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  Dante Filho --  Na ultima quinta-feira, 15, viu-se nos corredores do poder um Capitão do Mato perambulando com olhar vago, meio pálido, q...

Azamba no buraco

 


Dante Filho -- 

Na ultima quinta-feira, 15, viu-se nos corredores do poder um Capitão do Mato perambulando com olhar vago, meio pálido, quase em estado depressivo, silencioso como nunca. Numa conversa com assessores mais próximos o personagem comentou de cabeça baixa: não vamos chegar ao fim do Governo, está difícil. 

A cena foi descrita por um e outro, tudo, por enquanto, adstrita à famosa rádio servidor, instituição que aumenta, mas não inventa; multiplica, mas não amplifica. Veremos.

A tristeza do Capitão tinha uma razão de ser: acabara de sair a decisão unânime da Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ), confirmando a  indisponibilidade de bens ligados ao governador Azambuja e seus familiares e uma empresa a ele vinculada, no valor de R$ 277 milhões.

Em qualquer lugar do mundo, era de se esperar que, diante de um fato desta magnitude, no dia seguinte este fosse o principal assunto da imprensa local, com fortes manchetes, explorando as várias facetas da notícia. 

Mas isso não aconteceu. Tirando alguns sites aqui e acolá, a pauta foi tratada com certo desprezo, além de minimizada nos dias seguintes. 

Tal comportamento não torna nosso jornalismo um exemplo positivo. Fica uma impressão de certa cumplicidade inadequada ou de aderência remunerada, no qual os interesses públicos são bem menores do que o fluxo de caixa que mantém a roda girando.   

Claro que não custaria os fundilhos de ninguém publicar uma notícia seca com o devido destaque, lembrando a  denúncia do Ministério Público Federal (MPF), apresentada em outubro de 2020, envolvendo Azambuja, os empresários da JBS, Joesley e Wesley Batista, o ex-secretário de Fazenda de e atual conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Márcio Campos Monteiro; além de outras 20 pessoas, que cometeram crimes de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. 

Os fatos ocorreram entre 2014 e 2016. Só que estão aí, vivos, podendo custar a cabeça de muita gente importante, que amargará perda de mandato, exclusão da vida política e até prisão.

Bastaria indicar os termos do  Inquérito 1.190/DF, com os indicadores de  provas obtidas na Operação Vostok, bem como as provas compartilhadas a partir da Operação Lama Asfáltica, acordos de colaboração premiada, quebra dos sigilos telefônico e bancário dos envolvidos,  para a mídia estar fazendo o seu papel e cumprindo com sua obrigação institucional. Nem isso.

A notícia inclusive é velha. Mas a decisão unânime do STJ é uma novidade que faz tudo pular  várias casinhas, mesmo porque o dia em que os bastidores desta história forem revelados, mostrando a movimentação de uma poderosa banca de advogados, políticos graduados com influência determinante no judiciário, inclusive na esfera ministerial dos governos Temer e Bolsonaro, se verá então que não foi uma decisão trivial.

Azamba teve, nesta decisão, seu buraco cavado alguns significativos metros. O STJ praticamente confirmou ( ressalte-se, por unanimidade) que realmente houve um esquema de corrupção envolvendo o pagamento de R$ 67 milhões em propina para Azamba e outros denunciados. Além disso, como contrapartida, os agentes públicos garantiram isenções fiscais e benefícios ao grupo empresarial JBS em valores que ultrapassam R$ 209 milhões. 

O governador sempre negou e insistiu na teses de que tudo foi uma conspiração, dizendo-se um homem honrado que cultiva os valores éticos na política. 

Quem conhece as profundezas da República de Maracaju sabe que este caso tão falado é apenas a ponta do iceberg. Outros estão girando nos MPs e estâncias judiciárias da vida. No final, se alguém se dispuser a fazer as contas verá que o buraco é tão profundo que talvez encontre terras japonesas.

O que impressiona é a frieza aparente com a qual essa turma segue adiante, agindo como se nada houvera, gastando horrores com propaganda, dando inclusive as mãos para receber apoio daqueles que se dizem puros, cristãos e imaculados. 

Mato Grosso do Sul é um bom lugar para se viver, uma terra de esperança, com potencial econômico fenomenal, mas está precisando de pessoas de espírito republicano que saibam diferenciar os recursos públicos dos privados. Só isso. O resto pode até vir por geração espontânea.


