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Alexsandro Nogueira: O caso Luy

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Homem nenhum fez Téti tão feliz quanto o delegado Luy. O cara sabia das coisas. Chegava sempre no meio da tarde, em um Opala Comodoro, esbanjando gentileza e a cobrindo de guloseimas. Ela o aguardava no quarto, no andar de cima do sobrado, estirada sobre um roupão felpudo e encardido pela ação do tempo.

Luy passava quase todas as tardes na companhia de Téti. Preso entre braços e coxas e entorpecido pela fragrância que exalava daquele cômodo. Uma mistura de alfazema com cheiro de desodorante Cashmere Bouquet. 

Desde que sofreu um infarto, ele passou a ser tratado como todos os mimos e regalias pela companheira. Não podia mais se comportar como um animal sadio e impaciente no leito conjugal. Com o coração fraquinho, o negócio passou a ser devagar e agora só ficava na massagem.

Luy vivia um casamento sem graça com um bugra de nome Haida. Uma mulher recatada e cheia de pudores, incapaz de saciar os desejos do delegado. Para fugir da monotonia, ele investia no amor clandestino.

E foi assim, nessas escapulidas, que ele topou com Téti, mulher divorciada, mãe de dois filhos e funcionária pública. O lance aconteceu em uma festa familiar. Os olhares se encontraram na roda de violão e sanfona e a faísca do desejo acendeu.

Era para ser mais um casinho passageiro de Luy, homem mulherengo, acostumado a vadiagens, mas Téti sabiamente conseguiu fisgá-lo dando início a um longo caso de paixão.

Para a coisa dar certo, a conversa do caso não podia espalhar pela família. Para isso, ambos contavam com a ajuda da mãe e da tia de Téti, duas velhinhas futriqueiras que davam guarida ao casal, em um sobrado de fundo, lá na Vila Célia.

Luy era morador antigo da Vila Carvalho. Sujeito respeitado pelos vizinhos e colegas de profissão. Homem carrancudo, linha dura e implacável quando o assunto era justiça, mas vulnerável ao sexo feminino.

Por causa disso, acabou se envolvendo com uma terceira mulher: a secretária de um colega advogado e foi sumindo devagarinho da vida Téti.

A coisa azedou mesmo depois que Luy passou a fugir das visitas íntimas e começou a concentrar suas energias nos momentos com a secreta. Téti, que não era boba, percebeu a fadiga e olhar cabisbaixo do delegado. Ele justificou colocando a culpa na esposa e na rotina do serviço.

Téti acenou com a cabeça dando claros sinais que compreendera o recado. Em uma última tentativa, apelou para São Judas Tadeu. Foi a novenas, parou de fumar, acendeu velas, até se derramar em prantos. A mãe a tia a fortaleciam com gestos de carinho e com idéias mirabolantes para melhorar sua estima. Deu certo.

Tempos depois, ela estava novamente apaixonada. Desta vez, escolheu um amigo dos irmãos mais velhos. O cara era camarada, divertido e bom de papo. A coisa funcionou por certo tempo, até que Téti começou a ter crises recorrentes de ciúmes, o que pôs fim à relação.

Os chiliques de Téti só cessaram quando ela passou a namorar um empresário goiano já idoso. Com traquejo para lidar com mulheres complicadas e possessivas, ele a conduziu a um estágio de tranqüilidade emocional.

Vez ou outra ela escuta notícias sobre Luy. Sua pele arrepia quando falam o nome do delegado. Soube por um conhecido que desde que se aposentou, ele passou a viver com a esposa em um rancho modesto, na beira do Rio Aquidauana, mas o casamento continua daquele jeito.

Luy não tem mais saúde e disposição para as estripulias conjugais. Domesticado aos 78, trocou as escapulidas românticas pelos afazeres da roça: vara de pescar, dois cachorros e a rotina de cochilar na rede.

Téti lamenta e, para fugir da rotina e da lembrança dos tempos de pecado, foi buscar refúgio no colo dos filhos que hoje vivem na fronteira. Vire e mexe, ela engata um namoro, mas jamais vai esquecer o cheiro do delegado. Cashmere Bouquet.




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