Vou começar com a pergunta clássica: se você é um político, empresário, juiz, secretário de Estado, governador etc., e recebe uma crític...


Vou começar com a pergunta clássica: se você é um político, empresário, juiz, secretário de Estado, governador etc., e recebe uma crítica pública de um jornalista, qual atitude tomar?  

Tenho minhas respostas. Primeiro, verificar se o texto em questão é aceitável dentro do contexto pelo qual o assunto foi abordado. Se for coisa de baixo nível, esqueça. 

Se tiver relevância histórica e poder de convencimento da sociedade, preocupe-se.

Segundo, leia o texto com atenção. Identifique se as informações são ou não precisas, ideológicas, oportunistas ou ressentidas. Terceiro, se há calúnia, mentira ou ofensa que lhe pode causar dano pessoal (por exemplo, a perda de um emprego ou de uma oportunidade material). 

Notem: não falei em dano moral muito menos em difamação criminosa (mesmo que essas figuras plásticas estejam previstas em lei) porque se o material jornalístico é crítico (ao contrário de um texto elogioso) ele sempre trará aborrecimentos aos personagens criticados e nunca agradará àqueles que foram citados. 

Respire fundo. Mantenha a linha de raciocínio e avalie se vale a pena responder, abrir um debate, um processo judicial ou simplesmente ignorar. Muitas vezes a pior forma de crítica é a indiferença.

Numa democracia (em que o bom senso deve prevalecer, apesar de que nem sempre isso ocorre) o atingido pelo hipotético texto pode se movimentar em várias direções: ligar para o jornalista e explicar seu ponto de vista, tentando requalificar as informações. 

Pode-se também solicitar extra-judicialmente um direito de resposta. Pode-se entrar com uma ação judicial. Pode-se mandar a polícia (de preferência o Garras) ameaçar o cara, apontando uma seringa pra ele. Pode-se pedir para o patrão do cara (caso ele tenha) tirar seu emprego para mostrar, pedagogicamente, para outros jornalistas, o que acontecerá para quem seguir o mesmo caminho. Pode-se mandar oferecer dinheiro para o pentelho (no meu caso, acho isso vulgar). Enfim: existe um longo cardápio para impedir a disseminação de críticas petulantes geralmente perpetradas por chatos crônicos e indissolúveis. 

De todas as formas de ação as melhores e mais eficazes são: conversar com o jornalista, profissional e equilibradamente, para  compreender a natureza e a motivação da crítica. Pedir direito de resposta para ampliar o debate público e mostrar outros pontos de vista. Reconhecer que a crítica procede e mudar a atitude. 

O importante é acreditar (mesmo que ingenuamente) que as relações democráticas são ótimos lenitivos para conflitos estéreis ou relevantes. Tudo vale a pena quando a vida não é pequena.
O que não se pode fazer é entrincheirar-se numa redoma de arrogância e fingir que as coisas não estão acontecendo e que todas as pessoas pensam da mesma maneira. 

É bom que todos se esforcem para compreender que liberdade de expressão é valor fundamental para que saiamos do atraso mental em que vivemos. Às vezes somos tomados por sentimentos de injustiça. Ninguém gosta de ficar mal na fita. Essa é a vida...

Quando isso acontecer, repito, respire fundo. Abra-se para o mundo, converse, discuta, polemize, use palavras brandas e inteligentes quando o interlocutor é sincero, e palavras duras e cortantes quando ele é canalha e desonesto. 

Só não faça uma coisa: perseguir seus críticos utilizando instrumentos do Estado e das influências econômicas que esse poder proporciona para ameaçar e amordaçar. 

Isso é inaceitável. 

O avanço da onda conservadora no mundo ocidental é inegável. Os fundamentalismos recrudescem, espalhando ódio. Crescem as manifestações ...


O avanço da onda conservadora no mundo ocidental é inegável. Os fundamentalismos recrudescem, espalhando ódio. Crescem as manifestações de intolerância nas diversas esferas da atividade humana, em todos os lugares. Aqui, o quadro “Pedofilia”, uma expressiva obra de Alessandra Cunha, foi retirado de exposição no Museu de Arte Contemporânea, por conta do boletim de ocorrência registrado pelos deputados  Cel. David, Herculano Borges e Paulo Siufi que, entendendo tratar-se de incitação ao crime, fizeram essa representação.

A par do factoide promovido pelos parlamentares, (será que não há nada mais importante a discutir nessa conjuntura em que a classe política está chafurdada na lama da corrupção?) resta a truculência da censura, o moralismo típico das marchadeiras de 64, das senhoras de Santana, guardiãs da moral e dos bons costumes. Aliás, são essas mesmas figuras que fazem a apologia da “Escola sem Partido”, imaginando a possibilidade de suprimir a dimensão política da  educação, como se isso fosse possível.

Resta também uma demonstração de ignorância. Deixaram-se impressionar pelo título do quadro, sem olhar para o seu conteúdo. Todos sabem que uma obra de arte, seja qual for o campo da manifestação artística, só se realiza com a interação que estabelece com o seu receptor. 

Além do autor, é necessária a participação do leitor ou espectador, que também atribui sentido à obra, completando-a. Por essa razão, um mesmo texto pode ser recepcionado de diferentes formas, pode ser lido de muitas maneiras, a depender do repertório mobilizado para a sua decodificação ou interpretação.

Quem se posta diante da  tela Pedofilia jamais será incitado à prática sexual,  porque ela não guarda qualquer elemento capaz de mobilizar ou excitar a libido de ninguém, a menos que se trate de pessoa com severo distúrbio de formação. Ao contrário, as cores do quadro,  remetem  à introspecção, há até uma certa tristeza naqueles pretos e roxos sobre o fundo amarelo; a angústia  (ou será espanto?) transmitida por aquele olho solitário é de uma intensidade desconcertante; a figurinha da menina, absolutamente assexuada, um signo a denunciar o crime de abuso sexual, e o texto escrito em azul é inequívoco “o machismo mata violenta e humilha”,  vitimando meninas e mulheres de todas as classes sociais. Uma denúncia da pedofilia e da violência contra as mulheres,  uma obra política, na medida em que instiga a reflexão e a discussão sobre essa importante questão.

E aí, induzidos pelo título da obra, sem serem capazes de compreender o seu sentido (talvez sequer tenham visto o quadro) os três parlamentares, no uso de seus mandatos, lançam-se ao patrulhamento e nos oferecem esse triste espetáculo. 