Dante Filho -  Tempos de incerteza: Fico imaginando o cenário que vamos viver em setembro de 2022, na reta final da campanha eleitoral mais ...

O sinal do futuro


Dante Filho - 

Tempos de incerteza:


Fico imaginando o cenário que vamos viver em setembro de 2022, na reta final da campanha eleitoral mais nervosa desde a fundação da Nova República. As libélulas de sempre estarão agitadas, acreditando que luzes acesas são a porta do paraíso, sem saber, lógico, que quanto mais quente, pior. 

Claro, tem gente que acredita em bola de cristal. Olha em frente e imagina que o futuro será mera repetição do passado. Ou pior: acredita que o presente se congela. Ouse seja: os dias se repetem indefinidamente, ou, mais engraçado, que cada passo adiante ficamos apenas  no escuro, próximo do abismo. 

Não sei. Ou melhor: sei que não é assim, embora nos apeguemos à crença de que nos próximos 12 meses tudo confirme as previsões de hoje, sem muitas alterações, porque essa é a única maneira de nos sentirmos minimamente seguros diante das incertezas, da imprevisibilidade e das surpresas dos novos acontecimentos. 

Desenhamos nos céus crises, medos, caos, ao mesmo tempo em que somos advertidos da piora das coisas, mesmo sabendo que as nossas percepções sejam muito precárias para perceber as circunstâncias reais.

Nosso otimismo é sempre bombardeado com tintas fortes para acreditarmos no pior dos mundos, mesmo porque a natureza humana tem uma imensa dívida com o apocalipse, com a tragédia e com o deus-nos-acuda.

Lá na frente nos aguarda golpes políticos, conspirações tenebrosas, desemprego terrível, inflação incontrolável, recessão, fome, miséria crescente, enfim, coisas muito ruins e temerárias. 

Certeza? Essa é a questão. Muitas libélulas são categóricas: as coisas vão acontecer conforme o previsto, esquecendo-se apenas que o imponderável habita nossos dias tão turvados.

Os indicadores disponíveis dizem que o futuro está fechado. Quais indicadores? Aqueles divulgados pela imprensa com base em levantamentos do segundo trimestre, ou seja, num passado relativamente curto, embora a dinâmica do mundo real seja muito mais acelerada, não sendo possível mensurá-la no ponto exato dos momentos. 

Se eu fosse os coleguinhas tentaria pelo menos uma vez por semana imaginar como será o mundo nos próximos 12 meses. A eleição não será um passeio, com cartas marcadas como se deseja. 

Façamos um exercício de pular várias casinhas e depois olhar pra trás. Será que o que estamos pensando que os dados de hoje estará valendo na semana que vem? As digressões sobre política, economia, movimentos sociais, pesquisas eleitorais e comportamento institucional serão iguaizinhas?

Como se diz, haverá movimento das pedras. A própria dinâmica do processo induz a modificações constantes do jogo, a vida não é uma pedra, a carne humana é elástica, podendo se amoldar às suas circunstâncias imediatas. 

Devemos reconhecer que uma parcela privilegiada da sociedade consegue ter uma percepção sobre o andamento do jogo e antecipar ruídos e sinais. Capacidade de avaliação, intuição acurada, medo de não correr riscos, estofo para aprender com os erros - tudo isso pode ser somado para estabelecer um valor diferenciado quando a manada perde o rumo. 

Mas essas pessoas estão cautelosas. Sabem que o quadro atual será outro, mesmo porque a pandemia será provavelmente uma tênue lembrança e as expectativas serão diversas. 

Desde a década de 80, depois da ditadura, quando o Brasil passou a viver a permanente transitoriedade do poder que as mesmas libélulas ardentes se agitam antes da hora. O mundo mudou e elas permanecem as imutáveis. Não refletem, não se acalmam, não ponderam, e criam uma corrida maluca na cabeça, fazendo do ambiente uma realidade tóxica, acreditando,  que a polarização intensa nas redes terá a mesma força para fundar um outro País.

Não terá.  


Dante Filho - Análise política nos tempos de incerteza O texto-base do projeto de lei do novo código eleitoral, aprovada pela Câmara dos Dep...

