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  Dante Filho Nada mais apropriado do que ler, neste momento, a “História da Solidão e dos Solitários”, de Georges Minois (editora Unesp, 50...

O Homem Só

 



Dante Filho

Nada mais apropriado do que ler, neste momento, a “História da Solidão e dos Solitários”, de Georges Minois (editora Unesp, 503 páginas), principalmente na travessia de uma pandemia cujo grande apelo é manter-se isolado, longe dos contatos mundanos, temendo que o convívio social estreito possa aumentar o contágio da doença e, em muitos casos, levar à morte. 

O livro deste historiador das mentalidades, autor de obras como a “História da Velhice no Ocidente”, “História do Ateísmo”, “História do Futuro” e tantas outras obras com a mesma potência analítica, revela que o debate em torno de um assunto meramente curioso para muitos – a solidão e os solitários – está em voga na sociedade moderna há mais de dois mil anos. 

Minois aprofunda esse tema percorrendo caminhos que vêm desde a antiguidade clássica até a era do hiperconsumo, o que pode ser um bom estímulo para  estudiosos de todas as áreas, das mais diversas tendências. 

Aristóteles, por exemplo, definiu o homem como um animal social, incapaz de viver isolado, enquanto outros filósofos da época e posteriores a ele consideravam ser necessário manter-se em retiro para dar provação e consistência à sabedoria. 

Há casos e casos. Diógenes era considerado maluco, vivendo nas montanhas, comendo folhas e ervas. Aristóxenes era aquele que ria sozinho e, quando perguntavam o porquê,  respondia  que o motivo “era exatamente por estar sozinho”. Demócrito era outro que pregava em praça pública o retorno dos homens a si mesmos, sem perceber o paradoxo que o envolvia. 

E assim vai...

Os primeiros sinais de eremitismo e cenobitismo apareceram nas franjas do mar mediterrâneo, na antiguidade clássica, criando uma mística em torno dos solitários e de seus poderes mágicos de cura e profecia, desenhando as inúmeras facetas da civilização em seus primórdios. Antes disso, é provável que optar pela solidão era o mesmo que decidir morrer nas garras de feras, de doença e de fome.

Mas foi Jesus que consagrou a grande onda rumo ao deserto, à solidão ascética, dando status ao “homem só”, conferindo a esse personagem uma grandeza jamais vista, influenciando gerações de anacoretas, padres revoltados, misantropos, enfim, estabelecendo um corte social que, de certa maneira, derrubava um consenso social de que o solitário era uma pessoa perigosa. 

Claro que a opção de evadir-se para qualquer canto do mundo e fugir de outras pessoas para viver em sofrimento denota transtornos mentais na maioria dos casos, mas em outros dava embasamento a fundamentos filosóficos, convicções pessoais, posturas místicas, o que abrandava a visão negativa do solitário convicto. 

A grande pegada de Minois é que ele aprofunda o tema e o desdobra nas suas mais intensas variações e complexidades, garantindo aos leitores um alargamento de visão sobre o fenômeno, principalmente quando personalidades públicas utilizam do estratagema da solidão para ganhar fama, dinheiro, prestígio. 

A “História da Solidão...” percorre assim vários séculos, compilando obras, textos,  referências bíblicas e estudos aprofundados deste aspecto da natureza humana, tudo para mostrar que a vida social é a regra, mesmo compreendendo que do ponto vista biológico o homem nasce, vive e morre só. 

“A vida é luta pela sobrevivência e pela perpetuação da espécie, e nos processos de seleção natural o outro é ao mesmo tempo o concorrente e o parceiro sexual, mas a natureza não previu nenhuma estrutura cerebral para a fusão das consciências”, explica Minois, acrescentando que gregarismo depende da condição solitária e vice-versa. 

No decorrer da história o embate entre vida solitária e mundanismo deixa claro que a necessidade da solidão formatou a consciência humana e o processo civilizatório. 

É certo que sempre existiram os solitários profissionais, indivíduos que acreditam que esta é uma pose que atrai fiéis, admiradores e fanáticos, mas também é verdade que o ato de criar, imaginar, dialogar consigo mesmo, além de estabelecer critérios morais de sobrevivência, trata-se sempre de mergulhar no próprio oceano psíquico, à qual é inalcançável pela multidão próxima ou distante. 