Foi inevitável lembrar-me de um fato  acontecido em uma pequena biblioteca do interior e que circulava entre os estudantes de história, na segunda metade do século passado.  Recebido o exemplar do  livro Raízes do Brasil, clássico de Sérgio Buarque de Holanda que faz uma interpretação da formação brasileira na perspectiva weberiana e forja o tipo do “homem cordial”, a pessoa responsável pela organização do acervo, ao ler o título, não teve dúvida, colocou-o na prateleira de botânica, supondo tratar-se de tubérculos. Qualquer semelhança  não é mera coincidência. 

Quando o cel. David, porta-voz do grupo, diz que “se a artista quer fazer discussão de gênero, que vá fazer na casa dela”, mostra não só  truculência, como também expõe o machismo condenado pela obra. É preciso ler os sinais, para além desse episódio de censura, pois nele é nítido o movimento na contramão do ideário democrático; a mistificação contida na indignação do falso moralismo, a “defesa” da verdade única, todos elementos que encaminham para soluções salvacionistas e desaguam na supressão da Liberdade.

A Democracia brasileira é ainda uma árvore tenra a exigir todo o cuidado! Parafraseando o udenista Eduardo Gomes, “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. 


sociólogo e professor


Sou cada vez mais interpelado com a pergunta sobre quem Marquinhos Trad vai apoiar nas eleições do próximo ano. Respondo: não sei. Aliás,...

Sou cada vez mais interpelado com a pergunta sobre quem Marquinhos Trad vai apoiar nas eleições do próximo ano. Respondo: não sei. Aliás, o prefeito me parece estar mais preocupado com outros assuntos. O jogo sucessório de 2018 ainda é incerto.

Mas meus interlocutores riem com malícia. Acham que sei de alguma coisa e estou escondendo o jogo. Não estou. Na verdade, essa é uma questão que não cabe no momento, mas a insistência é imensa.

Digo que apoio político trata-se de algo circunstancial. O dinamismo de nossa realidade tem muita voracidade: hoje o sujeito está no alto, mas, no dia seguinte, ele abre os jornais e começa a viver seu inferno na terra.

Nas leituras correntes, os “especialistas” afirmam que o prefeito será o cabo eleitoral determinante, principalmente em caso de disputa acirrada, na disputa pela governadoria.

Pode até ser: Campo Grande tem o maior colégio eleitoral do Estado e, naturalmente, o prefeito galvaniza seu apoio para dar forma e substância a qualquer candidatura.

Além disso, tem outro fator amplamente reconhecido: o índice de popularidade de Marquinhos é elevado e sua forma de administrar a cidade tem agradado a maioria.

O prefeito faz uma gestão diferente: circula pela cidade, vistoria pessoalmente o andamento dos serviços públicos, tem exata noção do poder das mídias sociais, dialoga com todos os setores, não discrimina, não é arrogante nem se julga professor de deus.

Sofre com a crise financeira, mas isso é outra história.

É inegável que se trata de um político intuitivo como nunca houve no Estado (talvez o caso de Pedrossian seja paralelo), não tem medo de gente, enfrenta protestos de servidores sem se abalar e conta com um entorno de primeira linha, pessoas que tem a exata noção sobre os limites da política nos dias atuais.

Quem acompanha diariamente o prefeito sabe que ele não se jacta vaidosamente de estar fazendo uma boa gestão (reconhece que está realizando possível diante de um quadro institucional caótico), mas que está garantindo aquilo que é essencial para fazer a diferença: sabe a importância da manutenção da estabilidade institucional e tem exata noção de que pode até errar, mas que a única coisa que não poderá permitir á qualquer eclosão de escândalos que o coloque na vala comum.

Definitivamente, Marquinhos não vive no mundo paralelo da República de Maracaju, que acredita naquele velho lema “nóis que afundou, nóis que manda”.

Nesse aspecto, sua figura é inspiradora. Dessa maneira, chega a ser irônico que Azambuja tenha nas últimas semanas lutado com a sua assessoria para fazer selfies com o prefeito. Parece que existe uma necessidade infrene dos marqueteiros do governo em estabelecer uma aderência permanente à imagem de Marquinhos, como se ele fosse uma tábua de salvação no mar revolto da Operação Lava Jato.

Nossa sorte – digo, da sociedade – é que Marquinhos sabe que o poder é transitório e que na política não existem amigos, e sim momentos.

Até onde a vista alcança, nas eleições de 2018 não bastará apenas sorrisos, fotinhas fofas, tapinha nas costas e simpatias fingidas. O buraco é mais embaixo.

Lacrei.


V ivemos tempos nebulosos. Depois de líderes pentecostais chutarem imagens de santos católicos, a moda agora é agredir adeptos das religi...


Vivemos tempos nebulosos. Depois de líderes pentecostais chutarem imagens de santos católicos, a moda agora é agredir adeptos das religiões de matriz africana. A intolerância travestida de virtude religiosa é a aposta de grupos radicais para inibir manifestações a outras crenças.

A coisa funciona assim: se você é católico, evangélico, muçulmano ou judeu, tudo bem. Mas se a pessoa tem simpatia pelos templos de umbanda ou candomblé, corre o risco de ser agredida por hordas de fanáticos.

Se o papel da história é estabelecer uma ligação com o presente, para que os erros do passado não se repitam no futuro, vale lembrar que, coisa semelhante aconteceu na França a partir do século XVI, quando reis católicos reprimiram protestantes na noite que ficou conhecida como o Massacre de São Bartolomeu.

Posteriormente, esse tipo de atitude ganhou força em papéis semelhantes com cristãos condenando grupos de judeus à fogueira porque se recusaram a aderir à casta de cristãos novos.

No Brasil, o tom bélico de algumas denominações, criou um clima propício à intolerância religiosa. A situação ganha cada vez mais contorno de guerra - alimentada pelo tom exaltado de alguns grupos pentecostais - preocupando lideranças de diferentes matizes.

Infelizmente, a figura evangélica que está exposta ao imaginário coletivo do brasileiro é a face mais grotesca, mais triste, e que não representa a índole da maioria das denominações de origem protestante.

É preocupante ter uma liderança expressiva desenvolvendo um discurso de nós contra eles, um verdadeiro contrassenso para o cristianismo, já que não se tolera esse tipo de atitude nem de uma torcida organizada de futebol, que dirá de uma figura tida como um guia espiritual. 

