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Dante Filho Tudo indica que a pandemia da covid-19 está em sua fase final. Mesmo assim, somos advertidos diariamente de que não podemos rel...

A Era da inadaptabilidade




Dante Filho


Tudo indica que a pandemia da covid-19 está em sua fase final. Mesmo assim, somos advertidos diariamente de que não podemos relaxar nas medidas preventivas. Estamos lidando com o desconhecido, sem saber qual o real efeito da vacinação em períodos estendidos. Os infectologistas alertam: enquanto as pesquisas não se tornarem conclusivas, descartando a hipótese de que vírus está apenas rearmando sua estratégia para fazer novos ataques.

Mesmo constatando redução vertiginosa de contágios e mortes, os números de óbitos ainda são trágicos. Algo na proporção da queda de 2 aviões lotados todos os dias. Se o quadro persistir não há como imaginar quando estaremos salvos ou longe do perigo. 

Até atingirmos a escala zero, há que se manter atento, mesmo que isso signifique circular mais livremente, voltando, talvez, a ter uma “vida normal”. 

A modernidade se caracteriza pelos fluxos rápidos de informação e mudanças. Vivemos um processo cultural que faz do consumismo e do individualismo o locus supremo das transformações da tecnologia e do mercado econômico. Quase toda população planetária fez um pacto tácito com esse sistema, e é sob seu comando que vivemos o chamado império do normal.

A pandemia alterou repentinamente essa lógica e interrompeu um movimento histórico que se iniciou no Iluminismo, criando utopias, gerando guerras, embora impondo uma mentalidade positivista de celebração do progresso que perdura até os dias atuais.

A pandemia, contudo, traçou uma linha rígida na nossa cartografia mental e, em pouco tempo, interrompeu os fluxos dos mais enraizados conceitos e nos jogou num vertiginoso furacão distópico.

O retorno ao mundo da normalidade, como se diz, não está acontecendo como prevíamos. A ideia seria de que, em algum momento, as autoridades sanitárias comunicassem que a peste havia sido domada, que estávamos a salvos e que podíamos voltar à vida (seja lá o que isso signifique), derrotando a pandemia. 

Mas isso não está acontecendo no prazo que esperávamos. Há medo, cautela, desconfianças, cuidados, ausências e perspectivas nebulosas. 

Em 2008, o filósofo José Arthur Giannotti publicou um grande ensaio (“Perda do Mundo”, Novos Estudos da Cebrap) alertando sobre as distopias modernas, dissecando o momento em que as sociedades humanas deu um giro, em meados do Século XIX, criando os novos paradigmas das ciências, das letras e dos costumes até atingirmos os padrões civilizatórios de ultra tecnologia que conhecemos hoje. 

“O Ocidente começou quando aprendemos a dominar o discurso friccionando significações contra significações de tal modo que o pensamento ganhasse precisão e universalidade capazes de capturar o princípio das coisas”, afirmou Giannotti, combinando as leituras de Wittgenstein, Hurssel, Hegel, Marx, Weber, Debord, Fichet, Deleuze etc, num jogo reflexivo altamente complexo para demonstrar sua tese de que “vivemos num mundo globalizado, em que os acontecimentos podem ser apresentados em tempo real, mas não logram se armar numa imagem de mundo que nos conduz a ele como nossa morada”. 

A ideia aqui é a de destacar o permanente estranhamento (ou “incomôdo”, um conceito explorado por Freud, que muito estão chamando de o “estranho familiar”) de não estarmos presente em lugar algum, embora estejamos em todos os lugares, visto que podemos “viajar” para qualquer parte simplesmente apertando os botões mágicos de nosso computador ou freqüentando uma sala de cinema etc.

A vida tornou-se uma busca incessante de satisfação de desejos que, assim que são satisfeitos, abre-se a janela para novas demandas, ajustando-se no prazer aquisitivo de mercadorias, status, sensações provisórias de poder, enfim, economia narcísica que percorre um círculo vicioso rumo ao infinito.

A sensação é de que , neste aspecto, no plano essencial do ser, sentimos de que estamos sempre “sempre juntos, mas quase sempre sozinhos”. 

Ou seja: a realidade alternou-se para longe dos paradigmas do concreto e ganhou os espaços das abstrações extremas. Chegará o momento em que não haverá diferenças entre o virtual e o real e aí teremos que lidar de modo diverso com o nosso consciente e inconsciente. Como será?

Claro que o texto de Giannnotti desenha um momento antes da pandemia. Embora saibamos que há várias décadas havia alertas sobre quadros pandêmicos, mas não havia a situação concreta. Sabíamos que a dinâmica do capitalismo é devoradora, gerando inúmeros problemas que não controlamos, pois sua lógica é a de produção de crises permanentes.

Suas reflexões sobre a teoria da mais-valia de Marx aqui ganham impulso renovado porque reavaliam o tempo histórico, dando-nos a saber que a crise do capitalismo definitivamente não nos levará a nenhuma revolução emancipadora, ao contrário, ela cria e fortalece um vórtice que reafirma a lógica acumulativa, mantendo ao mesmo tempo uma ilusão de mudanças constantes. Paradoxalmente, a pandemia para muitos não significa tragédia, mas sim oportunidades para as indústrias farmacêuticas. 

“Assim como os capitais financeiros não se integram num capital social total, igualmente os setores operários não integram num trabalhador total”, pois “não está no nosso horizonte atual criar um sistema econômico efetivo dispensando os mecanismos de mercado, com suas invenções e suas crises”. Parece que é esse o quadro que estamos vivendo.

No fundo, não há esperança no capitalismo: os ricos ficarão mais ricos e os pobres, na famosa forma piramidal, viverão sempre na pobreza profunda ou relativa, crescentemente habitando as classes médias, em suas variadas escalas de renda. 

As fortunas triplicadas no período pandêmico corroboram a correção dessa ideia de acumulação fantástica do capital financeiro por menos de 1% da população, que, conforme os dados gerais, abocanha mais de 40% de todas as riquezas produzidas. 

O que o filosofo demonstra é que o capitalismo é um sistema até certo ponto previsível e que se nutre de uma dose formidável de imprevisibilidade para sobreviver. 

O capitalismo se renova e o dinheiro é um valor que penetra todas as escalas de valores culturais, criando uma prisão que tem o dom de iludir, pois sem ele não com há como alcançar a “liberdade”.

