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  Dante Filho*   Estou assistindo à série “II Guerra Mundial em Cores” (Netflix, produção britânica de 2009) venho atravessando madrugadas, ...

Lula e Bolsonaro: coronacordo para manter a polarização

 



Dante Filho*

 

Estou assistindo à série “II Guerra Mundial em Cores” (Netflix, produção britânica de 2009) venho atravessando madrugadas, capítulo a capítulo, entre fascinado e assustado. 

As imagens colorizadas do cenário de guerra dão certa ênfase terrorífica ao acontecimento mais dramático de nosso tempo, do qual somos uma espécie de filhotes geracionais, provocando aflições e perplexidades. 

Foi neste contexto que foi "inventado" o chamado mundo pós-moderno. O saldo não é nada edificante.

Até agora, o momento mais impactante foi o que conta a história do "Pacto de Molotov" e a tentativa das tropas Alemãs, tempos depois, de conquistar Stalingrado. 

Muito já se falou sobre este capítulo específico da II guerra, mas a narrativa da série da Netflix, de certa maneira, ajuda a jogar um facho de luz sobre a política de um modo geral, especificamente a brasileira dos últimos dias. 

Nada é impossível no mundo dos acordos e dos interesses estratégicos de longo prazo.

Claro que é preciso dar um desconto  neste tipo de paralelismo, mas o evento que atravessou os anos de 1939 e 45 pode ser visto como uma metáfora das possibilidades e das conveniências políticas na sua incessante luta pelo poder a qualquer preço. Vidas humanas não importam.

Se até Hitler e Stalin sentaram-se à mesma mesa para combinar como dividiriam o mundo, nada impede que se discuta o acordo tácito que vem sendo engendrado entre Lula e Bolsonaro para enfrentar a batalha eleitoral de 2022. 

Acho estranho, neste aspecto, quando recebo críticas de que se trata de devaneio ou teoria da conspiração. 

Quem leu o último livro de Zygmund Bauman, “Retrotopia”, talvez possa compreender com mais clareza esse elemento marcante da atualidade: a “utopia do passado”, sintoma da perda de esperança, de reterritorialização dos valores e da necessidade de construir um futuro dando passos para trás, apegando-se, enfim, com fanatismo a ondas regressivas em todas as esferas da vida. 

Sei que toda leitura política carrega este risco de elaboração meio fantasiosa de nossas experiências históricas. Ninguém pode adivinhar o desdobramento dos acontecimentos do tempo. Mas aprendemos a ler sinais, ouvir ruídos e a perceber a tessitura de fios invisíveis formando um desenho mais ou menos crível da realidade que vai se formando. 

Quando Hitler e Stálin formalizaram o pacto de não agressão Germano-Soviética, logo no início da segunda grande guerra, a perplexidade foi geral. Como? Inimigos ideológicos viscerais, antípodas mortais, como puderam chegar a esse ponto? Os “especialistas” da esquerda e da direita ficaram sem chão.

Mais tarde perceberam que Hitler e Stálin estavam dividindo domínios e territórios, enfraquecendo inimigos, cravando seus dentes em nacos de uma Europa polarizada, ampla e profundamente ressentida com os despojos da guerra anterior. 

Mais tarde Hitler e Stalin jogaram os termos do acordo de não agressão no fogo da lareira e decidiram se enfrentar militarmente. O cenário do embate deu-se em Stalingrado. Foi uma escolha proposital. Hitler queria ferir o ego de Stalin derrotando-o na cidade que levava o seu nome. Stalin ordenou aos seus generais que não admitiria essa derrota. 

Stalingrado foi cercada e destruída. Resistiu. Nenhum dos lados cedeu. Resultado: 1 milhão e 800 mil mortos. Tudo por vaidade. Tudo pelo poder. Tudo pelo domínio e pela satisfação pessoal de dois ditadores sanguinários que aceitavam qualquer crime, menos a derrota. A série da  Netflix vale por esse episódio. 

No meu caso, não consegui deixar de pensar na nossa paróquia. Lula e Bolsonaro estão se preparando para se enfrentar, tendo já a esta altura formalizado um “Pacto de Molotov” particular e disfarçado, sonhando que o quadro de 2018 repetirá sem grandes alterações de roteiro.