Pesquisa & Poder



Dante Filho - Análise política nos tempos de incerteza

O texto-base do projeto de lei do novo código eleitoral, aprovada pela Câmara dos Deputados, no último dia 09 (quinta-feira), devia ser melhor debatido porque o afogadilho sempre resulta em consequências desastrosas no futuro. 

Mesmo assim, pela votação (378 votos a 80) ficou claro que existe um consenso entre os parlamentares para que as regras gerais sejam estas que foram inscritas no pacotaço que agora segue para o senado, com a promessa de causar bastante polémica. 

Um dos pontos de divergência que tem sido martelada pela imprensa é sobre as pesquisas eleitorais. É curioso que, de cara, as críticas estão insistindo em associar o substantivo feminino "censura" aos levantamentos estatísticos das escolhas dos eleitores para as eleições do próximo ano. 

Claro que estão forçando a barra, pois a nova lei (se for aprovada como está) não prevê ato censório strictu sensu, mas apenas imposição de limites na divulgação dos resultados, permitindo que elas só possam ser divulgadas até a antevéspera da eleição. O mundo não vai acabar por conta disso.

Existem países, por exemplo, que permitem que pesquisas só sejam divulgadas 15 dias antes do pleito; outros, uma semana anterior ao pleito, enfim, não existe uma maneira consagrada que satisfaça ao mesmo tempo a classe política e os institutos de pesquisa.

Outro ponto polêmico: quando um instituto realizar uma pesquisa e levá-la ao conhecimento público deve-se informar o percentual de acerto nas últimas cinco eleições anteriores.

De fato, essa regra é um exagero. No fundo, ela revela que a classe política desconfia dos levantamentos, pois sabe que a justiça eleitoral não tem corpo técnico nem estrutura para validar com rapidez a aprovação oficial de uma pesquisa eleitoral do ponto de vista técnico. 

No final, trata-se apenas (com raras exceções) de formalismo, o que tem feito com que pesquisas enfrentem cada vez mais desconfianças da sociedade. Se o assunto for potencializado por polêmicas, o negacionismo em torno dos institutos aumentará, o que terminará fomentando a indústria de fake news com centenas de números fajutos, criando assim um ambiente de descredibilização geral. 

Com isso, os institutos mais tradicionais e mais equipados perderão uma fatia de confiabilidade, mesmo porque as últimas eleições têm-se demonstrado que, na apuração dos votos, os percentuais de acerto tem caído com muita frequência. Atualmente, países como os Estados Unidos têm estudado o assunto para criar novas metodologias de aplicação de questionários para melhorar os índices de acertos.

Ademais, no caso do Brasil, há uma tendência cultural de se votar no vencedor apontado pelas pesquisas, com o prosaico argumento de "não se perder o voto". Estudos feitos sobre esse fenômeno apontam que cerca de 10 a 12% dos eleitores usam esse critério para escolher, algo que pode fazer diferença numa disputa apertada.

O dado concreto, porém, é que pesquisa, informação e conhecimento são instrumentos de poder. A Câmara dos Deputados votou uma lei para mitigar a credibilidade das pesquisas e potencializar a desinformação. Mas não há censura porque não há proibição de se realizar e divulgar os levantamentos durante o processo eleitoral. 

O que há, na verdade, é um movimento político que se justifica no fato de que o eleitor é manipulável por números contra a ideia de que toda informação ilumina as escolhas democráticas, tornando as pessoas mais libertas na hora de votar. 

Este debate, contudo, não é tranquilo. 

Dante Filho  Leitura Política nos tempos de incerteza -   E u sei que muitos estão pensando que Jair Bolsonaro vai dar um golpe. Ele começo...

Entre a raiva e o medo



Dante Filho 

Leitura Política nos tempos de incerteza -

 Eu sei que muitos estão pensando que Jair Bolsonaro vai dar um golpe. Ele começou a comer pelas bordas, criando expectativas, naturalizando as evidências, vitaminando seus apoiadores fanáticos e, agora, no último dia 07, deu uma bela mordida, comendo metade do bolo. 

Ninguém está tranquilo. Pelo menos aqueles que desejam viver num País democrático, que reconhece que as instituições têm problemas, mas que podem melhorar sem radicalismos nem maluquices. Mas a cabeça do bolsonarismo funciona de outra maneira. Parece que esse pessoal ficou na estufa anos e anos e guardou tantos ressentimentos que agora deseja que tudo aconteça na base do sangue, suor e lágrimas. 