 É provável que muitos afirmem que a pandemia alterou muito as relações humanas no que toca ao trabalho e ao capital, e que, provavelmente, aquilo que parcela imensa da humanidade viveu nos últimos 20 meses determinará os rumos da cultura nos próximos séculos.

O confinamento (que atingiu mais de 43% da força de trabalho na média mundial) e o sistema de home office determinaram diferentes modelos de relação interpessoal ao qual não estávamos acostumados, forçando um despojamento e desapego que desde a geração baby boomers não era experimentada. 

Os millenials em crise de nervos e agora a síndrome de Bournot são, digamos, os novos ratinhos de laboratórios comportamentais para descobrir o que a experiência da pandemia deixou como legado nos nossos hábitos e gostos, enfim, na nossa modelagem social.

Em muitos países (não há ainda pesquisas no Brasil) parcela significativa de trabalhadores decidiram mudar de vida, ganhar menos, dedicar mais tempo à família, abdicando de altos níveis de consumo, vivendo mais modestamente, porque repensaram conceitos e modos de viver durante o regime pandêmico, o que, de certa forma, está gerando escassez de mão de obra de baixa e média qualificação, afetando principalmente o setor de serviços.

Claro, isso pode ser uma fase. Pode ser também que tudo volte a ser como era antes, mas será que esqueceremos essa fase histórica? Será que o modelo de vida anterior não seria uma corrida maluca para lugar algum? Será que não é o momento de parar e pensar?

 Um fato, porém, é incontestável. No começo do ano, as previsões mais otimistas davam conta de que à medida que a vacinação ganhasse empuxo a economia ganharia em dinamismo e uma onda de prosperidade voltaria a ter força, deixando pra trás tempos amargos. 

No entanto, não foi isso que aconteceu. O mercado mundial nos últimos tempos mostrou que não está conseguindo se readaptar ao novo momento. 

Tem-se a impressão que uma máquina que estava funcionando a todo o vapor e que, por um momento, teve que reduzir gradualmente a marcha e, agora, passada a primeira fase da crise, encontra dificuldades em pegar no tranco, gerando uma imensa inadaptabilidade em ajustar o sistema.

A jornalista da revista Veja Vilma Gryzinski, em sua coluna, escreveu dias atrás que todo “o sistema global está estremecido”. Ela observa que “a Covid-19 assustou mesmo os governos liberais, ao fazê-los descobrir que os suprimentos médicos, de máscaras a substâncias para a fabricação de vacinas, dependiam totalmente da China. E o pós-covid está provocando a constatação: não adianta ter tudo mais barato, de brinquedos a autopeças, se as mercadorias trazidas do outro lado do mundo ficam empilhadas nos portos, sem caminhoneiros suficientes sem esvaziar os contêineres”. No fim, Gryzinski conclui: “pode ser que o mundo encolhido pela globalização esteja ficando menos pequeno de novo”.

Se o mundo está diferente, essas mudanças vieram na esteira de um processo inflacionário (que as novas gerações desconhecem), da perda de valor das moedas, dos aumentos de emissões dos bancos centrais, queda na produção de alimentos, problemas energéticos, aumento das incertezas ambientais, insegurança mental, fragilidade relacional, questionamento de valores democráticos, ou seja, o fortalecimento e domínio da ideia de não-lugar e de que o provisório é aquilo que o linguajar opaco tem chamado de “novo normal”.  

Deparamos agora com um mundo piorado. Parcela da inteligência que se articula na imprensa tem tentado codificar e encontrar a chave desse sentimento difuso que estamos vivendo. Outro dia, a atriz e escritora Fernanda Torres escreveu um artigo significativo na Folha de S. Paulo (“Os Salões”, ilustrada, 11 de novembro), tentando palmilhar alguns caminhos das ambigüidades emocionais que começamos a experimentar. 

Ela tenta no texto capturar sentimentos confusos, algo estranho no ar, sensações de insegurança e, no fim, problemas de readaptação, com o olhar desconfiado ou temeroso de se encontrar com conhecidos, abraçar, beijar, dar vazão aos gestos largos, como se diz.

A falta de traquejo social será cada vez mais percebida: como engatar uma conversa frente a frente? Como enfrentar um restaurante sentado no meio de amigos e da algazarra? Como será freqüentar teatros, museus, cinemas e shows de grandes estrelas? 

Será que fluidos e perdigotos poderão nos infectar? Será que perceberão que estou diferente? Mais gordo? Mais retraído? Menos descontraído? Mais expansivo, falando alto? Será que notarão minha ansiedade e excitação estranhamente ridícula? Devemos falar da vida? Discutir política? O que fizemos nos últimos 20 meses? Os filmes que vi e não quis ver? Guinei para a direita ou afundei o pé na esquerda? Como serei visto e julgado?

Quais vestimentas adequadas? (Tem uma música do Arnaldo Antunes que fala isso).Teremos muitos assuntos acumulados e vamos querer despejar tudo de uma só vez? Seremos irritantes? Seremos mais ou menos intolerantes? Terei mais raiva? Este novo “eu” será julgado da mesma maneira que julgarei o outro? Impressões, impressões...Não será fácil se adaptar.

A volta ao trabalho presencial, à rotina do expediente, do ambiente familiar alterado, o uso das roupas mais formais e apertadas, abandonando as camisetas velhas e os pijamas surrados, ou até mesmo, como tem indicado certa moda, o total abandono às formalidades, pois uma coisa que a epidemia mostrou é que nada é mais importante que sobreviver, sem essa de ostentação, exibicionismo, visto que a tendência poderá ser mais desapego às coisas materiais, até porque o guarda-roupa está cheio e o tempo da pandemia mostrou na prática não precisamos de tanta coisa pra viver.

Assim chegamos a um tempo em que sentiremos cada vez mais essa inadaptabilidade psíquica com os novos tempos, com aquela sensação de que estamos no mundo sem conseguir encontrar nossa morada. É provável que as viagens não sejam mais as mesmas, as férias não serão como as do passado, os encontros familiares serão ainda mais cautelosos, os locais de convívio talvez exalem outras sensações, as pessoas estejam estranhamente mudadas, porque, afinal, a rapidez e o dinamismo da modernidade não suportam passar quase dois anos de alteridade de hábitos e costumes sem traumatizar o manejo das personas no palco social. 

