governos acumulam terríveis déficits, os orçamentos estão mais do que espremidos e não há muita margem para o desenvolvimento de uma política fiscal que possa ampliar a base de arrecadação na proporção do aumento vegetativo da folha salarial. 

Muitos vão dizer que o caminho será reduzir o tamanho da máquina, melhorar a eficiência administrativa, combater rigorosamente a corrupção, adiar gastos desnecessários e fazer um torniquete na boca do caixa. 

É difícil - embora possível -, pois manter a governabilidade num sistema de tripartição de poderes significa grandes dificuldades de cortar privilégios ( principalmente dos poderes legislativo e judiciário), mesmo porque os "privilegiados" não tem percepção clara das dificuldades gerais da economia. 

Quem tiver coragem de perguntar a um deputado, senador, juiz, desembargador ou procurador do MP sobre exageros salariais e benefícios indiretos ouvirá respostas típicas de quem certamente vive em Marte e não no planeta Terra. 

"O Brasil já viveu muitas crises, saímos de todas elas, chegamos até aqui, não chegamos?", me dizem alguns desses senhores circunspectos, cheios de sabedoria. 

Certamente, não estão olhando os índices de desigualdade, baixa qualidade dos serviços públicos, aumento da violência, precariedade das moradias, ressentimento das camadas médias e baixas. Eles não convivem diariamente com a ralé, habitando espaços típicos de quem vive na Alemanha. 

Enfim, nosso olhar nos remete na direção da esperança de que o acúmulo de medidas impopulares adotadas no momento possam reverter o quadro das expectativas e dar o start para a volta lenta do crescimento da economia. 

Mas a longo prazo todos estaremos mortos, lembrando Keynes.

Otimistas dirão que isso poderá começar a acontecer esse ano. Pessimistas acreditam que tudo vai piorar e que a sociedade viverá apenas as ilusões da esperança de dias melhores. 

Fora Temer, gritam.

Sinto, contudo, que aos poucos as coisas começam a parar de piorar. Os espíritos parecem desarmados para discutir saídas que não são as melhores, mas são as possíveis. Alguns vão bufar. Mas acho que serão grupos minoritários. Mesmo assim, a crise não irá embora totalmente. 

O Brasil está mergulhado em problemas éticos que tornam tudo muito mais complicado. Principalmente com aviões caindo com autoridades diversas.

Viveremos a próxima década um período de baixo crescimento, que exigirá alteração no nosso modo de vida. A palavra da moda talvez seja algo que gire em torno de desapego e menos ostentação. O chic será brega, o menos será mais.


F aleceu ontem,  de madrugada, o amor que eu sentia por minha namorada. o desenlace, triste e fatal ficou atestado como...


Faleceu ontem, 
de madrugada,
o amor que eu sentia
por minha namorada.
o desenlace,
triste e fatal
ficou atestado
como óbito
por desencanto
natural
o sepultamento
simples e normal
evitou cerimônia,
e foi consumado
no próprio local.
dispenso pêsames 
e condolências,
por esse amor,
que viveu por engano
perdurou como um raio
e morreu como um sonho.




(PS : poema feito aos 16 anos. Achei perdido
nas minhas tralhas. A namorada
atual continua firme)

A história das constituições brasileiras carrega em si o processo de transformação da nossa sociedade no tempo e no espaço. Cada uma dela...


A história das constituições brasileiras carrega em si o processo de transformação da nossa sociedade no tempo e no espaço. Cada uma delas, desde a Carta Luso-Brasileira de 1822, promulgada em períodos diversos, exibiu em seu escopo suas peculiaridades políticas, sociais e econômicas.

No fundo, as constituições são uma espécie de retrato do que somos e do que queremos.

Tivemos oito constituições. De diversas formas, elas espelharam a imagem que o País tinha de si mesmo, embora representasse uma visão das nossas elites. Nenhuma Carta é perfeita, mas todas tiveram flexibilidade suficiente para sobreviver ao longo do tempo, mesmo em períodos de crise.


Desde a monarquia, passando pela República, ingressando no pós-guerra, atravessando o período autoritário, as constituições expressaram modelos de pensamento em voga no Brasil e no mundo, numa clara correspondência com a ideologia dominante.

Mesmo em se tratando de doutrinas diversas, sempre se reclama que a nossas constituições, principalmente a de 1988, padecem das virtudes e dos defeitos inerentes à tradição nacional: excesso de detalhes, falta de regulamentação adequada e multiplicidade interpretativa.

Mesmo assim, a Carta vigente tem o grande mérito – talvez como nenhuma outra - de colocar o exercício da cidadania no primeiro plano, abrindo cada vez mais perspectivas de protagonismo da sociedade em relação aos poderes instituídos.

Nossa denominada “Constituição Cidadã” carrega as mudanças e contradições de nosso tempo. Não há dúvida de que ela colocou na ordem do dia o chamado “clamor das ruas”. Muitos não gostam. Mas essa é uma força que exerce um poder incontornável diante das circunstâncias históricas que vivemos.

Na verdade, a Carta de 88 encaixou-se como uma luva os chamados novos tempos, que, inegavelmente, vem potencializando de maneira inédita as tecnologias das comunicações e das redes sociais, permitindo a vocalização quase que instantânea do que ocorre com os sentimentos das ruas.

Nesse aspecto, estamos todos nós, advogados, magistrados, promotores e serventuários da justiça, vivendo uma fase de adaptação, tendo que, ao mesmo tempo, atender os aspectos técnicos dos devidos processos legais com as demandas imediatas de uma sociedade cada vez mais ativa e participante.

Claro que esses tempos líquidos, tão bem definidos pelo sociólogo Zygmunt Bauman, estimulam maneiras diferentes de se lidar com velhos problemas.

Atualmente, mesmo o cidadão leigo em direito, consegue acompanhar pela TV as sessões do Supremo Tribunal Federal, visto que a própria linguagem do judiciário está mudando, tornando mais acessível e direta, abandonando os antigos jargões do “jurisdiquês”.

Com isso, nasce a “voz constitucional do cidadão”, não com o propósito de provocar rupturas com o Estado Democrático de Direito, mas sim de fortalecê-lo, criando um ambiente de diálogo e tolerância, moldando os usos e costumes republicanos, enfim, transformando profundamente as bases culturais do País.

Certamente, muitos não concordam com a natureza desse processo. Às vezes somos obrigados a dar guarida para as vozes discordantes, visto que em toda transformação há pontualmente ultrapassagens de limites. Por isso sempre pedimos bom senso, prudência, convergência de propósitos, não como mera retórica e sim como atividade prática do dia a dia.

Os fatos invariavelmente nos dividem. As opiniões divergentes, muitas vezes pronunciadas com certa agressividade verbal, terminam gerando mais fumaça do que energia. Mas o regramento legal do País tem nos ajudado a fortalecer nossa nascente democracia. Por isso, sempre afirmo: a Ordem dos Advogados do Brasil é a Casa da Cidadania.

Nela, o advogado encontra respaldo, principalmente na defesa de suas prerrogativas. Com isso, conseqüentemente, a sociedade sente-se protegida dos arroubos autoritários que, volta e meia, insistem em nos manter presos ao passado, querendo impedir a marcha da modernidade. Por essa razão sempre digo: não passarão.

*Advogado e presidente da OAB/MS. 

Artigo publicado originalmente no site Topmídianews: Muitos me perguntam o que achei de ser deputado federal. Aqui vai uma tentativa ...


Artigo publicado originalmente no site Topmídianews:

Muitos me perguntam o que achei de ser deputado federal.

Aqui vai uma tentativa de resposta.

Minha impressão não é definitiva, mas até onde pude estender o meu olhar sobre este período (2011-15), confesso ter presenciado um cenário de intensas e lacerantes contradições.

São quinhentos e treze disputando alimento na selva que só conhece o instinto da sobrevivência. No fundo, no fundo, ninguém conhece ninguém lá dentro, embora a cordialidade do coleguismo prevaleça.

Logo que assumi, percebi que o palco das representações era o plenário. Neste espaço, todos buscam encarnar um personagem, assim como na vida, mas com a nota especial da tribuna, do microfone e do ambiente de “big brother”.

