Perto do fim do dia, Quincas estacionava o Chevette, descarregava as malas e pedia um quarto. Era assim o costume para conseguir uma va...

Alexsandro Nogueira:O Chevette solitário

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Perto do fim do dia, Quincas estacionava o Chevette, descarregava as malas e pedia um quarto. Era assim o costume para conseguir uma vaga na hospedaria de dona Marcinda, uma paraguaia que há muito ficou raízes em Vila Maciel.

Depois de guardar a bagagem no cômodo, ele se aventurava pelas matas até o Arroio do Jorge. Ali, lugar pouco freqüentado por banhistas, ele se sentia à vontade para nadar pelado, sem medo ou vergonha de ser apanhado nu. 

Depois de submergir nas águas tranqüilas do ribeiro, dedicava tempo para práticas higiênicas mais urgentes como cortar as unhas e escovar a dentadura em água corrente. Limpinho, lavava as mudas de roupas sujas da viagem e caminhava de volta contornando a curva do rio. 

Antes de retornar à hospedaria, passava no clube da cidade para marcar território e confirmar presença no rastapé da vila. Quarenta minutos depois estava de volta, perfumado e com disposição para um bate coxa daqueles. 

Quincas era eletricista, mas há 15 anos trabalhava no setor de saneamento, instalando bombas d’água no interior. Por causa disso, passava boa parte do mês fora de casa,  longe dos olhares atentos da esposa e se esbaldando no embalo dos chamamés. 

A farra terminava ano nascer do dia, com Quincas exausto, quase decomposto, mas feliz. Perto das 7h00, ele retornava à hospedaria para dormir algumas horas, antes de seguir seu itinerário de viagem. 

À caminho da próxima cidade, parava o carro no bar do Zé da Janete. Ali comprava uma garrafada com catuaba, geléia real, amendoim e ovo de codorna. Antes de empurrar um gole dessa gororoba para o oco do estômago, bebia um copo de garapa. Quincas jurava que a mistura tinha propriedades medicinais e fortalecia sua vitalidade.

Pouco afeito ao expediente das empresas, Quincas gostava da vida solitária das rodovias. Era na simplicidade das cidadezinhas e vilarejos que ele parecia viver. Livre como um galo solto ciscando atrás das presas.

Mas Quincas não se arriscava quando pressentia o perigo. Tinha sexto sentido e faro para não se meter em confusão com mulheres. Foi assim em uma quermesse na praça da igreja de São Jaime. A festança corria solta, a mulherada estava ardendo em brasa, mas ele pressentiu um clima de insegurança no local e foi embora para o hotel.

Na manhã seguinte, acordou com gritos dos moradores. Era um velho estirado no meio da rua. A notícia logo veio. O homem mexeu com a cabocla errada. A mulher tinha dono, um figurão de nome Ailton, acostumado a colocar ordem no local quando mexiam com suas concubinas.

Quincas assustado chispou dali. Passou na filial da firma, deu conta dos afazeres e partiu para a estrada. Não queria topar com esse sujeito nem de brincadeira.

Depois do susto, pensou em volta pra casa. O caminho era longo, a estrada tava ruim, mas inevitável. Antes, porém, passou no compadre Miro para espairecer e colocar o papo em dia.

O amigo era viúvo e andava enfermo, reclamando de fadiga, dores no peito e crises abdominais. Para Quincas aquilo era vestígio de outros problemas: solidão, falta de mulher, desejos da carne.

Para resolver a situação, Quincas ofertou sua coleção de revistas eróticas guardadas em uma bolsa escondida no bagageiro do carro. O amigo recusou alegando não ser mais possível se aliviar daquela forma.

Depois da negativa do amigo, Quincas teve a ideia de levá-lo até a Boate do Tadeu, um recanto dos prazeres carnais escondido entre regos d’água, palmeiras e mangueiras, na encosta do Morro do Barba.

Naquele pedacinho de perdição, Miro teria a oportunidade de viver bons momentos na companhia de escravas brancas e muita cervejada. 

A princípio, Miro gostou da oferta, mas bastou chegar à casinha de pecado para se indispor com a primeira ‘donzela’. A mulher quis ser carinhosa apalpando sua virilha, mas ele deu um pulo para trás dizendo que não gostava de depravação.

Quincas ficou sem entender a reação do amigo, mas o levou de volta para casa. Não trocaram nem um pio no caminho. Chegando lá, Miro pediu desculpas pela hostilidade e confessou ter firmado compromisso com uma bugra de codinome Hildinha. 

Crédulo e confiante na sinceridade do compadre, Quincas desejou boa sorte e partiu rumo ao lar. Seria um dia de viagem contemplando a cena pastoril na estrada e as lembranças mais remotas dos tempos de meninice no sertão baiano.

A família o esperava de braços abertos, com Quincas emocionado pela recepção calorosa. Os dias seriam de extrema monotonia, até Quincas arrumar as mudas de roupa e partir novamente naquele Chevette solitário.

*jornalista



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