Tudo parece silêncio, mas ouço ruídos e o barulho do vento cortante lá fora. Olho ao meu redor e não vejo nenhum sinal de vida. Não há so...


Tudo parece silêncio, mas ouço ruídos e o barulho do vento cortante lá fora. Olho ao meu redor e não vejo nenhum sinal de vida. Não há som, nem fúria, só uma velha TV que permanece sem volume e sintonizada num desses canais de notícias 24 horas.

No canto do cômodo, percebo o teto ruindo, com uma coloração desbotada em demasiados tons de cinza e verde. Perto da porta, vem um cheiro forte de urina impregnado no banheiro. É o mofo e o esgoto que ali fizeram morada e começaram a cavar a minha ruína. 

Com a ponta dos dedos, tento apanhar meus óculos no criado mudo que despenca até o chão. Não tenho forças para buscá-lo e vou enxergando um mundo meio esbranquiçado com suas tradições distorcidas. A vida é feita de quedas, mas estou machucado pelos tantos tombos que produziram hematomas.

Na janela, uma fresta na cortina mostra o restante da primavera no último galho seco de árvore que agora toca a vidraça. Bem ao fundo, um dia acinzentado, com nuvens negras ameaçando relâmpagos atrás de casa.

 Ainda tem o farfalhar das folhas flanando por ruas quase desertas e repletas de lembranças de um tempo de angústia e sentimento de medo que ainda permanece.

Faz frio, minhas pernas estão geladas, encolhidas e o contato das meias com os cobertores produzem muito mais atrito do que uma sensação confortável de aconchego na cama. 

Preciso de calor, aceno até para o calor humano, algo para aquecer minha alma fria e motivá-la a grandes pretensões.

Bem que logo adiante poderia aparecer vida em forma de orvalho para encharcar de lágrima o jardim que existe lá fora. Aqui dentro, no meu mundinho esquisito, sigo distante e sem esperança.

Durante todo esse tempo em confinamento, fiquei conhecendo cada centímetro desse quarto, como um detento conhece sua cela. O local tem uma beleza sombria. Ali não há passado nem presente, enquanto o futuro se degenera.

Começo a balbuciar as primeiras palavras fúnebres que estão à minha espera. A cena é triste, lamento. Vou digerindo um chá frio, envelhecido e esperando encerrar o ciclo. Enquanto isso, moscas vão se entretendo com os odores do meu aposento. Acabei de notar uma silhueta escura vagando pela escada. Uma sombra tão envolvente e entorpecente que sinto agora um laço se formar entre nós. 

Essa é uma história em que o tempo acontece dentro do tempo. O passado, o presente e o futuro misturam-se numa unicidade incompreensív...



Essa é uma história em que o tempo acontece dentro do tempo. O passado, o presente e o futuro misturam-se numa unicidade incompreensível. 

Podemos entrar e sair de uma misteriosa esfera temporal para outra, em múltiplas dimensões, intercalando situações, vivências, dramas e alegrias, sem que isso, contudo, signifique magia ou ciência. 

A natureza é assim: preenchida pela óbvia vontade de si mesma.

Falamos aqui do tempo fluído, perfazendo-se de acordo com a nossa vontade, liquefazendo-se conforme o nosso olhar, adequando-se aos nossos movimentos corporais. 

Falamos do domínio do tempo dentro dos espaços possíveis de serem verificados, vividos e tocados.

Falamos da experiência do que somos no tempo, sem a qual não haveria a memória intercalada dos instantes que habitamos no fluxo da existência.

Nosso personagem tem 60 anos. O nome dele não importa. Ele acha que viveu demais. Está um pouco cansado. Rapidamente, como se atravessasse da sala para o quarto, volta à sua infância; agora, ele tem seis anos - e  conversa com sua mãe. O diálogo é rápido e ríspido, ela precisa sair para trabalhar, ele apenas sente uma leve dor no peito. É tomado por uma sensação de abandono excruciante.

Em seguida, dá uns passos à frente, como se fosse em direção à cozinha, e o encontra tomando café, ultrapassando os 80 anos, taciturno, balbuciando consigo mesmo, tentando compreender a fatuidade e o desejo, a imarcescível dor de ser a pessoa que foi um dia, ouvindo o fúnebre som de si mesmo. 

A cena é triste. Por isso, ele segue adiante, caminha até a sala para encontrá-lo deitado no sofá lendo poemas de Maiakovski, na flor da juventude, totalmente nu, imaginando mulheres de dentes nacarinos, seios rígidos, colo em chamas, pernas firmes enlaçando seu ventre, braços abertos, tudo envolto em chamas e revolução. 