Estaremos, a partir de agora, prenhes de perguntas e procurando desesperadamente por respostas. Acredito que podemos chamar isso de a Era da Inadaptabilidade, pois há sinais apontando de que não tão cedo vamos poder relaxar, haverá sempre uma tensão no ar, uma espécie de artificialismo dando combate à espontaneidade, uma desconfiança permanente pelo fato de que a peste estará sempre à espreita e a incerteza será uma regra permanente a apontar que nenhuma resposta será suficiente tranqüilizadora para se viver a vida como era antes. 




  Dante Filho*** Como será a vida depois da pandemia. Uma leitura sobre o que pode vir pela frente. Tudo indica que a pandemia da covid-19 ...

A Era da inadaptabilidade

 


Dante Filho***

Como será a vida depois da pandemia. Uma leitura sobre o que pode vir pela frente.


Tudo indica que a pandemia da covid-19 está em sua fase final. Mesmo assim, somos advertidos diariamente de que não podemos relaxar nas medidas preventivas. Estamos lidando com o desconhecido, sem saber qual o real efeito da vacinação em períodos estendidos. Os infectologistas alertam: enquanto as pesquisas não se tornarem conclusivas, descartando a hipótese de que vírus está apenas rearmando sua estratégia para fazer novos ataques, fiquemos atentos..


Mesmo constatando redução vertiginosa de contágios e mortes, os números de óbitos ainda são trágicos. Algo na proporção da queda de 2 aviões lotados todos os dias. Se o quadro persistir, não há como imaginar quando estaremos salvos ou longe do perigo. Até atingirmos a escala zero, há que se manter vigilante, mesmo que isso signifique circular mais livremente, voltando, talvez, a ter uma “vida normal”. 

A modernidade se caracteriza pelos fluxos rápidos de informação e mudanças, sob a égide de uma cultura que faz do consumismo e do individualismo o locus supremo das transformações da tecnologia e do mercado econômico. Quase toda população planetária fez um pacto com esse sistema, e é sob seu comando que vivemos o chamado império do normal.

A pandemia alterou repentinamente essa lógica e interrompeu um movimento histórico que se iniciou no Iluminismo, criando utopias, gerando guerras, embora impondo uma mentalidade positivista de celebração do progresso que perdura até os dias atuais.

A pandemia, contudo, traçou uma linha rígida na nossa cartografia mental e, em pouco tempo, interrompeu os fluxos das mais enraizados conceitos e nos jogou num vertiginoso furacão distópico.

O retorno ao mundo da normalidade, como se diz, não está acontecendo como prevíamos. A ideia seria de que, em algum momento, as autoridades sanitárias comunicassem que a peste havia sido domada, que estávamos a salvos e que podíamos voltar à vida (seja lá o que isso signifique), derrotando a pandemia. 

Mas isso não está acontecendo no prazo que esperávamos. Há medo, cautela, desconfianças, cuidados, ausências e perspectivas nebulosas. 

Em 2008, o filósofo José Arthur Giannotti publicou um grande ensaio (“Perda do Mundo”, Novos Estudos da Cebrap) dissecando o momento em que as sociedades humanas deram um giro, em meados do Século XIX, criando os novos paradigmas das ciências, das letras e Dops costumes até atingirmos os padrões civilizatórios de ultra tecnologia que conhecemos hoje. 

“O Ocidente começou quando aprendemos a dominar o discurso friccionando significações contra significações de tal modo que o pensamento ganhasse precisão e universalidade capazes de capturar o princípio das coisas”, afirmou Giannotti, combinando as leituras de Wittgenstein, Hurssel, Hegel, Marx, Weber, Debord, Fichet, Deleuze etc, num jogo reflexivo altamente complexo para demonstrar sua tese de que “vivemos num mundo globalizado, em que os acontecimentos podem ser apresentados em tempo real, mas não logram se armar numa imagem de mundo que nos conduz a ele como nossa morada”. 

A ideia aqui é a de destacar o permanente estranhamento (ou “incomôdo”, um conceito explorado por Freud) de não estarmos presente em lugar algum, embora estejamos em todos os lugares, visto que podemos “viajar” para qualquer parte simplesmente apertando os botões mágicos de nosso computador ou frequentando uma sala de cinema etc.

A vida tornou-se uma busca incessante de satisfação de desejos que, assim que se esgota, abre-se outra janela para novas demandas, ajustando-se no prazer aquisitivo de mercadorias, status, sensações provisórias de poder, enfim, compondo uma economia narcísica que percorre um círculo vicioso rumo ao infinito.

A sensação é, neste aspecto, no plano essencial do ser, de que estamos “sempre juntos, mas quase sempre sozinhos”. Ou seja: a realidade alternou-se para longe dos paradigmas do concreto e ganhou os espaços das abstrações extremas. Chegará o momento em que não haverá diferenças entre o virtual e o real e aí teremos que lidar de modo diverso com o nosso consciente e inconsciente. Como será? Talvez o filme Matrix aponte alguns caminhos.

Claro que o texto de Giannnotti desenha um momento antes da pandemia, visto que há 13 anos havia os alertas, mas não havia a situação concreta. Suas reflexões sobre a teoria da mais-valia de Marx aqui ganham impulso renovado porque reavaliam o tempo histórico, dando-nos saber que a crise do capitalismo definitivamente não nos levará a nenhuma revolução emancipadora, ao contrário, ela cria e fortalece um vórtice que reafirma a lógica acumulativa, mantendo ao mesmo tempo uma ilusão de mudanças constantes. 

“Assim como os capitais financeiros não se integram num capital social total, igualmente os setores operários não integram num trabalhador total”, pois “não está no nosso horizonte atual criar um sistema econômico efetivo dispensando os mecanismos de mercado, com suas invenções e suas crises”. 

No fundo, não há esperança no capitalismo: os ricos ficarão mais ricos e os pobres, na famosa forma piramidal, viverão sempre na pobreza profunda ou relativa, crescentemente permeando as classes médias, em suas variadas escalas de renda. 

As fortunas triplicadas no período pandêmico corroboram a correção dessa ideia de acumulação fantástica do capital financeiro por menos de 1% da população, que, conforme os dados gerais, abocanha mais de 40% de todas as riquezas produzidas. 

O que o filosofo demonstra é que o capitalismo é um sistema até certo ponto previsível e que se nutre de uma dose formidável de imprevisibilidade para sobreviver. O capitalismo se renova e o dinheiro é um valor que penetra todas as escalas de valores culturais, criando uma prisão que tem o dom de iludir, pois sem ele não com há como alcançar a “liberdade”.

