Tenho amigos e amigas que acreditam que a pressão popular emanada das pesquisas de opinião dos últimos dias intimidará os deuses da Supr...


Tenho amigos e amigas que acreditam que a pressão popular emanada das pesquisas de opinião dos últimos dias intimidará os deuses da Suprema Corte e os farão dar um passo atrás para libertar Lula, fazendo-o candidato e, assim, salvar o País. 

Como são pessoas inteligentes, preparadas intelectualmente e com anos de experiência nas costas dou-lhe audiência e presto atenção em seus raciocínios. 

Eles consideram Lula a perfeita encarnação de Jesus na terra. Eles o colocam lado a lado aos outros candidatos e afirmam que as elites estão tentando eliminar politicamente o único homem que pode tirar o Brasil da pobreza. 

Ouço tudo em silêncio. Não discuto temas eleitorais quando percebo que eles
 envolvem questão de fé religiosa. Mas minha quietude estimula mais e mais os argumentos. Nada leva o ser humano a se abrir para o outro como a atenção silenciosa. 

O interlocutor se sente confortável. E assim ele se expressa com o coração. Fala de suas crenças, suas angústias, suas perspectivas, seus ressentimentos. Com isso, ele imagina estar conseguindo convencer e segue em frente. 

- Sei que Lula roubou, mas todos roubam. Isso não é critério para escolher um candidato. Se a gente não colocar Lula de volta na presidência o Bolsonaro vai se eleger. O que você prefere? Um ladrão ou um psicopata?

Suspiro e olho bovinamente em sua direção. Ele se sente estimulado, acha que estou concordando e continua:

-As pesquisas estão mostrando claramente: o povo quer aquela prosperidade dos anos Lula, com emprego, consumo, renda, obras, programas sociais, mesmo com toda a roubalheira, é isso que ele quer. O povo não liga para a corrupção, desde que haja sobra de algumas migalhas para o conforto do coração. O povo se satisfaz com com pouco. 

Fico parado olhando em silêncio rotundo. Por uns instantes, somos o silêncio de nós mesmos. Me acomodo na cadeira e coloco as mãos no queixo e em seguida coço a cabeça. 

Como ele percebe que está falando com uma pedra, decide ver se consegue fazer um buraquinho na matéria rija. 

- Se o Barrosão impedir que Lula seja candidato aí sim podemos dizer que o esquema do golpe fechou. Tiraram Dilma, colocaram o Temer e agora, mesmo contra a ONU, o Papa e os grandes líderes dos países democráticos, manterão Lula preso para impedir que nosso País seja libertado. 

Baixo a cabeça e olho pro chão. O amigo pensa que estou emocionalmente abalado. Coloca uma das mãos no meu ombro e tenta me consolar. 

- Fique tranqüilo, vamos vencer; nem se tiver que ir pra frente do TSE e não deixar ninguém sair de lá de dentro até que decidam a favor de Lula e do povo. 

Peço um café. Dou uma olhada nas mensagens do celular. E digo ao amigo que preciso ir. Ele assente com a cabeça, me olha, e diz: fique tranqüilo, vamos vencer. Você paga essa conta?

Olho pra ele – e não respondo nada.  


Ontem inventei um dia  que hoje nunca chegará  a ser  amanhã





Ontem inventei um dia 
que hoje
nunca chegará 
a ser  amanhã

“Voto Certo é Voto Limpo”. Com esse mote, a Ordem dos Advogados de Mato Grosso do Sul (OAB/MS) vem desenvolvendo uma campanha insti...




“Voto Certo é Voto Limpo”. Com esse mote, a Ordem dos Advogados de Mato Grosso do Sul (OAB/MS) vem desenvolvendo uma campanha institucional para sensibilizar os eleitores a fazer uma reflexão sobre o dano social que representa o uso do voto como instrumento de barganha, desconsiderando os valores da democracia. 

A Ordem está organizando uma força-tarefa para auxiliar a Justiça Eleitoral e os órgãos de controle para garantir que o pleito tenha o máximo de lisura, impedindo e constrangendo aqueles que possam vir a utilizar métodos “heterodoxos” para serem eleitos no tapetão. 