Ele ri. Decide sair um pouco, olhar a calçada, ver sua própria chegada em casa depois de um dia de trabalho, ver sua mulher, seus filhos, sua cadelinha Lucy, seu corpo de 35 anos caindo sôfrego numa cadeira de vime, um gole de Gim, a televisão ligada, o olhar baço dirigindo-se para o nada. 

Ele fica parado observando aquele momento. Em silêncio. Sem fazer qualquer juízo que pudesse atrapalhar sua observação daquela imagem confortável, familiar, com cheiro de sabonete de alfazema, sopa de legumes na panela, pãozinho quente sobre a mesa, risos infantis no quarto, com a noite chegando e os primeiros cris cris tomando conta da varanda. 

Depois ele vai para a rua em direção ao centro. Entra num bar e o vê conversando com Isabela, ambos sorrindo, macarrão no prato, copos de vinho pela metade, alegres, vivos, sonoros, até que ele levanta o braço para explicar melhor sua história banal e derruba o copo sobre si mesmo, a mancha viva sobre sua camisa branca. Ele e ela estão com 22 anos.

Ele pede desculpas e vai ao banheiro. Quando entra, a imagem é outra: ele está num beco de Lisboa, tentando encontrar um endereço de uma velha tia, tentando olhar para os números azulejados sem conseguir enxergar direito cada anagrama, na penumbra de uma tarde fria. 

Quando ele está perdendo as esperanças, à sua frente uma luz se acende. Era Luzia. Ele sorri aberto, a abraça forte - e entra. Quando percorre o longo corredor na direção da saleta de visitas, sente o forte cheiro de ervas e peixe cozido, na azáfama de uma ruela de Pequim.  

Ele está de mãos dadas com Zue-Tsu, sendo levado para um quartinho sujo, quente e fétido, onde, minutos depois, estará fazendo sexo obrigatório, com raiva de si mesmo, perdido aos 47 anos numa cidade estranha, inebriado com o sucesso de seus negócios. 

Sai pelas ruas de madrugada, enojado com o cheiro de esgoto, a fumaça amarelada, até alcançar o hotel onde está hospedado. Entra no elevador sentindo tonturas, é tomado por uma vertigem momentânea, atravessa um imenso corredor e finalmente chega ao seu quarto. 

Ao entrar, sente que tudo está limpo, a cama é confortável, o cheiro é agradável, não escuta o barulho das ruas, cai na cama e dorme profundamente. 

Nunca mais acorda. 



H avia um muro no meio do caminho Havia um corpo estendido no chão Era o princípio do fim da picada Era o reverso da estra...



Havia um muro no meio do caminho

Havia um corpo estendido no chão

Era o princípio do fim da picada

Era o reverso da estrada no meio do nada
e da amplidão.

Havia um anjo torto no cimo, no tortuoso dorso de pedra

Caído em desolação

Arrastando-se feito gauche no topo da serra

 Clamava de joelhos por Vida eterna e pedia não.

Queria só o abraço da vastidão do mundo 

Pouco do que avistava sua visão

Queria tudo queria o mundo  

Mas seu nome  não era Raimundo



Foi John Lennon que inaugurou o personagem militante político preocupado com o bem-estar da sociedade e os rumos da civilização. Depoi...


Foi John Lennon que inaugurou o personagem militante político preocupado com o bem-estar da sociedade e os rumos da civilização. Depois disso, a praga das celebridades engajadas na política se alastrou e nunca mais parou de produzir bobagens.

De lá pra cá, já vimos de tudo: Vanessa Redgrave gritando contra a falta de apoio do governo americano às causas Palestinas; Darryl Hannah ser detida na porta da Casa Branca aos berros contra Bush e o trio Sean Penn, Bono Vox e Maradona defendendo o regime chavista na Venezuela.

No Brasil, a situação beira o ridículo. Por aqui já assistimos de tudo. De Cláudia Raia como garota propaganda de Collor de Mello, passando por Wagner Moura defendendo os desgovernos da esquerda e, para chancelar toda essa merdança, temos agora Alexandre Frota como deputado federal encarnado como o Antonio Gramsci da direita burra.

Falo de pessoas semi-alfabetizadas que, não contentes com o sucesso ou o insucesso na carreira artística, resolveram consolar o ego com assuntos direcionados ao cérebro adulto.

Mas, o meu problema com o engajamento político das celebridades não está na megalomania delas, aliás, legítima. 