É provável que muitos afirmem que a pandemia alterou muito as relações humanas no que toca ao trabalho e ao capital, e que, provavelmente, aquilo que parcela imensa da humanidade viveu nos últimos 20 meses determinará os rumos da cultura nos próximos séculos.

O confinamento (que atingiu mais de 43% da força de trabalho na média mundial) e o sistema de home office determinaram diferentes modelos de relação interpessoal ao qual não estávamos acostumados, forçando um despojamento e desapego que desde a geração baby boomers não era experimentada. 

Os millenials em crise de nervos e agora a síndrome de Bournot são, digamos, os novos ratinhos de laboratórios comportamentais para descobrir o que a experiência da pandemia deixou como legado nos nossos hábitos e gostos, enfim, na nossa modelagem social.

Em muitos países (não há ainda pesquisas no Brasil) parcela significativa de trabalhadores decidiram mudar de vida, ganhar menos, dedicar mais tempo à família, abdicando de altos níveis de consumo, vivendo mais modestamente, porque repensaram conceitos e modos de viver durante o regime pandêmico, o que, de certa forma, está gerando escassez de mão de obra de baixa e média qualificação, afetando principalmente o setor de serviços.

Claro, isso pode ser uma fase. Pode ser também que tudo volte a ser como era antes, mas será que esqueceremos essa fase histórica? Será que o modelo de vida anterior não seria uma corrida maluca para lugar algum? Será que não é o momento de parar e pensar?

Um fato, porém, é incontestável. No começo do ano, as previsões mais otimistas davam conta de que à medida que a vacinação ganhasse empuxo a economia ganharia em dinamismo e uma onda de prosperidade voltaria a ter força, deixando pra trás tempos amargos. 

No entanto, não foi isso que aconteceu. O mercado mundial nos últimos tempos mostrou que não está conseguindo se readaptar ao novo momento. 

Tem-se a impressão que uma máquina que estava funcionando a todo o vapor e que, por um momento, teve que reduzir gradualmente a marcha e, agora, passada a primeira fase da crise, encontra dificuldades em pegar no tranco, gerando uma imensa inadaptabilidade em ajustar o sistema.

A jornalista da revista Veja Vilma Gryzinski, em sua coluna, escreveu dias atrás que todo “o sistema global está estremecido”. Ela observa que “a Covid-19 assustou mesmo os governos liberais, ao fazê-los descobrir que os suprimentos médicos, de máscaras a substâncias para a fabricação de vacinas, dependiam totalmente da China. E o pós-covid está provocando a constatação: não adianta ter tudo mais barato, de brinquedos a autopeças, se as mercadorias trazidas do outro lado do mundo ficam empilhadas nos portos, sem caminhoneiros suficientes sem esvaziar os contêineres”. No fim, Gryzinski conclui: “pode ser que o mundo encolhido pela globalização esteja ficando menos pequeno de novo”.

Se o mundo está diferente, essas mudanças vieram na esteira de um processo inflacionário (que as novas gerações desconhecem), da perda de valor das moedas, dos aumentos de emissões dos bancos centrais, queda na produção de alimentos, problemas energéticos, aumento das incertezas ambientais, insegurança mental, fragilidade relacional, questionamento de valores democráticos, ou seja, o fortalecimento e domínio da ideia de não-lugar e de que o provisório é aquilo que o linguajar opaco tem chamado de “novo normal”.  

Deparamos agora com um mundo piorado. Parcela da inteligência que se articula na imprensa tem tentado codificar e encontrar a chave desse sentimento difuso que estamos vivendo. Outro dia, a atriz e escritora Fernanda Torres escreveu um artigo significativo na Folha de S. Paulo (“Os Salões”, ilustrada, 11 de novembro), tentando palmilhar alguns caminhos das ambiguidades emocionais que começamos a experimentar. 

Ela tenta no texto capturar sentimentos confusos, algo estranho no ar, sensações de insegurança e,  no fim, problemas de readaptação, com o olhar desconfiado ou temeroso de se encontrar com conhecidos, abraçar, beijar, dar vazão aos gestos largos, como se diz.

A falta de traquejo social será cada vez mais percebida: como engatar uma conversa frente a frente? Como enfrentar um restaurante sentado no meio de amigos e da algazarra? Como será freqüentar teatros, museus, cinemas e shows de grandes estrelas? 

Será que fluidos e perdigotos poderão nos infectar? Será que perceberão que estou diferente? Mais gordo? Mais retraído? Menos descontraído? Mais expansivo, falando alto? Será que notarão minha ansiedade e excitação estranhamente ridícula? Devemos falar da vida? Discutir política? O que fizemos nos últimos 20 meses? Os filmes que vi e não quis ver? Guinei para a direita ou afundei o pé na esquerda? Como serei visto e julgado ?

Quais vestimentas adequadas? Teremos muitos assuntos acumulados e vamos querer despejar tudo de uma só vez? Seremos irritantes? Seremos mais ou menos intolerantes? Terei mais raiva?  Este novo “eu” será julgado da mesma maneira que julgarei o outro? Impressões, impressões...Não será fácil se adaptar.

A volta ao trabalho presencial, à rotina do expediente, do ambiente familiar alterado, o uso das roupas mais formais e apertadas, abandonando as camisetas velhas e os pijamas surrados, ou até mesmo, como tem indicado certa moda, o total abandono às formalidades, pois uma coisa que a epidemia mostrou é que nada é mais importante que sobreviver, sem essa de ostentação, exibicionismo, visto que a tendência poderá ser mais desapego às coisas materiais, até porque o guarda-roupa está cheio e o tempo da pandemia mostrou na prática que não precisamos de tanta coisa pra viver.

Assim chegamos a um tempo em que sentiremos cada vez mais essa inadaptabilidade psíquica com os novos tempos, com aquela sensação de que estamos no mundo sem conseguir encontrar nossa morada. É provável que as viagens não sejam mais as mesmas, as férias não serão como as do passado, os encontros familiares serão ainda mais cautelosos, os locais de convívio talvez exalem outras sensações, as pessoas estejam estranhamente mudadas, porque, afinal, a rapidez e o dinamismo da modernidade não suportam passar quase dois anos de alteridade de hábitos e costumes sem traumatizar o manejo das personas no palco social. 