Se existe alguém que acha que nada vai acontecer, pode acreditar que já está acontecendo.

O Brasil tem uma sociedade complexa e diversa. As demandas setoriais de cada pedaço da sociedade não cabem nos limites do Estado. Os conflitos se avolumaram demais nos últimos anos. E o Judiciário não tem capacidade, sozinho, de dar respostas a tudo que lhe atiram no colo. 

É verdade que o STF (Judiciário, por extensão) tornou-se com o tempo muito arrogante, até por causa da tibieza do legislativo em solucionar problemas que lhe cabia, toldado pelo oportunismo, populismo e ganância. 

O Executivo durante muito tempo transformou-se numa máquina de corrupção e numa fonte para satisfazer desejos ilícitos. Depois que o Supremo deu um salvo conduto para Lula correr livre, leve e solto para disputar as próximas eleições, ficou mais do que evidente que os escrúpulos foram mandados às favas e tudo se transformou em jogo político.

O Governo brasileiro tornou-se assim uma arena de disputa. Ficou evidente que não há virgens nesta casa de tolerância. E que a regra é mesmo a polarização raivosa e que a "democracia" é a exceção que justifica qual o melhor enquadramento das narrativas para conquistar as mentes e os corações dos brasileiros. 

A imprensa - não havendo alternativa à vista para calibrar a confusão reinante - também deixou o campo da racionalidade objetiva e tornou-se estuário de militância, colocando-se no quadrante da pró-democracia, antagonizando o autoritarismo de Bolsonaro, distraindo-se do fato de que, paradoxalmente, isso só tonifica o bolsonarismo como elemento duradouro do processo político. 

Ontem, apressadamente, muitos analistas correram a dizer que o Governo tinha acabado, que o impeachment era uma linha reta e que Bolsonaro derretia a olhos vistos. Como se diz nas redações de jornais, não devemos brigar com imagens, ou seja, tinha muita gente nas ruas para que alguém faça beicinho e corra o risco de fazer marola neste momento delicado. 

Vejo muita gente afobadinha. Sim, pode acontecer de tudo, inclusive nada. É preciso esperar que haja decantação. Mas uma coisa é certa. O Poder Judiciário precisa fazer uma autocrítica. O Ministro Alexandre de Moraes precisa parar de interferir em briga de bêbado. O Deputado Arthur Lira e o Senador Rodrigo Pacheco devem tentar fazer uma grande concertação para tranquilizar o País e ajudar dar rumo na economia. Os dois estão parecendo bobos da corte. 

Não esperem nada de Bolsonaro, porque daí só vem lama e caos. Ele não quer solução para o Brasil. Ele quer salvar a pele, fazer uma confusão e gritar "pega ladrão", que, no caso é o Lula. Se conseguir se reeleger, ele terá dado o golpe; se não, ele tentará na bala. Enfim, ele é o cavalo louco que não tem nada a perder.

  Dante Filho -   Análise politica -   O Campograndenews publicou uma nota sobre a passagem da Ministra da Agricultura Tereza Cristina, nes...

Tereza Cristina: a insustentável leveza do ser

 



Dante Filho -

 

Análise politica -

 
O Campograndenews publicou uma nota sobre a passagem da Ministra da Agricultura Tereza Cristina, neste final de semana, no Bairro Nova Lima, em Campo Grande, para inaugurar uma unidade do Sebrae.

Seria mais um ato de campanha eleitoral, mas o site registrou uma situação curiosa. Tereza chegou atrasada ao evento (preparado especialmente para ela), fez um discurso confuso, trocou o nome do prefeito da Capital e mostrou-se irritada com a imprensa.

“Ao ser questionada se iria aos atos de 7 de setembro, ficou muda. Não quis responder apesar da insistência do Campo Grande News e foi retirada às pressas do local pelo diretor-presidente do Sebrae, Cláudio Mendonça”, escreveu o site.

O Presidente Bolsonaro não economiza elogios à sua Ministra do Agronegócio. Outro dia mesmo, afirmou que “ela vale por dez”. É fato que Tereca representa um dos setores economicamente mais avançados da economia brasileira, responsável pelo empuxo do PIB. 