Está na atenção igualmente infantil que a imprensa concede mimos aos caprichos dessas criaturas.

Será que, quando entrevistam Wagner Moura divagando sobre ideias de Guilherme Boulos, nenhum jornalista questiona seriamente o personagem do Capitão Nascimento como pode um ator com capacidade criativa tão vasta ter, ao mesmo tempo, uma consciência política tão mirrada?

Uma interpretação bondosa dessas entrevistas diria que a galera do meio artístico não está pendurada na Lei Rouanet e suas preferências políticas são construídas com base na justiça social  e na tentativa de gerar igualdade de oportunidades para todos.

Mas Paulo Francis me consola quando definiu que o grande ator não pode ser muito inteligente. Ele tem que ser burrinho. Lacrou!

Lá atrás, o poeta lituano Czeslaw Milosz, na sua obra seminal “Mente Cativa” explicou bem esse tipo de comportamento quando identificou certa afinidade eletiva de poetas e músicos simpatizantes com regimes nazistas e comunistas.

Era a década de 1940 e a atitude seria o prenúncio do que veríamos com Lennon nos anos 60, e, posteriormente, com seus sucessores em atitudes bestiais.

Para Milosz, a manifestação dos artistas em atos políticos surge quando a solidão e o medo do esquecimento coletivo tomam conta da ribalta e só resta as lembranças das penumbras das  coxias.

Infeliz da sociedade que tem nas celebridades do meio artístico e cultural um modelo de pensamento para a política com a estranha ambição de contribuir para melhorar o mundo.

 A ideia de um mundo melhor é uma utopia que já criou grandes genocidas.

Alexsandro Nogueira é jornalista e escritor

Com fios invisíveis Traço no espaço Linhas cerzidas Pela imaginação No fino enlaço Costuro as palavras que faço Tramando a estranh...


Com fios invisíveis
Traço no espaço
Linhas cerzidas
Pela imaginação

No fino enlaço

Costuro as palavras que faço
Tramando a estranha fiação

De cima,

Percorro com a seda 
O percurso das paredes cãs;
De baixo, 
Mantenho o olhar fixo
Na tênue cambraia das mãos;

Na longitude, 
Emaranho o gesto vertical;

Na latitude, 
Enovelo o círculo diagonal;

No chusmo,

Que volteio
Com a boca,
Faço da dança
O movimento da imensidão 

Ponto a ponto, 

Cada corda desenha por si
Sua estranha trama;
Sua entranha sísmica
A estranha teia;
Fazendo de mim o que sou: 
o invento de minha própria aranha




Três histórias sobre candidaturas da última campanha eleitoral.  História 1 – Um amigo me chama para dizer que havia decidido ser ...



Três histórias sobre candidaturas da última campanha eleitoral. 

História 1 – Um amigo me chama para dizer que havia decidido ser candidato a deputado estadual. “Tô eleito”, afirmou, pegando-me pelo braço ao se sentar numa poltrona confortável de seu escritório. “Qual o seu plano?”, pergunto. 

Ele não se faz de rogado: “sou um cara conhecido, tenho amigos, estou sempre rodeado de políticos, todo prefeito e governador beijam a minha mão, todos me apoiam, não vou gastar muito, essa tá fácil!”. 

Balanço a cabeça pensativo,  e ele continua: “ vou colocar dois jornalistas para fazer minha rede social, fazer umas postagens e gravar uns vídeos...olha, pela minha avaliação, nesse partidinho que escolhi para me filiar, acho que com uns 18 mil votos me elejo”. 

Preferi ficar em silêncio e deixar o homem falar: “olha, contratei também uns caras para as reuniões de bairro, vou lá e explico minhas propostas, aquele papo furado com seu Zé e dona Maria, beijo umas criancinhas, digo aquelas coisas contra a corrupção e a bagunça que virou esse País... Te digo, meu caro: tenho certeza de que vou receber uma enxurrada de votos...”. 

Dei um abraço no amigo, desejei boa sorte e esperei, no dia da eleição, o aluvião de votos que ele me disse que receberia. 

Na contagem final, em vez da enxurrada, os votos vieram em conta gotas, minguados 1600 eleitores o haviam escolhido. 

Quedei e fiquei meio aborrecido. Resolvi ligar no dia seguinte para dizer ao coitado que eleição tem dessas coisas, que na próxima ele se sairia melhor, enfim, palavras que consolam. 

O telefone chamou várias vezes – e nada. Depois de centenas de tentativas, consegui falar com sua secretária. Ela atendeu e sussurrou: “coitado, o homem está inconsolável, se enterrou no quarto e não quer falar com ninguém, só fica gritando ‘traidores, traidores’...”