Estaremos a partir de agora prenhes de perguntas e procurando desesperadamente por respostas. Acredito que podemos chamar isso de a Era da Inadaptabilidade, pois há sinais apontando de que não tão cedo vamos poder relaxar, haverá sempre uma tensão no ar, uma espécie de artificialismo dando combate à espontaneidade, uma desconfiança permanente pelo fato de que a peste estará sempre à espreita e a incerteza será uma regra permanente a apontar que nenhuma resposta será suficiente tranquilizadora para se viver a vida como era antes. 




  Os juros do cheque especial  Estão pela hora da morte O preço do poema ficou proibitivo Vale mais do que o ouro que se tira do nariz Minha...

A economia do poema

 


Os juros do cheque especial 

Estão pela hora da morte

O preço do poema ficou proibitivo

Vale mais do que o ouro

que se tira do nariz

Minha mulher reclama

de que não há 

mais romantismo no mundo

Eu tento explicar pra ela

Que é melhor pagar no crédito

Porque no débito 

Tudo virou um imenso nada

Dante Filho

Rose Modesto Dante Filho *****   A mídia sul-mato-grossense tem apontado quatro pré-candidatos com viabilidade ao governo do Estado no próxi...

Dilemas dos pré-candidatos de MS

Rose Modesto



Dante Filho *****

 A mídia sul-mato-grossense tem apontado quatro pré-candidatos com viabilidade ao governo do Estado no próximo ano. 

São eles: André Puccinelli, Rose Modesto, Marquinhos Trad e Eduardo Riedel. Todos - com exceção do candidato governista - apresentam condicionantes complicadoras para viabilizar suas respectivas pretensões. 

Por enquanto, os pretensos candidatos apenas "brincam" de esconde-esconde, ora negando ora afirmando, mesmo porque tem sempre um promotor ou juiz para enxergar "campanha antecipada" em qualquer buraco de toco espalhado por aí.

Os nomes postos cuidam de tratar o assunto como mera manifestação de vontade subjetiva, porque na segunda parte da resposta vem sempre uma conjunção ou advérbio para esclarecer a frase anterior. Tudo falsidade. Eles sonham com as candidaturas sem poder dizê-las.

Puccinell, como se sabe, é um fingidor, que a cada hora fala uma coisa. Rose afirma que aguarda as definições partidárias no fim do ano. Marquinhos diz que está refletindo e orando. Apenas Eduardo Riedel tem assegurada uma vaga na disputa, não pela sua própria voz, mas pela declarações do PSDB. Mas é o único que assume a condição porque é consenso partidário e tem um jogo pra jogar.



Eduardo Riedel

Esse elenco de "não-candidatos" (que tenta fazer parte da ala de frente da Escola Vai-Não-Vai) distrai a imprensa e o publico interessado. 

O povão está por enquanto com os olhos voltados para a carestia e a falta de dinheiro.

 Assim é o Brasil. O que se percebe, contudo, é que os quatro candidatos de maior visibilidade no ambiente de disputa tem alguns dilemas a enfrentar nos próximos meses. O dilema mais evidente é o do prefeito Marquinhos Trad. 

Pergunta-se: ele deixará o mandato de prefeito de Campo Grande para correr o risco de uma candidatura ao Governo que pode não dar certo? 

Ele foi lançado pela direção nacional de seu partido, o PSD, pelas mãos de Gilberto Kassab, o que significa, na linguagem cifrada da política, que poderá contar com recursos do fundo partidário e apoio logístico de parte do poderoso lobbie paulista, que tem grandes interesses econômicos em Mato Grosso do Sul.

Mesmo assim, há muita especulação de que se trata de uma articulação que visa apenas demarcar espaço para que, na hora H, seja lançado o senador Nelsinho Trad, seu irmão. 

Verdade ou não, o prefeito terá nas mãos uma decisão difícil. Imagina-se que, no final, qualquer decisão que seja tomada deverá ficar restrita ao âmbito familiar, com participação predominante da primeira-dama, Tatiana Trad. 

A esposa do prefeito, nesse caso, é voz essencial. Sua atuação é discreta, quase silenciosa, mas ela é inteligente e arguta, tem sacadas espertas, talvez seja a única pessoa que Marquinhos ouça e se aconselhe politicamente. Se ela não concordar com esse salto no escuro do prefeito, podem esquecer, ele não dará. 

 

André Puccinelli

O dilema de Puccinelli é de outra ordem. A experiência acumulada demonstra que toda a vez que ele avança para consolidar seu nome na praça - já que é o preferido nas pesquisas, embora com taxa de rejeição elevada - a justiça se move, e ele é surpreendido com decisões inesperadas.  

Percebe-se uma constante ameaça por parte do judiciário caso André decida viabilizar seu projeto. A espada de Dâmocles que lhe aflige impede que ele ultrapasse a linha vermelha estabelecida pelo  establishment da República de Maracaju. Neste aspecto, sua petulância pode transformar sua vida no judiciário num inferno. 

É fato que, dentre todos os candidatos, Puccinelli o único que representa uma ruptura com o Governo do PSDB. Os outros representam a continuidade em maior ou menor grau. Se André chegar a ser o próximo governador, Azambuja ficará por muito tempo isolado politicamente, sem muito espaço de manobra, a não ser que seja candidato ao parlamento  e consiga um mandato. 

Só que isso não abranda seus processos criminais, que, em algum momento, terá seu desfecho.

O drama Hamletiano de Riedel não gira em torno da decisão em ser ou não candidato. Seu propósito é consolidar seu nome e fazer com que pouco a pouco seu nome suba nas pesquisas. 

Há descrença de que isso possa vir a acontecer, mas ao mesmo tempo há reconhecimento de que, tecnicamente, ele seja o melhor nome dessa rodada para ser governador do Estado. Ele ter o perfil adequado para o momento histórico apropriado. Ele tem as elites, falta agora as camadas populares. 

 Seu problema, porém, é meramente eleitoral, não é estratégico. Parcela ponderável do eleitorado quer ver Reinaldo Azambuja & Seus Capitães do Mato pelas costas. Há o temor de que Riedel eleito a máquina pública continue nas mãos de Azamba. 

A pergunta que se faz é: até que ponto Riedel deixaria claro de que ele, caso seja eleito, possa mexer profundamente na equipe e na burocracia para que ficasse parecido com a sua cara.

