A tarde caía com aquele “calar mais informativo que toda a grave confissão”, como dizia Drummond, e eu entrava na padaria para comprar p...

Dante Filho: Vestígios da noite

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A tarde caía com aquele “calar mais informativo que toda a grave confissão”, como dizia Drummond, e eu entrava na padaria para comprar pãozinho quente, e eis que encontro meu velho amigo de esquerda com seu famoso olhar rútilo e ansioso.

- Você viu? Você viu?

Olhei à nossa volta e não vi nada. Ele não se fez de rogado:

- Vai dar Bolsonaro!!! Se a gente não fizer nada vai dar Bolsonaro!

Ele se dobrava todo, aumentando o tom de voz, quase num esgar de filme de terror.

Mais uma vez fico em silêncio. Mas ele me puxa pelo braço querendo uma palavra que possa tranquilizá-lo, aplacar seu desespero, iluminar suas dúvidas, mostrar que o fim do mundo ainda não está chegando. 

Estaco, dou um sorriso amarelo e espero ele desabafar até o fim de suas entranhas.

- Não tem jeito! O homem fala as maiores loucuras no jornal Nacional e tudo mundo gosta. Dizem que ele é verdadeiro, sincero, autêntico. Nunca! Não percebem que ele não fala nada, não responde nada, parece um troglodita abanando um leque de seda espanhol!

Olho pra ele e me compadeço. Tento consolá-lo com um jogar de ombros, tipo “o que se há de?”. Mas não tem jeito. O amigo precisa de uma palavra de esperança.

E continua: “olha, temos que fazer alguma coisa, ir pra rua, escrever manifestos, pedir até a volta do Lula e a derrubada do TSE, mas não podemos deixar esse homem chegar lá. O povo enlouqueceu! 

Dou um suspiro profundo e espectral. 

- Se esse cara ganhar vamos afundar! Vamos apanhar nas ruas, vai ter tiroteio, vizinhos vão se matar...E os jovens? Os jovens? 

Diante de meu silêncio, da falta de reação, ele finalmente parou e fulminou:

- Não me digar que você mitou? Não acredito! Você não pode fazer isso comigo...todos, menos você! 

Começou a tremer, parecendo estar entrando em convulsão. 

Finalmente, com voz baixa, pausada, tranquilizadora, disse que não, não havia “mitado”, mas que estava esperando. 

- Esperando o quê?! Me diga homem de deus o que você está esperando?

Fiz um suspense. Comprei os pãezinhos, agradeci à balconista, e ele ficou grudado em mim, implorando por minha resposta, como se eu fosse o Prem Baba de seus anseios e esperanças.

Fui para a calçada e ele me seguiu aflito com a pergunta: o que você está esperando?

- Estou esperando sair o laudo psiquiátrico atestando a sanidade mental dos candidatos. Você não acha que querer ser presidente do Brasil não é sinal de que o sujeito tem um parafuso solto?

Meu amigo parou, pensou, deu aquele sorriso, puxando só um lado do cantinho da boca, balançou a cabeça e, finalmente, disse: “ihhh!, você também virou niilista!”. 

E saiu em busca de outro militonto.




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