O historiador francês constrói a estrada de sua tese surpreendente, com texto elegante e didático, para demonstrar que o isolamento social não tem nada a ver com a solidão strictu sensu, pois são dimensões opostas da mesma realidade. 

O homem pode se sentir sozinho no meio de grandes multidões, bem como se sentir integrado estudando em uma biblioteca: o fundamental é como ele constrói suas relações com o chamado mundanismo e quais são suas opções categóricas para se aproximar dele ou de manter distância. 

Assim, o livro destaca os fundamentos filosóficos que a história ocidental percorre desde os gregos antigos, passando pelos pensadores da idade média, da Renascença e dos tempos modernos, unindo todas as correntes e pontos de vista na estrutura do “colapso ontológico” que vivemos. 

Certamente, sua crítica aos mistificadores da solidão é contundente à medida que demonstra que é coisa bem antiga vender a imagem de “padre do deserto” para explorar a crença dos incautos. 

Claro que, nesse meio, há gente sincera e bem-intencionada, que fez do recolhimento uma forma de viver. Mas isso sempre foi para os fortes e corajosos. 

Neste aspecto, é preciso reconhecer que a solidão transformou-se num produto de consumo que se materializa na onda das terapias alternativas, livros de auto-ajuda,  ou até mesmo do turismo de retiros controlados que pregam o afastamento e o celibato provisório como lenitivo para agruras cotidianas. 

Uma frase do escritor J.M.G. Le Clézio ganha destaque no livro de Minois: “O homem, privado de unidade, desequilibrado, despossuído de si mesmo, se encontra tal como no começo: tomado por terrores, marcado pela angústia, pressentindo os perigos e os abismos que não pode compreender”.

Ou seja: atravessamos séculos e séculos para chegar ao mesmo lugar. 

A leitura de a “História da Solidão e dos Solitários” é uma empreitada de fôlego, que surpreende e emociona (até) porque dá sentido a uma aventura que segue sem que haja conclusão final, visto que a construção do futuro depende da argamassa do passado, cujos temas que encantam e afligem a alma humana não se alteram na linha do tempo.


Diante da obra, a conclusão não poderia ser outra: o “homem só” ou é um mentiroso,  ou um canalha ou um santo. 






















Tornou-se invisível num dia de sol Calhou de não estar em lugar nenhum Permanecendo ausente dos acontecimentos sem ser percebido, o...

Invisível, um poema




Tornou-se invisível num dia de sol
Calhou de não estar em lugar nenhum
Permanecendo ausente dos acontecimentos
sem ser percebido,
oculto no porvir.
Assim, se foi esquecendo
Cortando bitucas ao meio
nas brechas do instante
embrenhado nas lacerações do tempo
seguindo em direção
do estou indo embora para nunca mais voltar...
Passou a viver para sempre em sua ausência
que substantivava a permanência 
e a  leveza do vento...
estava no presente 
no passado
no futuro fugaz
Longe do alcance das mãos,
Inacessível ao olhar
No ponto exato do som 
(Que se abria no intervalo do silêncio)
De cada palavra dita,
No estalar das frases,
pela língua que se encerra: maldita.
Ficou assim, não sei quando e como.
Deu de caminhar pelas bordas
Habitando sarjetas,
Revirando livrarias
Esgueirando pelos becos
Perdido nos labirintos do acaso
Nas sombras do medo
Fazendo da solidão um lugar de paz.
Sendo assim: invisível – nada - zero
Trucidando palavras 
farrapo indigesto
Um corpo feito na direção contrária do olhar
Uma ideia sem importância,
Um ponto inútil perdido
Na escuridão do dia.
(sai pra lá, sujeito nojento)



Recentemente, a Associação dos Magistrados Brasileiros encomendou à Fundação Getúlio Vargas e ao Instituto de Pesquisa Sociais, Polític...