Deixei-lhe um recado: esqueça a política, faça uma viagem à Europa. 

Parece que ele foi.

História 2 – Uma dileta amiga, dama de nossa melhor sociedade, me liga querendo me contar a última grande novidade da praça. “Pode falar”, disse. “Não, meu querido, tem que ser pessoalmente”. 

Lá fui eu ouvir a boa nova. 

Depois de servir um uisquinho, ela chacoalhou os braceletes de prata peruano, e me contou com um grande sorriso no rosto: “vou ser candidata a deputada federal”. Engoli a seco. “Como assim!?”. Ela continuou impávida: “precisamos mudar o Brasil, mudar a política, acabar com essa velharia que está aí”. 

Virei o uísque numa só golada, respirei fundo, e desabafei: “não faça isso, a política é a arte da desilusão”, tentei uma frase de efeito. 

Não adiantou: “vou organizar a campanha com minhas amigas, postar minhas propostas nas redes sociais, gravar vídeos, bater na tecla do poder às mulheres, pode ter certeza de que vou ser eleita”, disse com voz altissonante, parecendo a primeira-dama da ópera de Paris. 

Afundei na poltrona. E deixei que ela falasse mais: “olha, está tudo organizado, vai ser uma campanha pobre, mas meu marido vai dar uma ajudazinha, apesar dele ser to-tal-men-te contra”, comentou com um sorriso de satisfação no cantinho da boca. 

Pensei comigo: santo homem, ainda bem que tem bom senso...

Servi-me de mais um gole e fiz a pergunta fatal: “de quantos votos você acha que vai precisar para se eleger?”, no que ela respondeu fulminante: “isso eu ainda não sei, mas se todo mundo que conhece minha família votar em mim isso não será problema, tô eleita...”. 

Antes de sair, fiz ainda a pergunta fatal: “você está preparada para perder?”. 

Ela fez um gesto folhetinesco e afirmou: “claro!”.

No dia da eleição, depois da apuração, fui verificar: minha dileta amiga havia arrebanhado 786 almas em prol de sua causa. Esperei dois dias e liguei. Nada. 

Depois de inúmeras tentativas atendeu sua filha, que cochichou: “olha, mamãe está de cama, não para de chorar, com raiva de todo mundo, acho que vai se matar...”. 

Fecha o pano. 

História 3 – Um velho conhecido, calejado em disputas eleitorais, conhecedor das mumunhas políticas de nosso Estado, me convoca com voz firme e autoritária: “passe hoje em minha casa que quero falar um negócio muito sério com você!”

Fiquei meio aflito com seu tom de voz - e fui. 

Lá chegando, ele me fuzilou com o olhar e foi logo despejando, ali da porta mesmo: “você me conhece há quanto tempo?”. Antes de dar a resposta, ele atropelou e mandou bala: “eu já menti pra você? Eu já falei alguma bobagem pra você?”, aumentando o tom impositivo, aos berros, quase tendo um colapso nervoso. 

Antes que eu esboçasse um gesto ele segurou meu rosto com suas mãos gigantescas, olhou-me fundo nos olhos, e afirmou: “você está falando com um futuro deputado federal !”

Quase tive um troço. Mas ele nem me deu tempo para que eu disfarçasse a surpresa e me convocou a sentar para ouvir sua estratégia de vitória iminente. 

Com os olhos esbugalhados, esboçou a estranha matemática da sua trajetória rumo ao parlamento. 

Abriu uma folha em branco na minha frente e começou a desenhar uma sopa de letras partidárias, com contas numéricas das legendas que, em alianças improváveis, conquistariam uma soma de votos que (ufa!) possibilitaria saber antecipadamente quantas cadeiras os partidos teriam e quais candidatos seriam eleitos. 

Com uma espécie de narrativa mágica, desenhando gráficos, percentuais e probabilidades, finalmente ele deu um urro e concluiu: “ta vendo!, ta vendo!, tô eleito, porra!”, ufanou-se num esgar delirante de alegria. 

Encolhi-me na cadeira e pedi um copo d’água. No que ele respondeu: “que água nada, porra! nós vamos tomar um vinho para comemorar minha entrada na Câmara Federal...”

No mais, o mesmo raciocínio de todos os candidatos: redes sociais, vídeos, viagens ao interior, reuniões comunitárias etc. etc.etc.

Depois de duas garrafas, despedi-me, desejei boa sorte e fiz a pergunta fatal: você tem um plano B?