O problema é que, ao mesmo tempo, parcela ponderável do agro, representa politicamente o setor mais conservador e atrasado da sociedade brasileira.

Quem acompanha a história pessoal e política da Ministra sabe que ela nunca conviveu bem com ambivalências. Sua relação no PSDB e PSB – todos sabem – nunca foi marcada por adesão partidária e ideológica. Ela se pauta por conveniências pessoais. Hoje ela está no DEM, amanhã, quem sabe.

Tanto com os tucanos como com os socialistas ela conviveu com a ameaça permanente de expulsão. Sua natureza carrega a necessidade de obedecer a vários senhores ao mesmo tempo, principalmente aqueles que têm muito dinheiro, a exemplo de Joesley Batista, da JBS.No fim, ela quer se dar bem, não importa como.

Quem teve oportunidade de acompanhar as lifes de Bolsonaro com a presença da Ministra pode perceber que, durante as falar malucas do presidente, ela parecia uma esfinge, não movia um músculo nem se expressava com o olhar. Ela se comportava como uma estátua de cera e, por sorte, a imprensa sempre foi generosa, nunca fazendo associações negativas nem folclóricas sobre essa performance.

Tereza pertence a uma das famílias mais “aristocráticas” de Mato Grosso do Sul, com proeminência na política nacional desde os anos 40 do século passado, no antigo Mato Grosso, com origem numa linhagem oligárquica que remonta ao final do século XIX. Enfim, Tereza Cristina, de alguma forma, sempre esteve no centro do poder, embora uma vez tenha tentado ser prefeita do pequeno município de Terenos, próximo à Campo Grande (onde a família ainda tem uma pequena propriedade rural), tendo sido derrotada por pequena margem de votos.

Quando adolescente, Tereza era motivo de fofocas das moças de classe alta de Campo Grande porque toda a viagem que anualmente fazia à Europa e aos Estados Unidos ela pegava de empréstimo roupas e luvas para o inverno rigorosos dos lugares que visitava e nunca mais devolvia. Ninguém falava nada, porque, afinal, era “gente importante”.

Mas essa questão trivial nunca foi assunto que merecesse atenção, pois não se atribuía atos menores ao caráter de pessoas de alta classe. Tomar o que é do alheio confere honra ao ludibriado, reza a lenda local.

Isso mudaria significativamente quando os pais de Tereza faleceram e ela se tornou inventariante do espólio. Como tudo correu em segredo de justiça muitos rumores surgiram na época entre seus irmãos, com acusações de falsificação de assinaturas, apropriação indevida de bens móveis e imóveis, enfim, aquelas coisas que fazem com que as famílias infelizes sejam infelizes cada uma à sua maneira.

No governo de André Puccinelli Tereza assumiu a pasta da Agricultura na chamada cota do tucanato. No entanto, quando o PSDB rompeu com o MDB numa rumorosa decisão, devendo em seguida fazer a entrega dos cargos ao partido no poder, ela tergiversou e fincou o pé. Afirmou que ficaria com André, mas não deixaria o PSDB. 

Aí abriu-se o processo de expulsão, que não foi concluído porque ela foi constrangida a tomar uma decisão, ficando com o cargo e filiando-se a um partido de esquerda (PSB). Também não durou muito.

Mas essa não foi a única saia justa deste período. Defendendo interesses de grandes empresas do setor agropecuário por benefícios fiscais vantajosos, Tereza enfrentou a ira do secretário de Fazenda à época, Mário Sérgio Lorenzetto, que uma vez a expulsou da sala quando ela acompanhava o presidente de uma companhia de esmagamento de grãos em uma audiência, chamando-o de “sonegador”.

Uma das mais notáveis características pessoais da Ministra da Agricultura em Mato Grosso do Sul – cujo status agora confere a ela a fama de intocável – são seus movimentos dúbios. “A palavra dela vale o mesmo que uma nota de três reais; ela promete uma coisa hoje, amanhã muda de ideia, é difícil confiar”, comenta um prefeito do interior, com pedido obvio que seu nome não seja citado.