É importante ressaltar que não há ingenuidade: temos consciência de que, após a realização das eleições, consagrados os eleitos, sempre surgem dúvidas sobre manobras escusas praticadas por vários candidatos, deixando no ar desconfianças sobre a legitimidade do pleito.

Nesse aspecto, temos que reconhecer que, gradualmente, a justiça eleitoral tem sido cada vez mais rigorosa com ilicitudes, suspendendo mandatos, impondo a inelegibilidade, determinando a realização de novas eleições e punindo, dentro do devido processo legal, aqueles que, comprovadamente, fraudaram as eleições ou praticaram irregularidades no exercício de função pública. 

Claro que muitas vezes a morosidade e as medidas protelatórias frustram as expectativas do eleitorado, que deseja punições mais rápidas e eficazes contra aqueles que praticam a compra de votos e abusam do poder econômico. Mesmo assim, estamos avançando a cada eleição. 

O fenômeno da burla eleitoral vem desde os primeiros passos da fundação da República. Sua origem reside na nossa formação histórica. Os fundamentos dos nossos vícios eleitorais vinculados ao processo de desigualdades sociais e econômicos, terminam dando centralidade exacerbada à força do dinheiro e da máquina pública na formação dos votos.

No mundo ideal, eleições teriam que ser um momento especial nos quais cidadãos e cidadãs faria suas escolhas de maneira comparativa e reflexiva, elegendo os melhores – mais honestos, mais preparados, mais cultos e mais competentes – dentre aqueles considerados vocacionados para a nobre atividade da representação popular. 

Aristóteles dizia que a política é a “arte da compreensão da realidade”. Aqueles candidatos e candidatas cuja visão de mundo e da vida fosse a mais abrangente possível deviam ser escolhidos para representar a polis (a comunidade politicamente organizada) e trabalhar para a construção de uma sociedade virtuosa e criativa. 

Sabemos que esse projeto é uma utopia, mas devia ser um elemento referente para a construção de nossa cidadania. Os advogados, por exemplo, têm na base de sua formação profissional o sonho e o realismo. Somos sonhadores e pragmáticos ao mesmo tempo. Por isso, sem arrogância ou pretensão demasiada, abraçamos causas que possam contribuir para mudar coisas que estão erradas e não funcionam em nosso País. 

O pleito eleitoral é um acontecimento especial na vida de uma sociedade. Ele é o ato fundador de mudanças efetivas que podem melhorar nossas vidas. Por isso, o voto limpo e certo tem poder para transformar nossas vidas. 

Somos nós, os eleitores, que escolhemos o nosso destino. Quem deseja construir um País livre da corrupção deve dar o exemplo nesse momento cívico fundamental, valorizando o direito de livre escolha dos candidatos como elemento essencial de fortalecimento do Estado Democrático de Direito.

*Presidente da OAB/MS

Em 1771, na França, o abade Joseph Antoine Toussaint Dinouart, escreveu um pequeno livreto de pouco mais de 50 páginas intitulado A A...



Em 1771, na França, o abade Joseph Antoine Toussaint Dinouart, escreveu um pequeno livreto de pouco mais de 50 páginas intitulado A Arte de Calar. 

Em 2001, a editora Martins Fontes fez chegar ao público brasileiro, em edição de bolso, essa pequena obra-prima, pouco conhecida e lida. Mesmo assim, o texto pode ser encontrado nas melhores livrarias e vale a pena ser lido.

Mais: vale a pena carregá-lo por onde for porque suas pílulas de conhecimento podem ser lidas em qualquer lugar e a qualquer tempo. Uma recomendação: antes de abrir o facebook folheie algumas dessas páginas repletas de sabedoria e de bom senso. Faço isso todos os dias. 

Agora, abaixo, dou de graça alguns dos principais ensinamentos do Abade Dinouart:

Princípios necessários para calar

1- Só se deve deixar de calar quando se tem algo a dizer que valha mais do que o silêncio.

