Perto do fim do dia, Quincas estacionava o Chevette, descarregava as malas e pedia um quarto. Era assim o costume para conseguir uma va...


Perto do fim do dia, Quincas estacionava o Chevette, descarregava as malas e pedia um quarto. Era assim o costume para conseguir uma vaga na hospedaria de dona Marcinda, uma paraguaia que há muito ficou raízes em Vila Maciel.

Depois de guardar a bagagem no cômodo, ele se aventurava pelas matas até o Arroio do Jorge. Ali, lugar pouco freqüentado por banhistas, ele se sentia à vontade para nadar pelado, sem medo ou vergonha de ser apanhado nu. 

Depois de submergir nas águas tranqüilas do ribeiro, dedicava tempo para práticas higiênicas mais urgentes como cortar as unhas e escovar a dentadura em água corrente. Limpinho, lavava as mudas de roupas sujas da viagem e caminhava de volta contornando a curva do rio. 

Antes de retornar à hospedaria, passava no clube da cidade para marcar território e confirmar presença no rastapé da vila. Quarenta minutos depois estava de volta, perfumado e com disposição para um bate coxa daqueles. 

Quincas era eletricista, mas há 15 anos trabalhava no setor de saneamento, instalando bombas d’água no interior. Por causa disso, passava boa parte do mês fora de casa,  longe dos olhares atentos da esposa e se esbaldando no embalo dos chamamés. 

A farra terminava ano nascer do dia, com Quincas exausto, quase decomposto, mas feliz. Perto das 7h00, ele retornava à hospedaria para dormir algumas horas, antes de seguir seu itinerário de viagem. 

À caminho da próxima cidade, parava o carro no bar do Zé da Janete. Ali comprava uma garrafada com catuaba, geléia real, amendoim e ovo de codorna. Antes de empurrar um gole dessa gororoba para o oco do estômago, bebia um copo de garapa. Quincas jurava que a mistura tinha propriedades medicinais e fortalecia sua vitalidade.

Pouco afeito ao expediente das empresas, Quincas gostava da vida solitária das rodovias. Era na simplicidade das cidadezinhas e vilarejos que ele parecia viver. Livre como um galo solto ciscando atrás das presas.

Mas Quincas não se arriscava quando pressentia o perigo. Tinha sexto sentido e faro para não se meter em confusão com mulheres. Foi assim em uma quermesse na praça da igreja de São Jaime. A festança corria solta, a mulherada estava ardendo em brasa, mas ele pressentiu um clima de insegurança no local e foi embora para o hotel.

Na manhã seguinte, acordou com gritos dos moradores. Era um velho estirado no meio da rua. A notícia logo veio. O homem mexeu com a cabocla errada. A mulher tinha dono, um figurão de nome Ailton, acostumado a colocar ordem no local quando mexiam com suas concubinas.

Quincas assustado chispou dali. Passou na filial da firma, deu conta dos afazeres e partiu para a estrada. Não queria topar com esse sujeito nem de brincadeira.

Depois do susto, pensou em volta pra casa. O caminho era longo, a estrada tava ruim, mas inevitável. Antes, porém, passou no compadre Miro para espairecer e colocar o papo em dia.

O amigo era viúvo e andava enfermo, reclamando de fadiga, dores no peito e crises abdominais. Para Quincas aquilo era vestígio de outros problemas: solidão, falta de mulher, desejos da carne.

Para resolver a situação, Quincas ofertou sua coleção de revistas eróticas guardadas em uma bolsa escondida no bagageiro do carro. O amigo recusou alegando não ser mais possível se aliviar daquela forma.

Depois da negativa do amigo, Quincas teve a ideia de levá-lo até a Boate do Tadeu, um recanto dos prazeres carnais escondido entre regos d’água, palmeiras e mangueiras, na encosta do Morro do Barba.

Naquele pedacinho de perdição, Miro teria a oportunidade de viver bons momentos na companhia de escravas brancas e muita cervejada. 

A princípio, Miro gostou da oferta, mas bastou chegar à casinha de pecado para se indispor com a primeira ‘donzela’. A mulher quis ser carinhosa apalpando sua virilha, mas ele deu um pulo para trás dizendo que não gostava de depravação.

Quincas ficou sem entender a reação do amigo, mas o levou de volta para casa. Não trocaram nem um pio no caminho. Chegando lá, Miro pediu desculpas pela hostilidade e confessou ter firmado compromisso com uma bugra de codinome Hildinha. 