O grande problema de Tereza agora é o fato de que a polarização acentuada da política a obrigará a tomar posições. Ela não se sente confortável com a pauta de Bolsonaro. Mas pretende ficar no cargo até o último momento para impulsionar sua candidatura ao senado, num acordo que abrange, em Mato Grosso do Sul, o PSDB, PT, PSD, PDT, MDB e quem mais couber. Alguns pretendentes ao cargo desistiram porque acham que será difícil enfrentar a máquina que Tereza vai colocar nas ruas para ter uma votação estrondosa, capaz de alavancar sua chegada ao Governo do Estado lá na frente.

Mas, projetos políticos à parte, ela não sabe o que fazer com o 7 de setembro. Se for para as ruas atendendo à conclamação do Presidente abre uma frincha para o surgimento de algum outro candidato dizendo-se do campo “democrático” contra as candidaturas do bolsonarismo. Se não for, poderá atiçar os fanáticos do presidente, que poderá entender nesse gesto traição, gerando desconfianças sobre qual a extensão de confiança que Tereza merece.

Outro ponto que preocupa o entorno da campanha da Ministra é o mistério que ronda a sua relação com a ex-apresentadora de TV Bia Arraes, que, conforme comentários do famoso rádio corredor, teria empurrado dezenas de nomeações de amigos e parentes, com salários razoáveis, para dentro do Governo do Estado.

Enfim, Tereza pode até imaginar que terá uma campanha fácil pela frente. Mas esqueceu que neste mundo cada dia tem a sua agonia. Uma palavra errada, um gesto equivocado, um silêncio explicado, tudo entra no balanço do secos & molhados, com resultados imprevisíveis.

Vamos esperar dia 7.

  Dante Filho* Reflexão política Estamos em setembro de 2021 e parece haver uma opinião majoritária entre políticos e especialistas de que a...

A terceira via e as maiorias silenciosas

 



Dante Filho*


Reflexão política


Estamos em setembro de 2021 e parece haver uma opinião majoritária entre políticos e especialistas de que a consolidação de uma terceira via nas eleições do próximo ano tende ao fracasso. 

Pesquisas sucessivas apontam que a polarização entre Lula e Bolsonaro petrificou-se, mesmo porque interessa a ambos cultivar este antagonismo, fomentando uma crença de que hoje somente estas duas candidaturas formatam um consenso no inconsciente coletivo, representando o pensamento médio do brasileiro. 

Certamente, o desenho de cenário sobre como os fatos se sucederão daqui pra frente indica que estamos fadados a uma inescapável decisão no futuro. Muitos comentam que o próximo 7 de setembro vai estabelecer numa linha divisória que determinará os caminhos sentimentais que vamos percorrer até o dia da eleição, em 2022. 

Acredito que, depois do glorioso Dia da Pátria, o campo das especulações estará em aberto. Vejo que a imprensa – que devia ser a bússola pela qual nossa orientação estaria relativamente segura – foi engolfada pelos males do tempo, perdendo a capacidade de servir de guia para refletirmos sobre a realidade imediata. 

A nós, jornalistas e curiosos amadores, resta buscar as fontes primárias, conversar diretamente com as pessoas nas ruas, perscrutar comentários aqui e ali, ouvir especialistas, políticos, enfim, ir acrescentando dados empíricos para filtrar elementos imaginários que consubstanciem uma opinião relativamente acertada dos acontecimentos. 

Tempos atrás, lendo um ensaio do livro primeiro de Montaigne, ele observou que pessoas simples, pouco instruídas formalmente, são as que dão testemunhos mais verdadeiros sobre as coisas da vida, pois apesar de as “pessoas finas observarem muito mais cuidadosamente [os fatos] elas glosam suas opiniões (...) para fazerem valer sua interpretação e torná-las convincentes”.

Na prática, sou inclinado a concordar, embora aceite o fato de que a pandemia restringiu totalmente o nosso ir e vir para fazer contatos com as pessoas, dificultando a compreensão experimental do fenômeno político. 

Além disso, percebo um refluxo de manifestações abertas de preferência eleitoral, talvez por conta da agressividade dos grupos polarizados. 

Claro que quem já escolheu Lula ou Bolsonaro tem uma situação mais confortável. Eles podem ir à feira virtual tentando convencer o eleitorado a escolher seu candidato, ou, no caso do Lulismo, impor uma definição na base do (falso) dualismo entre democracia versus autoritarismo. 