Ele riu bem alto e me mandou tomar liricamente naquele lugar.  

Resultado: a engenharia reversa do meu amigo rendeu-lhe 3 mil votos. 

Liguei pra ele para dar minhas condolências, oferecendo o ombro amigo e consolá-lo por mais aquela empreitada, mas o telefone tocou, tocou, tocou - e nada. 

Falei com a sua esposa uma semana depois. Ela falou baixinho: “o homem está impossível; está muito nervoso, espumando, sem saber o que fazer”. 

Mandei-lhe um recado: acione o plano B. Ela me disse: “ele está tentando, está tentando...”




Artigo publicado originalmente no Correio do Estado:  O tema do momento é a divisão política que a sociedade brasileira vive. Numa...


Artigo publicado originalmente no Correio do Estado: 

O tema do momento é a divisão política que a sociedade brasileira vive. Numa democracia amadurecida, tal acontecimento seria saudável. Seria a demonstração de que convicções sobre os melhores projetos de desenvolvimento econômico e social funcionariam como força vital para nos tornarmos um País melhor e mais justo. 

Debater idéias, encontrar soluções consensuais, aceitar derrotas e compreender vitórias com humildade, tudo isso seria importante para que avançássemos rumo à construção da tão sonhada unidade nacional. Haveria perspectivas para a superação de entraves históricos que tem nas desigualdades a face mais iníqua de nossa realidade. 

Infelizmente, vivemos um período adverso. A raiva substituiu a razão, o ranço substituiu o discernimento, o ódio está substituindo a base das relações fraternas entre homens e mulheres. 
Mesmo assim, ainda há tempo para se ter esperança, pois a cidadania é um conceito que deve prevalecer sobre esse manto de revolta espasmódica, por ora encapada pela frustração e pelo sentimento de fracasso geracional. 

Olhando sob perspectiva histórica, podemos concluir que esse é um momento de alteridade, fruto de um processo de mudanças, cuja gênese deu-se nas chamadas jornadas de junho de 2013, e que, sendo assimilado de maneira equivocada pela classe política, face às demandas difusas colocadas nas imensas manifestações populares do período, resultou numa profunda divisão de sentimentos entre todos os brasileiros. 

Assim, passo a passo, elaboramos uma espécie de ruptura com o projeto de construção de uma sociedade pacífica, colocando-nos uns contra os outros com base em preconceitos ideológicos e sentimentos de classe. Os Poderes da República entraram em rota de colisão permanente, uma presidente sofreu impeachment e inúmeros personagens de proa da classe política foram para a prisão.

O grande problema, contudo, foi a de que não imaginávamos a extensão e profundidade de nossa crise, que fortaleceu as franjas radicais de nossos mais diversos grupos sociais. A pergunta que se faz é se esse fenômeno é episódico ou duradouro.

Nesse aspecto, o momento é de incertezas, pois estamos contaminados pela visão de curto prazo em decorrência das proximidades das eleições. O brasileiro traz na sua alma a índole da conciliação, do diálogo e da compreensão generosa das mais variadas visões de mundo. Isso deve ser resgatado em nosso próprio benefício. 

Recentemente, o Ministro Luis Roberto Barroso, afirmou acertadamente que o “Brasil segue na direção certa ainda quando não na velocidade desejada”. Mesmo assim, como presidente da OAB/MS, tenho o dever institucional de manifestar publicamente as preocupações dos advogados com aspectos importantes de nossa realidade, principalmente aqueles que se desviam dos princípios do bom senso e do equilíbrio. 

Temos que cultivar os espaços democráticos para o diálogo produtivo, sem o qual estaremos apostando numa inédita regressão civilizatória. Não será na bala nem na faca que vamos resolver nossos problemas. A superação de nossas diferenças passa pela nossa capacidade de construir, democraticamente, um ambiente ético, saudável e transparente, onde possamos nos colocar abertamente sem medo de preconceitos e represálias. 

Hoje a agenda do País está, infelizmente, comprometendo-se demais com uma visão unívoca e autoritária do mundo. Tal fenômeno vem ocorrendo em outras partes, mas a grande virtude da democracia é que quanto mais questionada ela é, mais ela se fortalece. Não acredito que haja riscos porque nosso compromisso com a liberdade é o nosso bem mais precioso.

Mesmo assim, devemos estar sempre em alerta. Há momentos em que o coração deve conversar com a razão. Não há outra maneira de avançarmos rumo a um futuro cuja paz e prosperidade prevaleçam.