A questão é complicada. Ela se repete e se intensifa, em determinadas camadas, para a candidatura Rose Modesto e, talvez, de maneira lateral, para a de Marquinhos Trad. 

Até que ponto a República de Maracaju incrustou-se no aparato do Estado, com seus vícios e métodos, para continuar mantendo os mecanismos de saques dos cofres públicos intocáveis, sejam quais forem os mandatários?

Marquinhos Trad

Rose tem dito que vem se afastando do PSDB e que ingressará em outra legenda para formar seu grupo político. Mas a pergunta que circula nos nossos meios políticos é bem cavilosa: em qualquer partido em que a Morena Mais Bonita ingresse, dificilmente ela terá o controle de sua burocracia. Vai daí que, para ela ser ofertada no mercado dos interesses políticos, será um passo. 

Quanto valerá a cabeça de Rose para tê-la fora do jogo? Certamente, alguém estará disposto a pagar, pois é melhor uma disputa de três do que de quatro (se é que me entendem).

Enfim, o processo político ainda está em curso. Os jogadores estão na mesa. Uns blefando, outros com boas cartas, e há também aqueles que não se importam com nomes e projetos e, sim, com o vil metal a ser amealhado nas inúmeras rodas nos próximos meses. 

Voltaremos ao assunto. 

  


 


  



  Dante Filho**** A primeira vez que ouvi a palavra ecologia foi no começo da década de 70. Um professor de biologia do colégio publico ond...

Os miquinhos amestrados e minha formação ambiental



 Dante Filho****


A primeira vez que ouvi a palavra ecologia foi no começo da década de 70. Um professor de biologia do colégio publico onde eu estudava, no interior paulista, trouxe a grande novidade. 

Depois disso, o tema tornou-se recorrente e assim eu fui aprendendo sobre o assunto. 

Em 1978/79 fui fazer cursinho em São Paulo e, um belo (?) dia, a cidade amanheceu cinza, com uma névoa densa, que impossibilitava que enxergássemos poucos metros adiante. Um calor sufocante, uma fumaça pesada, nunca tinha visto aquilo, fiquei assustado. Muita gente foi hospitalizada com problemas pulmonares.

No dia seguinte, os jornais diziam que tudo o que ocorrera foi um fenômeno natural que adensou de maneira inédita na forma de uma forte poluição na cidade, gerando um ambiente distópico, levantando a tese de que as grandes cidades começariam a morrer sufocada por causa da fuligem tóxica irrespirável. Não era um fenômeno "natural". 

Aquela situação gerou pânico e imediatamente as autoridades convocaram jovens para trabalhar no departamento de trânsito com remuneração de 2 salários mínimos por mês, com carga horária de 2 horas, para monitorar o fluxo de veículo nas principais vias da cidade. Fui nessa animadamente. 

Ali pude perceber fisicamente a gravidade do problema. A contagem da passagem dos veículos era feita com um cronômetro especial que funcionava à base de percepção visual. 

Para cada veículo que passava num determinado lugar, acionávamos o botãozinho, cujos números transferíamos posteriormente a uma base de dados, que, na somatória geral, permitia que se medisse em quais regiões o fumacê dos veículos podia ser mais intenso e causasse mais poluição. 

Depois dessa experiência, minha atenção ao tema dobrou. Não me tornei um ambientalista porque a preocupação, na época, era a luta contra a ditadura. Mas víamos que havia movimentos nos Estados Unidos, Europa, Alemanha (que havia criado um Partido Verde), remanescentes da voga da contracultura. 

Logo em seguida, eclodiu a questão das camadas de ozônio (que atualmente anda em baixa, já que ninguém lembra muito do assunto). 

Cientistas previam que se o desaparecimento da camada de proteção do planeta desaparecesse em 30 anos, adeus futuro, viraríamos um cenário de Mad Max. Bem, posso dizer que esse tempo já passou e pelo visto estamos aqui. Melhores? Piores?

Sei que existe algo diferente que anda acontecendo com os fenômenos meteorológicos por aí. Em 1988, por exemplo, em Mato Grosso do Sul, houve um período de estiagem que gerou uma "névoa seca" decorrente da intensidade das queimadas no norte e centro-oeste brasileiro. Foi muito grave.

No período, a mídia falou quase nada sobre o assunto, e só ficamos sabendo o que, de fato, ocorrera depois de dois ou três anos à frente. Com o tempo, a "névoa" se "normalizou", acontecia todos os anos, entre agosto e outubro, embora o número de queimadas só aumentava. Mas, observando empiricamente, percebo, na média, nos últimos 20 anos, que houve uma redução da fumaça, mesmo com a intercalação de estiagem e chuva como sempre houvera. 

De lá pra cá, reconheço que o ativismo ambiental cresceu e se tornou uma atividade política em várias esferas. Sou informado de que existem mais de 3600 estudos de cientistas renomados que afirmam que se não revertemos a emissão de CO2 originários de combustíveis fósseis a raça humana caminha para a extinção.

Esses estudos provém de uma base de cálculos fornecidos por algoritmos que sustentam estudos amplos de solo, árvores, camadas polares, solo etc de vários lugares do planeta e que demonstram que há um aumento de CO2 na atmosfera que está modificando profundamente a vida dos biomas. .  

Vejo também que há pesquisas (uns 1800 trabalhos) na contracorrente, mas estas têm fontes financiamento suspeito e precário. O que eles dizem basicamente? O quadro é grave, mas a natureza tem imensa capacidade de autoregeneração, bastando acionar gatilhos corretos para evitar catástrofes. Verdadeiro ou falso? Os números dizem que nada disso se sustenta. O mundo vai mal...

Em toda a história da humanidade sempre houve quem pensasse de forma diversa, não aceitando teses postas e consagradas pela publicidade, brigando por suas ideias, mesmo equivocadas, contrariando a melhor ciência, mistificando aqui e ali, mas num balanço dos últimos séculos podemos extrair disso experiências positivas porque,às vezes, uma teoria errada ajuda a iluminar caminhos no encontro de soluções mais consistentes. 

Nesta semana li uma entrevista do ativista ambiental George Monbiot, um jornalista britânico que inclusive conhece muito o Brasil e vem se dedicando ao assunto, com teses e livros muito conhecidos e divulgados agora na COP26, em Glasgow.