Pecado venial: novato de primeiro mandato driblar ou tentar driblar veteranos da casa na disputa por espaços.

Pecado mortal: descumprir com a palavra empenhada.

No plenário, o microfone é a tentação. Poucos são os que sabem usá-lo; raros, os que dominam a oportunidade política de fazê-lo no momento certo: já testemunhei brilhantes pronunciamentos inoportunos, assim como discursos frágeis que repercutiram positivamente porque o instante político reclamava.

A fauna é pródiga em diversidade de espécimes, reproduzindo um ambiente extraordinariamente rico para profissionais da Psicologia: astuto encarnando matuto; ingênuo posando de velhaco; interesseiro sob a capa de idealista; autoritário na pele de democrata.

De duas uma: quem lá chega, ou quer ficar mais, ou quer algo mais (ministério, senado, etc) e sabe que não depende só de querer, porque eleição é o que os outros pensam de você e não o contrário. Daí, a profusão de personagens que se inventam e reinventam para agradar e cooptar o maior número possível de pessoas para o seu projeto político.

Esta é a contradição que dilacera o parlamento. Explico: a disputa eleitoral é renhida e exige esforços quase sobre-humanos. Vencida a competição, o vitorioso tende a se comportar de tal forma que a próxima disputa seja vencida com menos dificuldade e, para isso, assume a estratégia animal da camuflagem, modelando e adaptando o seu mandato de acordo com pensamentos, afetos e emoções dominantes no eleitorado.

Esta despersonalização do mandatário explica as mudanças radicais no comportamento de parlamentares ao longo do mandato. Uns começam esquerdistas, mas terminam de direita; outros, iniciam de centro, acabam radicais. É o instinto oportunista da sobrevivência política que gera resultados de votações inconsequentes nos parlamentos.

Torço para estar errado, mas me parece que hoje não há no país, político que coloque em xeque a sua carreira político-eleitoral em defesa de uma posição ou ideia na qual acredite e que seja contramajoritário. Não vejo no atual horizonte da política brasileira nenhum quadro que aceite colocar em risco a sua reeleição em defesa de uma causa na qual acredite e que seja impopular. O político invertebrado é um dos responsáveis pela desidratação da própria Política.


Não me parece utópico acreditar que seja possível formar lideranças políticas que coloquem acima dos interesses pessoais do mandato, a defesa do País em si. Uma das idéias seria a vedação de se candidatar em seguida à conclusão de uma legislatura. Talvez assim, o mandato seria um tempo de pensar e agir em favor do que seja melhor para o país e não para a continuação do próprio exercício pessoal do poder.

Mas esta é uma ideia para outra tentativa de resposta ...  

*Advogado, ex-presidente da OAB/MS e ex-deputado federal PMDB

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo: Os partidos políticos brasileiros estão se lixando para as penitenciárias. Nos 13 a...


Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo:

Os partidos políticos brasileiros estão se lixando para as penitenciárias. Nos 13 anos de PT, o número de presos foi multiplicado por 2,6: saltou de 239 mil para 622 mil (fevereiro de 2014).

O PSDB governa o Estado de São Paulo desde 1995: 166 unidades prisionais, mais de 220 mil presos e a vigência plena do Regime Disciplinar Diferenciado que submete detentos a isolamento absoluto.

De tempos em tempos, presídios explodem, facções se movem e a imagem do amontoado insalubre de seres humanos retorna à imprensa. É um problema real e importante, mas não faz parte da agenda política.

Nas eleições de 2014, o programa de governo do PT para o segundo mandato de Dilma, além de falar na cifra de R$1,1 bi para ajudar Estados e na criação de 47 mil vagas (o déficit já era de 250 mil), propagava o controle "mais efetivo" das fronteiras: "Evitamos, com o enfrentamento ao tráfico de drogas e armas, o fortalecimento do crime organizado".

O do PSDB e de Aécio é também genérico. Prometia "prevenção e repressão ao tráfico de drogas e de armas e à lavagem de dinheiro".

Os candidatos eram, evidentemente, favoráveis à humanização do sistema prisional, mas não se sabe se pretendiam reduzir ou ampliar o número de presos. O que se viu foi promessa de "segurança" e reafirmação da estratégia de combate ao tráfico de drogas que faz as prisões transbordarem de gente.

Alguém se recorda de uma robusta operação da Polícia Federal desarticulando rotas de tráfico de armas? Não é papel do governo estabelecer diretrizes de segurança pública e direcionar o serviço das agências de inteligência e repressão? Por que nada acontece?

Descobre-se, de repente, que um grupo empresarial chamado Umanizzare gerencia presídios no Amazonas e em Tocantins. É modernidade ou é mais uma tentativa de lavar as mãos? Quem controla a privatização? Quem se ocupa dos maus-tratos?

O anseio das autoridades é o de que a crise não seja visível, exposta por mortes, rebeliões e fugas. Não há políticas públicas para um encarceramento menos caótico e brutal.

O que se busca é remediar, obter tréguas. Mutirão relâmpago de advogados, aumento episódico de vigilância, mas nada capaz de domesticar a revolta latente que habita os presídios superlotados e retirar do sistema quem não precisaria estar preso e submetido às facções.

Há governantes que não sabem reagir aos acontecimentos. Dilma demorou mais de oito meses para indicar Fachin para o STF.

A resposta do governo Temer às rebeliões do Brasil é eficaz? Construir muro para separar inimigos? Envolver as Forças Armadas? Transferir líderes? Punir os que desta vez decapitaram? Alcançar outro período de paz, a paz dos cemitérios?

Depois da matança de Manaus e de Natal, em Bauru, interior de São Paulo, presos fogem do regime semiaberto. Em Brasília, membros do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, do governo antigo, renunciam. E o número de presos aumenta, dia após dia.

A população não se importa, só se assusta, e como a culpa é de todos, Judiciário, Legislativo, governos estaduais, ministros da Justiça, partidos políticos, ninguém se sente culpado de nada. A miséria das prisões é sujeira que não cabe mais embaixo do tapete.

Advogado criminal. Foi presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos instituída pela Lei 9.140/95. 

A Folha de S.Paulo publicou hoje uma entrevista com o Senador Eunício de Oliveira, provável sucessor de Renan Calheiros na Casa.  Envio...


A Folha de S.Paulo publicou hoje uma entrevista com o Senador Eunício de Oliveira, provável sucessor de Renan Calheiros na Casa. 

Enviou duas jornalistas para falar com ele: DÉBORA ÁLVARES e MARINA DIAS. ( Íntegra aqui ).

Lá pelas tantas ocorreu a seguinte conversa: 

Folha SP - Para conseguir o benefício da delação premiada elas precisam provar o que falam.

Eunício - Mas isso é lá na frente. As pessoas criam, inventam e até mentem para poder ter o benefício da delação. Não posso impedir que a pessoa fale ou cite nada.

O sr. é acusado pelo ex-executivo da Odebrecht Cláudio Melo Filho de ter recebido R$ 2,1 milhões em propina para aprovar MP de interesse da empreiteira. Recebeu esse dinheiro?
A MP 613. Não fui presidente da MP, não fui líder, vice-presidente, relator, não fiz uma emenda supressiva ou aditiva...

Folha S.P -Mas ele alega que a influência que o sr. tinha ajudava.

Eunício -Raciocine um pouquinho: você não me conhece, nunca me viu, como eu te estuprei?

É preciso fazer algum comentário?

Foi-me emprestado recentemente por amigo dileto um livro de discursos do Ministro do STF, Luís Roberto Barroso, “A vida, o Direito e Algu...


Foi-me emprestado recentemente por amigo dileto um livro de discursos do Ministro do STF, Luís Roberto Barroso, “A vida, o Direito e Algumas Ideias para o Brasil” (Editora Migalhas, 2016). 

Achei que enfrentaria um texto chato, modorrento, arrastado. Respirei fundo. 

Mas – grata surpresa! - terminei lendo num tapa.  Pude conhecer um pouco do que vai pela alma de um homem que sempre achei arrogante e pernóstico. 

Saí da obra com uma imagem diferente do Ministro. 