Mansour Karmouche: O Lado em que a OAB está



Recentemente, a Associação dos Magistrados Brasileiros encomendou à Fundação Getúlio Vargas e ao Instituto de Pesquisa Sociais, Políticas e Econômica- IPESPE – um amplo estudo sobre a imagem do judiciário brasileiro. 

Esse trabalho é uma referência clara sobre como a sociedade percebe a atuação do sistema judicial brasileiro. 

A resposta ao nosso trabalho é positiva: a Ordem dos Advogados do Brasil(OAB) tem 66% de credibilidade, superando todas as demais entidades correlatas. 

Isso dá orgulho, mas gera muitas responsabilidades.

A pesquisa mostra que somos vistos como defensores dos advogados,  leis e da Constituição, além de  garantidores do Estado Democrático de Direito. Estamos no topo. Contudo, como somos mais vistos, somos também mais cobrados. 

Por isso, consideramos que esse índice isso não deve servir para ufanismos. 

Sabemos que muito há de ser construído para que as maiorias possam ter um instrumento que os defenda da exclusão, do sentimento de impotência, da falta de perspectiva com o futuro do País e – acima de tudo – de esperança. 

Somente assim conseguiremos atingir um estágio de desenvolvimento econômico social que afaste de vez a palavra “desigualdade” do vocabulário nacional. 

Nós, que representamos os operadores do direito, sentimos que o processo de superação dos óbices de nossa sociedade ainda levará muito tempo. 

Estamos apenas no começo de uma história. A vida da OAB é apenas uma fração de segundos na linha do tempo quando se imagina os desafios que teremos que enfrentar daqui pra frente. 

Claro que estamos deixando um legado e subindo vários degraus que nos fará atingir o mesmo patamar de países avançados.

Ainda que reconhecendo todos os méritos e avanços do nosso Judiciário sabemos que há muito a ser realizado, muito a ser construído e ser superado. 

Parte considerável de nossa sociedade ainda vê o Judiciário como um Castelo inexpugnável, sem portas de entrada, com uma burocracia labiríntica, com muitos corredores, pompas e repletos de solenidades. 

Neste aspecto, acreditamos, humildemente, que o nosso judiciário deve aprofundar sua política de olhar mais pra fora do que pra dentro. Deve colocar o cidadão e a cidadã como ponto de referência. A sociedade deseja um judiciário menos formalista e mais célere. 

Deseja um judiciário que dê mais segurança jurídica, gerando mais certezas do que dúvidas. Cada sessão do STF é visto como um jogo, no qual as variantes interpretativas de cada Ministro são acompanhadas com grandes torcidas.

Sabemos que os tempos em que vivemos toda a crítica é fácil, toda solução é simples, cada pessoa tem um juiz, um desembargador e um Ministro do Supremo dentro de si. 

No entanto, quem vive o dia a dia da Justiça sabe como sua administração é complexa, como a doutrina e o ordenamento jurídico exigem mentes privilegiadas além de trabalho abnegado para que os problemas brasileiros sejam superados. 

Mesmo assim, há que se simplificar os procedimentos, há que se buscar uma linguagem mais direta e menos rebuscada nos processos e sentenças, há que se facilitar o amplo entendimento dos mecanismos legais, criando um ambiente de aproximação real entre o judiciário e a cidadania. 

Estamos no começo de uma nova Era. Os avanços tecnológicos estão cada vez mais aproximando pessoas e tornando os pontos de conflitos de opinião mais evidentes. 

Temas relevantes como o direito à privacidade, a liberdade de expressão e o julgamento dos fatos sem filtros ideológicos, feito de forma direta e imediata, serão cada vez mais determinantes e estarão cada vez mais na ordem do dia. 

Por essas e outras razões, o sistema de Justiça deverá ser objeto de modernização intensa, atualização permanente e renovação constante. A OAB tem efetivos compromissos com a democracia e não concorda com pré-julgamentos que ultrapassem os limites civilizatórios

Estes desafios deverão ser enfrentados com serenidade e apego à tolerância. Há que cuidar das palavras e de sua difusão pública. A sociedade tem que compreender com clareza o lado que a OAB se encontra. Estaremos sempre ao lado da cidadania, do pensamento diversificado e acima das paixões políticas momentâneas. 

