Em meados dos anos 70 trabalhei numa grande multinacional de pesquisa em São Paulo. O meu trabalho era coordenar grupos de pesquisadores...

Pesquisa: Ótimo, bom, regular e péssimo

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Em meados dos anos 70 trabalhei numa grande multinacional de pesquisa em São Paulo. O meu trabalho era coordenar grupos de pesquisadores para avaliar o lançamento de produtos que seriam lançados no mercado. Naquele tempo, não se falava em emergência da classe C e as grandes indústrias tinham seus olhos voltados quase que exclusivamente para a chamada “classe média”.

Para testar o gosto, aceitação ou receptividade de um lançamento usava-se a praça de Curitiba porque, de acordo com os especialistas, a cidade tinha uma plataforma básica que dava consistência a qualquer levantamento: uma população com boa renda, educada, vivendo num lugar de estrutura urbana qualificada, de razoável senso crítico.

No teste desses produtos – podia ser um novo suco de laranja, um detergente, um sabonete – as perguntas que fazíamos ao consumidor eram as seguintes: aprova, não aprova, é bom, ruim e algumas outras nessa linha, mas nunca mostrávamos a cartela com o item “regular”. 
Isso não existia naquele mundo.

Digamos que estivéssemos testando a aceitação de um extrato de tomate: a pessoa que respondia à pesquisa tinha que ser categórica: gostou ou não gostou. Compro não compro. Não havia meio termo, não havia espaço para dúvida, não se aceitava evasivas. 

A questão do “regular” surgiu mais tarde com as pesquisas políticas. Até hoje não entendi o verdadeiro motivo pelo qual os institutos inseriram essa modalidade de avaliação. Sempre considerei que a pergunta essencial busca uma resposta dicotômica: sim ou não, aprovo ou não aprovo,  gosto e não gosto. 

Se a pergunta fosse simples e direta haveria a chance de o pesquisado, no caso, responder  “não sei”, ou ainda “prefiro não responder” e assim por diante. 

A resposta “regular” embute uma mentira. Não representa nada. Na verdade é a anti-resposta. Pode significar “não me comprometa, “não gosto de política”, “essa opinião é particular”, enfim, pode ser tudo como ser nada. 

Portanto, sempre digo: não acredito em pesquisa que usa como metodologia de avaliação o critério vago de não se ter uma opinião precisa sobre qualquer assunto.






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