Crédulo e confiante na sinceridade do compadre, Quincas desejou boa sorte e partiu rumo ao lar. Seria um dia de viagem contemplando a cena pastoril na estrada e as lembranças mais remotas dos tempos de meninice no sertão baiano.

A família o esperava de braços abertos, com Quincas emocionado pela recepção calorosa. Os dias seriam de extrema monotonia, até Quincas arrumar as mudas de roupa e partir novamente naquele Chevette solitário.

*jornalista

E stou publicando o artigo abaixo para ver se ele resiste ao tempo. O advogado André Borges usa a liberdade de imprensa para fazer a defe...


Estou publicando o artigo abaixo para ver se ele resiste ao tempo. O advogado André Borges usa a liberdade de imprensa para fazer a defesa do secretário Márcio Monteiro. Tem coragem e admiro quem usa as palavras para dar voz a quem precisa dar satisfação à opinião pública para tentar superar desconfianças gerais. 

Se fizesse o mesmo- usar a liberdade de imprensa - para criticá-lo certamente poderia enfrentar um processo por danos morais, mas ainda assim estaria exercendo plenamente seu direito para fazê-lo. 

Com certeza o advogado teria fartos argumentos para alegar que numa sociedade democrática personas públicas podem ser objeto de textos críticos e acharia um absurdo que uma ação por danos morais viesse coibi-lo a esclarecer a sociedade sobre o comportamento errático de homens e mulheres que exercem cargos proeminentes em qualquer dos poderes. 

Talvez - enfatizo a palavra - ele pudesse alegar que um processo por danos morais fosse uma forma de intimidação e - dando tratos a bola - uma maquinação política para calá-lo. 

Tudo tem dois lados. E o nosso Dr. Borges conhece sobejamente todos eles. Vamos ao seu artigo: 

"O denuncismo envolvendo personagens da política (o que alguns chamam de "judicialização da política") tem um novo alvo: Márcio Monteiro, o Secretário Estadual de Fazenda.

Assim costuma ocorrer: faz-se parcial investigação (o órgão que investiga é o mesmo que denuncia), ajuíza-se o processo (criminal ou de improbidade) e, de alguma forma (às vezes inconfessável), o assunto chega aos órgãos da imprensa, que cumprem o papel de divulgar ao público leitor o que fazem os agentes públicos (diz-se que notícia boa não é quando o cachorro morde o homem, mas sim quando este morde aquele, pelo ineditismo da situação).

O problema disso tudo é a inversão completa e absurda de importantes garantias constitucionais, vinculadas a direitos humanos fundamentais, tais como a presunção de inocência e os direitos à ampla defesa e de julgamento por membro independente do Judiciário.

Cria-se a falsa impressão de que um simples acusado (o que pode acontecer com qualquer um) já é culpado, o que é completamente equivocado.

Divulga-se precipitadamente o simples início de um processo ou de uma investigação, causa-se um enorme estardalhaço (prejuízo grave à imagem e nome da pessoa citada) e, no final, chegando a absolvição, pouco se divulga, sequer há o pedido de desculpa da autoridade que divulgou a investigação.

É fácil de ver que tudo está errado, pela forte inversão de valores caros a qualquer regime democrático de direito, como o brasileiro.

No caso do político objeto dessa análise (Márcio Monteiro, conhecido produtor rural, presidente regional de importante partido político, que já foi prefeito e deputado estadual, na atualidade estando licenciado do mandato de deputado federal), o massacre tem sido intenso, sem que se aguarde (como é o correto em relação a qualquer um que é objeto de uma investigação qualquer) o exercício do sagrado direito de defesa, garantindo-se a ele o benefício da dúvida (presunção de inocência).

Trata-se de um dos mais importantes auxiliares diretos do governador Reinaldo Azambuja, com forte atuação na modernização da Secretaria de Fazenda, de onde partiu o eficiente projeto de limitação das despesas estaduais, sem contar inúmeras outras medidas (tão necessárias em época de carestia financeira) de contenção de despesas e de transparência das contas públicas.

Fala-se do envolvimento do secretário Márcio Monteiro na delação da JBS e agora sobre uma ação de improbidade envolvendo benefícios fiscais supostamente irregulares.