Barroso é um humanista que passou por várias fases de entendimento do mundo, conforme fica demonstrado em seus discursos, quase todos cumprindo o papel de paraninfo de turmas de formandos em algumas faculdades de direito pelo Brasil afora. 

Identifiquei três momentos de Barroso: o lírico (pré-STF), em que ele discorre sobre as agruras do País, citando poetas, compositores famosos da MPB, filósofos iluministas, com textos de ideias longas, elípticas e repletos de críticas moderadas ao modelo político; o místico, no qual profere pronunciamentos de auto-ajuda, numa variação do conceito socrático do “conhece-te a ti mesmo”; e o realista (pós-STF), com textos bem argumentados sobre reformas institucionais (sobretudo a política), no qual ele explica com extremo didatismo o cerne de suas propostas. 

Essa é a melhor parte do livro.

Penso que, na maioria dos casos, esses discursos são mais para serem lidos do que ditos. Nas mãos de um bom narrador de texto, pode ser que tenha funcionado; mas ditos por um sujeito com voz anasalada, com olhos sonolentos e semblante aristocrático, acredito que a platéia tenha bocejado e pedido para sair.   

Dou esse exemplo porque nos últimos 15 anos tenho produzido discursos, palestras e apresentações para terceiros (um trabalho estressante, concentrado e pouco lucrativo) e tenho notado que, de certa maneira, cada vez mais, o uso da linguagem e da estrutura narrativa desses textos estão modificando vis a vis ao transcurso da história e do momento político em que vivemos 

Lembro-me que nos anos 90 havia a moda das citações. Em qualquer discurso a gente tinha que meter dois ou três nomes famosos no meio, fazendo um necessário entre aspas para encantar as pessoas. 

Depois, entramos na fase dos filósofos. Qualquer pronunciamento adquiria consistência devida citando Aristóteles, Kant ou (raramente) Marx e Nietzsche.

Citações bíblicas sempre foram úteis porque cria empatia com o público, sempre de maioria cristã. Sempre é recomendável.

Até recentemente, os textos eram produzidos com preocupações nítidas de difusão de ideias inspiradoras, com frases longas, às vezes tortuosas e ininteligíveis. 

Nos últimos anos a coisa vem mudando. 

Com os meios modernos, redes sociais, facebook, Twitter, WhatsApp, os discursos começam a acompanhar a tendência dos textos curtos e impactantes. 

O sujeito que fingir que é o William Bonner no jornal Nacional,  usando uma sintaxe na ordem direta, com boas frases de efeito (na maioria dos casos conceitos em bloco, bem amarrados, como se fossem tijolos soltos no ar).

Importante: o bom pronunciamento não pode durar mais do que 15 minutos. Vinte minutos já é uma eternidade. Quem se dispõe a escrever os novos textos deve se preparar para ter sofrimentos adicionais, pois trata-se de um exercício terrível de prisão de ventre.

Só ditadores como Fidel podiam falar durante 7 horas sem que a platéia se mexesse. As razões eram óbvias.

O discurso de posse de Trump é um exemplo acabado desse novo momento discursivo. O modelo seguido é o que os americanos chamam de “sound bites” (mordidas compactas e sonoras). 

Cada frase deve se parecer letras de músicas batidas, sincopadas, sendo até recomendável algum errinho de gramática para que a coisa pareça “popular”. 

Novos tempos, novas palavras, novos discursos. 

Vivam com esse barulho.


A crise financeira dos Estados é, em certo sentido, pior que a enfrentada pelo governo federal. Já que não podem emitir dívida, como a U...



A crise financeira dos Estados é, em certo sentido, pior que a enfrentada pelo governo federal. Já que não podem emitir dívida, como a União, são obrigados a fechar o caixa com cortes abruptos de serviços públicos, inadimplência no pagamento de fornecedores e atraso nos salários do funcionalismo.

Pode-se medir o tamanho do aperto pelo fato de que começam a surgir propostas de soluções estruturais, em geral estranhas à paisagem política brasileira.

Até recentemente, inúmeros governadores, parlamentares e membros do Judiciário acreditavam —ou assim fingiam— que o problema principal residia na dívida elevada com o governo federal. O pagamento de juros, segundo essa análise, asfixiava os Estados.

Essa visão equivocada aos poucos vai sendo corrigida. A verdade é que o desequilíbrio nos caixas estaduais decorre do excesso de despesas correntes, especialmente salários e aposentadorias.

Na maior parte dos casos, feitos os cálculos pertinentes, o desembolso com pessoal supera 70% da receita, fatia bem maior do que a reservada a juros da dívida (até 13%).

Para piorar, o peso de aposentadorias por demais generosas, sobretudo nos altos escalões, cresce sem parar. Por vezes, inativos e pensões consomem quase a metade da folha, o que não tem sentido.

Felizmente, algumas unidades federativas se propõem a adotar um limite para os gastos, tal qual fez o governo Michel Temer (PMDB). Piauí e Ceará, por exemplo, aprovaram mecanismo semelhante, mas válido por dez anos, metade do prazo fixado pela União.

Espera-se iniciativa na mesma direção em Goiás, em Mato Grosso, na Paraíba, em Alagoas, no Amazonas e no Espírito Santo. Ainda que mais flexíveis —excluem do teto investimentos e despesas com educação e saúde—, os limites apontam para um ajuste estrutural.

A adoção de tetos lançará luz sobre os privilégios do funcionalismo, que terá mais dificuldade para impor agendas corporativas.

Outras medidas bem-vindas são a elevação das contribuições previdenciárias de servidores e a redução de incentivos fiscais. Privatizações também estão no cardápio.

O Supremo Tribunal Federal poderá dar ajuda importante quando apreciar o mérito de uma liminar, em vigor desde 2007, que impede redução na jornada de trabalho com corte proporcional do salário de funcionários públicos.

Se o tribunal autorizar maior liberdade na gestão da folha de pagamento, será mais fácil forçar uma racionalização do setor. Não faz sentido que a sociedade seja chamada a arcar com os gastos sempre crescentes de uma estrutura inchada e ineficiente.

Publicado originalmente no site Campograndenews: Os novos e os antigos poderosos dos Executivos e Legislativos não se cansam de reclama...


Publicado originalmente no site Campograndenews:

Os novos e os antigos poderosos dos Executivos e Legislativos não se cansam de reclamar - os órgãos de fiscalização, notadamente os promotores públicos, estariam exagerando no cumprimento de suas funções. E estão. Emitem ofícios, abrem processos, debatem na imprensa, processam e, especialmente, prendem aqueles que, até há pouco, agiam e se sentiam "donos do poder". O tempo dos ultrapoderosos do Executivo passou...

As novas atribuições dos promotores pertenciam aos delegados de polícia e aos membros dos legislativos. Foram tão somente ampliadas e modernizadas. A polícia civil se encarregava da prisão dos poderosos. Aos vereadores, deputados e senadores era atribuído o poder de fiscalizar os membros das prefeituras, governos estaduais e federal. Era. Na prática, isso deixou de existir.

Perderam os poderes porque não os praticaram. Pior. Muitos, deles, se locupletaram.

Partidarizaram, esqueceram de prestar serviço para a sociedade e foram fazer genuflexões aos poderosos. Os promotores, jovens em sua maioria, ocuparam os espaços, ocuparam um vácuo que existia desde dezenas de anos. Talvez, desde sempre. Delegados e parlamentares perderam seus poderes. Provavelmente, para sempre. Enquanto corporações, estão diminuídos em suas ações. Também não gozam de credibilidade ou respeito.

Mas, afinal, existe uma banalização dos promotores de justiça contra os poderosos? A resposta é que existem exageros, no meio de acertos. São decorrentes de atos de afirmação, de gerir o que é novo. Ainda estão aprendendo e medindo suas forças reais. 

"Espicham" as leis para ver até onde é possível chegar. Também há o erro, esperado para quem estuda, dos exageros midiáticos. Não podem ver uma câmera de televisão ou um repórter sem emitir opiniões ou proferir sentenças, usurpando o papel dos juízes. São apenas 3 ou 4 anos de verdadeiro poder. Muito pouco tempo para eles, e parcela ponderável da população, estabelecerem os reais limites de seus poderes.