Quando encontramos um pastor com esse discurso, cria-se um ambiente propício para que gente doente, ignorante, mal esclarecida e mal resolvida dê vazão a seus impulsos de violência, de rejeição ao próximo, aos seus ímpetos de prepotência, à sua ambição e sede de poder e à sua personalidade opressiva.

O discurso de confronto, no lugar da reconciliação, cria um ambiente de animosidade, onde as manifestações violentas tendem a ser legitimadas, ainda que isso seja inconcebível.

É inadmissível também a forma como alguns grupos sociais se movimentam para ridicularizar cristãos, reproduzindo de forma ofensiva, pejorativa e caricata a imagem de Jesus Cristo. O entendimento entre as religiões se constrói com diálogos e não com confusão 

Não queremos esse tipo de pensamento de forma hegemônica no Brasil. É perigoso. Para termos um País que possa ser considerado legitimamente laico, democrático e republicano,
temos que aplicar a lei com vigor a todo ato criminoso, de qualquer natureza e praticado por quem quer que seja.

É crucial que exista um estado de alerta na sociedade que se levante contra todo e qualquer tipo de preconceito ou grupo que pretenda um controle hegemônico da conduta religiosa da sociedade. O Brasil não precisa de guardiões da fé e da moral, precisamos de defensores da cidadania.

*Vereador pelo PSD
e-mail: vereadorfritz@gmail.com

A companho aqui e ali, na imprensa e nos bastidores, as movimentações do governador Reinaldo Azambuja para manter o nariz um milímetro a...

Acompanho aqui e ali, na imprensa e nos bastidores, as movimentações do governador Reinaldo Azambuja para manter o nariz um milímetro acima do mar de lama que criou pra si mesmo. 

Pelo que pude observar, a máquina está quase parada, mas a estrutura de marketing está fumegando, apesar de estar vazando óleo e engasgando ora sim, ora não. 

Mas Reinaldo reage. Quer mostrar à sociedade que as denúncias contra si no rumoroso caso JBS são mentirosas. Difícil. O caso tramita no Ministério Público Federal, STJ e STF e, pelas informações disponíveis , o governador não tem obtido grandes sucessos. 

Contratou banca de advogados com forte influência no Judiciário Federal, mas, nesse caso, isso demonstra mais aflição do que tranqüilidade. 

No plano estadual, o governador faz o que tem que ser feito nas atuais circunstâncias: tem ficado menos no gabinete e percorrido cidades do interior. O jornalismo aderente tem dito que está fazendo sucesso. Celebrou o fato de ele ter sido aplaudido em Três Lagoas. 

Compreende-se: para quem estava ultimamente levando muita vaia, alguns apupos é tudo de bom. 

Como se diz, Azambuja resolveu ir “pra cima”. Tem feito em poucos meses aquilo que “esqueceu” de fazer em quase três anos. Mais: vestiu as sandalinhas  da humildade e aceita conversar com qualquer um – desde que seja para elogio e adulação. 

Seus críticos continuam sendo atacados nas redes sociais e processados na justiça. 

Veremos se nessa fase soft Azambuja passe a aceitar críticas, sem entrar no velho esquema das perseguições do começo de seu governo. 

Sinto que ele ainda precisa passar pelo teste da democracia e da abertura de espírito, mostrando que representa a pluralidade da sociedade sul-mato-grossense e não a República de Maracaju.

Pergunto: será que essas mudanças cosméticas na personalidade do governador valem só no período eleitoral? Mistério. 

Os arranjos políticos de Reinaldo são óbvios: ele tenta fechar um consenso pela cúpula, oferecendo cargos e dinheiro para todos, acreditando que poderá ser empurrado goela abaixo dos eleitores . Será que isso vai continuar dando certo?

Claro que ele dirá em palanque que os arranjos de cima terão que ser combinado com o povo, numa velha frase sempre dita por políticos experientes. O problema é esse: a natureza essencial desse acordo político e social é falsa porque parte da premissa de que foi comprada a peso de ouro.

Mesmo assim, o ambiente ainda é incerto porque não se sabe o que acontecerá nos desdobramentos dos fatos de agora em diante.  Reinaldo descobriu que o caminho que vem fazendo não tem volta: ou ganha ou ganha. Se perder a próxima eleição, não só perderá o dedo, os anéis e a alma: não será nem uma lembrança na lata de lixo da  nossa história. 

Na minha modesta opinião, Azambuja tem um entorno muito ruim. Gente que fala errado, pensa errado. Ninguém pode oferecer sinais de “nova política” cercando-se com a vanguarda do atraso. O governador não tem coragem para chacoalhar suas próprias bananeiras e derrubar os macacos que estão se locupletando de banana. Assiste imperialmente um verdadeiro febeapá sem dar sinais de que está se importando. 

Tem tudo para dar errado. 

Quem viver, verá.


Vamos lá : o pico do processo eleitoral de 2018 vai acontecer dentro de 10 meses. Na melhor das hipóteses, é praticamente impossível imagi...

Vamos lá: o pico do processo eleitoral de 2018 vai acontecer dentro de 10 meses. Na melhor das hipóteses, é praticamente impossível imaginar o que vai acontecer na próxima semana. Por isso sempre digo que nem mesmo os melhores profetas de nossa política local conseguirão adivinhar com qual cenário os eleitores vão ter que lidar até lá. Mas ainda assim, existem professores de deus que dizem saber tudo, pontificando em convescotes como funciona sua reluzente bola de cristal que advinha o futuro. Só rindo.

Os principais nomes da disputa ao governo do Estado, por exemplo, vivem hoje como zumbis perambulando por aí, uns com medo de serem presos, outros preocupados com denúncias que podem ser envolvidos em situações cabeludas e há também “aquele” que está tendo tremeliques por causa do risco de perder o mandato.

Quem tenta olhar pra frente não consegue ver nada além de névoas cinza a turvar as cenas de curta distância. Mesmo assim, existem os çábios que fazem simulações e projeções, uns motivados pelo excesso de vaidade e ambição, outros porque sabem que o homem é feito de barro e pode se amoldar com dinheiro e interesses, sem contar os boquirrotos que não estão minimamente preocupados com candidaturas e sim como farão para encaixar seus negócios independentemente de quem venha ocupar a principal cadeira na governadoria.

Verdadeiramente, são pouquíssimos os que imaginam como a política, nesse caso, poderá estabelecer um projeto de poder, o qual, poderá se transformar, em médio prazo, em projeto de desenvolvimento do Estado. “O Estado que se lasque, eu quero arrumar a minha vida”, afirma sem medo de ser feliz.