*Presidente da OAB de Mato Grosso do Sul


O  cão continua a latir. (o eco do eco...) O som martela quebrando  a noite em pedaços. Longe, Uma sirene revel...




O cão continua a latir.
(o eco do eco...)
O som martela quebrando 
a noite em pedaços.
Longe,
Uma sirene revela que a vida 
e a morte seguem infrene.
Não existe silêncio na cidade.
Uma mulher chora
Um louco conversa com o poste
Um homem caminha só. 
O infinito segue seu curso
No mistério de suas histórias.
Nada para
Nada cessa
Nos quartos há gemidos. 
O amor e o ódio não dormem.
Nas camas perduram os 
Restos diurnos.
O tempo inerte nos abraça. 
Tudo fica imerso na sua própria sombra.
Esperando amanhecer para fazer 
fumegar a terrível máquina que nos tritura. 

O Congresso Brasileiro tem se mostrado uma instituição cada vez mais capenga. A cada mandato legislativo ficamos nos perguntando: será ...


O Congresso Brasileiro tem se mostrado uma instituição cada vez mais capenga. A cada mandato legislativo ficamos nos perguntando: será que vai ficar pior do que tá ? A realidade diz que sim, mas não necessariamente. 

A piora tem sido tanta que hoje a Câmara dos Deputados, por exemplo, é avaliado como um dos mais impopulares  e improdutivos dos poderes da República.

Nos últimos anos, a sociologia política inventou um termo que define com certa clareza o papel de deputados e senadores no processo de desenvolvimento histórico do Brasil: “presidencialismo de coalizão”. O assunto é longo e complexo. 

"Indico o Fábio porque conheço de perto sua excepcionalidade. Trata-se de um ser humano cuja grandeza o talha para ser uma voz e uma liderança nacional que, não só representará a população de Mato Grosso do Sul, como poderá se tornar uma referência de milhares de brasileiros sem chão e sem esperança."


Mas resumindo a opereta isso quer dizer o seguinte: seja quem for o presidente da república, sem o Congresso ele não governa. 

Ao futuro presidente caberá compor maiorias partidárias, fazer acordos, costurar agendas, elaborar leis tecnicamente viáveis, enfim, formar boas bancadas – independentemente de partidos ou correntes ideológicas – para que, assim, possamos ter um bom (ou mau) governo, e, com isso, criar um ambiente de crescimento econômico e de pacificação política, ou, caso nada dê certo, mergulharmos no caos. 

Para se ter boas bancadas ou maiorias legislativas não necessariamente precisa se formar rebanhos de cordeirinhos da situação, de um lado, contra kamikazes da oposição, de outro. Não é preciso comprar apoios com dinheiro e cargos, como tem sido. Basta ter uma agenda que reunifique a sociedade com propostas conversíveis em mudanças profundas de nossa maneira de governar.

Bons políticos se revelam nesses momentos, tanto de um lado como de outro, porque na democracia é preciso que o bom senso e o equilíbrio dêem o tom da sinfonia democrática. 
Muitas vezes uma boa oposição ajuda a se fazer grandes governos.

Como sabemos existem políticos de todos os tipos: honestos e desonestos, oportunistas e populistas. Fisiológicos e clientelistas. Se eles forem constrangidos a serem minorias, o País melhora. O problema é que a degradação do sistema eleitoral terminou abrindo mais oportunidade para a turminha sinistra, em detrimento de grupos mais virtuosos para a missão pública.

É preciso reforçar as boas bancadas, com parlamentares de bom nível técnico, estudiosos, sensíveis aos reclamos da sociedade e com profunda vocação democrática. Gente que tem boa cabeça e sabe do que o povo precisa: honestidade, clareza de propósitos e profundo saber jurídico. 

Posso dizer que em Mato Grosso do Sul temos bons candidatos em todos os partidos que preenchem esses requisitos. Infelizmente, não podemos afirmar que esses formam a maioria dos candidatos que se apresentam nesse momento.

A força do dinheiro e o jogo bruto da coerção dos poderosos de plantão ainda contam muito, sobretudo porque o ser humano fraqueja diante das necessidades, principalmente quando o ambiente social é extremamente marcado pelas desigualdades econômicas e de oportunidades.

Mesmo assim, o nome de Fábio Trad se destaca – dentre muitos outros, com a mesma linha de consciência, coerência e boa-fé. 

Indico o Fábio porque conheço de perto sua excepcionalidade. Trata-se de um ser humano cuja grandeza o talha para ser uma voz e uma liderança nacional que, não só representará a população de Mato Grosso do Sul, como poderá se tornar uma referência de milhares de brasileiros sem chão e sem esperança. 

