Tudo parece silêncio, mas ouço ruídos e o barulho do vento cortante lá fora. Olho ao meu redor e não vejo nenhum sinal de vida. Não há so...

Alexsandro Nogueira: No fim

/
0 Comentários

Tudo parece silêncio, mas ouço ruídos e o barulho do vento cortante lá fora. Olho ao meu redor e não vejo nenhum sinal de vida. Não há som, nem fúria, só uma velha TV que permanece sem volume e sintonizada num desses canais de notícias 24 horas.

No canto do cômodo, percebo o teto ruindo, com uma coloração desbotada em demasiados tons de cinza e verde. Perto da porta, vem um cheiro forte de urina impregnado no banheiro. É o mofo e o esgoto que ali fizeram morada e começaram a cavar a minha ruína. 

Com a ponta dos dedos, tento apanhar meus óculos no criado mudo que despenca até o chão. Não tenho forças para buscá-lo e vou enxergando um mundo meio esbranquiçado com suas tradições distorcidas. A vida é feita de quedas, mas estou machucado pelos tantos tombos que produziram hematomas.

Na janela, uma fresta na cortina mostra o restante da primavera no último galho seco de árvore que agora toca a vidraça. Bem ao fundo, um dia acinzentado, com nuvens negras ameaçando relâmpagos atrás de casa.

 Ainda tem o farfalhar das folhas flanando por ruas quase desertas e repletas de lembranças de um tempo de angústia e sentimento de medo que ainda permanece.

Faz frio, minhas pernas estão geladas, encolhidas e o contato das meias com os cobertores produzem muito mais atrito do que uma sensação confortável de aconchego na cama. 

Preciso de calor, aceno até para o calor humano, algo para aquecer minha alma fria e motivá-la a grandes pretensões.

Bem que logo adiante poderia aparecer vida em forma de orvalho para encharcar de lágrima o jardim que existe lá fora. Aqui dentro, no meu mundinho esquisito, sigo distante e sem esperança.

Durante todo esse tempo em confinamento, fiquei conhecendo cada centímetro desse quarto, como um detento conhece sua cela. O local tem uma beleza sombria. Ali não há passado nem presente, enquanto o futuro se degenera.

Começo a balbuciar as primeiras palavras fúnebres que estão à minha espera. A cena é triste, lamento. Vou digerindo um chá frio, envelhecido e esperando encerrar o ciclo. Enquanto isso, moscas vão se entretendo com os odores do meu aposento. Acabei de notar uma silhueta escura vagando pela escada. Uma sombra tão envolvente e entorpecente que sinto agora um laço se formar entre nós. 



Posts Relacionados

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.