Em meados dos anos 70 trabalhei numa grande multinacional de pesquisa em São Paulo. O meu trabalho era coordenar grupos de pesquisadores...


Em meados dos anos 70 trabalhei numa grande multinacional de pesquisa em São Paulo. O meu trabalho era coordenar grupos de pesquisadores para avaliar o lançamento de produtos que seriam lançados no mercado. Naquele tempo, não se falava em emergência da classe C e as grandes indústrias tinham seus olhos voltados quase que exclusivamente para a chamada “classe média”.

Para testar o gosto, aceitação ou receptividade de um lançamento usava-se a praça de Curitiba porque, de acordo com os especialistas, a cidade tinha uma plataforma básica que dava consistência a qualquer levantamento: uma população com boa renda, educada, vivendo num lugar de estrutura urbana qualificada, de razoável senso crítico.

No teste desses produtos – podia ser um novo suco de laranja, um detergente, um sabonete – as perguntas que fazíamos ao consumidor eram as seguintes: aprova, não aprova, é bom, ruim e algumas outras nessa linha, mas nunca mostrávamos a cartela com o item “regular”. 
Isso não existia naquele mundo.

Digamos que estivéssemos testando a aceitação de um extrato de tomate: a pessoa que respondia à pesquisa tinha que ser categórica: gostou ou não gostou. Compro não compro. Não havia meio termo, não havia espaço para dúvida, não se aceitava evasivas. 

A questão do “regular” surgiu mais tarde com as pesquisas políticas. Até hoje não entendi o verdadeiro motivo pelo qual os institutos inseriram essa modalidade de avaliação. Sempre considerei que a pergunta essencial busca uma resposta dicotômica: sim ou não, aprovo ou não aprovo,  gosto e não gosto. 

Se a pergunta fosse simples e direta haveria a chance de o pesquisado, no caso, responder  “não sei”, ou ainda “prefiro não responder” e assim por diante. 

A resposta “regular” embute uma mentira. Não representa nada. Na verdade é a anti-resposta. Pode significar “não me comprometa, “não gosto de política”, “essa opinião é particular”, enfim, pode ser tudo como ser nada. 

Portanto, sempre digo: não acredito em pesquisa que usa como metodologia de avaliação o critério vago de não se ter uma opinião precisa sobre qualquer assunto.




Há tempos   que me apelam para que eu faça  um glossário de referências para responder aos “amigos” do Face, com os usuais pronomes de t...


Há tempos  que me apelam para que eu faça um glossário de referências para responder aos “amigos” do Face, com os usuais pronomes de tratamento. 

Pensei muito e achei que poderia ser uma coisa reveladora e, assim, correr o risco de aumentar consideravelmente a fila dos desafetos. 

Matutei, matutei, e decidi arriscar. Quem nessa vida não há de?

Conclui que essa seria uma contribuição fundamental para a humanidade.

Independentemente disso, achei boa a ideia e decidi elaborar minha lista particular de adjetivos – não apenas para meu uso, creiam – a qual, sem embargo, poderá ser muito útil para manter o debate civilizado entre os contendores que habitam as redes sociais, principalmente aqueles (ou aquelas) que são dotado(a)s da disposição infrene de trucidar o outro usando apenas teclas digitais. 

Não gosto da violência verbal a que muitos recorrem para achincalhar “adversários”, escoando suas diatribes em direção ao ralo, fazendo da internet um local muito semelhante aos esgotos de nossas cidades. 

Sei que tem gente que ama odiar o próximo. Essas figurinhas adoram fazer dos meios de comunicação modernas um valhacouto para seus instintos neanderthais, pensando que escrever é o mesmo que grunhir. 

Por isso, para garantir um debate elevado e com nível correto que corresponda ao processo civilizatório, aqui vai o meu glossário de referências educadas e polidas para que o mundo consiga viver dias de paz: 

Onde se diz                Quero dizer

Excelentíssimo (a) – canalha, biltre, mau caráter, babaca, leviano (a) (etc)

Ilustríssimo (a) – sacripanta, imbecil, psicopata, súcubo (etc)

Santíssimo (a) – tonto (a), maluco (a), alienado(a), louco(a), infame, invejoso (a) (etc)

Digníssimo (a)– equivocado (a), sórdido (a), cretino (a), inútil, leviano (a) (etc)

Caríssimo (a) – burro (a), sicofanta, velhaco (a), falso (a), idiota (etc)

Eminência  - Estulto, f.d.p, fingido, melífluo, torpe, estúpido (etc)

Vossa Reverendíssima- Piolho, verme, escroto, safado, promíscuo, tarado (etc) 

Vossa Magnificência –  Sociopata, esquizóide, bobo (a), podre, capacho, 

Vossa Majestade – Prepotente, arrogante, metido (a), jactante, empinado (a) (etc), convencido (a)

Vossa Onipotência – Picareta, mentiroso (a), harpia, fútil, covarde, deslumbrado (a),  

Vossa Senhoria – Corrupto (a), ladrão (a), imoral, propineiro (a), safado (a) etc. 

PS – Quem desejar acrescentar mais definições ao glossário fique à vontade. A liberdade de expressão existe para essas coisas...

V ou contar uma história que vivi meses atrás. Foi quando percebi com inaudível clareza que estávamos passando pela pior crise econômi...


Vou contar uma história que vivi meses atrás. Foi quando percebi com inaudível clareza que estávamos passando pela pior crise econômica de nossa história. Uma coisa é acompanhar a situação pelos números e estatísticas dos órgãos de economia, outra é ver nas ruas o crescimento da miséria, violência, concomitantemente ao aumento das placas de “alugo” e “vendo” espalhadas pela cidade. 

Visualmente, a crise é horrorosa. Ser dado a saber pela imprensa que existem 13 milhões de desempregados no Brasil é uma coisa, ver no seu entorno gente desesperada por falta de trabalho e dinheiro é outra. 

Ser informado sobre os valores de inadimplência é uma coisa, receber cartas de cobrança e assistir ao aumento do número de pessoas negativadas choramingando pelos cantos é outra. 

Juntando tudo isso, denúncias e mais denúncias de corrupção, propinas confessadas aos bilhões, tudo dito com sorrisinhos nos lábios, deboche e desculpas esfarrapadas, deixa qualquer ser humano tomado de uma raiva revolucionária incontrolável, buscando respostas fundamentalistas em algum lugar no espaço de sua indignação. 

Bem... viajei um pouco na maionese. Voltando ao começo: a história que me marcou tempos atrás aconteceu dentro de um supermercado da cidade. Estava fazendo compras de itens básicos para preparar um lanche em casa, logo no finalzinho da tarde. 

Entrei na fila do caixa e, de repente, vi a aproximação de uma senhora de uns 70 anos, bem vestida, com lencinho colorido no pescoço, muito alva, que cheguei até pensar que fosse uma turista estrangeira, talvez francesa ou alemã, sei lá. 

Ela veio de maneira segura, ereta, sem sorrir, sem se apiedar, com voz firme, porém, suave e me perguntou se ela poderia acrescentar à minha cesta algumas comprinhas que havia feito: um  frango congelado, uma dúzia de ovos, um suco de caju e duas maçãs. 

Não tive tempo de pensar numa resposta e assenti, de modo que ninguém percebesse que a familiaridade entre nós era inexistente. No momento em que estava passando as compras, ela voltou a perguntar: “posso acrescentar uma barra de chocolate?”, sem que houvesse chance de refletir, ela passou pelo caixa. 