No momento, os chamados “isentões” são atacados em duas frentes. A primeira, a de não encontrar na disputa um candidato fora do esquema do mainstream; e a segunda, a de serem constrangidos a ficar entre os dois pólos, tendo que fazer uma opção forçada por conta de uma estratégia pesada nas redes sociais que envolvem diversas camadas de formadores de opiniões. 


Olhando do alto os índices de várias pesquisas, com suas variações no tempo e cruzando com os fatos políticos cotidianos, percebe-se que as maiorias silenciosas ainda não se definiram, mesmo porque todos os nomes não estão postos oficialmente, configurando assim o que, afinal, estará impresso na cédula e quais campanhas ganharão as ruas, com quais características. 

Só com esta fervura (mídia, cobertura, debates etc) saberemos se existe viabilidade de surgimento de uma terceira via. Em minha opinião, é possível. Na verdade, em política tudo pode acontecer. Coloco as barbas de molho. E espero.


PS- Um exemplo ilustrativo: há tempos venho acompanhando as eleições na Alemanha. Sei que não há parâmetro de comparação com o Brasil, mas há três meses o Partido Verde era imbatível. O Centro e a Direita viviam o ocaso a despeito da popularidade de Angela Merkel (que está deixando a vida política). A última pesquisa, porém, mostrou o PV caindo - e em terceiro lugar. O que aconteceu? A maioria da sociedade concluiu que a proposta econômica dos verdes era irrealista, para não dizer outra coisa.



 *jornalista e escritor


Dante Filho Quando eu era jovem, puro e besta participei como mesário e presidente de mesa de votação e apuração de várias eleições. Nos diz...

No tempo do voto impresso



Dante Filho

Quando eu era jovem, puro e besta participei como mesário e presidente de mesa de votação e apuração de várias eleições. Nos diziam que era uma chance honrosa de participarmos de um momento cívico importante, no qual éramos convocados para executar um trabalho voluntário que levava geralmente de 3 a 4 dias, das 8 até depois das 23 horas, dependendo dos problemas encontrados nas urnas – o que acontecia frequentemente. 

Na época eu reclamava muito não só porque não tínhamos praticamente o direito de escolha e o trabalho era estafante, exigindo esforço, concentração e tolerância para com aqueles que não se conformavam com os resultados finais das urnas. Muitas vezes, éramos acusados de favorecimento, o que exigia recontagem, além das interpelações agressivas dos candidatos e fiscais de partido.

O cenário da apuração era uma mistura de celebração coletiva com bagunça festeira: a justiça eleitoral instalava centenas de cidadãos munidos de autoridade provisória num ginásio esportivo, formando bancadas com carteiras escolares, e ali, neste ambiente improvisado e precário, contávamos manualmente voto a voto, num esforço contábil para que não houvesse dúvidas no final. Sempre havia.

O lugar se transformava numa verdadeira zona de guerra. Milhares pessoas (servidores do judiciário, policiais, juízes, promotores, fiscais dos partidos, candidatos, jornalistas, curiosos etc, etc) acompanhavam o processo como se estivéssemos numa final de copa do mundo. Muito barulho, muita expectativa e muita tensão. Tinha lá sua graça e emoção, mas posso afirmar que o resultado final era sempre carregado de fraude e artificialismo. Aos perdedores, o inconformismo; aos vencedores, o escárnio e a pecha de ladrão.

Nós, os apuradores, éramos o centro das atenções e das vilanias. Na mesa, em pouco tempo de interação, sabíamos acerca das preferências eleitorais de cada um, mas a vigilância era intensa, sendo conveniente fazer a contagem da melhor forma, sendo correto sempre, sob risco de impugnação da urna e evitar horas perdidas para recontar tudo, fazendo os números bater com o mapa da urna. 

Por várias vezes, pra melar o jogo espertinhos jogavam cédula fora ou as engolia. Não era fácil.

Mesmo assim, a camaradagem entre os apuradores que acabava se criando entre os apuradores durante os dias de trabalho, fazia com que todos levassem alguma falha na vista grossa, principalmente quando se tratava de preferências pessoais. "Deixa eu passar um voto por debaixo dos panos, afinal o candidato é meu amigo..."