Mas para que isso aconteça terão que rifar Moro, Doria, Ciro, Boulos e mais alguns personagens periféricos,  transformando-os em vítimas colaterais – o que já vem ocorrendo, num revertério surpreendente capitaneado pelo STF -, interditando o centro político, deixando apenas  despojos para que os eleitores possam optar, mais uma vez, por apenas dois pólos, que representam a linhagem do charlatanismo e do populismo que impedem o pleno florescimento de nossa democracia capenga. 

Lula e Bolsonaro apostam em manobras ora invisíveis, mas que prosperam à medida que o Centrão avança com voracidade, ocupando espaços, azeitando a máquina de corrupção, deixando as instituições de joelhos, sem margem de manobras para uma oposição confusa e despreparada,  sem eixo nem propósito. 

O Corona Vírus, assim, pode ser reinterpretado como metáfora de nossa política. Ela penetra em nossos corpos, contamina o ar que nos rodeia, causa asfixia, não deixando gravidade nem espaço de atração para escolhas que nos coloque fora da esfera dos piores cenários.

Lula e Bolsonaro, por enquanto, se mostram assintomáticos, apenas causadores de uma “gripezinha” aqui e ali, mas seguem firme para invadir com fúria o organismo do hospedeiro, deixando-o em estado grave, num País que há muito está na UTI.


*jornalista e escritor


  Dante Filho*   É provável que a opinião pública de Mato Grosso do Sul passe a ouvir cada vez mais o nome de Eduardo Riedel no dia a dia. E...

A questão Eduardo Riedel e o futuro do Governo

 




Dante Filho*

 

É provável que a opinião pública de Mato Grosso do Sul passe a ouvir cada vez mais o nome de Eduardo Riedel no dia a dia. Ele foi escolhido por Reinaldo Azambuja para ser o Governador de fato, tornando-se como se diz um “supersecretário”. Riedel enfeixa o poder nas mãos como nenhum outro secretário de estado na breve história de nosso Estado. 

É preciso reconhecer-lhe os atributos de bom gerentão. E com a vantagem de não ter a mão pesada nem aquela sanha perseguidora de seu chefe. Ele é um cara ligth, quase invisível, mas que sabe operar nossa complexa burocracia: foi ele quem demonstrou ao governador que um dos segredos da governabilidade é o manter o salário do funcionalismo mais do que em dia e que criar um sistema piramidal de conceder pagamentos vantajosos para a cúpula e esmagar os daqueles que estão na base ajuda a manter a coesão da equipe.

Ele manda, mas não se impõe. Ele controla, mas passa despercebido. Ele fala, mas não com a ênfase necessária para que as pessoas saibam de onde emanam as ordens, projetos e ações. Ele é o poder e o “não-poder”. Falta-lhe uma coisa: inimigos explícitos. Ninguém fala mal de Riedel. Esquisito, mas é assim. 

A idéia é prepará-lo para ser o candidato a governador do PSDB nas próximas eleições. Pode ser uma boa idéia. Riedel tem 50 anos, nasceu no Rio de Janeiro, formou-se biólogo, tornou-se  pecuarista e começou sua vida política como presidente do Sindicato Rural de Maracajú, destacando-se depois como comandante da poderosa Famasul (fazendo seus sucessores quase com mão de ferro). 

Ele é um grandalhão suave, sorriso agradável, discreto, meio tímido, bem articulado quando fala para os seus – empresários dos mais diversos setores, ou seja, o PIB estadual. 

Não é um truculento explícito, mas opera bem as cordinhas das pressões políticas contra adversários quando lhe convém. Fala corretamente, tem uma cabeça moderna até onde a vista alcança e é possível.

Pessoalmente, Riedel é um sujeito gostável, bem diferente da turma da República de Maracajú, apesar de fazer parte dela, com todos os seus ranços e prepotências. Tem algumas capivaras na justiça, mas nada que possa abalar suas estruturas. É bem de vida e tem uma boa cultura nas áreas administrativas e de gestão, pois estudou na Fundação Getúlio Vargas. 