Corri as compras, passei o cartão, ela agradeceu com um breve sorriso,  saiu com as sacolinha na mão, plácida, com passos suaves, olhando pra frente, dado por encerrado o dia vivido com intensidade, como estivesse pensando que o melhor lugar do mundo era ali e agora.


Diante das centenas de delações de executivos da empreiteira Odebrecht, envolvendo de maneira assustadora o núcleo do poder político bra...


Diante das centenas de delações de executivos da empreiteira Odebrecht, envolvendo de maneira assustadora o núcleo do poder político brasileiro, ficou patenteada a necessidade de uma reforma urgente do nosso sistema eleitoral. Esse é o tema candente que devemos colocar em pauta nessa hora grave e de grande comoção popular.

Diante disso, a pergunta que se faz é: o que deve ser mudado para que o ato de governar no País seja mais ético, mais democrático, menos excludente, e coloque em cena líderes que não estejam viciados nos esquemas vigentes?

Que todos digam que é preciso colocar na ordem do dia uma reforma política eficaz e duradoura isso é mais do que consenso. Mas qual modelo devemos seguir? Quais mecanismos de representação devemos forjar para que as campanhas eleitorais fiquem mais baratas e representativas e que elejam pessoas interessadas nos verdadeiros problemas da sociedade e não no fortalecimento de seus próprios esquemas de poder?

Mais ainda: como o sistema político deve se proteger de grandes conglomerados empresariais, impedindo que seja levado à falência o próprio conceito de Estado Democrático de Direito?

No primeiro momento, percebe-se que a sociedade deseja o novo e a atual classe política não consegue desvencilhar-se do velho. Trata-se de um dilema no qual deverão convergir esforços hercúleos da inteligência e criatividades dos brasileiros de bem.

Compreende-se que fazer essa transição será operação complexa, demorada e cautelosa. Só que não há outra forma. O Brasil chegou num ponto em que é preciso fazer uma correção radical de rumo, sob pena de sucumbir-se na crise e sacrificar a atual e também a próxima geração de brasileiros. 

O quadro é de extrema gravidade. Parcela da sociedade começa a flertar com soluções autoritárias de viés populista. Instituições como a OAB devem alertar a todos sobre esse perigo. 
As eleições de 2018 não poderão ficar contaminadas pela ideia de corrupção generalizada, levando os eleitores ao erro de acreditar em salvadores da Pátria. Isso já ocorreu antes e todos sabem quais os desdobramentos naturais desse processo deletério e insensato.

O quadro preocupa quando acompanhamos o conteúdo das principais propostas de reforma – lista fechada, financiamento público de campanha, fim das coligações nas eleições proporcionais, unificação do calendário eleitoral etc – que, em vez de sinalizar soluções consistentes, faz exatamente o contrário: aumenta as dúvidas, transformando-se numa cacofonia em que todos gritam e ninguém ouve ninguém. 

O caminho ideal da reforma – no modo de entendimento das vozes do bom senso da advocacia brasileira – deverá ser a gradualista, com alterações nos pontos nevrálgicos, tais como aqueles que promovam a significativa redução do peso do poder econômico nas escolhas dos candidatos e fortaleçam candidatos fichas limpas. 

A grande questão é que o calendário para atender as etapas desse processo está muito curto. O Governo Temer – até pela sua natureza transitória – dificilmente conseguirá promover cumprir simultaneamente essas tarefas, quais sejam, fazer os ajustes econômicos, pairar acima da Operação Lava Jato e estabelecer as bases da reforma política essencial para que o País possa superar a crise sem grandes traumas. 

Há muitas incertezas no horizonte. A agenda nacional está cercada de intensa negatividade. Todo mundo é contra alguma coisa, sem apresentar nada concreto para fazer avançar. É preciso reverter a lógica e partir para a execução de políticas afirmativas. 

A reforma política, nesse sentido, deve ser apresentada urgentemente para sinalizar uma luz que possa nos levar à superação de nossos principais impasses. Propor uma reforma para dar sobrevida aos envolvidos no maior esquema de corrupção do planeta não é o melhor caminho.

Essa é uma tarefa que deve somar as forças das instituições que representam a vontade da sociedade, saindo das platitudes e partindo para o campo das ações. É o que esperamos das forças vivas da Nação nesse momento.


Presidente da ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de Mato Grosso do Sul 

No dia 1º de abril, com a presença da quase totalidade dos associados, foi descerrada a placa que denominou o prédio do Instituto Históri...


No dia 1º de abril, com a presença da quase totalidade dos associados, foi descerrada a placa que denominou o prédio do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul com o nome de HILDEBRANDO CAMPESTRINI.

Uma justa homenagem a quem dedicou os últimos quinze anos de sua vida a registrar a história da nossa gente e do nosso estado. Na qualidade de presidente do Instituto o professor Campestrini cumpriu essa missão de uma forma apaixonada e com uma disciplina invejável.

Em emocionado discurso, seu filho Hildebrando Júnior, falou do amor de seu pai pelo Instituto que considerava sua segunda casa. “Aqui ele depositava sua vontade de criar um mundo melhor, e nesta casa, em conjunto com cada um dos senhores e senhoras, seu desejo por muitas vezes foi realizado”.
E continuou: “Nele havia um desejo latente de fortalecer no povo sul-mato-grossense o sentimento de pertencimento, desejo esse que o movia. Ele tentou levar a cada cidadão desta terra o orgulho e o conhecimento de sua história, principalmente por gratidão àqueles que lutaram bravamente por este chão e um desejo de ensinar incessante”.

Disse ainda: “Acredito que esse foi o seu legado, o legado que esta casa deve considerar ao pensar em seus próximos passos, afinal, nós, sul-mato-grossenses de todas as origens, devemos saber o quanto de sangue e suor foi derramado para que exista hoje um estado pujante, forte e cheio de esperança”. 

Na ocasião, a professora Silvia Regina Roberto, a viúva, que testemunhou sua dedicação constante, disse que o Instituto, era a grande motivação e inspiração da vida dele. O professor Campestrini respirava o Instituto.

O professor Paulo Eduardo Cabral, atual presidente do Instituto, encerrando a comovente cerimônia, disse da responsabilidade de sucedê-lo na presidência e do compromisso de todos os associados de dar continuidade à sua obra.

Campestrini foi um mestre como poucos. Teve milhares de alunos. Dos que eu conheci, todos se referiam a ele com reverência. Ele não alisava. Era rígido, exigente, não tolerava mediocridade.
Um gigante, mestre dos mestres na cultura, dedicou sua vida à pesquisa, à história, ao ensino. Foi professor, em sala de aula, por mais de cinquenta anos.

Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado por D. Pedro II. O único em nosso estado. Foi ainda acadêmico da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, da qual foi presidente.

Foi também professor na Escola de Magistratura do Tribunal de Justiça, ministrando aulas para juízes. Fazia palestras por todo o Brasil, nos tribunais de Contas e de Justiça ensinando como redigir ementas, etc.

Definia-se como agnóstico. E dialético. Buscava sempre a melhor solução. Era um verdadeiro operário do saber. Trabalhava sem cessar. De domingo a domingo.

Recuperou para a cultura a obra de Hélio Serejo – jornalista e escritor sul-mato-grossense que retratou o ciclo da erva-mate, registrando o dia-a-dia dos trabalhadores nos ervais. Serejo foi tão importante que dá nome à ponte que liga o estado de São Paulo ao de Mato Grosso do Sul. O legado de Serejo resultou num conjunto de 50 livros, significativo e importante, revisto e editado pelo professor. Campestrini que assina as notas adicionadas à obra.