Os retrocessos autoritários deverão ser rechaçados no nascedouro. Sem aprofundamento da ordem democrática perderemos o rumo e não avançaremos. 

Presidente da OAB/MS

O processo de desenvolvimento de uma cidade tem fatores imponderáveis. Muitas vezes o poder público realiza uma intervenção urbana e...

Marquinhos Trad: O futuro em construção


O processo de desenvolvimento de uma cidade tem fatores imponderáveis. Muitas vezes o poder público realiza uma intervenção urbana em determinada área, esperando obter determinado resultado, mas o movimento espontâneo da população a coloca em outra direção. 


"conseguimos realizar uma obra de mais de R$ 60 milhões sem que houvesse qualquer escândalo proveniente de suspeitas de corrupção."


Todo gestor de uma grande cidade aprende que a vontade de seus cidadãos e cidadãs é imperativa para induzir a qualidade de seu crescimento. Cabe à administração municipal orientar procedimentos, gerir interesses, ordenar fluxos de crescimento e atender as demandas sociais.

Trata-se de operação complexa porque as instituições e as leis que regulam uma cidade nem sempre estão de acordo com aquilo que o dinamismo interno da cidade induz e exige. 

O asfaltamento de uma rua residencial, por exemplo, poderá, com o passar dos anos, fazer surgir uma inusitada via comercial, alterando sua finalidade. Ou vice-versa: a implantação de uma grande avenida, às vezes, se transforma em área de lazer para os moradores, que a utilizam para caminhadas e encontros sociais. 

O centro de Campo Grande vivenciou esta experiência ao longo do tempo. Sua aptidão original foi se transformando à medida que a cidade crescia, embora mantivesse, na essência, sua vocação para o comércio. Foi assim que a Rua 14 de julho - e todo seu entorno - ganharam vida própria, definindo a identidade cultural de Mato Grosso do Sul. 

O centro tornou-se o palco do chamado “jeito moreno” de ser, lugar para onde se confluía pessoas de todas as origens, formação e condições sociais. A rua e a história de Campo Grande passaram a integrar o mesmo fenômeno social, interagindo e mesclando nosso povo, dando-lhe perspectiva e rumo.

Neste aspecto, a Rua 14 de julho, ao longo de mais de um século, transformou-se em ponto de encontro, região comercial, local de moradia, tornando-se o espaço urbano vital de toda a cidade. Ali a cidade se revela com todas as suas nuances e peculiaridades.

Mesmo assim, conforme novos bairros foram surgindo e novos traçados foram delineados, a cidade redefiniu-se, impactando de maneira negativa toda a área central. Foi assim que, já na década de 70, projetou-se a primeira reforma do miolo da cidade. Ela não avançou como se desejava, e ficou apenas na  implantação do calçadão da Rua Barão do Rio Branco. 

Com crescente degradação dos imóveis e das malhas viárias, várias administrações deram início aos estudos de modernização do centro, a partir da revitalização da 14 de julho. O projeto teve a fase de maturidade e, finalmente, conseguimos fechar o acordo de financiamento com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para executar o tão sonhado projeto. 

Cabe salientar que o Reviva Campo Grande não se trata apenas de uma obra física de reforma. Ela na verdade é um novo conceito de urbanização que certamente vai se irradiar culturalmente por toda a cidade, conforme a passagem do tempo. 

Como afirmamos no início desse artigo, o processo de desenvolvimento de uma cidade é revestido de fatores imponderáveis. Neste sentido, o modelo implantado na 14 de julho poderá servir de referência urbanística para toda cidade. O centro funciona como um espelho do que serão os bairros no futuro.

Esse será o legado que pretendemos deixar para as futuras gerações. Tenho muito orgulho de entregar essa obra para nossa população porque ela impactará positivamente não somente na nossa economia, como principalmente na nossa auto-estima. Trata-se de um trabalho que mostra a ousadia de uma gestão que não teve medo de enfrentar o desafio, com todos os riscos e desgastes políticos imaginados no decorrer do processo de execução. 