Figuras políticas tradicionais de Mato Grosso do Sul afiançam que Riedel é um homem honesto, prudente e bom democrata. No limite, é um liberal à brasileira, ou seja, valoriza a iniciativa privada, mas não recusa as benesses do Estado. Digamos que, ideologicamente, é a direita soft.

A escolha de Riedel como pré-candidato não é uma má idéia, apesar de que muita gente diz que ele é o perfeito boi de piranha de Azambuja. Ele está sendo testado. Certamente, os gênios do marketing estão medindo as condições de temperatura e pressão para ver se ele tem alguma chance numa disputa dessa envergadura. 

Hipoteticamente, suas circunstâncias são boas. Ele deve ter uma baixa taxa de conhecimento e, conseqüentemente, uma rejeição ao rés do chão. Com isso, ele só precisa ter visibilidade, uma razoável base de apoio (com capilarização em todo o Estado) e um discurso que tenha conteúdo para o Capital e para o Trabalho. Bem embalado, com muita mídia e dinheiro, ele pode avançar.

O problema não é falar para empresários com facilidade, mas conversar com o povão é algo que o pré-candidato não sabe fazer. É provável que entre as camadas mais pobres ele pareça arrogante, um fazendeirão metido a besta As camadas profundas (a maioria dos eleitores) possuem esferas tectônicas complicadas para serem devidamente cascalhadas por gente como Riedel. 

No primeiro momento, contudo,  do ponto de visto político da construção de uma candidatura competitiva, Riedel precisa combinar com seu entorno qual a melhor forma de comunicação. De cara, o lançamento de seu nome foi feito pelo capitão-do-mato de Azambuja, o que é mau sinal. 

Teve-se a impressão de que tal gesto não foi para impulsionar e, sim, flambar. O lançamento de uma candidatura segue um ritual que não pode ser feito por um preposto que flerta o tempo todo com a canalhice. Pegou mal para Dudu. 

Neste aspecto, vejo que o pré-candidato terá que lidar com personagens que fingem apoiá-lo, mas acompanham os acontecimentos na busca infrene por uma janela de oportunidade para trair. 

Riedel tem moedas de troca políticas muito poderosas: nomeações, exonerações, recursos públicos para obras, manejo do caixa, pagamento de salários e benefícios, influência nos Poderes, apoio do chefão e de sua família, enfim, coisas que ensejam reverência e também muita ciumeira. 

Riedel sabe que o capitão-do-mato não gosta de dividir poder. Sabe também que Azamba é refém daquele que sabe segredos demais para ficar solto por aí. Sabe que a máquina de comunicação do governo pode trabalhar contra ele por debaixo dos panos. 

Enquanto isso, Azambuja assiste a tudo, deixando Riedel, por enquanto, no stand by, olhando para seus problemas judiciais, pensando no que fazer com seu vice, Murilo Zauith, desenhando cenários para uma provável candidatura ( Senado, Câmara Federal ou até mesmo a Assembléia Legislativa, caso o quadro seja muito sombrio).

Da solução de todas estas equações dependerá o futuro de Eduardo Riedel e do PSDB, por tabela. Riedel seria um continuísmo de Azambuja sem o lado podre que hoje imanta parcela do tucanato. Claro que sua candidatura enfrentará o Bolsonarismo raivoso que deverá somar força com a Ministra Tereza Cristina, que divide parte da base de apoio (o agronegócio) de Riedel, podendo enfraquecê-lo. 

Há outros fatores que poderão ser comentados mais adiante. Mas Reidel só será um candidato viável se conseguir formatar consensos que vão além do pequeno mundo da República de Maracaju. Conseguirá? Não sei. Ele tem pelo menos 10 meses para mostrar que sim ou que não.

 Vamos acompanhar.



  Nesta segunda-feira (04 de janeiro) o público leitor de Mato Grosso do Sul foi brindado com os dois mundos do Governador Reinando Azambuj...

DANTE FILHO: OS DOIS MUNDOS DE AZAMBUJA

 

Nesta segunda-feira (04 de janeiro) o público leitor de Mato Grosso do Sul foi brindado com os dois mundos do Governador Reinando Azambuja. Uma entrevista sob controle no jornal Correio do Estado e uma manchete no site Midiamax que mostra que o avanço do processo criminal de Azambuja segue firme e forte. 