O que há por enquanto são grupos variados se dedicando a montar estratégias para, dependendo dos desdobramentos dos fatos, se encaixarem nesse ou naquele esquema eleitoral, sem nenhum espírito republicano ou nada que possa ultrapassar os limites dos interesses pessoais ou corporativos.

Todos os nomes mais ou menos postos na atualidade – não vou citá-los porque eles ainda estão colocados apenas no tabuleiro das especulações – representam aquilo que se convencionou a chamar de “velha política”. Mesmo que o radar da sociedade aspire ao novo, o núcleo do sistema não está permitindo que ele apareça.

A última tentativa de se fazer uma reforma política que pudesse abrir frinchas no modelo para dar chance a uma marolinha novidadeira foi por água abaixo. Trata-se de um paradoxo: a sociedade deseja algo que a classe política não concede. Nunca tão poucos transformaram tantos em cordeiros involuntários na direção do abate.

A tradição patrimonialista mostra-se resistente. É uma força que talvez possa ser abrandada nos próximos 20 anos, mas por enquanto vamos ficar do mesmo jeito, apesar das redes sociais, do maior protagonismo da opinião pública, da revisão do pensamento extrativista e da compreensão de que fora do Estado Democrático de Direito não há muitas alternativas – a não ser a ditadura.

O Mato Grosso do Sul, politicamente falando, vive tempos nebulosos. Nossos principais “líderes”, na verdade, são homens de negócios. Eles gastam mais tempo formulando maneiras de viabilizar recursos de campanha, compra de agentes políticos e elaborando “jeitinho” para escapar da justiça do que estabelecer metas claras e transparentes no campo da administração do Estado para melhorar setores básicos como saúde, educação e segurança pública.

No fundo, no fundo, a pauta política é a que importa. A pauta da manutenção do poder a qualquer preço, sem concessões ao populacho que, para a aflição de alguns, está aprendendo a gritar, mas ainda não sabe direito o que quer.

Vejo muita gente da academia reclamando que a imprensa em nosso Estado não faz as perguntas certas. Em defesa, sempre digo que as perguntas feitas refletem nosso estágio cultural ainda empobrecido pelo provincianismo, pela ausência de um mercado consumidor expressivo e pela formação educacional precária. Talvez quando nossa população ultrapassar cinco milhões de habitantes as coisas comecem a mudar.

Eles dizem que minha argumentação é conformista.

Respondo: vai demorar, eu sei. Mas essa é a vida...

E ra o fim da linha para Adonias. Ana o flagrou novamente com outra. Desta vez, ela o pegou mordiscando uma pirigueti, irmã da vizinha...


Era o fim da linha para Adonias. Ana o flagrou novamente com outra. Desta vez, ela o pegou mordiscando uma pirigueti, irmã da vizinha. A situação ficou insuportável, não teve jeito.


Depois de descobrir mais um caso do marido, a mulher não se conteve. Com o orgulho ferido, deu o troco na mesma moeda e com o melhor amigo. Foi o maior barraco, brigas de família, divisão de mobília e troca de acusações.


Tempos depois, o casal se reconciliou. Houve lágrimas, perdão e promessas. Em seguida, promoveram uma temporada afrodisíaca em um chalé no Balneário de Sete Quedas. Os parentes aprovaram, fizeram votos de felicidades e varreram a sujeira para debaixo do tapete.


Até aí, tudo perfeito. Menos para a sogra de Adonias. A velha tinha faro de cão perdigueiro e percebia no genro certo gosto para algazarra quando pintava mulher nova no pedaço. Ela desconfiava de tudo e sempre alertava filha para os olhares maliciosos do marido mulherengo.


Para piorar as coisas, o cara tava de caso com uma cantora sertaneja. Os encontros terminavam sempre com os  amantes embrenhados no meio dos matagais ou embaçando os vidros do carro.  


Quando a situação conjugal ficava feia, Adonias ia bater desembestado na casa dos pais.


Chorava, simulava desmaios e vertigens. Tudo para chamar atenção da família. A mãe sensibilizada, o tratava como coitadinho e justificava a infidelidade do filho como sequela de uma doença na adolescência.


Em gratidão, Adonias gostava de emocioná-la no cultos da igreja mostrando-se arrependido. Lá, ele era figura presente na equipe de louvor emocionando os irmãos de fé com hinos sentimentais. A matriarca comovida dizia aos membros da igreja: “meu filho caiu por obra do inimigo, mas ele mudou”.

Com os fiéis e amigos da denominação, Adonias gozava de boa reputação. Era servo consagrado e voluntarioso no serviço de cântico, bem diferente do homem que olhava
para as mulheres como se as despissem mentalmente.


Mas longe dos olhares atentos dos familiares, ele pintava e bordava. A rotina de Adonias previa visitas semanais a casas de massagem. Para essas escapadas, ele tinha um álibi perfeito: trabalhava como cinegrafista em eventos.


Desde que deixou o ramo da informática, Adonias era fotógrafo e produtor de vídeo em tempo integral. O novo investimento contou com o patrocínio da sogra. A velha  passou a apostar no empreendedorismo do genro para agradá-lo e reaproximá-lo da esposa.


A velha percebia certo distanciamento entre Adonias e a mulher. A fornicação e os corpos ardentes dos tempos de namoro, cederam lugar a uma rotina apagada e a falta de
libido no casamento.


Com agenda flexível, a nova profissão abria brechas para eventuais escapulidas. Pra isso, ele contava com a ajuda de um amigo fiel: Mirinho Funileiro. 

O cara era pau pra toda obra e sempre quebrava um galho quando a coisa apertava para o lado de Adonias.



A coisa só não funcionou uma vez, quando Adonias já noivo, arrastou uma para debaixo de uma cachoeira e Mirinho não quis acobertar o amigo. Ao invés disso, entregou tudo de bandeja para Ana, dizendo que a deduragem tinha uma função pedagógica: ensiná-lo sobre fidelidade.


O tempo passou e Adonias encontrou seu alicerce. Está no segundo casamento e jura que não frequenta mais as casinhas de pecado, nem mesmo estende os olhares para as sirigaitas. Perto dos 40, o homem é de uma fidelidade impressionante. A mãe e a nova esposa agradecem, mas as antigas amantes lamentam.