Reitero que conseguimos realizar uma obra de mais de R$ 60 milhões sem que houvesse qualquer escândalo proveniente de suspeitas de corrupção. 

Vencemos e estamos orgulhosos de nossa equipe de trabalho que soube atuar com harmonia e paciência para vencer todos os obstáculos advindos da incompreensão de alguns setores da sociedade. O Reviva Campo Grande agora tornou-se um símbolo de esperança que homenageia o passado e projeta nosso futuro. 

*Prefeito de Campo Grande(MS)


Nas últimas horas ouvi de pessoas de todas as tendências de pensamento político uma opinião semelhante, sem grandes modificações semânti...

Dante Flho: O STF virou um partido político


Nas últimas horas ouvi de pessoas de todas as tendências de pensamento político uma opinião semelhante, sem grandes modificações semânticas: o SFT, por 6 votos a 5, modificou, contra a vontade da sociedade, o entendimento sobre a pena de prisão após o julgamento em segunda instância para mandar um recado ao poder incumbente.  

O Judiciário está contrariado com o Executivo.

De acordo com este parecer, Bolsonaro (e seu entorno) passou muitos meses falando “merda” e agora terá que atuar num quadro politicamente mais complexo, tendo seu principal antagonista (Lula) aos seus ouvidos, a lhe atazanar. 

Ou seja: o presidente provocou demais as instituições democráticas e agora passará pelo supremo teste de ter conviver com o contraditório. 

Não sei se essa avaliação de momento será avalizada no futuro. Aliás, apesar dos adivinhos de plantão, não sabemos como o caldo da polarização que está instaurada lidará com essa realidade. 

A reação do Congresso surpreendeu. Ao colocar a PEC da segunda instância de imediato em discussão parece indicar que o País corre perigo caso essa situação perdure por longo tempo. O brasileiro está cada vez mais raivoso e certamente alguém lá na frente riscará o fósforo fatal que nos transformará num lugar de horror e sedição. 

Por enquanto, não vejo chance de Lula & sua turma conquistar o centro político. Se ele radicalizar e Bozo se mostrar domesticável pelo establishment,  o Lulismo certamente ficará no nicho das esquerdas tradicionais. 

Se o presidente e seus familiares acreditarem na estratégia do silêncio dócil e vitimista, ele poderá ficar do tamanho que está e crescer nas frinchas da melhora gradual da economia. 

Ainda a ver. 

Tudo é incerto, porém. Nas próximas semanas veremos a dissipação de alguma fumaça e, aí sim, mexer com os búzios para adivinhar o que poderá acontecer lá na frente, sobretudo nas eleições municipais. 

Ontem FHC mostrou-se sensato ao declarar que o centro tem que se organizar para se tornar opção de poder. O problema é que cada vez mais menos pessoas ouvem o ex-presidente. FHC tornou-se objeto descartável no ambiente da política institucional, infelizmente. 

De tudo aquilo que aconteceu, uma coisa é certa: O STF tornou-se um partido político. Dividido internamente, mas ainda assim um partido. Havendo renovação de seus quadros, a Constituição será reinterpretada ao sabor da maioria ocasional. Nos próximos dois anos Bolsonaro indicará dois novos ministros. Ficará mais confortável. 

Mas e o Brasil? Ficará melhor? Mais decente? Mais justo? Menos corrupto? 

Essas são as questões, Hamlet.




De repente, o casamento acabou. Fim. Foi tudo muito rápido. Mas os fios viscosos entrelaçados nas veias, nas entranhas, nas mucosas, nos...

Dante Filho: Lembra de mim?


De repente, o casamento acabou. Fim. Foi tudo muito rápido. Mas os fios viscosos entrelaçados nas veias, nas entranhas, nas mucosas, nos dramas diários, nas tramas do tempo, tudo estava lá há muito tempo, machucando, intoxicando, incomodando.

Dias antes, havia acontecido aquela discussão dura e resistente. Ela deu um soco na mesa da cozinha e gritou: “fascista!”. Ele devolveu no mesmo tom: “petralha!”. Ela bateu em seguida: “canalha!”. Ele lacrou: “babaca!”. 