2- Há um tempo de calar, assim como há um tempo de falar.

3- O tempo de calar deve sempre vir em primeiro lugar; e nunca se pode bem falar quando não se aprendeu antes a calar.

4- Não há menos fraqueza ou imprudência em calar, quando se é obrigado a falar, do que leviandade e indiscrição em falar, quando se deve calar. 

5- É certo que, considerando as coisas em geral, há menos risco em calar do que em falar.

6- O homem nunca é tão dono de si mesmo quanto no silêncio: fora dele, parece derramar-se, por assim dizer, para fora de si e dissipar-se pelo discurso; de modo que ele pertence menos a si mesmo do que aos outros.

Diferentes espécies de silêncio

Existe um silêncio prudente e um silêncio artificioso.

Um silêncio complacente e um silêncio zombador. 

Um silêncio espirituoso e um silêncio estúpido.

Um silêncio de aprovação e um silêncio de desprezo. 

Um silêncio político. 

Um silêncio de humor e de capricho. 

1- O silêncio é prudente quando se sabe calar oportunamente, conforme o tempo e o lugar em que se está no mundo e conforme a consideração que se deve ter para com pessoas com se é obrigado a tratar e a viver. 

2- O silêncio é artificioso, quando só calamos para surpreender, seja desconcertando os que nos declaram seus sentimentos, sem lhes dar a conhecer os nossos, seja tirando proveito do que ouvimos e observamos, só querendo responder por modos enganadores.

3- O silencio complacente é uma aplicação não somente em escutar, sem contradizer, aqueles a quem desejamos agradar, mas ainda em lhe mostrar o prazer que temos com sua conversa ou com sua conduta; de maneira que os olhares, os gestos, tudo supra a falta da palavra, para aplaudi-los.

4- O silêncio zombador é uma reserva maligna e afetada, a não ser interrompida, sobre as coisas desprovidas de sentido ou inconsideradas, as bobagens que ouvimos falar ou que vemos fazer, para gozar do prazer secreto que têm aqueles que se deixam enganar ao imaginar que os aprovamos e os admiramos.

5- Há um silencio espirituoso quando se percebe no rosto de uma pessoa que não diz nada um certo ar aberto, agradável, animado e capaz de dar a entender, sem o recurso à palavra, os sentimentos que quer dar a conhecer.

6- Há, ao contrário, um silêncio estúpido, com a língua imóvel e o espírito insensível, o homem parece inteiramente numa profunda taciturnidade que nada significa. 

7- O silêncio de aprovação consiste no consentimento que damos ao que vemos e ao que ouvimos, seja contentando-nos em lhe dar uma atenção favorável, que indica a importância que lhe atribuímos, seja testemunhando, por alguns sinais exteriores, que o julgamos razoável e o aprovamos.

8- É um silêncio de desprezo não nos dignarmos a responder àqueles que nos falam ou que esperam que nos declaremos a respeito do que nos falam e olhar com frieza e arrogância tudo o que vem deles. 

9- O silêncio de humor é o de um homem cujas paixões só se animam seguindo a disposição ou a agitação de ânimo que o domina e de que dependem a situação de seu espírito e o fundamento de seus sentidos; que considera bem ou mal aquilo que ouve, segundo a física desempenhe bem ou mal suas funções, que só abre a boca para fazer piadas ou para dizer coisas desagradáveis ou inoportunas.

10- O silencio político é aquele de um homem prudente, que se poupa, que se conduz com circunspecção, que nem sempre se abre, que não diz tudo o que pensa, quem nem sempre explica sua conduta e seus desígnios; que, sem trair os direitos da verdade, nem sempre responde claramente, para não se deixar revelar. 

Os cirurgiões plásticos e os esteticistas estão felizes. Eles finalmente estão se tornando mais importante do que os marqueteiros numa ...


Os cirurgiões plásticos e os esteticistas estão felizes. Eles finalmente estão se tornando mais importante do que os marqueteiros numa campanha eleitoral. 