No Correio do Estado (com a assinatura do jornalismo correto de Eduardo Miranda) Azambuja se mostra um bom gestor, administrador competente que está contribuindo para o crescimento econômico de MS. Ali está o grande homem de negócios, personagem bem-intencionado, sujeito que faz tudo correto, mesmo tomando “medidas impopulares”. 

É perceptível que as respostas às perguntas do jornal foram preparadas pela sua assessoria de imprensa. O linguajar de Azambuja é tosco, seu raciocínio é o do fazendeirão, mas na entrevista emana o linguajar correto do empresário, do político bacana, do sujeito que faz boniteza, mesmo em tempos de adversidade. 

Já no Midiamax , cuja reportagem leva o nome do jornalista Guilherme Cavalcante (com texto correto e bem explicado), vemos  Reinaldo Azambuja como “líder de organização criminosa”, tentando desesperadamente driblar o judiciário com ajuda de uma milionária bancada de advogados. 

No Correião, Azamba flutua no sucesso; no Midiamax, ele está beirando o abismo, podendo inclusive ir a ferros. 

É de se perguntar: qual destes dois você prefere?

O sujeito limpo, rico, bem articulado, com visão estratégica do processo de desenvolvimento do Estado; ou o outro, o picareta, o cara maligno, que há tempos articula uma quadrilha criminosa, acusado de ter tungado dos cofres públicos mais de R$ 400 milhões em esquemas nebulosos de corrupção? 

Bem, cada um escolhe sua versão de Azambuja que mais lhe aprouver. As duas podem ser verdadeiras ou falsas. Ou talvez sua verdadeira personalidade esteja no meio de tudo isso, numa versão meio forçada do Dr. Jekyll e mr. Hyde, na velha e conhecida história do médico e do monstro. 

O fato é que o homem que emana da entrevista do Correio é fake. E o que está explicito no material do Midiamax ainda depende de trâmites judiciais. 

Não dá para afirmar categoricamente qual destes dois homens triunfará ou sucumbirá no final. 

No mundo ideal toda a imprensa do Estado deveria estar escarafunchando um governo (qualquer um) sob fortes suspeitas de crime sistemático com os recursos públicos. Neste planeta sonhado, Azamba deveria ser afastado da administração, esperando a conclusão decisiva do judiciário.

Mas o establishment de Mato Grosso do Sul está bem guardado no bolso da República de Maracaju. Claro que temos pessoas honestas suportando este quadro calamitoso acreditando que é melhor isso do que a ingovernabilidade. 

Mas o fato real é que não existe uma oposição que vocalize os sentimentos de perplexidade do Estado, mesmo porque ela é meramente oportunista e só rebola nos períodos eleitorais. 

A grande pergunta que se poderá fazer ao longo deste 2021 é se a máquina da corrupção ainda está funcionando a todo o vapor em MS. 

Não sabemos cabalmente qual a real situação, se depois da lava jato houve um pacto para segurar a barra, ou se a cúpula administrativa do Estado refreou suas ganas e suas taras depois de tantos escândalos. 

Só sabemos que nossas instituições estão moitadas, encolhidas, esperando cair do céu das instâncias superiores da Justiça uma decisão que poderá ou não revelar o tamanho do buraco que Azambuja nos meteu. 

Feliz ano novo.



  Nestes dias ausentes de futuro Quando os nossos sentidos se atenuaram Compassando as horas que não passam Criando esse cansativo nada Subt...

Vocês estão sabendo

 



Nestes dias ausentes de futuro

Quando os nossos sentidos se atenuaram

Compassando as horas que não passam

Criando esse cansativo nada

Subtraímos dessa

Falta de urgência

O amor e o abraço

A fumaça das ruas

O barulho nas praças

E a busca de ar

Há uma esperança fugidia

Nas sombras dos dias tão iguais

E tudo ficou

fora de lugar

As palavras têm outra semântica

Os termos do contrato habitam uma nova casa

E Tudo ficou escuro

Sem que haja a certeza do talvez.

Noutro dia,

Quando o olhar voltar-se para o mistério da ausência

E o passado tornar-se presente

Nas mudanças da geografia do corpo,

Assim veremos com claro vislumbre

Que tudo foi medo

O medo de sempre

Ancestral e absoluto

Eternamente Infinito

  Dante Filho Nada mais apropriado do que ler, neste momento, a “História da Solidão e dos Solitários”, de Georges Minois (editora Unesp, 50...