O professor também editou, entre tantos outros livros, Inocência, de Visconde de Taunay, uma obra tão importante que, por iniciativa dele e decisão da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, tornou-se oficialmente o livro-símbolo do nosso estado, tendo sido adaptado para o cinema sob a direção de Walter Lima Jr, com Fernanda Torres no papel principal.

A realização de que mais se orgulhava o professor Campestrini era A Enciclopédia das Águas de Mato Grosso do Sul, uma obra ciclópica, um inventário literário de todos os cursos d’água de nosso estado, desde rios, córregos, corixos, etc., com 7.119 verbetes e 154 cartas hidrográficas. O livro foi editado sob sua coordenação e com a participação dos professores Ângela Antonieta Atanásio Laurino, Arnaldo Menecozzi e Francisco Mineiro Júnior. Não existe obra similar no Brasil.

Também de autoria de Campestrini o livro A História de Mato Grosso do Sul encontra-se na oitava edição. O professor editou mais de quarenta livros na série Memórias Sul-Mato-Grossenses.
O professor era também um homem voltado para as instituições filantrópicas. Foi associado da Associação Beneficente de Campo Grande, Santa Casa, da qual foi membro do conselho de administração e defensor intransigente da entidade.

Convivi com ele diuturnamente, nos últimos 14 anos. Fui convidado pelo professor para ser seu vice-presidente no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, em 2002. Disse-lhe, que eu não era professor, nem escritor, e não via como participar de uma instituição como aquela. Mas fui convencido e aceitei o desafio, que culminou sendo  uma oportunidade de aprendizado constante.
Hildebrando Campestrini foi para mim um mestre que marcou minha vida de forma indelével.

A homenagem que lhe foi prestada é um justo reconhecimento e também um legado para o nosso estado.

Advogado associado do IHGMS.


Terminei de ler nessa semana o romance de Jonathan Franzen, “Liberdade” (Companhia das Letras, 2010) e posso dizer que saí do livro um...



Terminei de ler nessa semana o romance de Jonathan Franzen, “Liberdade” (Companhia das Letras, 2010) e posso dizer que saí do livro um ser humano melhor do que entrei. O que me liga à narrativa desse escritor americano, autor de “Correções”, obra sensacional de 2001, é a sua limpidez na investigação profunda das ansiedades modernas. 

Essa é a questão: o texto despretensioso, bem encadeado, sonoramente agradável, revela-se um passo construtivo do que costumamos chamar boa literatura em comparação com empreitadas modestas incensadas pelo marketing editorial.

O escritor mostra que não é preciso empinar o nariz para fazer arte.

Concordo que Franzen repita os esquemas de Tolstoi na construção de suas histórias familiares, usando e abusando de cacoetes oitocentistas, criando personagens com um senso de realismo que contraria os cânones da vanguarda literária pós-Joyce, mas esse é seu campo, sua graça e sua inventividade. 

“Liberdade” mergulha na Era Bush e antecipa o período pós-crise com a sombra de Obama, de um lado, e o conservadorismo republicano, de outro, indo do politicamente correto, passando pela reabilitação dos conceitos trazidos depois do porre da contracultura dos anos 60, chegando até a direita reativa que emerge agora de um cenário convulsivo. 

Se tudo isso resultou em Trump, Franzem não exerce aqui nenhuma função oracular, mas antecipa uma “crise” existencial explosiva que nos joga nesse movimento pendular da história.

Franzem coloca no centro da cena a família Berglund e dali, desse microcosmo da classe média americana, expande até onde é possível os dramas universais em torno do que significa viver no centro cosmopolita do mundo. 

O romance trabalha a ideia de recorte, explorando o naturalismo e as evidências das contradições humanas, com seus paroxismos e suas reviravoltas surpreendentes, de uma forma tão espontânea e lírica, com uma clareza estética tão direta, que acho ser impossível percorrer as mais de 600 páginas do livro sem fazer paradas reflexivas que terminam nutrindo uma espécie de otimismo benevolente com a vida e suas mazelas. 

Há cenas doloridas e hilariantes. O romance familiar flui com a voz freudiana modulando o jogo entre atos e pensamentos, dramas pessoais e ideologia política, ranços, raivas, ódio e amor. Tudo ao mesmo tempo, num fluxo que revela a cacofonia do nosso mundo contemporâneo. 

Enfim, “Liberdade” é um texto maduro e a sua trama é coisa para adultos. Sua leitura explora os variados tons que modulam as escolhas humanas diante de uma realidade na qual somos  narcisistas o suficiente para negar que cada um carregue dentro de si universos diferentes, planetas estranhos, poeiras diversas. 

O mundo do outro parece ser sempre o “nosso” mundo; estamos fadados a ser solitários falando para nós mesmos aquilo que não conseguimos compreender do desejo alheio.

Como muitos críticos já notaram, Franzem faz hoje aquilo que os romancistas russos fizeram nos séculos XVIII e XIX, ou seja, criaram a chamada “alma eslava”, antenados na ebulição de histórias em intensa transformação. 

“Liberdade”, com sua simplicidade densa e seu eloqüente sotaque novaiorquino, coloca três personagens – Walter, Patty e Richard – no foco central de um momento em que a América começa a duvidar de si e de seus valores.

A amizade fecunda entre eles desde a época estudantil é percorrida por meio de um jogo de dúvidas, sonhos e traições. Walter – um nerd ambientalista apaixonado por pássaros -, Patty, uma jogadora de basquete frustrada e neuroticamente dividida entre a vida doméstica e o modelo de engajamento político da esquerda chic, e Richard , um sedutor predatório que, devido ao talento e fúria, torna-se um famoso astro do mundo da música pop americana, compõem as amarras romanescas que indicam, a grosso modo, o que chamamos de espírito do tempo. 

As dezenas de personagens secundários que orbitam em torno dos três amalgamam o universo mental de uma Nação que ultrapassa seus limites e expande as dúvidas cruéis que todos os humanos enfrentam na sua vã existência. No fundo, não existe essa “liberdade” formal e idealizada que aprendemos nas democracias modernas. 

Estamos aprisionados pelas nossas paixões, nossos medos e nossas incertezas, marionetes do acaso e do destino, implorando, todos os dias, por respostas que não existem, fazendo perguntas que não compreendemos. 





Mais um poema inédito publicado pelo blog: Os gaviões de Brasília Uma visão do futuro: N o vôo raso do gavião Que circula Os ed...


Mais um poema inédito publicado pelo blog:

Os gaviões de Brasília

Uma visão do futuro:

No vôo raso do gavião
Que circula
Os edifícios com a rapidez límpida
das asas vergadas

(Exibindo um desafio diagonal
em direção ao solo)

Imagino a dimensão insignificante
Do espaço em que lanço 
meu olhar atônito
dessa janela.

O cenário é insólito:
A esplanada dos ministérios está em chamas

G uardei minha vida num pedaço de pano encharcado de lágrimas. Por lá fiquei esquecido num deserto de almas onde cultivo meus rancores. Ta...

Guardei minha vida num pedaço de pano encharcado de lágrimas. Por lá fiquei esquecido num deserto de almas onde cultivo meus rancores. Talvez ali eu encontre a certeza de que sou devoto da solidão. 

E o amor, tem pra se vender no balcão? Ah, do amor não tenho certeza de nada, ficou cabreiro perto de mim. Acho que o matei por tantas vezes que, sei-lá, escapuliu ou evaporou. Eis a questão.