Quanto à primeira (delação da JBS), já há apurações em andamento (até CPI na Assembleia Legislativa), que logo tudo deverão esclarecer (até porque delação não serve como prova, mas apenas como informe que dá início a uma investigação), valendo rememorar o escândalo inédito vinculado aos exagerados benefícios dados àqueles que confessaram a prática de supostos crimes, decorrente da institucionalização e banalização do dedo-durismo (que antes era coisa de bandido e hoje é mecanismo legal para aquele que, traindo antigos parceiros, quer se ver livre da prisão ou de uma acusação).

Já quanto à segunda (suposta improbidade), existe toda uma importante e extensa normatividade (inclusive Decretos) regulando o assunto dos benefícios fiscais, que são concedidos a partir de verificações técnicas e de observância de expressa regulamentação, preservada sempre alguma discricionariedade governamental (por se tratar de medida incluída no conceito amplo da gestão fiscal e de incentivos), além do fato de que, relativamente ao Fundersul (envolvido na acusação), há decisão antiga e conhecida do STF no sentido de não se tratar de tributo (por não ser compulsório), o que afasta com tranquilidade a exigência de lei sobre renúncia de receita. Acresce que improbidade exige conduta dolosa e prova de efetivo prejuízo.

Tudo somado, prudência e paciência são importantes no atual cenário, de acusações divulgadas como se fossem verdades, mas sem comprovação definitiva alguma, até porque o envolvido ainda não exerceu o direito de defesa.

A precipitação de juízos negativos acerca de alguém é sempre maléfico, causador de prejuízos muitas vezes irreparáveis, ainda mais para um agente político, que vive do conceito que os eleitores fazem dele.

É hora de não aventurar inferências negativas. Aguardar o desfecho judicial da acusação é medida que faz bem à democracia. De nada vale mera suspeita não confirmada em julgamento judicial definitivo.

Juízos apressados são absolutamente contrários à legalidade, que sempre precisa ser defendida, por se revelar como medida de amadurecimento das instituições e de um povo".

Advogado

M uito se discute sobre ética nos últimos tempos. Da escola à política, do mundo corporativo à arte. Não pretendo aqui resolver esse de...


Muito se discute sobre ética nos últimos tempos. Da escola à política, do mundo corporativo à arte. Não pretendo aqui resolver esse debate, mas há uma questão nele que me parece essencial apontar: o futuro da ética é a judicialização da vida. A ética "real", pouco a pouco, se torna um "mercado da ética", que enriquece advogados, juízes, procuradores, promotores e "assessores".

Com a modernização, o modo de contenção do comportamento via "pressão local do grupo", cedeu aos vínculos distantes e instrumentais. A vida produtiva moderna, associada à arrancada "progressista" em direção a um mundo redefinido por propostas sociais, políticas e, muitas vezes, psicológicas, arruinaram o valor da tradição moral como contenção de comportamentos.

A própria expressão, tão comum na boca dos jovens, "a moral imposta pela sociedade", sinaliza para a ruína dessa moral, uma vez que é sentida como "imposta". Ou a moral é internalizada ou ela é um nada. Uma "segunda natureza", como diria Aristóteles (384-322 a.C.).

A ideia aristotélica de uma ética prática das virtudes, elegante, mas inviável numa sociedade de vínculos impessoais, distantes e instrumentais, sofre com a indiferença concreta que temos pela opinião dos outros -afora parentes muito importantes pra nós ou pessoas que podem nos causar danos muito imediatos. Essa é, exatamente, a "liberdade" sobre a qual tanto se fala que ganhamos com a modernidade: a ilusão de que podemos mandar o mundo pra aquele lugar...

A posição kantiana de imperativos categóricos morais do tipo "aja de modo tal que sua ação possa ser erguida em norma universal de comportamento", na prática, pavimenta a estrada para a judicialização. Basta ver os manuais de "compliance" que florescem pelo mundo corporativo -voltaremos a isso logo.

O utilitarismo e seu império do bem-estar, seguramente, funcionam como "ethos" de um mundo pautado pela busca da felicidade material em todos os níveis, inclusive no da matéria do corpo e sua saúde. O utilitarismo pauta políticas públicas e corporativas, mas não me parece ser ele a base da judicialização. Esta base vem dos imperativos de Immanuel Kant (1724-1804). Vejamos.

Kant percebeu a dissolução dos modos tradicionais de contenção do comportamento em curso em sua época, em finais do século 18.