Terão de aprender a usar a arma que a sociedade lhes legou, sem perder a bala, sem desperdiçar o cacife de credibilidade que lhes foi legado. Terão de aprender a não apresentar denúncias vazias ou raquíticas. Não podem banalizar. Também não podem denunciar gregos e deixar incólumes troianos. 

Terão de entender que os poderosos hoje tremem com suas ações. E respeitar esse temor reverencial. Não podem desejar a extinção do poder executivo. Atualmente, uma parcela de loucura, ou de desconhecimento, acomete aqueles que ousam aceitar um cargo de secretário municipal. 

A continuar, abandonarão os cargos, pedirão demissão. As notícias que chegam dos bastidores da administração municipal dizem que quase todos estão vivendo sob a égide do temor, alguns do terror. Há poucos dias chegaram ao porto do poder, preparam as malas para o retorno a seus lares.

*Ex-secretário de Receita de Campo Grande e ex-Secretário de Fazenda de Mato Grosso do Sul.

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo: Na Faculdade de Direito da USP, no Largo do São Francisco, suspeitava-se que Jânio...



Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo:

Na Faculdade de Direito da USP, no Largo do São Francisco, suspeitava-se que Jânio Quadros fosse um agitador esquerdista devido à sua hostilidade à Espanha franquista. 

O professor de português do Colégio Dante Alighieri morava numa casa pobre, no Cambuci, com poltronas estouradas e molas aparecendo pelo estofamento rasgado. Em 1947, seus alunos se espalharam pela cidade, com mesinhas e cédulas eleitorais, para ajudar a elegê-lo vereador pelo Partido Democrata Cristão, numa campanha sem recursos, nem relações, nem apoios políticos. Conquistou a primeira suplência.

Jânio, nascido em 25 de janeiro de 1917, conjugava a formação clássica de colégio de padre com hábitos e intuição de pequena burguesia numa mistura incomum de magreza, olhar lunático, deselegância e dentes amarelos, cuja linguagem pernóstica e oratória arrebatada subia a extremos de possessão e da cólera. 

Numa ascensão sem igual, em 13 anos da sua carreira galgou os cargos de vereador (1947), deputado estadual (1950), prefeito (1953), governador (1954), deputado federal (1958) e presidente da República (1960), sempre condenando a política e defendendo a reforma política e a justiça social. Mal chegava a terminar os mandatos, antes de eles expirarem licenciava-se, candidatava-se a um cargo superior e era eleito de novo, sucessivamente, até alcançar o posto eleitoral mais alto, a Presidência.

Era mais eficiente com menos espaço. Foi excelente prefeito, bom governador e mau presidente. Era um reformista radical, anticomunista, aliado a socialistas e trabalhistas, que defendia os excluídos enquanto São Paulo crescia com levas de migrantes nordestinos. Intérprete do imaginário popular, ampliou a cidadania para os pobres defendendo as liberdades democráticas, a autonomia sindical e a meritocracia. 

Combatia o clientelismo e a corrupção. Foi precursor da responsabilidade fiscal. Multiplicou por quatro a quilometragem de estradas asfaltadas estaduais. Soube adiantar-se e construir hidrelétricas para oferecer energia e atrair a indústria automobilística que Juscelino Kubitschek queria levar para Minas Gerais. Foi o maquinista da locomotiva de São Paulo que puxou a industrialização brasileira. Seu populismo era "responsável", ao contrário de seu rival histórico, Adhemar de Barros. Era do tipo que acordava de madrugada para inspecionar obras.

"Eis que se inicia o governo honrado, diligente, inflexível, imparcial, áspero e impiedoso", anunciou-se ao assumir a prefeitura da capital. Gênio do marketing, seu ego transbordava quando chegou a Brasília em 1960. Durante o mandato de deputado federal fora ao Congresso só uma vez –para tomar posse– esnobando a chance de estabelecer relações com os políticos que desprezava - um erro que lhe custaria caro.

Jânio foi o pico culminante da cordilheira da vaidade brasileira, aquela formação rochosa de gênios, salvadores da pátria, artistas inquestionáveis e jornalistas prepotentes na qual se destacam os picos talentosos Gilberto Freyre, Assis Chateaubriand, Carlos Lacerda, Darcy Ribeiro, Glauber Rocha, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva. 

Jânio foi o Pico da Neblina. Ao desmoronar, consagrou-se pelo avesso, tornando-se uma caricatura de si mesmo. Para os brasileiros que não esquecem a história a cada vinte anos, sua renúncia à Presidência, em 1961, precipitou uma quase guerra civil descarrilhando a democracia tombada em 1964.

Jânio era sublime e sórdido. Tinha encenações geniais, como tomar injeção na veia em comício para simular esgotamento, ou comer sanduiche de banana para impressionar os pobres. Mas o corifeu da prosódia moralista não prestava contas sobre a sua moralidade. Perseguia as casas de massagem e os maiôs de misses, mas era um mulherengo agressivo. 

Voltou à política, em 1974, apoiando os militares que o cassaram, condenando a anistia. Reconquistou a prefeitura de São Paulo, em 1985, liderando uma coalização conservadora. Sua vida é um desfile de ironias. Foi denunciado como corrupto pela filha, que internou numa clínica psiquiátrica à força. Morreu em 1992 e a conta do seu internamento no Hospital Albert Einstein foi paga pela construtora Andrade Gutierrez. Deixou 66 imóveis para a família.

Nenhum político brasileiro foi tão injuriado, caluniado e difamado. Não é fácil entender uma figura tão complexa. O que diria a psicanálise de uma compulsão pela austeridade cultivada à sombra de um pai infame, o deputado estadual Gabriel Quadros, crítico violento do filho e médico de prostitutas especialista em abortos no Bom Retiro? 

Em 1957 o pai de Jânio foi morto a tiros, em legítima defesa, por um feirante cuja mulher era sua empregada. Gabriel invadira sua casa, acompanhado por capangas, para sequestrar os filhos da mulher, que alegava serem seus filhos naturais. Houve luta e o pai do governador se deu mal.

Quem se escandaliza com a política brasileira deveria conhecer o passado.

* Jornalista e escritor, autor de "Jânio Quadros: o Prometeu de Vila Maria" (Ediouro, 2004).

Uma boa amizade sobrevive a todas as intempéries do tempo. Mesmo nessa época bicuda de pouca tolerância com o jeito diverso de pensar, m...


Uma boa amizade sobrevive a todas as intempéries do tempo. Mesmo nessa época bicuda de pouca tolerância com o jeito diverso de pensar, mantive algumas relações fraternas que sobreviveram os anos 80, 90 e 2.0. 

Na época em que fiz faculdade “todos” – é um modo de dizer – éramos de esquerda. A direita inexistia. Ou melhor: ninguém tinha coragem de se autodenominar como pertencente a esse campo ideológico. 


Um de meus melhores amigos era da chamada “esquerda radical”, vinculado a um micro-grupo patológico-socialista que acreditava piamente que só com armas em punho era possível derrubar a ditadura. 


Como se diz, o homem espumava quando percebia qualquer “desvio pequeno burguês nos companheiros”. 


No final de 1987 ele conheceu uma Austríaca aqui em Campo Grande e mudou-se para os arredores de Viena. 


Passou uns dez anos na Europa e retornou, depois de uma separação mal resolvida. 


Por incrível que possa parecer, manteve o mesmo fervor dos tempos de estudante. Brinquei: "eis meu espião que veio do frio". Ele não entendeu. 


Andou metido com alguns Black blocs na Alemanha, depois trabalhou como assessor de imprensa de um grupo de Punk pesado, até ser um dono de um barzinho esquisito na periferia de Hallein. 


Sempre mantivemos contato por e-mail, mas deixamos de discutir política porque percebemos que as divergências saiam da esfera da civilidade. 


Quando ele voltou para Campo Grande, em 2014, às vezes nos encontrávamos para conversar, tomar cerveja, essas coisas. Claro, a conta sempre sobrava pra mim porque ele dizia que “adorava explorar a direita”. 