Mesmo assim, respeito o homem comum que sabe amar: dorme entusiasmado como um idiota, acorda feliz com o céu de fundo azul e celebra a vida ao entardecer. Cada um escolhe a quermesse e o santo pra se prostrar.

Chego em seguida para lhe dizer a verdade. Conto que vive uma mentira, um engodo pra aliviar a vida real, na necessidade de fugir da rotina.

Sou esquisito. Carrego comigo uma nuvem negra e um vento gelado que sopra nos cantos da sala. Tenho uma flor de Guanaco que fenece por falta de água, enquanto eu observo a distância entre os corpos. Mas sei corresponder quando sou amado: os olhos triscam, os lábios se colam e o coração acelera. E sou canalha como qualquer um quando preciso dizer dizer I love you

Agora dei pra ficar por aí em soluços a passos descoordenados. É a vertigem da meia idade que me apavora. Se eu me encontrar, prometo tomar conta de mim. E então? Enquanto isso, colho os cacos dessa desordem. 

Quem sabe me levanto.

*jornalista

Artigo publicado originalmente no Correio do Estado de segunda-feira(10 abril): T ornou-se tradição fazer balanço de gestão dos prim...


Artigo publicado originalmente no Correio do Estado de segunda-feira(10 abril):

Tornou-se tradição fazer balanço de gestão dos primeiros 100 dias de administração. Trata-se de oportunidade simbólica para mostrar à população quais foram os primeiros passos percorridos e como se dará o processo de governança ao longo do mandato. 

É importante que se diga que esse é um bom momento para se avaliar o trabalho do prefeito, sem nenhum caráter comemorativo.

Por isso, devemos enquadrar esse processo sob a ótica do contexto em que estamos vivendo, sem  pensar em marketing,  preocupando-se apenas com a realidade. Esse é o meu jeito de fazer política.
O Brasil vive um momento atípico. Campo Grande, nesse aspecto, tem o quadro agravado por somar desajustes que perduram há vários anos. 

A cidade não somente vem sendo atingida pela forte crise econômica nacional, como foi duramente castigada pela combinação de vários fatores que nos levaram à instabilidade política além da perda gradual de governabilidade. 

Por esse motivo, tivemos que adotar um programa emergencial de obras e contenção de despesas, fazer aperto de caixa para criar um ambiente saudável em nossas finanças, ao mesmo tempo em que implementamos ações para reconquistar a credibilidade e a confiança daqueles que desejam investir na Capital. 

Cortamos secretarias, fizemos um ajuste fiscal e reduzimos em 30% os gastos com cargos comissionados. Voltamos a pagar em dia o funcionalismo, quitando os vencimentos em atraso, principalmente o 13º do ano passado.

Ao mesmo tempo, tivemos a preocupação de restabelecer parcerias estratégicas com o Governo do Estado, e nos articulamos com a bancada federal para atrair recursos para programas que precisam ser implementados para melhorar da qualidade de vida da população. 

Os primeiros 100 dias já apresentam resultados: conseguimos organizar a operação tapa-buracos, realizando reparos equivalentes a 30 quilômetros de asfalto, normalizando o tráfego em 970 ruas e avenidas da Capital (perfazendo 90 mil buracos), trabalho este que já está dando alívio àqueles que andam pela cidade. 

Mais importante ainda: realizamos convênio com o exército brasileiro, que hoje se tornou parceiro de Campo Grande no processo de recapeamento de vias estratégicas de nossa Capital.
Sabemos que falta muito. Infelizmente, não fosse a intensidade das chuvas dos últimos meses, teríamos feito mais. 

O mesmo se pode dizer dos medicamentos que estavam faltando nos postos de saúde e que conseguimos regularizar, negociando imensa dívida com fornecedores, além de adquirir 4 novas ambulância para o SAMU. 

Podemos falar o mesmo da merenda escolar, que foi normalizada; dos uniformes que estão sendo entregues no início do ano letivo; da retomada do interesse de empresários pela nossa Capital; enfim, da resolutividade que estamos dando às demandas reprimidas que, no conjunto, estão resultando na gradual recuperação da capacidade gerencial de Campo Grande. 

Estou adotando o chamado método administrativo presencial, acompanhando de perto as obras, visitando as unidades de saúde, conversando diretamente com cidadãos e cidadãs, dividindo meu expediente, juntamente com o secretariado, dentro e fora dos gabinetes. 

Sei que muita gente não gosta disso, mas essa é a forma de estar presente no dia a dia da cidade, mantendo-me em sintonia com o nosso cotidiano. 

Nesses primeiros 100 fizemos a virada necessária para atravessar a crise de 2017, preparando-se para a retomada do crescimento do País em 2018. Tenho fé e esperança.

Nosso propósito é criar as condições básicas para consolidarmos um programa de gestão moderno e eficiente, fortalecendo a economia local, gerando empregos, reduzindo as desigualdades, promovendo a harmonia política dentro de parâmetros republicanos, condições essas sem as quais não conseguiremos avançar para tornar nossa cidade um lugar para viver e ser feliz.  

Prefeito de Campo Grande

D ecepcionante e incoerente a reportagem exibida pela Rede Globo no Jornal Nacional, nesta semana. A matéria induz o telespectador a acre...


Decepcionante e incoerente a reportagem exibida pela Rede Globo no Jornal Nacional, nesta semana. A matéria induz o telespectador a acreditar que os problemas da previdência dos estados e municípios estão relacionados à reposição salarial dos servidores públicos.

Na verdade, esse aumento só ocorreu para os poderes Le
gislativo e Judiciário. Na outra ponta da corda, está a classe trabalhadora que há muito tempo não tem nem a reposição inflacionária.

Computando os últimos quatro anos, estima-se que o servidor público sofreu uma perda salarial acima de 50%, um déficit maior que 40% de recursos humanos e aumento na demanda três vezes maior.

Outro ponto que merece ser questionado é a ingerência das carteiras previdenciárias, (geridas pelos nosso representantes federais) que culpabilizam o servidor público, retornam ao trabalho escravo, rasgam a CLT, vulnerabilizam a tripla jornada da mulher e ignoram a periculosidade e insalubridade de serviços como saúde, segurança e educação.

Acredito que nossos representantes (favoráveis a reforma da previdência), não estão preocupados com as futuras gerações. Eles estão mais preocupados em agradar a política previdenciária injusta proposta pelo Governo Federal. 

Falta uma ampla discussão com a sociedade brasileira, explicando a necessidade dos reajustes na previdência. Um assunto tão importante como esse, merece um profundo debate com todos os setores envolvidos. por meio de audiências públicas.

O Brasil passa por um momento delicado. Vivemos umas das maiores crises econômicas da história do País. Por isso é necessário menos proselitismo barato sobre a questão “previdência” e mais responsabilidade na condução dos trabalhos. 

Fecho esse texto questionando a postura jornalística e a coerência da Rede Globo. A emissora agiu de forma tendenciosa ao colocar nas costas do servidor público o peso pela situação caótica do sistema previdenciário. 

É papel do jornalismo expor visões diferentes sobre o mesmo fato. Nesse sentido, a Globo poderia ter tido uma conduta diferente e mostrado à população que foi a corrupção na previdência que sangrou nossas reservas, não o servidor. Simples assim.

*vereador por Campo Grande

E femérides são aleatórias . Mas são boas oportunidades para lembrar que algumas categorias profissionais ainda existem. Na últimas sexta...


Efemérides são aleatórias. Mas são boas oportunidades para lembrar que algumas categorias profissionais ainda existem. Na últimas sexta-feira (07/04) foi comemorada o Dia do Jornalista. 