Tentou encontrar um modo "racional" e, portanto, universal, para a ética. Mas, este modo "deontológico" (dever ser) se revelou não como uma maioridade racional introjetada da norma, como ele pensava, mas sim como o crescimento do aparelho jurídico de constrangimento do comportamento. Dito de forma direta: desde manuais de "compliance" contra passivos éticos no mundo corporativo até o aumento da indústria dos processos. Enfim, a judicialização do cotidiano.

Essa judicialização significa que a única forma eficaz de constranger os comportamentos é via a força da lei. Esta é, sempre, encarceramento ou pagamentos de somas financeiras como consequência de processos abertos. Juízes arrancam seu dinheiro num clique. A indústria de sentenças cresce. Como mandamos o mundo pra aquele lugar, resta o mercado da ética.

Este mercado crescerá cada vez mais. Advogados farão rios de dinheiro. A máquina judiciária estatal crescerá junto com isso. Concursos para juízes e para o Ministério Público (cuidando de nós, cidadãos "hipossuficientes") garantirá inúmeras vidas financeiramente.

À medida que a sociedade se torna cada vez mais impessoal (apesar da baboseira de "capitalismo consciente" que falam por aí), a única forma restante será o mercado ético associado à ampliação das vagas no poder Judiciário.

Um dos efeitos nefastos desse mercado é a paranoia que segue toda sociedade judicializada. O medo do risco de ser processado faz o trabalho sujo da prevenção contra o passivo ético que tende a crescer. As empresas serão obrigadas a redefinir suas culturas internas, as escolas a inviabilizar qualquer forma de "sofrimento" dos alunos, enfim, o medo, alimento ancestral da norma, reinará livre sobre os cidadãos "livres" da modernidade tardia. 


 *Escritor, filósofo e ensaísta. Doutor em filosofia pela USP, é professor da PUC e da Faap

H omem nenhum fez Téti tão feliz quanto o delegado Luy. O cara sabia das coisas. Chegava sempre no meio da tarde, em um Opala Comodoro, ...


Homem nenhum fez Téti tão feliz quanto o delegado Luy. O cara sabia das coisas. Chegava sempre no meio da tarde, em um Opala Comodoro, esbanjando gentileza e a cobrindo de guloseimas. Ela o aguardava no quarto, no andar de cima do sobrado, estirada sobre um roupão felpudo e encardido pela ação do tempo.

Luy passava quase todas as tardes na companhia de Téti. Preso entre braços e coxas e entorpecido pela fragrância que exalava daquele cômodo. Uma mistura de alfazema com cheiro de desodorante Cashmere Bouquet. 

Desde que sofreu um infarto, ele passou a ser tratado como todos os mimos e regalias pela companheira. Não podia mais se comportar como um animal sadio e impaciente no leito conjugal. Com o coração fraquinho, o negócio passou a ser devagar e agora só ficava na massagem.

Luy vivia um casamento sem graça com um bugra de nome Haida. Uma mulher recatada e cheia de pudores, incapaz de saciar os desejos do delegado. Para fugir da monotonia, ele investia no amor clandestino.

E foi assim, nessas escapulidas, que ele topou com Téti, mulher divorciada, mãe de dois filhos e funcionária pública. O lance aconteceu em uma festa familiar. Os olhares se encontraram na roda de violão e sanfona e a faísca do desejo acendeu.

Era para ser mais um casinho passageiro de Luy, homem mulherengo, acostumado a vadiagens, mas Téti sabiamente conseguiu fisgá-lo dando início a um longo caso de paixão.

Para a coisa dar certo, a conversa do caso não podia espalhar pela família. Para isso, ambos contavam com a ajuda da mãe e da tia de Téti, duas velhinhas futriqueiras que davam guarida ao casal, em um sobrado de fundo, lá na Vila Célia.

Luy era morador antigo da Vila Carvalho. Sujeito respeitado pelos vizinhos e colegas de profissão. Homem carrancudo, linha dura e implacável quando o assunto era justiça, mas vulnerável ao sexo feminino.

Por causa disso, acabou se envolvendo com uma terceira mulher: a secretária de um colega advogado e foi sumindo devagarinho da vida Téti.

A coisa azedou mesmo depois que Luy passou a fugir das visitas íntimas e começou a concentrar suas energias nos momentos com a secreta. Téti, que não era boba, percebeu a fadiga e olhar cabisbaixo do delegado. Ele justificou colocando a culpa na esposa e na rotina do serviço.