Os jornalistas da Folha de S.Paulo que o entrevistaram se colocaram numa posição de cautela respeitável em relação às posições de Monbiot, que prega a proximidade do apocalipse, rejeitando inclusive o termo "mudanças climáticas" por achá-lo muito leve e pouco alarmista.

Neste aspecto, aterrorizar a sociedade é mais sábio e politicamente correto.

O jornalista Britânico reconhece que a "terra é um sistema complexo; os oceanos, idem; os solos também, a biosfera também...nada se comporta de maneira linear. Podem absorver muito estresse e manter um estado de equilíbrio, mas podem colapsar de repente". 

No dúvida, aposta-se em exageros apocalípticos.

Ou seja: o colapso é uma hipótese em meio a tantas outras. Mas é a hipótese dominante. A maioria dos cientistas acredita que haverá uma virada ( quando? como? ninguém sabe), fundando assim um sistema de crença que deseja empurrar o mundo para a formulação de um pacto de sustentabilidade. 

Do ponto de vista político, o ambientalismo é uma bandeira perfeita. Seus adeptos não perderão nunca qualquer argumentação ou previsão, mesmo que pareça maluca e oportunista. 

Primeiro, se os países em conjunto darem uma guinada, mesmo que seja gradual, para a mudança do sistema de geração e administração do capital (o famoso Capitalismo global), isso certamente levará mais de 100 anos para encontrar um novo eixo de ajuste. Com um tempo tão longo como esse, difícil saber que diferença fará quem estava certo ou errado no momento atual. 

A ciência pode muito, mas não tem o dom divino de prever o futuro à perfeição. Ela formula hipóteses e as testa para tirar suas conclusões em micro ambientes. Mas quando se trata de mundo real, o imprevisível pode acontecer.

Digamos que a turma de Greta Thumberg e seus miquinhos amestrados estejam corretos. Se nada for feito, todos sucumbiremos, certo? Luminares e obscurantistas nem poderão debater mais a questão, não haverá culpabilidade geracional para ser cobrada, muito menos acerto de contas. Todos estaremos mortos, correto?

Diante disso, é preciso que tenhamos pelo menos fé (sei que a palavra é um contrassenso) de que se criamos o problema para o planeta teremos capacidade para resolvê-lo. Acho.

O caminho do cavalo de pau sistêmico pode até ser eficaz, mas liquidará em mais ou menos 50 anos uns 30% da população do planeta, que morrerá de fome e guerra. Parar de comer proteína animal, desligar o complexo sistema industrial, retroagir paulatinamente para uma cultura menos consumista, na teoria é lindo, mas na concretude da vida tem um custo humano imponderável. 

Concordo com quase tudo (teoricamente) das atuais bandeiras ambientais. Vejo que muita gente faz o mesmo porque assim mostra para todos os amigos e familiares que é desse jeito que podemos mostrar que somos bacanas. 

Por mais irônico que isso seja, vejo que o ambientalismo é consensual, mas ninguém deseja ir mais fundo e problematizar esse consenso para encontrar caminhos alternativos que envolvam interesses das economias que enfrentam imensas desigualdades sociais. 

Por enquanto, o engajamento fica adstrito às classes médias e aos meninos e meninas megacabeças do mundo rico. 

Vejo nos últimos eventos na Europa, com reunião dos principais países, com exceção de China e Rússia ( o que, na prática, significa que tudo é discurso para agradar os miquinhos de Greta) que daqui uns dias o evento de Glasgow foi mais uma balada animada dos apocalípticos do mundo melhor. 

Tudo continuará na mesma. Como diria Lord Keynes, com essa gente, a longo prazo, todos estaremos mortos...  


 



  

 




  Dante Filho¨*** P esquisas apontam que em Mato Grosso do Sul Bolsonaro tem peso político. O Estado é tido como um dos redutos do conservad...

O Bolsonarismo em Mato Grosso do Sul

 




Dante Filho¨***



Pesquisas apontam que em Mato Grosso do Sul Bolsonaro tem peso político. O Estado é tido como um dos redutos do conservadorismo brasileiro por causa de sua base econômica centrada no agronegócio. 

Mesmo achando temerosa fazer essa relação automática, há consenso em torno dessa narrativa.

Mesmo que esse fator ajude a explicar muita coisa sobre as preferências políticas de nossa sociedade, é preciso considerar que mais de 60% dos votos estão concentrados em 5 dos 79 municípios. Deste total, Bolsonaro pode ter uma preferência relativa, algo em torno de 30%. 

Dos 1,8 milhão de eleitores de Mato Grosso do Sul digamos que hoje Bolsonaro possa amealhar - caso nada aconteça - mais ou menos uns 550 mil votos no nosso território. 

No cenário nacional, é pouco, mas numa eleição polarizada é muito. 

Mas olhar números como esses no momento não faz diferença para o povo da nossa política. Será preciso esperar as definições nacionais para ver como cada ator político relevante no cenário estadual se posiciona. 

Intui-se que o Bolsonarismo por aqui é forte e não tem dado sinais de arrefecimento. O Lulopetismo tornou-se uma força lateral, com pouca expressividade, extremamente dependente das correntes de direita e centro-direita, mantido sob respiração artificial, sem pauta e sem discurso que galvanizem parcelas ponderáveis do eleitorado. 

Se Lula pontua bem nas pesquisas por aqui (sua taxa de rejeição é equivalente) deve-se mais ao recall de seu tempo na presidência do que a uma preferência autêntica baseada em fatores objetivos.

Ainda não se sabe exatamente quem serão os candidatos ao governo do Estado. Os nomes que circundam por aí são nuvens. Há vontades manifestas aqui e ali, há gente bailando no canto do salão, há sonhadores acreditando que o cavalo passará encilhado na porta de sua casa, mas tudo por enquanto é tudo ensaio. 

E se todos os nomes forem confirmados, é provável que passem pano para os horrores de Bolsonaro, porque, bem, campanha é um jogo de soma e não de divisão...

O palanque estadual dependerá ainda de decisões nacionais. 

Seja qual for o cenário do teatro de operações o bolsonarismo será um fator a empurrar gente pra lá e pra cá, não somente por causa da militância fanática, mas muito por causa do poder da máquina e da imensa capacidade de produção de fake news.

Alguém consegue ver as candidaturas do MDB, PSDB, União Brasil, Podemos etc., muito longe de Bolsonaro, gritando "Lula Livre" ou endossando a tese do "homem mais honesto do mundo"?