Nossas conversas sempre se restringiam aos temas literários. Somos admiradores de autores americanos como Franzen, Faulkner, Melville e de poetas ingleses como Eliot, Auden e Chaucer. 


Ele gosta de romance de mulherzinha, tipo Austen, e eu prefiro autores mais brutos como Bukowski ou Hemingway. 


Certamente, do ponto de vista político, não consigo levá-lo a sério. Esse meu amigo nutre uma adoração fanática por Che Guevara. Tanto que ele só usa camisetas com aquela foto famosa do seu rosto místico e icônico. 


Ele me disse que sua coleção ultrapassava mais de 100 camisetas, compradas em várias partes do mundo. 


Por isso, caracterizei seu esquerdismo dentro de um padrão estrito de galhofa e o apelidei de meu “Che de Camiseta”. 


Ele não tá nem aí com a brincadeira e segue em frente em sua adoração ao homem que ele acredita ser a encarnação viva de Jesus Cristo dos tempos modernos. 


Ele me conta orgulhoso: Toda a vez que assiste a “Diários de Motocicletas”, de Walter Salles,  não resiste e chora quando vê Gael García Bernal na cena em que atravessa um rio a nado, desafiando sua própria natureza. 


Comentei que esse “o truque fílmico era pateticamente emocionante”, mas parece que ele não ouviu.


Li e dei-lhe de presente duas biografias relevantes de Che: a de Jon Lee Anderson e a de  Jorge Castaneda. Ambas as obras revelam o lado negro do argentino que morreu na Bolívia tentando salvar o mundo do capitalismo selvagem. 


Vejam como são as coisas: na parte das obras em que constatei a história de um sujeito maluco e pretensioso, que mandou matar sem dó nem piedade seus inimigos ideológicos, meu amigo enxergou um cara redentorista, que estava livrando a humanidade de canalhas burgueses e de gente estúpida da classe média cubana. 


Dei-me por vencido. Mantenho a amizade porque meu “Che de Camiseta” tem alma pura e tolera minhas ironias. 


Nos últimos tempos, acho que ele anda meio pirado com os acontecimentos do Brasil. Dei meu conselho: troca de camiseta, compre aquelas com a cara de Marilyn Monroe reproduzida pelo Andy Warhol. 


Ele não entendeu a piada.





Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo A situação social e econômica no mundo e no Brasil atingiu um tal nível de incerte...


Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo

A situação social e econômica no mundo e no Brasil atingiu um tal nível de incerteza que qualquer previsão sobre o crescimento do PIB em 2017 é temerária, pois envolve hipóteses implícitas, além das explícitas de eventos internos e externos.

Apesar disso todos precisamos de um "norte" para acomodar o nosso comportamento cotidiano. É impossível viver sem uma perspectiva, seja ela boa ou má. Fazer "previsões" é uma necessidade psicológica. Não é uma aventura mística capaz de trazer para o presente o futuro opaco, sempre aberto às mais surpreendentes possibilidades que, infelizmente, só vemos quando já aconteceram.

Olhado o universo dos "especialistas", que têm de tomar risco por dever profissional, verificamos um espectro muito amplo de "expectativas" para o crescimento do PIB neste ano. O problema é que elas não são independentes (todos se cuidam para "errar juntos" e tornar o seu erro trivial).

Pior, elas não são —a rigor— uma distribuição estocástica da qual se pode extrair os parâmetros de localização (média, mediana, moda) ou de dispersão (desvio-padrão) que façam sentido estatístico. Obviamente, nada impede que o computador as considere como tal e calcule, mecanicamente, tais parâmetros. Ele não tem remorso ou constrangimento.

Tomemos como exemplo, a "previsão" proposta pela sofisticada equipe econômica do Banco Itaú ("Macro Visão", 01/12/2016) e ampliada na magnífica entrevista do seu competente economista-chefe, Mario Mesquita ("Valor", 22/12/2016, A12).

Feita com cuidado e apoiada nas melhores informações (políticas e econômicas), sugere que o PIB, em 2017, teria condições objetivas de crescer 1,5%: 0,6% pela variação da demanda interna e 0,9% pela regularização dos estoques (uma variável frequentemente esquecida).

Se concretizada, Mesquita vê a possibilidade de um crescimento de 4% em 2018. É bom lembrar que o crescimento do PIB médio de 1,5% em 2017 com relação a 2016 é equivalente a uma expansão do PIB, dentro de 2017, da ordem de 2,8% e de 3,8% entre o 4º trimestre de 2017 com relação ao de 2016!

O que se viu até agora com relação a elas foi apenas que são "muito otimistas", mas nenhuma crítica desconstruiu as suas hipóteses.

Revelam, em geral, uma reação psicológica idiossincrática. É evidente que, pela seriedade, pela qualidade e pelo cuidado dessas "previsões", elas têm pouco a ver com a tal "distribuição" das previsões "médias" do "mercado", que andam às voltas de 0,2% para 2017 e 1,5% para 2018, ainda que possam estar nela computadas.

*Ex-ministro da Fazenda (governos Costa e Silva e Médici), é economista e ex-deputado federal. Professor catedrático na Universidade de São Paulo. 

É da natureza humana planejar ações desconsiderando obstáculos que possam surgir no meio do caminho. No caso da prefeitura de Campo Grand...


É da natureza humana planejar ações desconsiderando obstáculos que possam surgir no meio do caminho. No caso da prefeitura de Campo Grande - que atravessou sua fase Aleppo de ser - todo gestor sabe qual linha seguir para atingir metas de curto, médio e longo prazos. 

Em situações emergenciais, o prefeito determina um pré-roteiro administrativo e segue sua intuição sobre as prioridades a serem atendidas. Existe um cipoal de leis e procedimentos para ultrapassar barreiras e fazer a máquina funcionar. 

Diante disso, certamente causa certa irritação quando uma instituição como Ministério Público Estadual decide impor um protagonismo que resulta em travamento do processo de atendimento de demandas sociais. 

Nesse aspecto, o prefeito Marquinhos Trad está certo. 

Sua queixa procede, principalmente porque ele e sua equipe estão atravessando uma fase de adaptação, conhecendo de perto como a prefeitura funciona organicamente.

Ao mesmo, o procurador-geral de Justiça, Paulo Passos, também está correto, quando invoca deveres constitucionais para agir de ofício junto à prefeitura para dirimir questões que tem a ver com lisura procedimentais no manuseio de políticas públicas. 

Se ambos estão agindo com a melhor das intenções - a promoção do bem geral - nada mais lógico que construam um entendimento para superar dificuldades pontuais. 

Sabe-se que as ações do MPE tem a ver com a gestão de Alcides Bernal. Parece que o Ministério Público está chegando atrasado em alguns casos. 

Seria conveniente que tanto a prefeitura e o MPE esclareçam a sociedade sobre as dificuldades e assim encontrem um modus convivendi para ajudar a cidade fluir. 

Não é bom que o prefeito fique manietado por firulas, nem é conveniente que o MPE fique com a suspeita no colo de que age politicamente - a mando não se sabe de quem - para atrapalhar o andamento administrativo da Capital. 

O caminho do meio é possível e ideal. Basta bom senso.

Existem soluções simples e eficazes para combater a dengue fora dos esquemas emergenciais que todos os anos mobilizam os poderes públicos...


Existem soluções simples e eficazes para combater a dengue fora dos esquemas emergenciais que todos os anos mobilizam os poderes públicos e a sociedade para evitar surtos epidêmicos. 

Nesse aspecto, a Crotalária vem ganhando cada vez mais espaço nos jardins de casas e empresas. Isso porque descobriu-se nela uma poderosa arma biológica para o controle da dengue.

A Crotalária atrai a libélula, um inseto predador do mosquito da dengue.

Com o plantio da Crotalária no jardim ou quintal de casa, ou até no jardim da empresa, a libélula, que busca colocar ovos em água parada, assim como o mosquito Aedes Aegypti, vai depositar seus ovos, essas larvas vão se alimentar das larvas do mosquito transmissor da dengue acabando com aquele foco.

Veja mais aqui.