Téti acenou com a cabeça dando claros sinais que compreendera o recado. Em uma última tentativa, apelou para São Judas Tadeu. Foi a novenas, parou de fumar, acendeu velas, até se derramar em prantos. A mãe a tia a fortaleciam com gestos de carinho e com idéias mirabolantes para melhorar sua estima. Deu certo.

Tempos depois, ela estava novamente apaixonada. Desta vez, escolheu um amigo dos irmãos mais velhos. O cara era camarada, divertido e bom de papo. A coisa funcionou por certo tempo, até que Téti começou a ter crises recorrentes de ciúmes, o que pôs fim à relação.

Os chiliques de Téti só cessaram quando ela passou a namorar um empresário goiano já idoso. Com traquejo para lidar com mulheres complicadas e possessivas, ele a conduziu a um estágio de tranqüilidade emocional.

Vez ou outra ela escuta notícias sobre Luy. Sua pele arrepia quando falam o nome do delegado. Soube por um conhecido que desde que se aposentou, ele passou a viver com a esposa em um rancho modesto, na beira do Rio Aquidauana, mas o casamento continua daquele jeito.

Luy não tem mais saúde e disposição para as estripulias conjugais. Domesticado aos 78, trocou as escapulidas românticas pelos afazeres da roça: vara de pescar, dois cachorros e a rotina de cochilar na rede.

Téti lamenta e, para fugir da rotina e da lembrança dos tempos de pecado, foi buscar refúgio no colo dos filhos que hoje vivem na fronteira. Vire e mexe, ela engata um namoro, mas jamais vai esquecer o cheiro do delegado. Cashmere Bouquet.


E ncontro as pessoas e não vejo mais seus rostos. Vejo apenas pontos de interrogação. O olhar suplicante me pergunta: e agora, o que vai...


Encontro as pessoas e não vejo mais seus rostos. Vejo apenas pontos de interrogação. O olhar suplicante me pergunta: e agora, o que vai acontecer? Quem vamos escolher para nos governar em 2018? Quem serão os eleitos? Respondo placidamente: não sei. 

Acho graça: ninguém sabe. Mas o ser que está à frente, implorando por respostas, não se conforma. Qualquer coisa, uma migalha de opinião. Lula ou Bolsonaro? Reinaldo ou Puccinelli? Zeca do PT ou outro espécime qualquer? Repito: como vou saber, criatura? Ele replica: mas quem entende disso é você! 

Sorrio malignamente. Esqueço de lhe avisar que ninguém entende de nada quando o assunto é política eleitoral. Só existem profetas de casos consumados. 

Não adianta falar nada. As pessoas insistem em procurar respostas oraculares para confortar o espírito. Principalmente quando o cenário não permite que as próximas horas sejam previsíveis. 

Talvez a pergunta ideal seja a seguinte: dos possíveis candidatos quem conseguirá sobreviver à polícia e ao judiciário até o próximo ano? Dou a mesma resposta: não sei. 

Claro, tenho meus palpites. Não os levo à sério porque vivemos no tempo da galhofa. Mas vamos lá:

Lula: é o pré-candidato que melhor pontua nas pesquisas até o momento. Não se sabe, porém, se chegará ao próximo ano sem conhecer a carceragem de Curitiba. Muitos também estão pensando como ele conseguirá dinheiro suficiente para se eleger, já que se acostumou com campanhas caras, todas financiadas por grandes empreiteiras, bancos e JBFs da vida. Talvez peça ajuda a Evo Morales e faça um acordo com o narcotráfico para melhorar o caixa. Mesmo que consiga chegar lá, há quem duvide que possa governar com a sociedade dividida e com o Judiciário em seu encalço. Há uma aposta no mercado: Lula – caso seja candidato e se eleja - não conseguirá terminar o mandato, então terá que ter um vice que lhe garanta uma continuidade consensual. Não será fácil. 

Bolsonaro: é o nome que, por enquanto, antagoniza Lula, polarizando corações e mentes. Tem fama de maluco. No fundo, trata-se de uma mistura bizarra de Jânio e Collor. Aposta-se que ele entrará em derretimento completo durante a campanha. Mesmo que isso não aconteça, ele não terá base congressual e, passados alguns meses de governo, sofrendo de delírios totalitários, poderá tentar um golpe a manu militari, sofrendo pedidos de impeachment, tumultuando a vida política, tentando salvar a economia com medidas voluntaristas. É provável que não conclua o mandato. Teremos que olhar para seu vice. Conhecendo Bolsononaro, ele poderá escolher alguém pior do que ele. Morreremos na praia. 