O Homem Só

 



Dante Filho



Nada mais apropriado do que ler, neste momento, a “História da Solidão e dos Solitários”, de Georges Minois (editora Unesp, 503 páginas), principalmente na travessia de uma pandemia cujo grande apelo é manter-se isolado, longe dos contatos mundanos, temendo que o convívio social estreito possa aumentar o contágio da doença e, em muitos casos, levar à morte. 

O livro deste historiador das mentalidades, autor de obras como a “História da Velhice no Ocidente”, “História do Ateísmo”, “História do Futuro” e tantas outras obras com a mesma potência analítica, revela que o debate em torno de um assunto meramente curioso para muitos – a solidão e os solitários – está em voga na sociedade moderna há mais de dois mil anos. 

Minois aprofunda esse tema percorrendo caminhos que vêm desde a antiguidade clássica até a era do hiperconsumo, o que pode ser um bom estímulo para  estudiosos de todas as áreas, das mais diversas tendências. 

Aristóteles, por exemplo, definiu o homem como um animal social, incapaz de viver isolado, enquanto outros filósofos da época e posteriores a ele consideravam ser necessário manter-se em retiro para dar provação e consistência à sabedoria. 

Há casos e casos. Diógenes era considerado maluco, vivendo nas montanhas, comendo folhas e ervas. Aristóxenes era aquele que ria sozinho e, quando perguntavam o porquê,  respondia  que o motivo “era exatamente por estar sozinho”. Demócrito era outro que pregava em praça pública o retorno dos homens a si mesmos, sem perceber o paradoxo que o envolvia. 

E assim vai...

Os primeiros sinais de eremitismo e cenobitismo apareceram nas franjas do mar mediterrâneo, na antiguidade clássica, criando uma mística em torno dos solitários e de seus poderes mágicos de cura e profecia, desenhando as inúmeras facetas da civilização em seus primórdios. Antes disso, é provável que optar pela solidão era o mesmo que decidir morrer nas garras de feras, de doença e de fome.

Mas foi Jesus que consagrou a grande onda rumo ao deserto, à solidão ascética, dando status ao “homem só”, conferindo a esse personagem uma grandeza jamais vista, influenciando gerações de anacoretas, padres revoltados, misantropos, enfim, estabelecendo um corte social que, de certa maneira, derrubava um consenso social de que o solitário era uma pessoa perigosa. 

Claro que a opção de evadir-se para qualquer canto do mundo e fugir de outras pessoas para viver em sofrimento denota transtornos mentais na maioria dos casos, mas em outros dava embasamento a fundamentos filosóficos, convicções pessoais, posturas místicas, o que abrandava a visão negativa do solitário convicto. 

A grande pegada de Minois é que ele aprofunda o tema e o desdobra nas suas mais intensas variações e complexidades, garantindo aos leitores um alargamento de visão sobre o fenômeno, principalmente quando personalidades públicas utilizam do estratagema da solidão para ganhar fama, dinheiro, prestígio. 

A “História da Solidão...” percorre assim vários séculos, compilando obras, textos,  referências bíblicas e estudos aprofundados deste aspecto da natureza humana, tudo para mostrar que a vida social é a regra, mesmo compreendendo que do ponto vista biológico o homem nasce, vive e morre só. 

“A vida é luta pela sobrevivência e pela perpetuação da espécie, e nos processos de seleção natural o outro é ao mesmo tempo o concorrente e o parceiro sexual, mas a natureza não previu nenhuma estrutura cerebral para a fusão das consciências”, explica Minois, acrescentando que gregarismo depende da condição solitária e vice-versa. 

No decorrer da história o embate entre vida solitária e mundanismo deixa claro que a necessidade da solidão formatou a consciência humana e o processo civilizatório. 

É certo que sempre existiram os solitários profissionais, indivíduos que acreditam que esta é uma pose que atrai fiéis, admiradores e fanáticos, mas também é verdade que o ato de criar, imaginar, dialogar consigo mesmo, além de estabelecer critérios morais de sobrevivência, trata-se sempre de mergulhar no próprio oceano psíquico, à qual é inalcançável pela multidão próxima ou distante. 