Numa visada geral, nunca, em tempo algum, candidatos e candidatas estão utilizando tanto de seus préstimos profissionais como agora, nesta famosa jornada de 2018. 

Reparem na TV, nas redes sociais, nos jornais: o uso de botox, enchimentos faciais, retoques aqui e ali estão chamando mais a atenção do que qualquer outro recurso de melhoria de imagem entre aqueles e aquelas que estão suplicando nossos votos diariamente. 

O caso mais evidente é o do candidato Álvaro Dias. Na sua primeira aparição na Rede Bandeirantes, quase não conseguíamos ouvi-lo, pois era impossível tirar os olhos daquele sorriso de palhaço devido ao excesso de preenchimento facial. 

O caso da senadora Kátia Abreu (Vice de Ciro) gerou milhares de comentários em todos os cantos por causa do transformismo radical. Ela era uma tempos atrás e, agora, surgiu no corpo de outra pessoa. Assustador. 

Tirando Bolsonaro, Boulos, Daciolo e Ciro Gomes, os demais parecem que fizeram uma visita aos esteticistas. Mas até quando eles resistirão?

Tenho também recebido vídeos de candidatos aqui de Mato Grosso do Sul. Não vou dar nomes. Mas tem gente exagerando nos retoques faciais ou no Photoshop. 

Alguns estão fazendo serviços completo: plástica, lipo, lifting, clareamento dental, enfim, tudo que o mercado dispõe para fazer com que a boca do candidato(a) ganhe aquele aspecto de  "égua de charrete" e, no conjunto da obra, a bizarrice seja hegemônica . 

Me pergunto: quem são os iluminados que conseguem convencer essa gente a se tornarem essas figuras esquisitas, disformes, levando-os a crer que isso é algo importante para atrair o eleitor?

Qualquer leitura de psicologia pedestre revela que a incapacidade de mudar o conteúdo interno induz à preocupação de alteração da forma. Só que uma coisa é melhorar a "performance" por completo, outra é transformar-se numa caricatura de si mesmo. 

Estou preocupado com os marqueteiros. Dentro em breve, os candidatos dispensarão seus serviços e só contratarão equipes de esteticistas e especialistas em dermatologia, mandando discursos e conteúdos às favas. 

Em vezes de propostas, os eleitores ficarão debatendo como determinado candidato conseguiu a melhor deformação da temporada. 

Quem sabe a democracia deixe de ser um problema ético e passe a ser estético.

É a evolução da espécie!

Não custaram a pipocar as primeiras fofocas do chefe. A má notícia dava conta que ele andava esquisito, pensativo e com um olhar distan...


Não custaram a pipocar as primeiras fofocas do chefe. A má notícia dava conta que ele andava esquisito, pensativo e com um olhar distante dos amigos. No carteado, a turma fazia de tudo para reanimá-lo, mas sem sucesso - o cara tava realmente esquisito e com pinta de deprimido.

Quem topava com ele na rua jurava que aquilo só podia ser a tal da crise da virilidade. A mulher negava os boatos e jurava que ele comparecia ao som de “Fogo e Paixão” para espantar a solidão dos lençóis.

 A última vez que o encontrei foi na farmácia pedindo remédio para disfunção erétil. Ele me tratou por estranho e desviou o olhar para que eu não percebesse a compra do medicamento. Percebi ali um homem angustiado, em conflito, bem diferente do marmanjo acostumado à roda de cantorias com mulheres e amigos.

Quis perguntar o motivo da tristeza, mas ele cortou meu barato logo de cara. Disse que ninguém poderia ajudá-lo naquele momento e preferia a companhia dos comprimidos à de gente bisbilhotando sua vida. Senti que o recado era para mim e me afastei.

Quando já pagava minhas compras no caixa, ele se aproximou bem quietinho. Veio com cara amarrada conversar trivialidades e começou um desabafo. Sentamos perto dali, num capô de um carro estacionado em frente à farmácia e o cara desandou a falar da vida amorosa. 

A primeira coisa que despejou foi a saudade dos tempos em que era cortejado pelas secretárias durante o expediente. Ele acreditava que sua relação profissional com as funcionárias, permitia certas intimidades. 