Aviso aos colegas que se trata de uma profissão em extinção. O fenômeno das redes sociais pouco a pouco transformará qualquer cidadão ou cidadã num (numa) jornalista em potencial. Com uma vantagem: não será preciso saber apurar informações nem escrever. Bastará bufar contra tudo e todos. 

Pergunto: como chegamos a esse ponto?. Não sei. O aviltamento da profissão começa a preocupar. Até 20 anos atrás havia uma aura meio romântica em torno do jornalismo. Na verdade, no meu entendimento, ser jornalista não era uma profissão e sim uma carreira. Só indivíduos vocacionados encaravam uma atividade mal remunerada, hostilizada e que era suportada pelo poder e poderosos com o cinismo e hipocrisia que se dispensa àqueles sujeitos que não foram convidados para a festa, mas que ninguém consegue mandá-los embora. 


De repente, talvez por causa dos cursos universitários - estou chutando - milhares de garotos e garotas são literalmente jogados no mercado em busca de um lugar ao sol. Eles chegam sem entender direito as regras do jogo, com conceitos esquisitos na cabeça, pouco letrados, avessos a qualquer intelectualismo, mas com um senso de marketing pessoal que termina ludibriando os incautos. 


Vejo políticos contratando exércitos de jornalistas pensando que esse é o caminho de entrada para o mundo das celebridades. Eles não percebem que o jornalismo é uma profissão de longevidade, que é necessário viver, experimentar, conhecer, formar uma rede de relacionamento extenso para, só depois, estar preparado para exercer com clareza essa profissão que, de fato, tem algum glamour, mas vive de tristeza, inveja e ressentimentos. 


Acho que todos têm direito de um lugar ao sol, mas é bom que fique claro para muitos que a luz não é para todos. Hoje vejo que muitos jornalistas não gostam de ler, estão poucos interessados em compreender o ambiente social, embora sejam arrogantes o suficiente para acreditar que sua única função é escrever um bom lead mandado pelo chefe – geralmente um sujeito que ocupa mais função operacional do que intelectual. 


Hoje o ambiente profissional é cercado de cuidados porque não é mais possível delimitar o que é a verdade dado o intenso relativismo a que está sendo submetido a sociedade moderna. O bom jornalista está sendo engolfado pelos “fakes news”, pelas pós-verdades, achando que clicks e mais clicks justificam o sucesso dessa ou aquela notícia. 


Estou profundamente desanimado com a minha profissão. Às vezes acho que serei mais feliz escrevendo livros. Às vezes penso em abrir um pequeno negócio no litoral catarinense. Às vezes penso ficar escrevendo nesse blog e esperando chover os processos de meus desafetos. 


Hamlet é a antecipação de todo jornalista: ser ou não ser?. Na dúvida, é melhor escrever um post no facebook.  


Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo: Ontem vi um rapaz que muito me agradou na padaria próxima a minha residência e pen...


Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo:

Ontem vi um rapaz que muito me agradou na padaria próxima a minha residência e pensei: óbvio que ele vai cruzar olhares sedutores comigo. Sou gata, sou poderosa, sou loira falsa.

Pensei também: óbvio que ele vai adorar ter seus mamilinhos másculos e sua bundinha musculosa encarados pelo meu deleite. Quem, em sã consciência, não ficaria lisonjeado com o meu desejo? Ou ainda: que jovem heteronormativo não imploraria, enquanto escolhe um iogurte com "dan regulares", pra ser patolado por uma desconhecida?

O moço preferiu escolher pães doces a notar minha existência e eu, não podendo conter a fúria de ser ignorada, tampouco controlar a verdade mamífera que brotava violenta em meu palato, bradei, pra quem quisesse ouvir: "VIADO"! Foi legal ter dito isso? Não. Me arrependo? Muito. Eu errei. Mas estava imersa em meu personagem de colunista fêmea branca opressora, espero que entendam. Não era eu, era o meu eu-lírico.

A culpa não é minha e sim da minha geração. Minha avó, que Deus a tenha, me ensinou desde muito cedo: podendo esmagar sacos escrotais pela vizinhança ou ainda dar dedadas anais pelo bairro, não se reprima! Os homens adoram. Eles só saem de casa usando camisas com alguns botões semiabertos e um tantinho da cueca aparecendo porque QUEREM justamente que alguém lhes torça o pênis, eles não só desejam desesperadamente que uma desconhecida lhes atoche uma unha vermelha e comprida, como MERECEM que isso aconteça.

Minha mãe, vendo-me tantas vezes sugar minha própria saliva em desmedido prazer, com a cabeça pendurada pra fora do meu carrão, buzinando para (e bolinando em pensamento) os universitários no ponto de ônibus, apenas sorria e balançava a cabeça: essa é fêmea! Ela nunca me ensinou que isso não se faz. Ela, sempre pude notar com muita clareza, sentia profundo orgulho: "Minha filha não é como essas sapatoninhas que andam por aí, essa é mulher de verdade"!

Ah, querido rapaz da padaria! Não foi apenas a minha mão direita que agarrou seu pênis e o espremeu até que você clamasse por socorro. Foi também a mão esquerda e uma infinidade de desculpas. Esmagar seu membro não foi invenção exclusiva de minha mente doentia. Foi a década em que nasci. Os avós que tive. Os pais que a vida me deu. As professoras de balé, professoras do primário. Tanta gente que você nem imagina. Eu te peço perdão, mas, se não bastar, reclame com quatro décadas e minhas tias.

No meu tempo era diferente. Eu fui criada pra achar que qualquer homem amaria ser grosseiramente acariciado em plena panificadora. Sou fruto de dezenas de gerações de mulheres que passaram adiante o que acabou se tornando um dos meus mantras: "Quando, no mercadinho, um homem abaixar pra pegar um engradado de cervejas, aproveite para conferir como ele fica de quatro e, se puder, sorva a língua com luxúria". O que está acontecendo com o mundo que ninguém mais ri disso?

Estimado rapaz da padaria, um dia terei filhos. É esse mundo que eu quero pra eles? Não! Entendi, finalmente, que são tempos novos e melhores. Obrigada por tudo e desculpa qualquer coisa. 

*Escritora e roteirista

H oje ele acordou atrasado. Tateou o criado, apanhou os óculos e caminhou rumo ao chuveiro. Na hora do banho, lembrou-se da agenda esquec...


Hoje ele acordou atrasado. Tateou o criado, apanhou os óculos e caminhou rumo ao chuveiro. Na hora do banho, lembrou-se da agenda esquecida no banco do carro e que, por esse motivo, não recordava da primeira atribuição diária.

A mulher já estava na cozinha, cuidando do café e dos afazeres domésticos. Tomou rapidinho um iogurte com cereais, para fortalecer o corpo e aguentar o tranco matinal.

Já passava das 7h30 quando ele chegou ao serviço. Chegou esbaforido, com aquele sentimento de culpa pelo atraso repentino. A recepção quieta, os colegas mudos e o patrão com cara de poucos amigos, denunciavam algo estranho no ar.

Disse bom dia, arrastou a cadeira e ligou o computador. Em seguida, ouviu a secretária cochichando no telefone sobre a lista de demissões que estava na mesa do chefe. Suas pernas tremeram. Pensou na mulher, nos filhos, no aluguel, nas prestações, nos problemas conjugais. Era o fim.

Assim que a porta da sala de reunião se abriu, ele ouviu o som da voz do patrão chamar o primeiro nome da lista da degola. Todos em silêncio escutaram elogios, justificativas, Dilma, Temer, crise e por fim, a frase: “Infelizmente, você não faz mais parte dessa equipe, lamento”.