Bateu a porta e saiu de casa. Foi dar uma volta no quarteirão. Fumar.

A última imagem ficara na cabeça: mostravam os dentes e salivavam na direção um do outro. A dança das ofensas ultrapassou a troca de rimas pobres, os chavões de sempre, o bater de portas, os chutes nas cadeiras e, finalmente, os palavrões de praxe, ensaiando uma luta corporal que ficou apenas nas ameaças das calistenias agitadas de um casal em fúria. 

Esta foi a cena do fim de tudo. O amor era ódio, as palavras eram feitas de raiva. E assim foi... assim ficou muito tempo... assim o tempo passou...

A memória humana tem sempre uma narrativa conveniente. Os anos de chumbo foram felizes. A gente se encontrava nas passeatas de protesto, ríamos quando era hora de fugir da polícia, falávamos bonito nas reuniões do partido, nos bares, nas festas; era um gozo, era lindo ver a gente gritando as palavras de ordem contra a ditadura, lutando contra o sistema, querendo mudar tudo, mudar o mundo, mudar o mundo...

Lembra da camiseta vermelha? Do pôster do Chê? Do Bob Marley? Do nosso jeito de ser? Lembra? Lembra? A gente se amava, a gente ouvia música, a gente viajava...Lembra?

Lembra do comício das diretas-já? A Praça da Sé lotada, e nós, com aquela bandeira linda do Brasil, abraçados chorando cantando caminhando e cantando... puxa...! era lindo, a gente se amava, tudo era bom, tudo tudo tudo era divino e maravilhoso. 

Lembra da nossa primeira briga? Você achava que era melhor seguir na Frente Ampla do MDB e eu achava que estava na hora de romper com a burguesia porque ela estava rendida, vendida, conciliando como sempre, e era hora da classe trabalhadora assumir o poder e você dizia que isso era porralouquice e eu dizia chega chega você dizia ainda é cedo ainda é cedo e eu dizia que a revolução era um processo e não ruptura
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como eu gosto de lembrar disso...
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como eu gosto de lembrar de tudo isso...
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Lembra da gente? Ficamos mais de um mês sem se conversar
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depois tudo se acomodou; a gente se amava dentro daquele apartamento
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eu como você; eu comia você e você me comia; a gente se amava e a gente voava nas asas da Panair...lembra? 

Lembra de mim? 

Quando foi mesmo que toda essa história começou? Não a NOSSA “história”, que foi uma esbórnia de alegria e juventude, cabelos ao vento e muita gente reunida...
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essa outra HISTÓRIA, a de 2013, tudo por causa de 20 centavos, quando a NOSSA TURMA levou porrada na avenida DE SUA TURMA, porra!, DE SUA TURMA!!!!
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o que foi aquilo, companheiro? quando nós, você e eu, nós e eles, ficamos diferentes, pensando o mundo de outro jeito, gritando um com o outro, querendo ganhar a luta na marra, com argumentos de duas palavras
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quando foi mesmo? 
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Lembra de nós? 
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Tudo foi ficando corrosivo. A raiva chegou devagar. Foi entrando, foi penetrando, foi ficando. As discussões políticas ganharam pouco a pouco todos os espaços em nossos ventres. 

Os corações foram se dividindo, a vida foi se partindo, o amor deixou de ser palavroso e transbordante, largo e aberto, e um silêncio cuidadoso começou a ocupar todos os espaços de nossas vidas.

O som ao redor era sufocante. Bastava um olhar diferente na hora do Jornal Nacional, que, de imediato, um manto de desconfiança mútua abraçava nossas diferenças e a eterna discussão começava. “Fascistinha!”. “Petralha!”

Primeiro, os comentários inocentes, as impressões momentâneas, depois as ironias; em seguida, as piadinhas de mau gosto; depois, gritos e, no final, a batida seca na porta do quarto. No dia seguinte, ao levantarmo-nos tudo era frio e seco. 

Aí veio o golpe. Aí veio impeachment. Aí veio a semântica. Aí veio a narrativa cacofônica. Aí veio aquela coisa na qual a razão desmorona e todos estão certos e errados ao mesmo tempo. 