A sessão nostalgia foi avançando ao ponto dele abrir as feridas amorosas mal cicatrizadas do passado. Disse que o estilo arrojado de abordar as secretarias começou ainda na década de 70 quando assumiu o primeiro cargo de chefia. Época em que tinha uma cabeleira esvoaçante e pilotava um Opalão equipado.

O carrão possante fazia sucesso na garagem da repartição e servia como pretexto para convites e aventuras noturnas. Por causa disso, nasceu a lenda nas repartições do “Pegador do Parque”, um homem sedutor que cantava boleros e guarânias para cativar as funcionárias.

A coisa tava indo bem, décadas de farra e festinhas particulares na companhia de belas mulheres, até que num desses rompantes libidinosos, acabou se enrolando todo com uma moça comprometida. 

A danada era bonita, fazia um tipo eficiente e sabia impressionar o patrão com uma conversinha sobre religião, pudor e respeito. No tempo em que a moça o secretariava, era comum vê-los despachando em períodos prolongados. 

Mas enquanto o casal se esbaldava, colegas de trabalho tramavam uma arapuca para que o noivo da moça descobrisse o caso. Nas rodas de café na copa, era comum ouvir o ti-ti-ti da tramóia. Os mais empolgados queriam ligar para o rapaz traído e informá-lo de tudo, mas a fofocagem era sempre contida pelas funcionárias mais experientes.

Quando a repartição já se dava por vencida, descobriram que o caso chegara ao fim de repente. Foi um susto pra todo mundo.

Anos de convívio e já era sabido que o homem andava sempre apressado e falando alto pelos corredores; os dias que se seguiram presenciaram uma cena diferente: um chefe entristecido, com os ombros arcados e recitando repetidas vezes o refrão da música “Ah! Como eu amei”, de Benito de Paula.

O fim do caso amoroso chegou ao serviço pela boca de uma vendedora que freqüentava as salas oferecendo semi-jóias. A marreteira informou aos ouvidos mais curiosos que a moça estava de casamento marcado com o noivo. Foi aí que entenderam o baque do patrão.

Como se não bastasse o banho de água fria com essa história de casório, ele teve que administrar outra situação com potencial para outros dissabores. A moça pediu para ser demitida, pra aplicar o dinheiro da rescisão na venda de produtos beleza. 

A notícia veio de supetão e o cara ficou sem fala e neurônio para articular uma resposta. Refeito do susto, não teve outra opção a não ser aumentar o salário da moça. Era isso ou nada. Caso contrário, não mais a veria durante o expediente para tentar reatar o caso.

Como a proposta foi irrecusável, ela aceitou o aumento. Emocionada com a polpuda quantia que receberia no próximo mês, tratou de agradecê-lo de uma forma diferente: pedindo que o chefe aceitasse o convite para ser seu padrinho de casamento.

A princípio, ele esboçou reação de perplexidade e rejeição à ideia, mas à medida que a ela insistia, ele não teve outro jeito e aceitou o convite, deixando-a eufórica de tê-lo, agora, abençoando a união. 

A cerimônia de casamento colocou um ponto final nessa história e abriu espaço para outros romances ardentes. Anos depois desse caso submergir nas lembranças, ele abre seu coração mais uma vez e confessa que, mesmo com a decadência do corpo, ainda vive uma explosão de desejo, capaz de romper tabus e os preconceitos da idade. E saiu de cabeça baixa.


O amor é piegas A poesia de amor tem essa biologia trêfega As cartas de amor são ridículas A paixão dura o instante do zap As pala...


O amor é piegas
A poesia de amor tem essa biologia trêfega
As cartas de amor são ridículas
A paixão dura o instante do zap
As palavras assumem sua antropofagia trágica
Te amo
Não te amo
O desejo de querer o indizível
O beijo roubado
Os corpos arfantes
A dor invisível dos alfinetes
O dicionário inesgotável de cenas patéticas
Os movimentos ensaiados da pantomima lírica
Mas o amor é isso que você está vendo: 
Te amo
Te odeio
 A gente se vê por aí 
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Numa madrugada fria dos últimos dias, acordei abruptamente sonhando com um estranho gemido. Como não conseguia dormir, resolvi perambula...