Para o Governo de MS até o momento não há candidatura de esquerda. Ah!, tem o Zeca do PT! Difícil. 

Tem-se a impressão de que sua candidatura é apenas midiática para não permitir a dispersão da tropa. 

Os partidos do chamado campo progressista tem feito um combate sem trégua à Bolsonaro no MS, repercutindo a pauta nacional, mas sente que, por aqui, o conservadorismo cravou seus dente e não larga.

Outro caso curioso: a maioria dos partidos quer abraçar a candidatura ao senado da ministra da Agricultura Tereza Cristina, uma bolsonarista claudicante, embora todos saibam que estar ao lado dela poderá significar apoio majoritário do agro, com recursos fartos e logística de campanha na área de publicidade. 

No Mato Grosso do Sul nenhuma candidatura decola sem apoio do pessoal do campo.

Nenhum dos pretensos candidatos ao governo e aos parlamentos dará a mínima em ser associado ao "bolsonarismo" de Tereza Cristina, que, certamente, não é aquele que mata e esfola os adversários na rua da amargura. 

Tereza é exemplo da cara de paisagem que notabiliza parte da equipe soft do presidente maluco.

Será engraçado assistir a uma campanha em que quase todos terão que, fisiologicamente, se colocar ao lado do presidente, moderando qualquer reparo que se possa fazer ao seu comportamento negacionista e protofascista, para não perder votos do vasto eleitorado de centro e de direita do Estado. 

Política é a arte do pragmatismo. Claro que os elementos que fundamentam a realidade do Brasil, que ora vive um quadro caótico, com inflação em alta, preços nas alturas, com o sistema mundial de comércio totalmente desarticulado - sinalizando que enfrentaremos problemas graves de abastecimento - rebaterão com vigor num ambiente eleitoral cada vez mais tenso, complexo e divisor..

Mas digamos - conforme escrevem alguns analistas independentes - o cenário comece a se modificar a partir do final do terceiro trimestre de 2022, espraiando uma sensação de bem-estar, que potencialize o discurso da direita? Tudo é possível.

Conhecendo nossos políticos, com seu senso de oportunismo irrefreável, alguém consegue vislumbrar as bandeiras de oposição tendo peso significativo nesse contexto? 

Será que a memória da pandemia, da crise crônica, do estouro do teto de gastos, da corrupção desenfreada no ministério da Saúde e das rachadinhas familiares serão cristalizadas na percepção da coletividade para que se transforme em votos concretos nas urnas?

Não sei. Pode ser que sim, pode ser que não. Vivemos tempos de incertezas.

Aqueles que vislumbram candidaturas na esfera estadual sem reunir elementos nacionais ( ou vice-versa) saberá qual o melhor caminho, não podendo esquecer  que no futuro pagará um caro tributo à história. 

Como se diz, as conveniências eleitorais suplantam o senso moral e todos ficam sujeitos às suas circunstâncias. Ao eleitor (a) cabe por ora a fazer exercícios em torno da seguinte hipótese: com quem se aliará meu possível candidato a governador?




Dante Filho ***   A história que Ciro Gomes está contando na imprensa e nas redes tem lógica. O impeachment de Dilma foi um acordão que env...

Os fatos de Ciro têm lógica



Dante Filho ***

 A história que Ciro Gomes está contando na imprensa e nas redes tem lógica. O impeachment de Dilma foi um acordão que envolveu Lula e a cúpula petista, com os requintes de maquiavelismo que têm sido apresentados. 

Se foi um golpe, foi um golpe por dentro e não por fora. Mas o petismo transformou desde o início essa lorota numa conspiração dos agentes sinistros das elites ( Eduardo Cunha, Renan, Eunício de Oliveira, Temer e tantos outros) contra uma "mulher honesta" que só queria o bem do Pais. 

A narrativa - que virou até filme concorrente ao Oscar - agora mostra-se um castelo de cartas porque quem foi testemunha ocular da história sabe do que está falando. Enfim, a narrativa petista era fake news.

Muita gente criticou Ciro por ter contratado o publicitário João Santana, que, nos tempos de Lula/Dilma, funcionava como um ministro informal do governo. Santana agora está mostrando serviço com a faca nos dentes.

Ele está usando a boca de Ciro para contar o que, de fato, aconteceu. Trata-se de uma abordagem que há muito tempo se fala, embora nunca tenha aparecido na embalagem que ora está sendo apresentada ao distinto público. Por isso, está causando tanta irritação em Lula e na cúpula do petismo. 

Nada do que for falado a partir de agora - e que tenha a ver com a vitimização de Dilma - será crível da mesma maneira que era contada antes. 

Além disso, é preciso debitar aos fatos de que se tivesse havido mesmo "golpe" contra Dilma o acontecimento calaria fundo na alma do eleitor que teria concedido a ela uma vaga para o Senado por Minas Gerais. 

Lembrem-se: a ex-presidente foi derrotada, ficando em terceiro lugar na disputa. A ideia do "golpismo" não foi endossada pelo voto. 

Agora, Ciro e João Santana colocam em prática uma estratégia de tudo ou nada, mirando na testa do PT, cravando uma interpretação histórica que, se colar, deixará marcas profundas no partido, além de causar desconfianças de que Lula é capaz de enforcar a própria mãe pelo poder. 

O simpatizante médio do PT imagina que Lula tem uma certa pureza de intenções e de que foi injustiçado pela turma de Moro. Essa aura é cultivada por uma militância que imagina que tudo aquilo que não for Lula tem pacto com as forças do mal. 

A historieta de Ciro tira um pedaço do véu diáfano do abajur lilás que fantasiava o personagem, dando-lhe a luz suave de boas intenções. 

Sabe-se que não é nada disso. O PT é pantagruélico e autofágico. Lula queria disputar a presidência e Dilma bateu o pé e não cedeu. Pagou o preço. Tentou depois corrigir os rumos, nomeando Lula para o cargo de primeiro ministro, mas a carta de "Bessias" chegou tarde. 

Toda essa ambição teve um preço: Dilma foi para o espaço e Lula foi preso. Até hoje ninguém fez a devida autocrítica de toda essa história. Acho que João Santana e Ciro decidiram, finalmente, começar a esclarecer o que, afinal, aconteceu.

Aguarda-se ansiosamente os desdobramentos dos fatos.

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