Elas suspiram em dizer que nunca mais haverá um homem pegajoso, carinhoso e com o toque malicioso de Adonias. Pode até haver outros bons, mas jamais será a mesma
coisa.

Jornalista e escritor

O blog publica um trecho do livro de Eduard Limonov, selecionado no romance de Emmanuel Carrére,  publicado pela Alfaguara e trad...







O blog publica um trecho do livro de Eduard Limonov, selecionado no romance de Emmanuel Carrére,  publicado pela Alfaguara e traduzido por André Telles. Neste texto, intitulado “Diário de Um Perdedor”, resume-se a essência do autor, um homem que escolheu a fúria heróica como personagem histórico. 



Diário de um perdedor

“Eles virão todos. Os bandidos e os tímidos – estes lutam bem. Os passadores de drogas e os que distribuem prospectos para bordéis. Os punheteiros, os clientes de teatros de revista e cinemas pornôs. Os que circulam solitários pelas salas de museu ou fazem consultas nas bibliotecas cristãs e gratuitas. O que levam duas horas para sorver seu café no McDonald’s olhando tristemente pela vitrine. Os fracassados do amor, do dinheiro e do trabalho, e os que tiveram o infortúnio de nascer numa família pobre. Os aposentados que fazem fila no supermercado, no caixa reservado aos que compram menos de cinco itens. Os patifes negros que sonham arranjar uma branca alta e, como nunca conseguirão, estupram-na. Os doorman de cabelos grisalhos louco para seqüestrar e torturar a insolente filha dos ricos do último andar. Os bravos e fortes vindos de todos os horizontes para brilhar e conquistar a glória. Os homossexuais, enlaçados dois a dois. Os adolescentes que se amam. Os pintores, músicos e escritores cujas obras ninguém compra. A grande e valorosa tribo dos perdedores, loser em inglês, em russo niedudatchnitki. Eles virão todos, pegarão em armas, ocuparão cidade atrás de cidade, destruirão os bancos, as fábricas, os escritórios, as editoras, e eu, Eduard Limonov, marcharei na coluna da frente e todos me reconhecerão e amarão”.

Na semana passada, depois que comentei no facebook que a escultura-sofá de Manoel de Barros, produzida pelo Ique, era uma grande “pi...



Na semana passada, depois que comentei no facebook que a escultura-sofá de Manoel de Barros, produzida pelo Ique, era uma grande “picaretagem”, amigos que prezo me chamaram a atenção para a gravidade do termo. 

No balanço entre curtidas e críticas, a maioria concordou comigo. Mas como as pessoas que me chamaram a atenção pela maneira chula com que tratei o “artista” têm a minha estima e consideração, vi-me obrigado a fazer um esclarecimento público sobre o assunto. 

Primeiro: a estátua-sofá de Manoel de Barros é banal, peca por excesso de realismo, foi elaborada como peça de marketing turístico, não tendo nada a ver com o espírito da obra poética de Manoel. 

Para que uma peça escultórica refletisse a invenção estética do poeta teria que ser algo que transitasse entre o surrealismo e o abstracionismo. 

Manoel detestava obras figurativas. Seu autor musical preferido era Erik Satie e seu pintor Paul Klee. O poeta amava Van Gogh, mas quem pode dizer que o holandês maluco pintava figuras?

Qualquer artista que embrenhasse pelo trabalho de esculpir a imagem de Manoel devia ler um pouco sobre os gostos estéticos do poeta quando estava vivo. 

Mas o que questiono na obra de Ique não é apenas o valor artístico da obra, mas o contexto moral em que se encerra. 

Em minha opinião, trata-se de apropriação da imagem de alguém que se tornou celebridade nesse pequeno mundo que é o da poesia. 

Me dizem que no Brasil menos de 3 milhões de pessoas lêem obras poéticas. 

Mesmo assim, Manoel tem lugar garantido no panteão dos melhores poetas brasileiros. 

Sua obra é singular (principalmente a partir dos anos 80) e poucos conseguiram dar um passo à frente no uso estrutural da linguagem como ele, renovando-a e promovendo um arejamento inédito na construção de imagens com palavras. 

Antes dele, só vejo Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, mas isso é um papo longo demais para esse artigo modesto...

O problema agora é a mitologia que se tenta criar em torno de um escritor que, durante toda a vida, foi avesso e crítico dessa espetacularização xucra da arte. 

Nesse aspecto, Ique – que provavelmente nunca leu a obra de Manoel, muito menos alguns ensaios sobre ela – foi infeliz em criar uma peça escultórica de extremo mau gosto com o fito de “estimular” o turismo e a banalidade da arte, colocando o poeta num sofá para que as pessoas pudessem tirar “selfie” para curtição e comentários nas redes sociais. 

Nada contra. Mesmo considerando o fato – ironia, ironia – de que poderá haver gente vendo uma espécie de “perigo” caso apareçam crianças querendo sentar no colo da estátua para ser fotografada...Tem tanto maluco por aí...

Mas a grande picaretagem não está nisso. Não sei quem foi que deu essa idéia de jerico para o governador bancar com dinheiro público esse projeto.

Inúmeros artistas e jornalistas juram que a estátua foi superfaturada. O Ministério público não manda investigar porque tem medo em tocar num ícone cultural. Mas devia. 

É provável que Ique, numa tacada oportunista, tenha levantado mais dinheiro com esse monstrengo do que Manoel a vida inteira com a edição de seus livros. 

Para escrever os poemas que Mané produziu não bastava apenas ter o dom. 

Quem é do ramo sabe: é preciso uma formação sensível, leitura variada e sofisticada, viagens e paisagens, trabalho solitário e árduo, angústias existenciais, concentração e pensamento. Isso não tem valor tangível. 

Não se pode conceber que seja moralmente correto que apareça um picareta com fama de "artista consagrado" e levante mais de R$ 200 mil, se apropriando da fama alheia - conquistada pelo talento puro e autêntico - sem que essa grana seja revertida para o desenvolvimento da literatura de nosso Estado. 

Esse é o ponto. Se Ique tivesse produzido a estátua com seus recursos e, com o dinheiro auferido num leilão, por exemplo, lançasse prêmios literários para estimular a produção poética em nosso Estado, eu aplaudiria. Mas fazer um grande jabá em Mato Grosso do Sul para investir no Rio de Janeiro, não dá, é inaceitável. 


  

P reocupado com atuais casos que abordam a experiência profissional, decidi por bem, explanar a conscientização das grandes, médias e pequ...