Tenho me divertido com os militontos da rede. Dou-me como exemplo. Basta que eu escreva um artigo, publique um release, um editoral, um ...


Tenho me divertido com os militontos da rede. Dou-me como exemplo. Basta que eu escreva um artigo, publique um release, um editoral, um texto de um colunista qualquer e poste-os na rede que aparecem, quase de imediato, comentários de personagens conhecidos, esgoelando contra tudo e todos. 

Sou informado que atualmente existem grupos políticos organizados que militam única e exclusivamente na rede prestando serviços para partidos, parlamentares, dirigentes de causas esquisitas, que vão da defesa de grilos na Cracóvia até à proibição rigorosa de sexo antes do casamento. 

Existem militontos das mais variadas correntes ideológicas. Certamente, fui marcado por alguns desse grupo pois qualquer coisa que publico lá vem os carinhas de sempre batendo, ofendendo, desqualificando, enfim, xingando a minha mãezinha, sem nem mesmo ler o texto em questão. 

Parece que se tornou um vício ler apenas o título e a chamada. Esse pessoal consegue produzir um efeito manada impressionante. Claro, muitos desses comentários são feitos pela mesma pessoa que, graças à imensa liberalidade da rede, cria vários perfis para espalhar sua meleca remunerada, inventando fatos, destruindo reputações, fazendo piadinhas de mau gosto. 

Nos fins de semana, reservo algum tempo para ler esse festival de besteiras que assola nossos computadores e celulares lembrando-me daqueles filmes em que estamos perdidos no bosque fugindo dos gorilas. 

Cheguei ao ponto de nomear meus detratores por apelidos que eu mesmo inventei: tem o "Che Guevara Ressentido", o "Mussolini de Saias", as "Suaves mãos de Temer", a "Louca de Itararé", o "Corno Absoluto", o "Menino Maluquinho", o "Bufão do Socialismo Utópico", as "Eternas Viúvas de Bernal", o "Amigo do Peito do Eduardo Cunha", a "Renan da Moral Alheia", o "Topete de Dilma", enfim, uma lista imensa que faz de minha vida uma irretratável diversão. 

Esse pessoal age como filhotes de Joseph Goebbels: eles acreditam que repetir uma mentira milhares de vezes conseguirão promover o milagre transformador da verdade absoluta em pão e vinho. 

Acredito no debate democrático. Adoro polêmica. Cultivo o senso crítico como um maná no deserto. Mas rede social e discussões substanciais não são coisas que combinam. Tratam-se dos mesmos elementos que separam entretenimento e cultura, ciência e misticismo, informação e conhecimento. 

Tudo bem, estamos na mesma nave. Mas ninguém precisa puxar a faca na gafieira.

Publicado originalmente no O Estado de São Paulo A decisão do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), a mando de Lula da...



Publicado originalmente no O Estado de São Paulo

A decisão do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), a mando de Lula da Silva, de autorizar sua bancada no Congresso a apoiar a candidatura de Rodrigo Maia (DEM-RJ) à presidência da Câmara e a de Eunício Oliveira (PMDB-CE) à presidência do Senado deflagrou uma grave crise dentro do partido. 

Os petistas que se consideram mais à esquerda, fiéis ao espírito radical que fundou a legenda, dizem não aceitar que o partido se engaje em candidaturas que, segundo sua visão, representam aqueles que se articularam para dar um “golpe” e derrubar a presidente Dilma Rousseff. 

É claro que, assim como aconteceu em outras ocasiões como essa ao longo da trajetória petista, todos os que ousarem questionar as decisões daquele Politburo, que nada mais faz do que dar formato institucional às ordens do chefão Lula, serão devidamente expurgados ou marginalizados. Desta vez, porém, a crise parece mais grave, dadas as circunstâncias muito adversas. 

Será um teste importante para medir o atual alcance da liderança de Lula entre os próprios petistas, que andam pelos cantos a se queixar de que o chefão não aproveita a oportunidade oferecida pelas recentes derrotas do partido para reconduzi-lo às suas “origens” – que podem ser resumidas em uma frase do manifesto de fundação do PT, na qual o partido diz que “pretende ser uma real expressão política de todos os explorados pelo sistema capitalista”.

A principal reclamação dos dissidentes petistas diz respeito à flagrante contradição de um partido que, enquanto denuncia o “golpe” contra Dilma Rousseff, aproxima-se dos partidos que apoiam um governo cuja legitimidade questiona. “O PT não deve apoiar golpistas no Congresso Nacional”, disse Bruno Elias, secretário nacional de movimentos populares do PT, que defendeu candidatura própria ou apoio a um nome da oposição. Para ele, “a militância petista e o campo democrático e popular devem se mobilizar contra essa posição”.

A manifestação mais contundente partiu do senador Lindbergh Farias (RJ), expoente da defesa de Dilma Rousseff no processo de impeachment. “É um escândalo, um erro brutal, uma decisão descolada da realidade, sem consonância com a militância do partido e da esquerda em geral”, disse Lindbergh. 

Nos tempos em que estavam acocorados nos píncaros da glória, os petistas pouco se queixaram publicamente quando o PT se associou ao que havia de pior na política nacional – com o objetivo de reduzir o Congresso a uma mercearia e destruir os fundamentos da democracia representativa – para permanecer para sempre no poder. Naquela época, Lula da Silva era considerado por essa turma um gênio da tática política.

Hoje, depois do impeachment e da surra eleitoral de 2016, a Lula e seus estrategistas restou fazer o que sabem melhor, isto é, a baixa política. Aceitaram negociar com os “golpistas” para obter espaço na direção da Câmara e do Senado e, assim, manter uma migalha de poder no Congresso antes das eleições de 2018, além de abrir ao partido preciosas vagas para acomodar os correligionários hoje desempregados.

Aos petistas magoados, Gilberto Carvalho, espécie de porta-voz informal de Lula, disse que o PT está numa “encruzilhada”. Segundo ele, seria uma “posição mais tranquila” declarar “que não votaremos em golpistas”, mas a decisão do partido sobre a eleição na Câmara e no Senado “é apenas uma batalha dentro de uma guerra ampla que estamos travando contra os verdadeiros autores do golpe, o capital financeiro internacional, nacional e seus lacaios e representantes”. 

Nesse conflito épico, os cargos nas Mesas Diretoras do Congresso darão ao PT, segundo Carvalho, “mais condições de impedir e dificultar a marcha golpista”.

Não surpreende que alguns petistas tenham se considerado insultados em sua inteligência por esse tipo de raciocínio. O que surpreende é que eles tenham levado tanto tempo para perceber que o partido, formado oficialmente para representar os trabalhadores, só existe mesmo para atender aos interesses de Lula da Silva.

Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo: Os meus escritores vivos preferidos? Cito três de memória: Peter Constable, María ...


Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo:

Os meus escritores vivos preferidos? Cito três de memória: Peter Constable, María Ligia Perez e o brasileiro João Mario Aquino. O leitor nunca ouviu falar?

Curioso. Nem eu. Para dizer a verdade, inventei os nomes ao correr da pena só para ilustrar uma hipótese: e se os melhores escritores do nosso tempo não forem aqueles que o nosso tempo considera os melhores escritores?

Eis a tese que Chuck Klosterman defende no último livro ("But What If We're Wrong?", "e se estivermos errados?"). Duas coisas importantes: Chuck Klosterman existe mesmo e, infelizmente, não é lido com a atenção que merece.

O livro é uma permanente investigação às nossas noções de certeza. Sim, cientificamente falando, tudo é uma "busca sem fim", como diria o filósofo. O mundo de Ptolomeu parece-nos tão risível como as nossas certezas científicas serão um dia.

Mas Klosterman aplica o raciocínio à "indústria cultural" (peço desculpa pela expressão brega) e, em particular, ao supremo mundo da vaidade literária.

Escrevem-se milhares, milhões de livros por ano. A crítica escolhe uns poucos -por razões justas ou injustas, tanto faz. De fora, fica uma legião de anônimos que publicam na sombra, vivem na sombra e morrem na sombra. Sem falar dos autores "populares", consumidos pelas massas mas ignorados pelas "elites".