Puccinelli: ele pontua em primeiro lugar em várias pesquisas em Mato Grosso do Sul. Embora tenha uma rejeição razoável, mantém-se nos últimos tempos em total submersão, acautelando-se para não ser surpreendido pela PF. Mesmo assim, para ser candidato, e vencer, terá que ter uma carta de alforria do Judiciário para chacoalhar em comícios alegando dúvidas sobre sua reputação. André depende de uma campanha em que o marketing propague dúvidas e não certezas. Se o seu concorrente for Azambuja, vence numa boa. Se aparecer um “fato novo” que encante as massas, recolhe-se para “cuidar dos netos”. 

Azambuja: é o candidato de suas próprias incertezas. Limito-me a dizer que se ele sobreviver ao Judiciário esse ano, colocará sua candidatura num patamar disputável por força da osmose da própria máquina. Tentará ser reeleito num quadro de dificuldades, sem ter, por enquanto, um discurso que, de resto, lhe favoreceu na disputa contra Delcídio. Mais não digo. Espero outros acontecimentos. 

Zeca do PT: pode ser o azarão dentro de circunstâncias improváveis. Sua rejeição eleitoral é imensa. Se for esperto, tentará ficar onde está: na Câmara Federal, mas mesmo assim não será um passeio. A concorrência à esquerda tenderá crescer e o seu eleitorado diminuir. Zeca viverá um drama hamletiano. 

Nesses quase 30 anos de vigência da atual Constituição, não foi possível acabar inteiramente com o fosso entre o texto legal e o mundo re...


Nesses quase 30 anos de vigência da atual Constituição, não foi possível acabar inteiramente com o fosso entre o texto legal e o mundo real. Qual brasileiro nunca se deparou com ironias sobre a distância entre a teoria, o que está no papel, e a prática?

Num cenário de grave crise institucional, chegamos ao nível mais baixo de apreço às normas quando um dos principais órgãos de fiscalização da lei propôs liberar o uso de provas e métodos ilegais de investigação e também a restrição do habeas corpus.

Neste 11 de agosto, Dia da Advocacia, é preciso celebrar o trabalho dos advogados que se empenham, todos os dias, pela aplicação correta da lei, zelando pelo fim do abismo entre o texto e a prática.

É desse esforço cotidiano que resulta a manutenção dos pilares republicanos e democráticos sobre os quais foi reerguido o Estado brasileiro na redemocratização.

Presenciamos, agora, um ministro de Estado defender a prática criminosa de grampear conversas entre advogados e clientes.

É fato que o incentivo dado às violações contra a advocacia surte resultados nefastos. Um episódio recente, e muito triste, foi a morte do advogado catarinense Roberto Caldart, agredido por policiais enquanto atuava em defesa de seus clientes.

Uma das funções da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) é atuar em defesa das prerrogativas profissionais -elas servem, objetivamente, para assegurar os direitos de todos os cidadãos que buscam a Justiça ou são acionados judicialmente.

Cabe repetir à exaustão que não se combate o crime cometendo outro crime. Trata-se de um recado válido para este momento em que são registradas, por exemplo, conduções coercitivas feitas sem que o conduzido sequer tenha sido previamente intimado, como manda a lei.

Os desafios cada vez mais complexos impostos à advocacia exigem do profissional, mais do que nunca, uma formação teórica robusta e multidisciplinar, espírito crítico, rigor ético e solidariedade. Só assim nossa profissão pode fazer frente aos desafios que lhe são impostos.

Por isso, é cobrado alto padrão de qualidade das instituições de ensino e preparo dos bacharéis interessados em exercer a profissão. A sociedade precisa ser servida de forma qualificada.
É orgulho para qualquer advogado integrar a OAB, maior entidade civil brasileira, e representar os mais de 1 milhão de colegas.

A estrutura democrática da ordem permite, por exemplo, consultas como as que realizamos em 2016 e em 2017 sobre a possibilidade do impeachment de Dilma Rousseff e de Michel Temer. Por meio de seus representantes legitimamente eleitos, a quase unanimidade da advocacia concluiu que, nos dois casos, houve crime de responsabilidade.

Trabalhar em favor da lei significa não abrir mão de que toda e qualquer pessoa, seja quem for, tenha acesso à ampla defesa, ao contraditório e ao devido processo legal.

Significa ainda não aceitar que o destino do país seja trilhado de maneira torta sob a batuta de quem não está integralmente compromissado com o interesse público.