Viu lágrimas nos olhos, pessoas cabisbaixas e um sentimento de medo e frustração que pairava no ambiente. Em seguida levantou-se, deu um abraço afetuoso no colega demitido e com a voz embargada, profetizou que dias melhores viriam. O colega acenou e partiu.

Sentou-se novamente na cadeira e ali permaneceu emudecido aguardando o próximo nome da lista negra. Quarenta minutos depois, assistiu uma senhora de meia idade caminhar em passos lentos para o destino final. Mais uma vez seguiu o mesmo protocolo: uma despedida comovente e juras recíprocas de amizade até o fim da vida.

A lista seguiu com mais dois nomes. A aflição só aumentava. As mãos  tremiam, a boca ficou seca, o rosto dormente . Uma sensação de pavor tomou conta daquela sala.

Até que, para terminar com aquela angústia toda, foi ter um particular com o chefe. Pediu permissão para entrar e desabafou. Começava assim um confronto de ideias.

Falaram sobre mercado, CLT, sindicato, encargos para o empregador, aumento da taxa de desemprego no Brasil. Saiu de lá mais esperançoso sobre sua permanência no trabalho e com a certeza de que tinha feito um grande amigo no comando da empresa. Estava eufórico.

À caminho de casa, passou na padaria comprou pão, queijo, refrigerante e algumas guloseimas para os filhos. Era pobre, mas queria comemorar com estilo a amizade no alto escalão.

Antes do jantar, contou a novidade para a esposa, ligou para um amigo e fez planos para conquistar prestígio dentro da diretoria da empresa. Mais um pouco e seria amigo dos poderosos.

Passou a noite assim. Confabulando ideias para ter um carreira de destaque e ter o aval do chefe como um funcionário de confiança e respeitado dentro da hierarquia da empresa.

O dia amanheceu sem que ele percebesse. Tomou uma ducha, vestiu uma beca nova e tratou de se apressar para chegar antes do chefe. Queria mostrar dedicação e alimentar a nova amizade.

A coisa ficou esquisita quando ele se aproximou da portaria do serviço e foi informado de que era para passar no departamento pessoal. No balcão do DP a funcionária o informou da demissão e pediu que ele assinasse a papelada.

Era o fim da angústia da demissão e o início de um sentimento de frustração. Passou na sala, limpou as gavetas e despediu-se dos colegas, mas não encontrou o chefe.

Na saída, enquanto arrumava seus pertences no porta-malas do carro, percebeu uma mão firme segurando seu ombro. Era o patrão que aparecia de supetão para explicar sua demissão. Não quis ouvi-lo. Agradeceu o tempo no serviço e partiu.

No trajeto para a casa, resolveu contar a má notícia para a mulher. Começou explicando a crise financeira brasileira, passou pela falta de dinheiro circulando mercado, até chegar ao assunto chave.  

Ela ficou tensa, encrespou e desligou. Ele temeu aquela reação e, sem coragem, resolveu perambular pela cidade.

Duas ou três horas depois, atravessou bairros, avenidas e resolveu encarar a situação. Em casa o ambiente era de indiferença. Até que esposa rompeu o silêncio e sentenciou que ali ele não iria ficar. A justificativa foi que, sem dinheiro, não há amor no leito conjugal.

Ele concordou. Calado, permaneceu com os olhos fixos no teto até criar coragem para arrumar algumas coisas na mala. O restante dos pertences foi se amontoando na banco traseiro do  carro. Era hora de partir e procurar um canto.

Saiu dali disposto a encontrar um lugar para passar a noite e refletir sobre vida. Era o momento de refazer os planos. Encontrou um hotelzinho no centro, cafoninha, cheirando a mofo e sem grandes atrativos. O suficiente.

No dia seguinte, acordou com o corpo metido dentro do oco do colchão, espreguiçou e resolveu deixar o quarto. Não havia tristeza e desemprego que resistisse ao esplêndido sol daquela manhã e a calmaria de uma consciência tranquila. Era preciso respirar e seguir em frente. E foi refazer a vida.


* jornalista

P ode ser impressão ou avaliação apressada, corro o risco de ser injusto com algumas obras, mas no geral tudo o que se faz no meu país, ...


Pode ser impressão ou avaliação apressada, corro o risco de ser injusto com algumas obras, mas no geral tudo o que se faz no meu país, em termos de serviço público, é precário, improvisado e emergencial. 

Nada é definitivo, não existem ações ou obras com intenção de fazê-las durar. Ou é remendo provisório ou uma gambiarra pra tapar alguma falha de percurso, essa é a regra. É banal e faz parte do cotidiano a queda de viadutos, o derretimento de asfalto na cidade e estradas, é real o mal atendimento na saúde e outros setores do serviço público. Até a nossa Constituição tem remendos e são praticadas recauchutagens na sua interpretação.

Andar por qualquer cidade do Brasil basta pra constatar nossa cultura e apego a remendos. Nosso modo de ser se revela não apenas na precariedade do asfalto, na despreocupação com acabamento e o pouco respeito aos detalhes, somos um pais grande demais para exercitar um comportamentos uniformes e obedecer uma mentalidade única. 

A regra é cada um por si: se o gestor público anterior iniciou um trabalho razoavelmente eficaz, o que segue irá numa direção decididamente oposta. São raras nossas cidades que servem de modelo.

Evitar práticas definitivas é coisa de brasileiro bobo. A cada nova eleição, o eleito exige marca própria para sua gestão, novos secretários e novas ideias. Para concluir isso são desperdiçados recursos para implantação e divulgação das marcas e dos novos remendos. Só ai já irá escoado pro ralo uma porrada de dinheiro que seria mais útil se aplicado em obras essenciais

Aproveitar o que era bom, nem pensar. Isso até viria bem se as novas ideias fossem efetivas. Na maioria das vezes repete-se a fórmula dos remendos –sejam eles no asfalto como nos rombos deixados pelo gestor anterior.  

Se alguma coerência existe na representação pública do país, ela se materializa na fidelidade aos vícios – que só acrescenta despesas e não significa avanços reais. 

O sistema nacional de mijar na própria gestão pra marcar território, caso fosse somado seu custo, seria suficiente pra amparar obras e ações sociais além do que podemos imaginar. 

A solução de investir na própria imagem com dinheiro público é uma regra entre os políticos, um caixa dois institucionalizado, que facilita campanhas eleitorais como se fosse serviço de utilidade pública. Não confiam, eles, os políticos, que a melhor campanha é o trabalho bem feito.

É uma merda essa cultura pela qual apenas a boa gestão não favorece o reconhecimento público. O alarde é questão de ordem e o custo decorrente está previsto na elaboração do orçamento, uma atitude viciosa já incorporada ao sistema e incentivada pelo entorno que dela se beneficia.

E stá chegando ao meu conhecimento todos os dias que muitos médicos do serviço público municipal de Campo Grande estão boicotando o pref...


Está chegando ao meu conhecimento todos os dias que muitos médicos do serviço público municipal de Campo Grande estão boicotando o prefeito Marquinhos Trad. 

De acordo com depoimentos, isso não é a primeira vez– nem será a última – que acontece. Outros prefeitos sofreram com o mesmo problema.

É difícil apurar se há, de fato, uma organização azeitada para travar o atendimento a pacientes para criar um ambiente político deletério na cidade. 

Não consigo enxergar homens e mulheres encontrando-se na calada da noite para combinar uma ação para desestabilizar um setor essencial para a vida de cidadãos e cidadãs que pagam impostos e precisam de atendimento médico. 