Fábio é um intelectual com um padrão de pensamento acima da média. Ele não só compreende as mais elaboradas correntes de pensamento como tem a percepção exata do quão tem sido danoso os efeitos do processo de exclusão social que tem infelicitado milhares de cidadãos que padecem na pobreza, no desemprego e nas filas de desassistência dos serviços públicos brasileiros. 

Nesse aspecto, trata-se de rara combinação de homem de conhecimento com lastro de solidariedade humana inigualável. 

Nas minhas andanças pela Estado conheci bons políticos. Não lembrarei aqui dos maus porque esses todos sabem quem são estes personagens. 

Mas dentre os grandes, os especiais, os inspiradores, aqueles tocados pela graça de cumprir uma missão histórica, encontra-se o Fábio.

Tenho orgulho em tê-lo como opção eleitoral nesse momento tão complicado. Na verdade é um luxo um Estado como o nosso ter Fábio como candidato ao parlamento. Elegê-lo é uma missão patriótica.

Como já vem fazendo nos últimos meses, Fabinho vai encher nossos corações de orgulho, não somente pela postura ética e pelo denodo com que trabalha, mas principalmente pelas incansáveis demonstrações de amor pelo nosso Estado. 

Você me representa, Fábio.



(Cezanne) Não será a bala Nem será a faca Será apenas como a fruta que cai Sem que ninguém a toque. (19/09/2005)

(Cezanne)


Não será a bala
Nem será a faca
Será apenas como a fruta que cai
Sem que ninguém a toque.

(19/09/2005)

Giorgio De Chirico A poesia é uma arte difícil. Muitos escrevem seus versos, mas poucos encontram sua música, sua lírica,  sua do...


Giorgio De Chirico


A poesia é uma arte difícil.

Muitos escrevem seus versos, mas poucos encontram sua música, sua lírica, 

sua dor e seu riso.

A máquina da poesia guarda em si intrincadas peças.

Seus pontos de sílica encadeiam os relógios de silabas

Que movimentam os lábios e as frases

Que adicionam as horas e as palavras

Que sinalizam o tempo de espera - 

E o momento do aguardo

Toda poesia deve ser bruta na sua eterna delicadeza.

As flores amarelas das sibipirunas caem no asfalto em chamas. As pétalas dos ipês roxos e amarelos esparramam nas calçadas calcinad...


As flores amarelas das sibipirunas caem no asfalto em chamas.

As pétalas dos ipês roxos e amarelos esparramam nas calçadas calcinadas de olor e medo.

Tudo está seco e duro.

Olhamos para o céu e pedimos chuva.

O sapo coaxa no brejo.

Vai morrer de barriga pra cima.

A tarde caía com aquele “calar mais informativo que toda a grave confissão”, como dizia Drummond, e eu entrava na padaria para comprar u...


A tarde caía com aquele “calar mais informativo que toda a grave confissão”, como dizia Drummond, e eu entrava na padaria para comprar um pãozinho quente - e eis que encontro meu velho amigo de esquerda com seu famoso olhar rútilo e ansioso.

- Você viu? Você viu?

Olhei à nossa volta e não vi nada. 

Ele não se fez de rogado:

- Vai dar Bolsonaro!!! Se a gente não fizer nada vai dar Bolsonaro!

Ele se dobrava todo, aumentando o tom de voz, quase num esgar de filme de terror.

Mais uma vez fico em silêncio. Mas ele me puxa pelo braço querendo uma palavra que possa tranquilizá-lo, aplacar seu desespero, iluminar suas dúvidas, mostrar que o fim do mundo ainda não está chegando. 

Estaco. Dou um sorriso amarelo e espero ele desabafar até o fim de suas entranhas.

- Não tem jeito! O homem fala as maiores loucuras no jornal Nacional e tudo mundo gosta. Dizem que ele é verdadeiro, sincero, autêntico. Nunca! Não percebem que ele não fala nada, não responde nada, parece um troglodita abanando um leque de seda espanhol!

Olho pra ele e me compadeço. Tento consolá-lo com um jogar de ombros, tipo “o que se há de?”. Mas não tem jeito. O amigo precisa de uma palavra de esperança.

E continua: “olha, temos que fazer alguma coisa, ir pra rua, escrever manifestos, pedir até a volta do Lula e a derrubada do TSE, mas não podemos deixar esse homem chegar lá. O povo enlouqueceu! 