Preocupado com atuais casos que abordam a experiência profissional, decidi por bem, explanar a conscientização das grandes, médias e pequenas empresas na paisagem geradora de emprego.
Filtro a questão da oportunidade laboral aos jovens iniciantes em suas diversas atuações profissionais. 

Dificilmente oportuniza-se aquele gladiador incessante de sonhos e dificuldades onde busca seu primeiro emprego, privado da chance de trabalhar por não possuir experiências anteriores em determinada função.

Presenciei casos onde o “sem experiência” destacou-se mais que, certo funcionário portador de vasta experiência anterior. 

Vejo com bons olhos, o novo. O novo procura, persiste, dedica, ouve; o velho, já cansado, dono da razão, acomodou-se, sem fôlego a novas idéias, repousa sua memória aos lençóis rotineiros das empregadoras.

Se fizermos uma análise profunda, concluiremos que, fortes empresas destacam-se pela dinâmica nos anseios de prosperidade cultivados tão somente, pela classe juvenil. 

Torna-se nítida a necessidade em oportunizarmos aqueles que buscam seu primeiro emprego, avaliando-os em metas, interesses, idéias, responsabilidades e compromisso, ante, o requisito “experiência comprovada” sobre determinada função.

As cordas do desemprego vêm sufocando jovens idealistas, ociosos por oportunidades; estas, por suas vezes, engolidas pela gana dos obsoletos que abusam de suas arcaicas experiências eternizando-os nas funções.

Precisamos direcionar mais os nossos olhos ao novo, ao “inexperiente”, abrindo-lhes novas janelas, permitindo-os destacar nos campos minados da experiência “velhaca”.

Ventilo neste contexto o despertar dos valores morais, valorizando sonhos juvenis ao comodismo do ultra, passado, que conseqüentemente vem enforcando toda uma juventude. 

Flávio Mendonça de Britto, advogado

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Este ensaio integra a parte final do livro "Poesias", de Abílio de Barros, a ser lançado nos próximos dias. No texto, o autor propõe uma reflexão sobre o processo de elaboração poética, na qual funde-se, de um lado, aspectos de caráter puramente sensíveis, e, de outro, essencialmente racionais. Enfim, conclui Abílio: o poema é um ato de maluquice.

"Do ponto de vista da razão a poesia é um distúrbio de caráter lírico-afetivo, vizinho da loucura. Mas, a poesia não é conclusa apenas com a criação, ela precisa da conjunção do leitor que se une na percepção da beleza, ou seja, na loucura. Assim, o poema que não comunica nenhuma beleza ao leitor não é poesia, ainda que rimado e metrificado. Isso nos leva ao caminho difícil e pedregoso da definição do ato poético que só pode ser feito em comparação com a prosa, buscando a sua diferença específica, ou seja, a identificação do citado distúrbio.

A razão nos auxiliará nessa tarefa. A percepção racional tem por objetivo a definição, isto é, a busca da verdade seja ela concreta ou abstrata. Essa percepção, ou definição, é uma ideia ou um conceito que deve conter as características próprias do objeto e em particular as suas diferenças específicas.

A percepção estética ou poética, ao contrário, não é um conceito ou uma definição, é uma emoção e não busca a verdade, mas sim, afetivamente, a percepção da beleza. Isso, do ponto de vista da razão não é nada – e pode ser loucura.

Do poeta Manoel de Barros, discordando das minhas colocações, ouvi a afirmação de que a parte doentia é a razão, pois ela não percebe que a verdade é a beleza. Isso é poesia, ou seja, loucura.

Exemplos: vamos buscá-los em bons poetas a começar pelo mestre parnasiano Olavo Bilac em seu mais célebre soneto: 


“Ora (direis) ouvir estrelas”! Certo
Perdeste o senso! “E eu vos direi, no entanto”, 
Que para ouvi-las muita vez desperto
“E abro as janelas, pálido de espanto...”.

Onde está a poesia nesses versos? É muito claro que está em “ouvir estrelas”, o que faz o poeta, nas noites, abrir as janelas, “pálido de espanto...” Ora, do ponto de vista da razão, acordar à noite para falar com estrelas é loucura. Mas é poesia.

Em delírio semelhante diz-nos o grande Fernando Pessoa: 


“Ó mar salgado, quanto do teu sal. 
São lágrimas de Portugal!” 

Onde está a poesia desses versos? Está, por certo, na suprema insensatez de atribuir a salinidade do oceano Atlântico às lágrimas portuguesas. E o poeta fala como se dialogasse com o mar. Isso é poesia, mas é loucura.

De outro poeta, o espanhol Garcia Lorca:


De Cadiz a Gibraltar ai que buen caminito
El mar conoce mis passos por los suspiros.”

No caso, a poesia está na capacidade do mar em ouvir os suspiros do poeta. Quem não se emociona com esses versos tão simples e tão loucos?

Escolhi esses três poetas pela unidade temática dos versos, isto é, a comunicação com o inanimado – suprema loucura. Bilac, conversando com estrelas. Pessoa e Lorca dialogando com o mar – suprema poesia.

Propomos, para reflexão, um exercício comparativo entre uma prosaica definição lógico-racional e uma descrição poética. Tomemos como objeto a imagem ao vivo de uma mulher que deve ter sido o objeto mais definido em literatura:

- racionalmente ela poderá ser descrita como uma senhora de 30 anos, 1.70 de altura, 65 quilos, cor branca, olhos azuis, loura, bonita (o último qualificativo sairia sem convicção, pois é subjetivo e, portanto, de duvidosa verdade);

- o poeta, ao contrário, diria da mulher que ela é uma flor, um lírio, seus olhos falam de amor, seus lábios exalam luxúria, ela não existe – é uma invenção, uma deusa.

As diferenças entre as duas formas são flagrantes: a descrição racional é uma submissão total ao objeto. A poética é criação, invenção, fantasia e sua linguagem é ilógica e sempre em sentido figurado de metáforas. A percepção racional alimenta o entendimento, o conhecimento. A percepção poética alimenta a sensibilidade. Por aí, na natureza da percepção, podemos ter identificada a diferença específica, fundamental, entre poesia e prosa. 

O poeta é um malabarista de palavras, joga com elas como uma criança com seus brinquedos e nesse jogo o sentido real do termo perde toda importância em favor da fantasia. O sonho é mais importante que a realidade, a descrição conceitual é menos importante que o ilogismo metafórico. 