Numa madrugada fria dos últimos dias, acordei abruptamente sonhando com um estranho gemido. Como não conseguia dormir, resolvi perambular pelo apartamento, vagando em busca do sono já perdido, arrastando-me na penumbra da sala como se fosse uma alma penada  girando em torno de mim mesmo, olhando os móveis e os tapetes como se fossem lápides de filme de terror.

Depois de um breve silêncio, ouvi um berro insistente que julguei ser de uma cabritinha. Fui até a janela e não vi nada na rua embaixo. Aquele balido distante tornava-se cada vez mais real, deixando de ser uma fumaça de sonho para se tornar uma verdade absoluta naquele mundo insone no qual eu estava perdido.

Fiquei intrigado, mas permaneci estacado na janela ouvindo o béeeee sincopado e intermitente vindo do andar de baixo. O som continuou madrugada adentro.

No dia seguinte, de passagem pela garagem, disse ao zelador que havia ouvido uma cabrita berrando de frio durante a noite. Ele sorriu, e adiantou: “É lá na dona Débora do 703 que agora está criando uma cabritinha no apartamento. A coitadinha ainda não se acostumou e não para de chorar”.

Olhei incrédulo e não aguentei: o que ela fará quando a cabra crescer?

No que ele redarguiu, aflito: “Ah, isso eu não sei; mas o síndico está preocupado...”

Aproveitando a deixa, ele mandou ver: “a dona Fernanda da cobertura está criando uma porca da raça Hampshire”, riu.

Girei os olhos, lembrando de uma amiga que outro dia comentou - pensei que fosse brincadeira - que estava pensando em criar uma capivara dentro de sua Kitchinette.

Ele continuou falando: “todo dia de manhãzinha dona Fernanda sai faceira que só com o bicho na coleira para passear”, comentou.

Fiquei em silêncio, respirei, e deixei o homem continuar a falar: “Nossa!, o senhor precisa ver como a porca está cevada, bonita, toma banho de banheira, usa xampu especial, come frutas e legumes escolhidos a dedo, sem contar a ração especial que vem da Inglaterra...”

Balancei a cabeça e deixei o homem fluir: “olha, eu não sei o que vai acontecer, mas me falaram que daqui a um ano a porquinha da dona Fernanda estará pesando uns 200 quilos!”, afirmou, fingindo perplexidade.

Já ia me despedindo, quando ele, enfim, deu de ombros, e fez o último comentário: “esse mundo está perdido, o senhor não acha?”.

Sinceramente, não sei se o mundo perdeu-se, se as pessoas piraram, ou se a culpa é da entrada de mercúrio na constelação de escorpião anunciando uma nova era, mas temo que um dia veremos pessoas criando bois e vacas dentro de apartamentos majestosos, quando não gorilas trazidos da Nova Guiné.

Uma vez vi uma foto de um cara que levou para seu apartamento minúsculo em Nova York uma onça pintada. Sei que milionários sauditas e mexicanos criam em casa guepardos aos montes.

Dentro em breve, seguindo essa ideia da evolução da espécie, cães e gatos estarão fora de moda como animais de estimação. Isso sem contar que, nesse período eleitoral, a população de jumentos deve aumentar exponencialmente nas residências das famílias e das redes sociais. 

É assim que caminha a humanidade. O mundo, realmente, está perdido.

Meu avô colocou a mão sobre minha cabeça de menino assustado e disse: "suba nas minhas costas para ver o mundo melhor....


Meu avô colocou
a mão sobre
minha cabeça
de menino assustado
e disse: "suba nas minhas costas
para ver o mundo melhor..."
Ele ria -
achando engraçado
que eu visse o mundo melhor
em suas costas
do alto de seus
quase dois metros de altura
Ele ria
Ele ria do meu medo
Ele ria do meu assombro
Ele ria
do seu próprio riso.

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