Nos grupos de watts nós brigamos muito. O pai brigou com a mãe, depois brigou com os irmãos, depois brigou com os primos que brigou com a gente e a gente foi brigando com os amigos e nada sobrou diante de tanta ofensa, de ódio e raiva – sempre raiva – burro louco canalha fascistóide ladrão golpista

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Primeiro, acusaram; depois, prenderam; por último, veio a eleição. Nossas vidas foram invadidas pelas larvas e pelas chamas do ódio; no meio, os insultos, as brigas, os nervos à flor da pele; nosso casamento era esse tumulto dentro da multidão de todas as nossas raivas e loucuras, constituído de disputas, que, às vezes, parecia comédia... e assim o teatro encenado no palco vazio seguia sua marcha na direção das incertezas, dos temores, dos debates inócuos, até descobrirmos que éramos dois monstros habitando o mesmo pântano.

Depois ficamos nus. Descobrimos que dentro do guarda-roupa nada que havia servia, as cores perderam os sentidos, não dava pra tocar fogo no apartamento; não dava pra pensar, a gente só sentia ódio, eu quero ir embora, quero dar o fora e não quero que você vá comigo, fascistinha, comuna, vai pra Cuba e seja feliz na Venezuela sua tonta, seu tonto...
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Depois tudo piorou. Tudo foi quebrando, esfacelando, triturando. Ficamos cada vez mais fragmentados, caquinhos de vidro com as pontas para cima. Todos os filmes começaram a ficar em preto e branco. Pare de zurrar, porra?! Você adotou algum bandido de estimação, caralho?! Vai chupar o cu de sua mãe, corrupto! Porco! Asno! #elenão #elesim. 
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Mensagem: Olha, não fala mais comigo, reacinha. Você é fascistinha! Você é uma merda! Fica com seu pessoal que eu fico com o meu! Nunca mais quero ver você e sua família Adams!
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Lembra de nós? 





O Ministro Gilmar Mendes quer que o hackeamento das informações supostamente verdadeiras que estão sendo divulgadas a conta-gotas pelo si...

Dante Filho: A vida como ela é....


O Ministro Gilmar Mendes quer que o hackeamento das informações supostamente verdadeiras que estão sendo divulgadas a conta-gotas pelo site Intercept possam ser usadas como prova contra o Ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o Procurador Deltan Dallagnol, com o fito de anular inúmeras sentenças da Lava Jato.

É uma tese e tanto. Minha tendência é concordar com Mendes no atacado. Ele enxerga relevância naquelas conversas esquisitas e coloca em dúvida a imparcialidade de Moro quando juiz da causa. Caso tudo seja verdade, é irrefutável considerá-las como documentos válidos para julgamento.

O problema é convencer a maioria da Corte Suprema e parcelas ponderáveis da sociedade de que ele está correto.

O tempo dirá. Penso que Mendes vai perder. Porque o precedente poderá abrir as portas do inferno.

Minha opinião é de que não vivemos num mundo de santos e que o voluntarismo da turma da Lava Jato pode ter exacerbado o ânimo punitivo da pessoas (os procuradores de Curitiba e a PF) e as tenham levado a agir como uma matilha selvagem em busca de presas graúdas.

(Não vou estender aqui comentários sobre a grande picaretagem de Verdevaldo e do Intercept, deixando para outro momento as devidas considerações que hei de fazer).

Agora, vejam como são as coisas, hoje (dia 07 de outubro) ficamos sabendo que o auditor fiscal Marco Aurélio Canal, preso por estar envolvido com a prática de suborno dentro da própria operação Lava Jato, gravou documentos sigilosos da Receita Federal em vários HDs, dentre os quais envolvendo Gilmar Mendes, e repassou para várias pessoas com a recomendação de vazá-los caso algo aconteça com sua vida.

Digamos que esse papelório secreto venha à tona, repassado por uma fonte "anônima", e mostre para o Brasil e o mundo nebulosas transações que supostamente envolvam Mendes e amigos.

Será que valerá como prova nos tribunais? Será que o Ministro resistiria?

Aguardemos...
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