Mas as denúncias são recorrentes. Coisas comezinhas como operações tartarugas, falta  ao trabalho, tratamento rude e indiferente, até coisas mais sérias como alegar falta de medicamento (quando, na verdade, eles estão disponíveis), negligenciar o sofrimento de quem sente dor, fazendo com que eles percorram outras unidades em busca de atendimento especializado.

Para muitos, trata-se de atitudes políticas calculadas para causar desgaste e aumentar o poder de barganha de uma classe profissional conhecida pelo corporativismo exacerbado. 

Uma parcela da mídia respalda essas atitudes fazendo o jogo sórdido do denuncismo, apostando que a cobrança ao gestor pode agradar à população transformando médicos em santos. 

Nos últimos tempos, parece haver uma mudança na percepção das pessoas. Elas estão sacando que categorias usam os cidadãos como fantoches para arrancar vantagens do administrador de plantão. 

Médicos são cada vez mais vistos como pessoas sórdidas, gananciosas e ineptas. A profissão estimula uma gradual desumanização, levando à coisificação das pessoas. 

Não demonizo a profissão inteira. Há médicos e médicas – creio que a maioria – humanistas, corretos e decentes. Sou testemunha disso.

Mesmo assim, usar a população mais carente como massa de manobra para ter pleitos corporativos atendidos não tem nada a ver com os requisitos éticos necessários do exercício dessa nobre atividade.

E o problema é que o tema está ganhando as ruas.

Sobre demissões em massa e a atuação do SINDJOR-MS A gestão Ocupa SINDJOR recebeu com tristeza, mas infelizmente não com surpresa, a no...


Sobre demissões em massa e a atuação do SINDJOR-MS

A gestão Ocupa SINDJOR recebeu com tristeza, mas infelizmente não com surpresa, a notícia de uma série de demissões no Jornal Correio do Estado, uma das maiores empresas do setor em Mato Grosso do Sul. Esse ‘passaralho’ já vinha sendo cogitado há meses, seja por meio de boatos, seja por ameaças veladas dentro da redação do jornal, que vive clima tenso há um bom tempo. Sempre estivemos atentos a isso e lamentamos profundamente ver concretizado aquilo que era temor. São colegas sem emprego, famílias que não saberão como será o futuro e, por fim, menos postos de trabalho para um mercado já problemático e saturado. É um dia triste, repetimos.

Em nome do esclarecimento da categoria, essa gestão prestes a completar 8 meses à frente do Sindicato informa aos colegas jornalistas que as dispensas ocorreram no mesmo dia em que a entidade sindical fechou, com a interveniência do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), acordo judicial com o Correio do Estado para cumprimento do acordo coletivo em vigor, garantindo o custeio do plano de saúde, benefício a que os empregados do Correio sempre tiveram direito. Ou seja, as demissões já eram previstas, mas foram efetivadas num dia de vitória jurídica do sindicato, como retaliação por buscarmos o direito dos trabalhadores.

Explicamos: o Acordo Coletivo de Trabalho 2015/2016 feito com o Correio do Estado previa custeio de 100% do plano de saúde para todos os funcionários. Sem que fosse negociado, a empresa informou aos funcionários que deixaria de oferecer esse benefício. É importante frisar que nunca houve conversa para informar da dificuldade de pagar e propor uma solução compartilhada. Como existia um acordo em vigor, para que algo assim seja mudado, é preciso um aditivo com a interveniência da entidade sindical.

A informação chegou ao SINDJOR-MS no mês passado e, por meio de ofício, a gestão comunicou a empresa o descumprimento do acordo. Fomos chamados para uma reunião, em que a informação dada pela chefia do setor de Recursos Humanos foi de que as demissões eram questão de tempo e que não haveria como voltar a pagar o plano de saúde. O pedido da empresa, então, era de assinatura de um aditivo concordando com uma decisão não negociada. Diante disso, nosso comportamento foi solicitar a antecipação das conversas para um novo Acordo Coletivo de Trabalho. Em razão da importância do que estava a ocorrer, a intenção era discutir todos os termos, incluindo a preservação de empregos. A resposta do Correio foi negativa.

Restou a saída jurídica. Entramos com pedido de liminar, na Justiça do Trabalho, para que o plano de saúde fosse assegurado até o fim do acordo. A decisão provisória foi concedida, em razão do evidente descumprimento de acordo coletivo em vigor. O jornal tentou, ainda, reverter a determinação, mas a juíza responsável, Nádia Pelissari, manteve a liminar e anotou o desinteresse da empresa em abrir negociações.

O Correio cumpriu a decisão, mas entrou com pedido de mandado de segurança no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), para não ser obrigado a pagar o plano de saúde. O desembargador responsável, Nery Azambuja, na quinta-feira (30 de março), chamou as partes para uma conciliação. Tivemos audiência na sexta-feira (31 de março), quando o juiz pediu que fosse apresentada uma proposta de negociação na segunda-feira. Na audiência de segunda (3 de abril), ficou definido que o Correio vai manter o plano de saúde até o fim deste mês. A ação de primeiro grau foi extinta e ficou definido, com a empresa, o início das conversações para um novo acordo. Ressaltamos que nas duas conversas, na frente do magistrado, a ameaça de demissão foi usada como forma de pressionar para que aceitássemos o fim de um benefício concedido há mais de 40 anos.

Reconhecemos o tamanho do Correio do Estado, sua importância no mercado de trabalho e de jornalismo local e, por isso mesmo, gostaríamos de ter tido a oportunidade de dialogar, antes de uma decisão tão drástica. Não foi possível e sobre isso, lamentamos. Mas não apenas isso. Consideramos que, daqui para frente, é preciso abrir diálogo, e é imperativo que ele se paute no respeito aos direitos já conquistados e no avanço para nós profissionais - e não em retrocessos determinados verticalmente. Vamos nos manter nesse caminho. É assim, que em pouco tempo, o Coletivo Ocupa SINDJOR tem atuado.

Desde o ano passado, conquistamos o acordo coletivo de um veículo importante, o Campo Grande News, com a vitória de reduzir a carga horária para 5 horas, desejo antigo dos trabalhadores. Também asseguramos, com interveniência da Justiça do Trabalho, o contrato de trabalho para os empregados da Rede MS de Rádio e Televisão, que compreende os veículos ligados à Record. Nesse acordo, só para citar um exemplo, os funcionários tiveram reajuste de 10%. Estamos em conversas também com outros veículos que nunca tiveram acordo, como é o caso da TVI, antiga TV Guanandi. Outros veículos também serão procurados, inclusive aqueles com problemas recorrentes.

Anotamos, ainda, vitórias na Justiça, como a conquista para uma profissional de assessoria de imprensa de uma causa avaliada em R$ 80 mil, em razão do descumprimento da jornada de trabalho. Queremos deixar claro, ainda, que temos, pela primeira vez nos 35 anos de existência do SINDJOR-MS, uma assessoria jurídica atuante e disposta a buscar na Justiça o que o diálogo não for capaz de nos proporcionar. Sem guerra, mas usando a lei a nosso favor.

É apenas o começo de uma gestão que, aos poucos, está acordando um sindicato adormecido. Somos, infelizmente, uma classe que, a despeito de sua função social, tem problemas sérios de representatividade. Sabemos do momento duro, mundial e localmente, escolhido para agir e não temos medo. Estamos engatinhando e precisamos, como nunca, de apoio mútuo e coragem.