Daí resulta a dificuldade de se escrever poesia e, maior ainda, a dificuldade de entender poesia, principalmente quando a lemos com as categorias da razão, buscando o sentido lógico das palavras. Dizem os poetas que poesia não é para entender, mas sentir. Nessa linha conceitual a poesia pura poderia ser uma sucessão de palavras, sem sentido lógico, que apenas sugerem ou despertam a sensibilidade estética.

Exemplos de poemas de escasso sentido lógico:

De Cecília Meireles:


“Toca essa música de seda frouxa e trêmula
Que apenas embala a noite e balança
as estrelas noutro mar” 

(do ponto de vista da razão, a música de seda frouxa e trêmula que balança estrelas no mar é algo absolutamente indefinível)

De Manoel de Barros:                
"Sei que a voz das águas tem sotaque azul
Sei botar cílio nos silêncios
Para encontrar o azul eu uso pássaros
Só não desejo cair em sensatez”

(águas com sotaque, cílios nos silêncios e, o uso de pássaros para encontrar o azul, só faz sentido pelo último verso, onde o poeta manifesta o desejo de não cair em sensatez)               

A linguagem poética não é, entretanto, apenas a loucura do ilogismo metafórico, deve ter também ritmo e forma. A forma tradicional era dada pela métrica e rima, que todos conhecemos. Na história da literatura encontramos, ora a dominância do conteúdo, ora a maior preocupação com a forma. Mas, sempre, a poesia em si, com as suas fantasias e loucuras fazem parte do conteúdo, que o faz mais importante que a forma.

Na literatura greco-romana a preocupação com a forma era menor, os versos não tinham rima. Esta passou a ser usual e obrigatória a partir do século XIII, quando a poesia passou a ser cantada com os jograis, trovadores e menestréis. Ainda hoje quando um poeta faz versos para serem musicados, a rima faz-se indispensável. Ela marca a musicalidade. Na literatura clássica e romântica, particularmente a poesia épica ou laudatória, foi sempre contida em rigorosas exigências formais. 

Nos Lusíadas, por exemplo, Camões parece-nos em verdadeiro contorcionismo para não fugir às regras. Daí que a sua poesia lírica, mais espontânea, nos parece hoje superior ao canto épico que tanta fama lhe deu na história da literatura.

O formalismo clássico teve a sua fase áurea, entre nós, no período parnasiano onde a métrica e a rima, em alguns momentos, pareciam ser mais importantes que a poesia em si. Surgiram então, ao lado dos grandes, muitos poetas menores bem treinados no ofício, mas que de fato faziam apenas prosa metrificada e rimada. Faltavam-lhes a fantasia, o sonho, a loucura, a poesia.

Trago o exemplo de prosa metrificada e rimada tirado do mais célebre soneto de Raimundo Correia – “As Pombas”.


“Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia, sanguínea e fresca a madrugada. ”

Onde está a poesia nesses versos? Talvez apenas na métrica e rimas perfeitas.

O Movimento Modernista de 1922, em São Paulo, rompeu, no Brasil, com o formalismo parnasiano, buscando a poesia pura, liberada da métrica e rima que seriam cerceadoras da criação. Não se tratava de um movimento brasileiro mas sim reflexos de ideias surgidas na Europa, particularmente na Itália com Marinetti e na França com alguns poetas da vanguarda. O genial Rimbaud em 1872 escreveu um livro de poemas em prosa (Une Saison en Enfer) que haveria de marcar o novo caminho.

Pode parecer mais fácil fazer poesia sem o cerceamento da métrica e rima mas, do ponto de vista da razão ela se torna mais difícil, pois a forma é um visível marcador e, sem ele a poesia só se definirá pela linguagem, fantasia e a desejada loucura. Hoje podemos dizer que há boa e má poesia com rima e métrica e boa e má poesia em versos livres. Estes, apesar da liberdade, têm sempre um ritmo próprio que o poeta deve imprimir.

Outra dificuldade para definição racional de poesia é que o termo é equívoco, isto é, tem mais de um sentido. Assim, por exemplo, podemos ouvir falar de um romance cheio de poesia ou das esculturas poéticas de Degas, ou da poesia suprema dos noturnos de Chopin. Até paisagens há que são poéticas e, com maior razão, a beleza feminina poderá ser dita de inebriante poesia. 

É claro que se trata de uma conceituação por analogia; isto é, a percepção da beleza, em geral, sempre aflora à consciência carregada do lirismo próprio da emoção poética. Mas, do ponto de vista da razão, isso não é poesia, é simples analogia.

A respeito da emoção poética dissemos que ela é um distúrbio lírico-afetivo, isto é, uma doença. Precisamos dar mais explicações, principalmente, porque é uma doença da qual ninguém busca curar-se. Ao contrário, todos a desejam e a cultuam – o que é bom. Mas, como nos colocamos a serviço da razão, devemos tentar algum aprofundamento. Tratando-se de uma doença da alma achamos de bom senso consultar o Dr. Freud.

O pai da psicanálise, em várias partes de sua obra, fala no fenômeno estético, definindo-o como uma sublimação ou catarse, o que nem sempre é aceito. Mas, em relação à linguagem poética, ele está cheio de razão quando estabelece um relacionamento íntimo entre a fantasia poética e o espírito lúdico infantil. 

Em um ensaio de 1908 intitulado “O Poeta e a Fantasia”, ele aprofunda essa percepção. Diz-nos que a criança que fantasia acredita na realidade do brinquedo, assim como o poeta. Por exemplo, um tronco de madeira no fundo do quintal pode ser uma bruxa, se assim a criança o vê, o que justifica temê-la e falar com ela da mesma forma que poetas ouvem estrelas e dialogam com o mar.

Outro fenômeno que pode nos mostrar o íntimo relacionamento da poesia com o pensamento fantasioso infantil é o desespero poético da adolescência. Ninguém que conheceu a literatura na adolescência escapou do cometimento de algum poema. A razão é simples: o adolescente ainda está muito próximo do enorme depósito inconsciente da fantasia infantil, muito próximo, portanto, da poesia. Ao amadurecer, pouco a pouco, vamos nos entregando à algoz e fria tirania da razão. Nisso precisamos cuidados, pois alguém já disse que, se matarmos a criança que existe em nós, mataremos a poesia. E a poesia é uma necessidade vital.