O Brasil precisa de líderes acima de qualquer suspeita. As instituições públicas não devem servir de escudo aos que enfrentam acusações.

A advocacia tem mostrado que acredita no Brasil. Por isso, a classe tem trabalhado, por meio da OAB, pelas reformas de que o país precisa, sempre dizendo não à corrupção.
É preciso, por exemplo, uma reforma política radical, uma redução drástica no foro privilegiado e tornar mais efetivo o combate ao desperdício de dinheiro público.

Não se pode aceitar, contudo, a aprovação de reformas a esmo, sem debate, apenas para salvar o grupo que, momentaneamente, está no poder. Isso seria o mesmo que não fazer reforma alguma.

CLAUDIO LAMACHIA,especialista em direito empresarial, é presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)

Outro dia , fiquei observando casais tirando selfie na fila do supermercado. Uma moçada otimista, com pinta de bem resolvida, produzind...



Outro dia, fiquei observando casais tirando selfie na fila do supermercado. Uma moçada otimista, com pinta de bem resolvida, produzindo sorrisos em escala industrial - em todos os ângulos e posições - enquanto aguardávamos ‘a vez’ no caixa.

Com o olhar contemplativo, procurei na atmosfera daquele lugar algo que contribuísse para aquela euforia de gestos e bocas. Depois, cheguei à conclusão de que não precisa motivos ou ocasião. O lugar pode ser anônimo e destituído de qualquer beleza externa ou interna. O importante é registrar o momento e compartilhar com a galera, porque produzir selfies passou a ser tão comum como comer, andar e dormir.

Nada disso provoca espanto para um grupo de cientistas da Flórida. Os pesquisadores encontraram no cinema antigo algumas pistas para decifrar esse tipo de afetação. O estudo revela que, da mesma maneira com que o cinema antigo usou e abusou dos ângulos das cenas para fortalecer a imagem do personagem, homens e mulheres do século 21 transmitem mensagens subliminares por meio de retratos do celular.

A coisa funciona assim: quando a foto é tirada de cima para baixo, ela (mulher) se coloca numa posição submissa – para os homens. Quando a "selfie" é frontal, o objetivo é partilhar com as amigas. Inversamente aos homens, as mulheres não tiram "selfies" de baixo para cima.

No caso da classe masculina, na maioria das vezes, os homens mandam para mulheres retratos frontais. E "selfies" masculinas de baixo para cima, só quando há outros machos. 

E aqui faço um reparo, ou melhor, uma confissão: eu mesmo saquei o celular do bolso e registrei o momento do fã (eu) que encontrou Ronaldo Fenômeno em um aeroporto de São Paulo.

Infelizmente, esse processo por 15 minutos de fama não para. A massificação desse tipo de comportamento vai continuar. Pasmém, mas até o check-in das empresas aérea passou a ser feito via selfie, como um sinal que as companhias caminham rumo ao futuro.

Meu sinal de esperança é que a humanidade altere seus hábitos e passem a adotar algum comportamento retrô avesso à fotografia. Do contrário, seremos abordados para selfies até dentro dos banheiros públicos.

*jornalista

mail: artigotexto@gmail.com

Dois jornalistas,  Liziane Berrocal e Vinícius Squinelo, do site Topmídianews , publicaram nota que provoca certo arrepio na espinha: a ...


Dois jornalistas, Liziane Berrocal e Vinícius Squinelo, do site Topmídianews, publicaram nota que provoca certo arrepio na espinha: a desembargadora Tânia Borges, presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul, que ganhou notoriedade na mídia nacional por causa da prisão e soltura de seu filho, Breno Solón Borges, pretende abrir inúmeros processos contra pessoas que comentaram criticamente todo o desenrolar do caso.

Pode ser apenas mais um boato em meio a tantos boatos que coalham nas redes sociais, mas tudo é possível e permitido no atual planeta chamado Brasil.

Se eu fosse amigo da Dra. Tânia aconselharia a ela esquecer esse assunto.

Isso apenas dará mais repercussão ao caso e envolverá o judiciário estadual num torvelinho institucional, provocando mais desgaste do que vem causando.

Mesmo assim, sinto que todo esse barulho em torno desse tema tão palpitante não sensibilizou um milímetro a magistratura local, que parece viver numa redoma de vidro sem que nada abale seus membros.

Pode até haver muxoxos aqui e ali, mas o silencio na Corte é total.