Havia divergências por filigranas, lógico, pois a desconfiança de fraude era geral e assim, volta e meia, havia gritos, sopapos e intervenção policial.  

Os votos majoritários eram de fácil apuração. O eleitor marcava com um xis num quadro impresso na frente do nome do candidato, bastando, dessa forma, separar nominalmente os votos e fazer a contagem final. 

Ainda assim, nem sempre a cédula vinha marcada corretamente. A identificação do voto era colocada erroneamente ao lado ou em cima dos nomes. A maioria do eleitorado ficava perdido diante de um papel oficial repleto de marcações e regras na quais ele teria que preencher sem rasuras. Estamos falando de eleição em Campo Grande nos anos 80. Imagine o interiorzão, onde todos se conheciam, eram amigos e vizinhos, parentes etc. A fraude fazia festa...

A rigor, os votos preenchidos incorretamente (a maioria) devia ser, por lei, anulados, mas os juízes instruíam os mesários para que avaliássemos a “intenção do voto”, formalizando um consenso sobre sua validade ou não. “Olha esse voto, o cara escreveu Tonhão do Tiradentes no canto da cédula, vamos ver se tem algum candidato com o nome de Antonio ou Tonhão que mora no Tirandentes...”. Se tivesse, o voto era validado. 

Legalmente era errado, mas o que se há de? Estamos no Brasil.

Na contagem dos votos dos candidatos proporcionais (vereadores, deputados, senadores)  o drama social sobressaia como a concretização da metáfora de nossa pobreza estrutural. 

O eleitor podia escrever o número ou o nome do escolhido, ou ambos. Ali é que nos deparávamos com a realidade brasileira. Na verdade, com a tragédia da democracia, com grande número de eleitores confusos, pouco alfabetizados, sem nenhuma familiaridade informativa de como proceder na chamada cabine indevassável, sem poder solicitar esclarecimentos aos mesários, fazendo vir à tona, por meio das cédulas preenchidas com garranchos, riscos obscuros, às vezes palavrões, em hieróglifos secretos, o retrato sem retoques de nossa sociedade caótica, sem instrução, que escolhia candidatos por mera formalidade, sem compreender a extensão de seu gesto. 

Para um jornalista iniciante na carreira era uma experiência gratificante, pois podia verificar ao vivo, sem filtros, de forma transparente, quem era o/a eleitor(a) brasileiro (a). Era um horror. Mas era este o País que tínhamos. 

Em dois pleitos eleitorais fiquei treinado na decifração de escritas enigmáticas. Passei a orientar inclusive juízes na interpretação daquela maçaroca que se chamava “intenção do eleitor”. Às vezes o cidadão rabiscava números e nomes que demandava horas e grupos inteiros para se chegar à uma conclusão. Outras vezes decidíamos validar um voto esquisito para beneficiar candidatos obscuros, com chance zero de se eleger. Afinal, tínhamos coração.

O voto manual em cédulas era o sepultamento de qualquer noção de democracia. Se fossemos rigorosos na apuração e cumprir a legislação como mandava o figurino mais de 70% dos votos eram anuláveis. Este era o fato. Que piorava com os longos dias de apuração e anuncio dos resultados, que sempre terminava em judicialização e polarização duradouras.

Claro, com o voto eletrônico isso acabou. Acho que o sistema passou a ajudar o eleitor na hora da escolha, não somente pela simplificação do sistema, como pela rapidez da divulgação dos resultados. Posso dizer que também ajudou a encobrir a tragédia de nosso semi-analfabetismo, a pobreza cultural, a falta de esclarecimento, não permitindo que possamos mais fazer, a cada eleição, uma radiografia de nosso subdesenvolvimento. 

Enfim, em tudo há ganhos e perdas. Olhando para trás, acho que o voto eletrônico foi um passo à frente. Se existe fraude ou não há aí um campo de incerteza, mas acredito que as eleições sejam mais limpas, mais seguras, menos caóticas do que eram no passado. 

Se acho que é o caso de imprimir comprovantes para efeito contábil e mudar radicalmente a estrutura que funciona hoje? Esta discussão é extensa, demorada e cansativa. Acho que vamos andar em círculos. Parece que o Bolsonarismo deseja perpetuar uma zona espectral em nossa realidade institucional. É cansativo. Prefiro voltar a assistir filmes da Disney...


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