Pois bem: esses poucos -os eleitos, digamos- acreditam que a consagração "oficial" será uma consagração eterna. Esse raciocínio ignora um pormenor fulcral: o que é importante aos olhos letrados do nosso tempo não será necessariamente importante em tempos posteriores.

Chuck Klosterman defende, e defende bem, que a leitura é também uma forma de criação. A relevância e até a imortalidade de um escritor depende sempre do mundo futuro: das suas referências ideológicas, estéticas ou morais.

O americano Herman Melville é um caso instrutivo: quando publicou "Moby Dick", em 1851, a crítica afastou-se do autor com repugnância (e os leitores fizeram o mesmo). O "flop" acabaria por determinar a triste existência que Melville teve na fase final da vida.

Passaram décadas. E foi preciso a emergência de uma nova sensibilidade modernista, depois da Primeira Guerra Mundial, para que Melville fosse resgatado do silêncio -e o seu "Moby Dick" eleito como o romance americano por definição.

E que dizer de Franz Kafka? Verdade: o escritor era menos obscuro do que pensamos. Lido e até escutado pelos seus colegas literatos, as histórias de Kafka eram recebidas em lágrimas (de riso) pelo absurdo dos seus enredos.

Foi preciso a destruição material e moral da Europa para que as histórias de Kafka passassem a ser prenúncios de um mundo sombrio, burocrático, totalitário, onde a liberdade individual é esmagada.

Para Chuck Klosterman, é possível conjecturar que o grande escritor do nosso tempo é ainda um nome desconhecido, ou então (mal) conhecido e (mal) apreciado.

Concordo -até certo ponto. Porque é importante lembrar que casos como os de Melville ou Kafka podem ser derrotados por outros nomes consagrados na sua época -e na nossa. Tolstói ou Dickens são candidatos óbvios.

Existe um ponto, porém, em que concordo com ele sem reservas: se o passado ensina alguma coisa é que a universalidade de um escritor depende do equilíbrio sutil entre uma visão talentosa do seu tempo e a relevância dessa visão para tempos posteriores.

Ou, inversamente, um escritor que ignora a realidade circundante, preferindo uma prosa artificialmente "intemporal", dificilmente será intemporal. Lemos Tolstói ou Dickens para conhecermos mundos distintos -a Rússia e a Inglaterra do século 19-, mas também porque Pierre Bezukhov ou Mr. Scrooge continuam a representar a nossa busca de sentido para a vida e o papel da consciência na nossa conduta.

Klosterman arrisca mesmo uma lista de temas incontornáveis para um escritor atual -a nossa definição, ou indefinição, de privacidade; a relutância em abandonar a adolescência para evitar a vida adulta; o impacto da tecnologia nas relações sociais; etc. -desde que nada disso seja trabalhado de forma óbvia.

Não vou tão longe e dispenso essas listas. Prefiro concluir que os aplausos da crítica ou das massas podem fazer bem ao ego -ou à bolsa. Mas quem escreve para as massas ou para a crítica arrisca-se a perder a eternidade.

Editorial do El País: A Europa está em alerta com a proliferação de falsas notícias nas redes sociais. O Parlamento britânico criou ...




Editorial do El País:

A Europa está em alerta com a proliferação de falsas notícias nas redes sociais. O Parlamento britânico criou uma comissão para investigar como detectar e impedir a publicação de informações maliciosas na Internet e a Alemanha lançou uma ofensiva contra a propagação de boatos com aparência de veracidade. 

Uma pequena amostra para verificar o alcance desta nova praga: no Ano Novo uma multidão de estrangeiros atacou a polícia com foguetes na cidade de Dortmund e queimou uma igreja. A história foi publicada no portal de ultra direita norte-americano Breitbart News e percorreu as redes sociais a toda a velocidade. Era falsa.

A Alemanha teme que a campanha da eleição presidencial que acontecerá este ano seja seriamente prejudicada por ataques cibernéticos, notícias inventadas e desinformação, como aconteceu nos Estados Unidos. 

Em períodos eleitorais é especialmente importante preservar a limpeza do debate público e evitar que o espaço democrático seja contaminado por falsos artigos criados para influenciar as eleições. 

A Alemanha começou a agir com determinação. O primeiro passo é o acordo entre a rede social Facebook e o centro de pesquisa jornalística Correctiv para evitar a propagação de informações manipuladas para perturbar um processo eleitoral.

Separar a informação confiável da propaganda nociva é sempre necessário. Durante as campanhas também é uma prioridade. As autoridades devem garantir que os enganos –venham de partidos populistas ou de um Estado – não interfiram no debate público. 

Mas Angela Merkel não pode agir sozinha. É preciso um compromisso da UE para combater a crescente onda de notícias falsas, e é necessário que as grandes empresas de tecnologia, de Google a Twitter, colaborem para cortar o oxigênio das mentiras.

Editorial publicado na edição desta segunda-feira do jornal Estado de São Paulo: Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva dá tratos à bola p...



Editorial publicado na edição desta segunda-feira do jornal Estado de São Paulo:

Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva dá tratos à bola para se livrar da cadeia, os intelectuais petistas preparam propostas para “resgatar” a imagem do PT, a serem apresentadas ao 6.º Congresso Nacional do partido, marcado para abril. 

Nesse contexto, duas questões se destacam: a que é objeto dos textos Balanço de Governo Estrutura e Funcionamento, voltados para uma avaliação crítica da atuação do PT desde a primeira eleição de Lula à Presidência da República, e Luta Contra a Corrupção, dedicado à análise dos desvios éticos dos petistas desde que chegaram ao poder. 

Trata-se, de um lado, de elucubrações requentadas sobre o papel da esquerda na política brasileira. De outra parte, a que cuida de corrupção, todo o conteúdo também é puramente ficcional.

Para entender melhor a enrascada em que o PT está metido desde que o povo brasileiro descobriu quem são de verdade Lula e sua turma, convém rememorar os primórdios da fundação daquele que se propunha a ser “o” partido dos trabalhadores. 

Empenhados no combate à ditadura militar, intelectuais de esquerda, aliados a setores ditos “progressistas” da Igreja Católica, chegaram à conclusão, em meados dos anos 70, de que precisavam de alguém que personificasse a luta pela democratização do País e que este papel era perfeito para um jovem e aguerrido líder sindical que então se destacava no comando da elite do movimento operário: Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

Naquela época Lula não queria nem ouvir falar de política e políticos, pelos quais nutria indisfarçável desprezo, comparável apenas ao que dedicava a intelectuais e acadêmicos. 

Mas logo descobriu que a liderança de um partido político “de operários” lhe cairia bem, até porque estava certo – como demonstrou acima de qualquer dúvida – de que não teria nenhuma dificuldade para enquadrar devidamente os “professores” que imaginavam poder manipulá-lo.

Durante mais de 20 anos, o PT lutou contra tudo e contra todos, inclusive contra a Constituição de 1988, o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e, principalmente, contra a economia de mercado. 

Até que Lula se deu conta de que estava tudo errado, mas com o próprio PT. E que, para ganhar uma eleição presidencial – a terceira que disputaria, em 2002 –, era preciso fazer aquilo que hoje, no documento Estrutura e Funcionamento, a esquerda petista critica: “deslocou-se para o centro” e “deixou vago o espaço político de esquerda”. 

O instrumento dessa guinada foi a famosa Carta ao Povo Brasileiro, por meio da qual – denuncia agora o documento Balanço de Governo – Lula propôs “um pacto de não agressão em relação aos capitalistas” e, em vez da “ruptura” até então defendida pelo PT, optou por promover programas sociais “sem confrontar o capital”.

Fica claro, assim, que a esquerda do PT continua mais bolivariana do que nunca e defende para o Brasil a mesma “ruptura” com a economia de mercado que colocou Cuba e Venezuela onde estão hoje. 

Para esses salvadores da Pátria nostálgicos dos anos 50 do século passado, o Brasil precisa de um regime “democrático” totalmente controlado pelo Estado, com “proibição de bancos privados, limites regionais para propriedades rurais”, além, é claro, de um bom controle da mídia por meio da criação de um “Fundo de Defesa da Liberdade de Imprensa e do horário sindical gratuito na TV”.