O historiador francês constrói a estrada de sua tese surpreendente, com texto elegante e didático, para demonstrar que o isolamento social não tem nada a ver com a solidão strictu sensu, pois são dimensões opostas da mesma realidade. 

O homem pode se sentir sozinho no meio de grandes multidões, bem como se sentir integrado estudando em uma biblioteca: o fundamental é como ele constrói suas relações com o chamado mundanismo e quais são suas opções categóricas para se aproximar dele ou de manter distância. 

Assim, o livro destaca os fundamentos filosóficos que a história ocidental percorre desde os gregos antigos, passando pelos pensadores da idade média, da Renascença e dos tempos modernos, unindo todas as correntes e pontos de vista na estrutura do “colapso ontológico” que vivemos. 

Certamente, sua crítica aos mistificadores da solidão é contundente à medida que demonstra que é coisa bem antiga vender a imagem de “padre do deserto” para explorar a crença dos incautos. 

Claro que, nesse meio, há gente sincera e bem-intencionada, que fez do recolhimento uma forma de viver. Mas isso sempre foi para os fortes e corajosos. 

Neste aspecto, é preciso reconhecer que a solidão transformou-se num produto de consumo que se materializa na onda das terapias alternativas, livros de auto-ajuda,  ou até mesmo do turismo de retiros controlados que pregam o afastamento e o celibato provisório como lenitivo para agruras cotidianas. 

Uma frase do escritor J.M.G. Le Clézio ganha destaque no livro de Minois: “O homem, privado de unidade, desequilibrado, despossuído de si mesmo, se encontra tal como no começo: tomado por terrores, marcado pela angústia, pressentindo os perigos e os abismos que não pode compreender”.

Ou seja: atravessamos séculos e séculos para chegar ao mesmo lugar. 

A leitura de a “História da Solidão e dos Solitários” é uma empreitada de fôlego, que surpreende e emociona (até) porque dá sentido a uma aventura que segue sem que haja conclusão final, visto que a construção do futuro depende da argamassa do passado, cujos temas que encantam e afligem a alma humana não se alteram na linha do tempo.


Diante da obra, a conclusão não poderia ser outra: o “homem só” ou é um mentiroso,  ou um canalha ou um santo. 






















Tornou-se invisível num dia de sol Calhou de não estar em lugar nenhum Permanecendo ausente dos acontecimentos sem ser percebido, o...

Invisível, um poema




Tornou-se invisível num dia de sol
Calhou de não estar em lugar nenhum
Permanecendo ausente dos acontecimentos
sem ser percebido,
oculto no porvir.
Assim, se foi esquecendo
Cortando bitucas ao meio
nas brechas do instante
embrenhado nas lacerações do tempo
seguindo em direção
do estou indo embora para nunca mais voltar...
Passou a viver para sempre em sua ausência
que substantivava a permanência 
e a  leveza do vento...
estava no presente 
no passado
no futuro fugaz
Longe do alcance das mãos,
Inacessível ao olhar
No ponto exato do som 
(Que se abria no intervalo do silêncio)
De cada palavra dita,
No estalar das frases,
pela língua que se encerra: maldita.
Ficou assim, não sei quando e como.
Deu de caminhar pelas bordas
Habitando sarjetas,
Revirando livrarias
Esgueirando pelos becos
Perdido nos labirintos do acaso
Nas sombras do medo
Fazendo da solidão um lugar de paz.
Sendo assim: invisível – nada - zero
Trucidando palavras 
farrapo indigesto
Um corpo feito na direção contrária do olhar
Uma ideia sem importância,
Um ponto inútil perdido
Na escuridão do dia.
(sai pra lá, sujeito nojento)



Recentemente, a Associação dos Magistrados Brasileiros encomendou à Fundação Getúlio Vargas e ao Instituto de Pesquisa Sociais, Polític...

Mansour Karmouche: O Lado em que a OAB está



Recentemente, a Associação dos Magistrados Brasileiros encomendou à Fundação Getúlio Vargas e ao Instituto de Pesquisa Sociais, Políticas e Econômica- IPESPE – um amplo estudo sobre a imagem do judiciário brasileiro. 