O quadro é tão delicado que foi necessário o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) entrar na questão para fazer uma correção de rumo no andamento dessa sonata do horror e da insensatez.

Seria conveniente também que o órgão corregedor analisasse outra questão que vem ocorrendo em comarcas do interior de nosso Estado.

Alguns juízes descobriram imenso potencial para ganhar unzinho por fora com ações por danos morais de pessoas que os criticam nas redes sociais.

A coisa acontece assim: funcionários identificam comentários, artigos e notícias na rede e selecionam para os magistrados os casos mais promissores. Em seguida, os próprios juízes abrem ações pessoais pedindo indenizações que variam de R$ 10 a 40 mil.

A primeira dificuldade para quem está sendo processado é conseguir um advogado na cidade. Teme-se desagradar o juiz ou juíza e, assim, adeus clientela.

A segunda é que a chance de vitória numa causa dessa é quase impossível: quem julga é sempre outro juiz da cidade, colega do demandante, às vezes até subordinado. Uma luta desigual.

Com isso, anualmente, o magistrado engorda seu salário e cala seus detratores alegando a “salvaguarda” de sua honradez. Trata-se de um paradoxo: se um juiz estabelece um valor venal de dano moral, isso significa que, teoricamente, que sua “honra” é comprável.

No fundo, é quase uma extorsão; na superfície trata-se pura e simplesmente de corrupção disfarçada.

No meu modo de ver, funcionários do judiciário não poderiam (apesar de que legalmente a isonomia é indiscutível) pedir dinheiro em ações de dano moral em caso de crime de imprensa ou de opinião.

O máximo a ser pedido seria direito de resposta ou retratação.

Pedir dinheiro, além de ser vulgar, transforma o judiciário e os juízes numa casta que pode tudo e ninguém pode nada. Preocupante. A noção de justiça não pode ser distorcida a esse ponto.

Logo após a eleição, tive acesso ao governador eleito. Fui à sua casa levado por um amigo comum, curioso em saber o pensamento do novo go...

Logo após a eleição, tive acesso ao governador eleito. Fui à sua casa levado por um amigo comum, curioso em saber o pensamento do novo governo sobre a condução da saúde. O assunto foi vazio e sem conteúdo. Tentei conceituar a saúde naquilo que acho fundamental, alicerçado nas participações que tive como secretário da área nas duas instâncias.

Saí de lá convicto de que o governo que se iniciava faria do mutirão a sua mensagem. Soube que perderíamos quatro anos na evolução política da saúde. Logo após a posse deram início ao circo, pior, algumas pessoas qualificadas deram apoio a estas ações. Escrevi dois artigos: um deles publicado pelo Correio do Estado, outro, um amigo postou no seu Blog.

Resolvi silenciar, a fim de que esta postura revelasse ao governador o meu respeito, acreditando na sua capacidade de gestão da coisa pública.

Há dois anos estou torcendo por novas ideias. Hoje, veio o anúncio de nova rodada do Mutirão, aí meu amigo, não dá para calar. Mutirão é, a meu ver, o atestado público da incompetência, do desprezo ao povo. Funciona como se botasse o povo num brete e fizesse a vacinação de aftosa. Jamais me submeterei a isso: condeno a má intenção deste procedimento. Não há como controlar o número de atendimentos, a qualidade, e mais grave: o custo.

A “Firma” apresenta a conta e o governo rapidamente paga. Transforma essa coisa em prioridade, e passa à frente de ações muito mais sérias na saúde.  A Firma vai embora para onde veio e “o malfeito” fica para o mal pago médico do posto resolver. Isso é um desrespeito. Nem Roma, que amava o circo, para distrair o povo, ousou tamanha afronta. Ainda tenho respeito pelo Reinaldo, porém, o seu governo é ridículo na área de saúde. Escolheu mal a sua equipe. Quero dizer que não falo em pessoas, falo em ideias.

As ideias da sua equipe são primitivas, não conseguem entender saúde como componente social. A saúde, senhor governador, é um instrumento de uma orquestra sinfônica bem coordenada, com harmonia de movimento e sonoridade saudáveis. Não conseguirá realizar uma política de saúde sendo estanque, isolada, como se fosse um regime feudal. A saúde é irmã gêmea da educação, da ação social, da segurança e do emprego.  No meu mundo, jamais desprezaria o Lazer.

Ex-secretário de Saúde do Município e do Estado

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