Essa é uma pregação até capaz de ainda animar corações e mentes de jovens sonhadores, generosos e mal informados. 

E assim esse ideário poderá voltar ao programa partidário. O mais difícil, na verdade, impossível, é o PT chegar a um acordo sobre o tema “Combate à Corrupção”. A ideia é criar um “tribunal de honra” no qual personalidades do partido sejam julgadas internamente por eventuais transgressões éticas e legais. Dá para imaginar Lula sentado no banco dos réus desse tribunal?

O notório Marco Aurélio Garcia, um dos donos do partido que cultivam irrepreensível fidelidade ao Grande Chefe, deu o recado: “O 6.° Congresso do PT não é um tribunal nem será ocasião para um ajuste de contas mesquinhas entre tendências”. Perfeitamente claro.

Todos sabem : a educação brasileira é uma porcaria. Os resultados dessa realidade não estão apenas nos índices de qualidade divulgados to...


Todos sabem: a educação brasileira é uma porcaria. Os resultados dessa realidade não estão apenas nos índices de qualidade divulgados todos os anos. Isso é apenas consequência de décadas de descaso, falta de recursos, desvalorização e falta de planejamento. 

Mesmo assim, há um exército de abnegados lutando para mudar isso: insistem no debate de que a saída pela educação é a única possível para reverter nosso secular processo de atraso e regressão cultural. Mas o esforço tem sido em vão. Olhando os números parece que a coisa não anda. 


No meio de tanta gente bem intencionada, parece prevalecer no setor grupos demagógicos que transformaram o tema num negócio lucrativo e politicamente vantajoso. Existem aqueles que só defendem a educação da boca pra fora: é um jeito de fazer pose de "gente do bem". Ou seja: produz muita fumaça mas pouquíssima energia. 


Enquanto a palavra EDUCAÇÃO não significar compromisso com a verdade, continuaremos a assistir a toda eleição promessas que visam apenas ganhar as cabeças das corporações, deixando a sociedade assistir inerte seus filhos transformando-se em analfabetos funcionais, não conseguindo fazer diferença entre informação e conhecimento. Esse é o drama essencial.


Vejam essa reportagem publicada hoje na Folha de S. Paulo. "Quase a metade dos professores do ensino médio do país dá aulas de disciplinas para as quais não tem formação específica. O problema atinge redes públicas e escolas privadas e é mais grave em algumas matérias, como física.", afirma a FSP. 


No fim da leitura, sobra desesperança. Não há saída de médio prazo. Olhando as perspectivas para os próximo 50 anos, certamente teremos um País muito pior. Isso não é pessimismo. É apenas senso de realidade. Os governantes tem a chance de agir desde já. Mas não há projeto e muita conversa fiada. 





Tempos atrás, disseminou-se que os serviços de recapeamento de Campo Grande foram barateados no momento em que a prefeitura contratou o e...


Tempos atrás, disseminou-se que os serviços de recapeamento de Campo Grande foram barateados no momento em que a prefeitura contratou o exército para executar obras de pavimentação.

Desde a semana passada, técnicos da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep) começaram a revisão de alguns itens do orçamento entre prefeitura e exército para o recapeamento do corredor de transporte coletivo sudoeste . 

Conclusão: a obra executada pelos militares sairia 8,75% mais cara do que se fosse feita por uma empresa privada.  Ao calcular economia de R$ 4,5 milhões, a gestão anterior não levou em conta tudo o que envolve a montagem do canteiro de obras.

A prefeitura tem o objetivo de reduzir em até 10% os chamados custos indiretos para que haja a equiparação dessas despesas (basicamente o de instalação dos canteiros de obras e depreciação de equipamentos) com os de uma empresa privada. 

A revisão destes valores também é defendida pelos engenheiros da Caixa Econômica Federal, que discordaram de alguns itens que acabariam encarecendo o custo final da obra. 

Pela planilha do Exército, o valor final da obra sairia por R$ 24 milhões, sendo R$ 4,5 milhões com estes custos e R$ 19,5 milhões com o recapeamento propriamente dito.

Constatou custos indiretos de R$ 2,4 milhões. O secretário Rudi Fiorese explica que esta diferença existe porque o Exército tem trazer maquinários, equipamentos e até os profissionais de outras unidades da Federação. Isso acaba encarecendo o valor final das obras.

Com adoção deste formato de convênio para execução do recapeamento do corredor sudoeste, a prefeitura terá de antecipar os recursos para o Exército e depois ser ressarcida com o dinheiro de um financiamento de R$ 110 milhões, contratados  em 2013 junto à Caixa,  como parte do Projeto de Mobilidade Urbana. 

Este procedimento é diferente do aplicado quando a obra é executada por uma empresa privada.

No modelo privado, a empreiteira custeia a obra e faz medição. A Caixa Econômica avalia o serviço e libera o pagamento.

A gestão do prefeito Bernal vendeu uma falsa ideia à população de que os trabalhos do exército feriam mais eficientes e baratos para a cidade nessa área. Na ponta do lápis isso não acontece. 

A questão verdadeira era de que havia impedimento legal para algumas empresas privadas realizarem o trabalho em função de problemas judiciais, surgidos no âmbito da Operação Coffe Break.

Já que o assunto é esse:  "CONTROLE DE VOO: TODO CENTRO ESPÍRITA DEVERIA TER UMA TORRE."



Já que o assunto é esse: 


"CONTROLE DE VOO: TODO CENTRO ESPÍRITA DEVERIA TER UMA TORRE."

Ao me deparar com inúmeras postagens sobre a canonização póstuma do ministro Zavascki, confesso que fiquei surpresa. Parece que os bras...


Ao me deparar com inúmeras postagens sobre a canonização póstuma do ministro Zavascki, confesso que fiquei surpresa.

Parece que os brasileiros sofrem de “memória curta na forma aguda”.

Logicamente que sua prematura morte foi uma perda para seus filhos, família, amigos e companheiros do STF e de ideologia. Óbvio que me condoo com a dor alheia, mas sei exatamente diferenciar a perda humana da perda institucional.

Teori Zavascki na minha humilde opinião, não passará para a história como um herói brasileiro ou como aquele que tentou moralizar a República através de seu ofício. Zavascki era um homem alinhado com a esquerda e seus ideais. Foi um ministro que não poupou esforços para dar uma interpretação forçosamente benevolente quando os réus partilhavam da sua mesma orientação político-ideológica.

Lembram dos famosos “Embargos Infringentes“ na ação penal do Mensalão?

Lá estava ele, firme e forte na interpretação pró-quadrilha petista.

Lembram da ação para garantir a quase impunidade para José Dirceu e Delúbio Soares?

Lá estava ele a postos para entender o comportamento destes criminosos e apressar suas saídas do xilindró.

Lembram do caso do áudio escandaloso envolvendo o ex-presidente Lula e sua “criatura” Dilma Rousseff?

Ele foi uma voz destoante para censurar a conduta irrepreensível do juiz Moro e sua atuação profissional, a fim de proteger a dupla das garras da justiça.

Lembram do processo, em que poderia ter culminado com a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva?

Ele fez questão de abortar esta possibilidade e garantir que o acusado respondesse pelos crimes em completa liberdade, apesar das inúmeras e graves acusações existentes e que autorizariam uma eventual prisão preventiva.

Ele acertou também! Proferiu votos significativos e relevantes, mas muito longe de ser um expoente impar da nossa magistratura. De uma forma geral, ele, Teori, foi um juiz que abraçou a causa petista e em razão dela foi escolhido para atuar. Fez questão de ser discreto, mas não o suficiente para esconder suas tendências ideológicas, que muitas vezes se viram refletidas em suas decisões.

Portanto, muita hipocrisia e amnésia neste momento tentar fazer dele um herói da República, um magistrado perfeito e que apenas atendia aos interesses do país e da justiça, quando na verdade tinha nítidas preferências partidárias e se deixou influenciar por elas.

Respeito a dor de seus entes queridos, mas não compactuo com a comoção histérica da morte de um herói inexistente. Tribunais não são locais indicados para a política.”

Advogada.
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