Essa nota é, além de lamento e prestação de solidariedade aos colegas demitidos, um chamamento à classe. Sem vaidades pessoais, nem brigas inúteis. Fazemos reuniões quinzenalmente, estamos investindo não apenas na representação legal, mas também na formação profissional, em momentos de reflexão, como a Mostra Cinema e Imprensa, em sua segunda edição nesta semana. Conversando, a gente quer encontrar caminhos juntos.

Esse capítulo dolorido do jornalismo local ocorre na semana do Dia do Jornalista. É uma triste coincidência, que deveria nos unir, jamais separar-nos. Em época de acordos coletivos, estamos vendo uma realidade triste a nossa frente. Se para as empresas é ruim demitir funcionários, para a entidade sindical é péssimo homologar rescisões de trabalho, que mudam perspectivas de vida. O jornalismo vive um momento de encruzilhada. É preciso criatividade, diálogo e vontade para sair dela, alcançar novos caminhos, enxergar um trajeto diferente, imposto pelas novas tecnologias e pelo ‘novo consumidor’ de notícias.

Empregados e empregadores estão em lados diferentes, mas podem conversar a respeito, podem encontrar caminhos que respeitem a dignidade do trabalhador e a saúde da empresa. Não nos furtamos ao debate, nem à ação.

Gestão Ocupa Sindjor

Publicado originalmente na Folha de S.Paulo: P erguntam com frequência o que eu acho da reforma do ensino médio e similares. Seria um...


Publicado originalmente na Folha de S.Paulo:
Perguntam com frequência o que eu acho da reforma do ensino médio e similares. Seria um avanço ou um atraso? Reforma na educação depende do burocrata de plantão.

Suspeito de que a educação seja uma das áreas de conhecimento mais perdidas no mundo atual. De um lado, acumulam-se teorias de que a educação deveria contemplar apenas disciplinas técnicas. De outro, que a educação teria como principal papel a formação do cidadão.

Outros pensam que a educação deveria ser revolucionária em tudo, e mais outros, que a educação deveria formar valores morais sólidos. A lista vai longe, chegando mesmo ao caso daqueles que pensam que a educação deveria ser uma assembleia aberta em que bebês votariam na estrutura curricular do jardim da infância para evitar a opressão patriarcal.

Alguns, mais semiletrados, inovam a cada dia a educação a partir do palestrante mais na moda e da última teoria politicamente correta no mercado. Uma ideia continuamente na moda entre os teóricos é que a educação deveria educar para a democracia e o bem público. Platão concordaria com a segunda parte, mas não com a primeira.

Alguns acham que a educação deveria ser construída apenas a partir dos oprimidos. Este último caso é tão delirante que alguns chegam a afirmar que falar errado, sem levar em conta as regras da gramática, é uma forma de combate à opressão. "É nóis" deixa de ser uma licença poética e passa a ser um grito de liberdade.

Alguns professores por aí chegam mesmo a "caçar a pauladas" (leia-se "reprovar") alunos que falem corretamente na aula sob acusação de reproduzirem padrões de dominação da elite.

Jacques Derrida (1930-2004), filósofo francês criador do conceito de "desconstrução", segundo o qual a gramática é uma forma de teologia porque unifica modos de expressão, nunca imaginaria que sua teoria (ele falava francês correto) um dia seria usada como argumento para reprovação de alunos que usam a gramática como manda o figurino.

Portanto, as teorias da educação são tão precisas quanto o tarô ou a leitura do futuro na borra de café. A tentativa de unificá-las é pior ainda, porque esta unificação virá sempre pelas mãos de duas ou três pessoas que acreditam fielmente no que defenderam em seu doutorado. Levar seu doutorado muito a sério é signo de baixa formação intelectual.

Há alguns meses o "mundo da cultura" entrou em êxtase crítico quando o atual governo resolveu extinguir o Ministério da Cultura. Pelo que afirmavam, os artistas e similares, sem o Ministério da Cultura ninguém mais teria uma ideia se quer que prestasse nem ninguém conseguiria mais realizar nenhuma obra "cultural".

Claro, nossa elite cultural foi criada às custas de editais do Estado, sem eles, a criatividade da elite cultural vai a zero em 24 horas.

Na época, não dei muita atenção ao tema porque penso que o Ministério da Educação (MEC) é que deveria ser extinto, muito mais nocivo ao país do que o Ministério da Cultura -apesar de este servir para todo tipo de manipulação ideológica para qualquer lado da mesa de pingue-pongue político e de cultivar uma certa preguiça moral e estética nos agentes culturais nacionais.

Proponho que fechem o MEC. Não por razões de contabilidade. Coitado, o MEC deve gastar pouca grana. Mas por razões culturais e pedagógicas. Acabar com o MEC nos livraria de todo tipo de burocrata que constrói sua vida e seu orçamento atormentando quem, de fato, se ocupa com a educação, essa arte inexata que deveria ajudar os seres humanos a serem mais humanos e menos bobos.

Sem o MEC acabariam essas reformas intermináveis, esse "centralismo democrático do blá-blá-blá" e esse mercado paralelo de "aferição de qualidade" do tipo Anade, Enade, Inade, Onade, Unade e similares -varia-se a vogal, permanece a aleatoriedade dos critérios. Quem decide é quem estiver no comando burocrático da hora.

A educação deveria estar na mão dos municípios. Melhor ainda: das próprias escolas. A regra é: quanto menos burocrata, melhor qualidade na educação e na vida. Fechem o MEC. Invistam a grana em ferrovias 

Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, 

Rio Paraguai A navegação Que faço comigo mesmo Adeja  Na direção  De um continente  Que não existe II Nas suas margens ondu...


Rio Paraguai

A navegação
Que faço comigo mesmo
Adeja 
Na direção 
De um continente 
Que não existe

II


Nas suas margens ondulantes

Distancio-me do rio,
Percorrendo as vias estreitas
Nas intersecções de areia
Com estilhaços de garças 

Elas assombram 

A margem que perdi

III


Vejo no remanso o espelho d’água

Com os sinais indecifráveis
Dos lugares onde não fui.

A brisa que me encobre

Desnuda o corpo que perdi
Na imagem que emerge do fundo das águas

Tudo fica muito longe

A terra firme não existe.
O Rio Paraguai sou eu.

O Presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul, Waldir Neves Barbosa, por intermédio de seu advogado Rodrigo Figueiredo Madur...


O Presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul, Waldir Neves Barbosa, por intermédio de seu advogado Rodrigo Figueiredo Madureira de Pinho, ingressou com ação cível de dano moral contra o Blog no mês passado, solicitando indenização de RS 100 mil. 

Trata-se da terceira tentativa para incriminar o blog tendo por motivo o mesmo fato. A razão do pedido foi um post publicado em 7 de junho de 2016(veja aqui).

Na ocasião, o presidente do TCE/MS fez uma interpelação extrajudicial ao jornalista, solicitando direito de resposta. 

O pedido foi acatado imediatamente (aqui) . 

Depois da concessão da resposta, Waldir Neves ingressou com pedido de R$ 100 mil para reparação de dano moral em função do mesmo post. 

No primeiro momento a solicitação foi indeferida em função de falhas na transmissão dos dados processuais.  

Depois disso, houve um intervalo de 4 meses sem manifestação judicial. 

No último dia 21 de março, contudo, o advogado do presidente do TCE/MS deu andamento em novo processo, repetindo o mesmo teor do pedido anterior. 

O juiz do caso é o Dr. Juliano Rodrigues Valentim. O número do processo é 0806640-80.2017.8.12.0001.

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