Dou um suspiro profundo e espectral. 

- Se esse cara ganhar vamos afundar! Vamos apanhar nas ruas, vai ter tiroteio, vizinhos vão se matar...E os jovens? Os jovens? 

Diante de meu silêncio, da falta de reação, ele finalmente parou e fulminou:

- Não me digar que você mitou? Não acredito! Você não pode fazer isso comigo...todos, menos você! 

Começou a tremer, parecendo estar entrando em convulsão. 

Finalmente, com voz baixa, pausada, tranquilizadora, disse que não, não havia “mitado”, mas que estava esperando. 

- Esperando o quê?! Me diga homem de deus o que você está esperando?

Fiz um suspense. Comprei os pãezinhos, agradeci à balconista, e ele ficou grudado em mim, implorando por minha resposta, como se eu fosse o Prem Baba de seus anseios e esperanças.

Fui para a calçada e ele me seguiu aflito com a pergunta: o que você está esperando?

- Estou esperando sair o laudo psiquiátrico atestando a sanidade mental dos candidatos. Você não acha que querer ser presidente do Brasil não é sinal de que o sujeito tem um parafuso solto?

Meu amigo parou, pensou, deu aquele sorriso, puxando só um lado do cantinho da boca, balançou a cabeça e, finalmente, disse: “ihhh!, você também virou niilista!”. 

E saiu em busca de outro militonto.


Tenho amigos e amigas que acreditam que a pressão popular emanada das pesquisas de opinião dos últimos dias intimidará os deuses da Supr...


Tenho amigos e amigas que acreditam que a pressão popular emanada das pesquisas de opinião dos últimos dias intimidará os deuses da Suprema Corte e os farão dar um passo atrás para libertar Lula, fazendo-o candidato e, assim, salvar o País. 

Como são pessoas inteligentes, preparadas intelectualmente e com anos de experiência nas costas dou-lhe audiência e presto atenção em seus raciocínios. 

Eles consideram Lula a perfeita encarnação de Jesus na terra. Eles o colocam lado a lado aos outros candidatos e afirmam que as elites estão tentando eliminar politicamente o único homem que pode tirar o Brasil da pobreza. 

Ouço tudo em silêncio. Não discuto temas eleitorais quando percebo que eles
 envolvem questão de fé religiosa. Mas minha quietude estimula mais e mais os argumentos. Nada leva o ser humano a se abrir para o outro como a atenção silenciosa. 

O interlocutor se sente confortável. E assim ele se expressa com o coração. Fala de suas crenças, suas angústias, suas perspectivas, seus ressentimentos. Com isso, ele imagina estar conseguindo convencer e segue em frente. 

- Sei que Lula roubou, mas todos roubam. Isso não é critério para escolher um candidato. Se a gente não colocar Lula de volta na presidência o Bolsonaro vai se eleger. O que você prefere? Um ladrão ou um psicopata?

Suspiro e olho bovinamente em sua direção. Ele se sente estimulado, acha que estou concordando e continua:

-As pesquisas estão mostrando claramente: o povo quer aquela prosperidade dos anos Lula, com emprego, consumo, renda, obras, programas sociais, mesmo com toda a roubalheira, é isso que ele quer. O povo não liga para a corrupção, desde que haja sobra de algumas migalhas para o conforto do coração. O povo se satisfaz com com pouco. 

Fico parado olhando em silêncio rotundo. Por uns instantes, somos o silêncio de nós mesmos. Me acomodo na cadeira e coloco as mãos no queixo e em seguida coço a cabeça. 

Como ele percebe que está falando com uma pedra, decide ver se consegue fazer um buraquinho na matéria rija. 

- Se o Barrosão impedir que Lula seja candidato aí sim podemos dizer que o esquema do golpe fechou. Tiraram Dilma, colocaram o Temer e agora, mesmo contra a ONU, o Papa e os grandes líderes dos países democráticos, manterão Lula preso para impedir que nosso País seja libertado. 

Baixo a cabeça e olho pro chão. O amigo pensa que estou emocionalmente abalado. Coloca uma das mãos no meu ombro e tenta me consolar. 

- Fique tranqüilo, vamos vencer; nem se tiver que ir pra frente do TSE e não deixar ninguém sair de lá de dentro até que decidam a favor de Lula e do povo. 

Peço um café. Dou uma olhada nas mensagens do celular. E digo ao amigo que preciso ir. Ele assente com a cabeça, me olha, e diz: fique tranqüilo, vamos vencer. Você paga essa conta?

Olho pra ele – e não respondo nada.  


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