Voltemos ao doutor. Hoje se costuma separar o método psicanalítico, tido como científico, da doutrina de Freud, sujeita a críticas. Pelo método psicanalítico de pesquisa e tratamento, tem-se como exaustivamente provado a existência do inconsciente e sua influência em nossa vida. Ele é o depósito de tudo que vemos, pensamos, vivemos, sofremos e amamos. 

A inteligência, através da memória, separa ou seleciona uma parte para suporte de nossas necessidades intelectuais, o resto torna-se o lixo inconsciente. A matéria desse lixo é de natureza sensorial, intelectual, mas também, com maior força, ela é de natureza emocional, afetiva. Este, o inconsciente emocional, tem uma dinâmica pela qual tende a aflorar à consciência, muitas vezes, perturbando o nosso equilíbrio afetivo. 

Daí a formação de uma vigilância impeditiva criada por mecanismos, também inconscientes, de censura e repressão. Emoções traumáticas e conflitos não resolvidos costumam romper a repressão pelo seu conteúdo afetivo, causando angústias e depressões incômodas.

Junto a este turbilhão emocional encontra-se o grande repositório infantil de fantasias e sonhos, alimento da poesia. Alguns de nós, bem dotados e mais sensíveis – poetas e artistas – conseguem transitar por esse mundo mágico. Trânsito sem controle e ocasional, apenas um sentimento estranho que os poetas chamam inspiração.

 Esse sentimento tem semelhanças com tristezas ou alegrias inesperadas, sem causa aparente que, às vezes, chegam ao nosso psiquismo. Seriam manifestações do inconsciente que, por associação de ideias e imagens, afloram à nossa consciência afetiva. O mundo inconsciente infantil, repositório mágico de fantasias, alimento da poesia, poderia ter idêntica comunicação no momento da criação poética.

Os antigos entendiam que esse impulso inconsciente na composição artística fosse obra dos deuses através de musas inspiradoras. Próximo de nós, Goethe disse que escreveu o seu Werther em estado de semi-consciência. Em depoimentos, alguns artistas e poetas, no ato criador, se dizem tomados por uma força inspiradora pela qual se deixam levar na composição artística. Isso, por se tratar de fenômenos claramente subjetivos e sem nenhuma conotação lógica de conhecimento, devemos admitir que a razão não sabe explicar. Freud talvez."

*Abílio de Barros é escritor, poeta, advogado e pecuarista. 



N a apresentação do caderno de poemas inéditos que Abílio de Barros pretende lançar em reunião com amigos, num almoço caseiro, nos próx...


Na apresentação do caderno de poemas inéditos que Abílio de Barros pretende lançar em reunião com amigos, num almoço caseiro, nos próximos dias, ele mesmo faz a síntese perfeita do que se trata: “estes poemas foram escritos pelo adolescente que fui. Nunca os mostrei. Agora, lendo-os de novo, mais de 60 anos passados, senti-me emocionado e esqueci os senões”.

São 5 poemas (curtos e longos) que percorrem o período de 1948 e 1954, fechando com um ensaio reflexivo sobre a poesia e a razão (que publicarei amanhã).

Trata-se de um caderno poético-filosófico de 51 páginas. Mas não devemos nos enganar: a modéstia e a economia do livreto rendem homenagens à grandeza de quem sabe manejar com talento, não somente as palavras em favor da inteligência, mas também os sentimentos do mundo contra as mesquinharias humanas.

Abílio faz aqui uma homenagem a uma timidez da juventude que se desabrochou aos poucos, abrindo-se em flor exuberante na velhice. O livro é uma pequena obra prima, guardado numa caixa que, ao ser aberta, anula a ideia do tempo, atualizando o passado para criar novas leituras sobre a poética sul-mato-grossense e suas intimidades guardadas em segredo durante décadas.

Abílio é o irmão mais jovem de Manoel de Barros. Talvez por um acordo tácito ambos tenham definido os caminhos literários que seguiriam quando eram moços no Rio de Janeiro dos anos 40. Cada um seguiu sua estrada, que às vezes se bifurcavam outras entrelaçavam-se. 

Nesse livro é possível encontrar a chave para compreender as obras que engendraram.

Manoel transformou-se no inventor que todos conhecemos. A Abílio coube a parte instrumental, a lida com as coisas da razão, sem espaço para devaneios estéticos. Na vida e na literatura a dupla funcionou sem que houvesse um pacto na trama da máquina do mundo.

Mesmo assim, Abílio fez aquilo que Manoel não fez: escreveu livros de ensaios, prosas ficcionais e artigos políticos de extrema graça e beleza, peças literárias de quem aprendeu de ouvido o sopro mágico da lira na formulação de argumentos.

Por isso volto agora à citação inicial de Abílio – “senti-me emocionado e esqueci os senões”-, tentando especular sobre as motivações para o lançamento de “Poesia”, com produção editorial de Marília Leite e ilustração de Jorapimo.

Essa observação sobre ocultar o lado poético de Abílio, por si só, rende um livro. Mergulhar nela é trabalho para especialistas de outras áreas, mas deixo pontuada a observação porque pretendo, noutro texto, voltar ao assunto.

Quando escreveu seus poemas adolescentes o Manoel de Abílio não era o de Barros (seu irmão) e sim o Bandeira* (sua referência estética).

A emulação que sentia pela lírica de Bandeira levou-o, por exemplo, escrever esse poema sublime:

Limite

A minha rua acaba no mar...
Nasce o mundo em mim.
Seus homens caminham lentos
Olhando a vida em silêncio
Pela certeza do mar
Às vezes passam navios
Ninguém sabe de que praias...
Mas abaixamos os olhos
Sem vontade de sonhar

Minha rua acaba no mar,
E o mar nos limita

(1949)

Existe, contudo, um imenso caldo de influência na poética de Abílio: Drummond, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Lorca, Bilac, que terminaram sendo utilizados em favor de sua prosa, mas abandonados na criação de versos. Uma pena.

É provável que se Abílio tivesse mergulhado desde jovem no fazer poético rivalizasse e inibisse Manoel (um homem cuja timidez neurótica é muito conhecida), mudando o rumo da história.

A especulação é apenas um exercício imaginativo, mas a generosidade entre irmãos, suas relações pessoais, o amor que nasce das solidões paternais, podem ajudar a definir rumos artísticos e carreiras pessoais.

Não importa: Abílio está nos brindando com um trabalho raro e magnífico, inscrito, desde já, naquilo que existe de melhor na poética sul-mato-grossense.

*Manuel Bandeira, com "u", nesse caso.


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