Esse trabalho é uma referência clara sobre como a sociedade percebe a atuação do sistema judicial brasileiro. 

A resposta ao nosso trabalho é positiva: a Ordem dos Advogados do Brasil(OAB) tem 66% de credibilidade, superando todas as demais entidades correlatas. 

Isso dá orgulho, mas gera muitas responsabilidades.

A pesquisa mostra que somos vistos como defensores dos advogados,  leis e da Constituição, além de  garantidores do Estado Democrático de Direito. Estamos no topo. Contudo, como somos mais vistos, somos também mais cobrados. 

Por isso, consideramos que esse índice isso não deve servir para ufanismos. 

Sabemos que muito há de ser construído para que as maiorias possam ter um instrumento que os defenda da exclusão, do sentimento de impotência, da falta de perspectiva com o futuro do País e – acima de tudo – de esperança. 

Somente assim conseguiremos atingir um estágio de desenvolvimento econômico social que afaste de vez a palavra “desigualdade” do vocabulário nacional. 

Nós, que representamos os operadores do direito, sentimos que o processo de superação dos óbices de nossa sociedade ainda levará muito tempo. 

Estamos apenas no começo de uma história. A vida da OAB é apenas uma fração de segundos na linha do tempo quando se imagina os desafios que teremos que enfrentar daqui pra frente. 

Claro que estamos deixando um legado e subindo vários degraus que nos fará atingir o mesmo patamar de países avançados.

Ainda que reconhecendo todos os méritos e avanços do nosso Judiciário sabemos que há muito a ser realizado, muito a ser construído e ser superado. 

Parte considerável de nossa sociedade ainda vê o Judiciário como um Castelo inexpugnável, sem portas de entrada, com uma burocracia labiríntica, com muitos corredores, pompas e repletos de solenidades. 

Neste aspecto, acreditamos, humildemente, que o nosso judiciário deve aprofundar sua política de olhar mais pra fora do que pra dentro. Deve colocar o cidadão e a cidadã como ponto de referência. A sociedade deseja um judiciário menos formalista e mais célere. 

Deseja um judiciário que dê mais segurança jurídica, gerando mais certezas do que dúvidas. Cada sessão do STF é visto como um jogo, no qual as variantes interpretativas de cada Ministro são acompanhadas com grandes torcidas.

Sabemos que os tempos em que vivemos toda a crítica é fácil, toda solução é simples, cada pessoa tem um juiz, um desembargador e um Ministro do Supremo dentro de si. 

No entanto, quem vive o dia a dia da Justiça sabe como sua administração é complexa, como a doutrina e o ordenamento jurídico exigem mentes privilegiadas além de trabalho abnegado para que os problemas brasileiros sejam superados. 

Mesmo assim, há que se simplificar os procedimentos, há que se buscar uma linguagem mais direta e menos rebuscada nos processos e sentenças, há que se facilitar o amplo entendimento dos mecanismos legais, criando um ambiente de aproximação real entre o judiciário e a cidadania. 

Estamos no começo de uma nova Era. Os avanços tecnológicos estão cada vez mais aproximando pessoas e tornando os pontos de conflitos de opinião mais evidentes. 

Temas relevantes como o direito à privacidade, a liberdade de expressão e o julgamento dos fatos sem filtros ideológicos, feito de forma direta e imediata, serão cada vez mais determinantes e estarão cada vez mais na ordem do dia. 

Por essas e outras razões, o sistema de Justiça deverá ser objeto de modernização intensa, atualização permanente e renovação constante. A OAB tem efetivos compromissos com a democracia e não concorda com pré-julgamentos que ultrapassem os limites civilizatórios

Estes desafios deverão ser enfrentados com serenidade e apego à tolerância. Há que cuidar das palavras e de sua difusão pública. A sociedade tem que compreender com clareza o lado que a OAB se encontra. Estaremos sempre ao lado da cidadania, do pensamento diversificado e acima das paixões políticas momentâneas. 

Os retrocessos autoritários deverão ser rechaçados no nascedouro. Sem aprofundamento da ordem democrática perderemos o rumo e não avançaremos. 

Presidente da OAB/MS

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