O processo de desenvolvimento de uma cidade tem fatores imponderáveis. Muitas vezes o poder público realiza uma intervenção urbana e...


O processo de desenvolvimento de uma cidade tem fatores imponderáveis. Muitas vezes o poder público realiza uma intervenção urbana em determinada área, esperando obter determinado resultado, mas o movimento espontâneo da população a coloca em outra direção. 


"conseguimos realizar uma obra de mais de R$ 60 milhões sem que houvesse qualquer escândalo proveniente de suspeitas de corrupção."


Todo gestor de uma grande cidade aprende que a vontade de seus cidadãos e cidadãs é imperativa para induzir a qualidade de seu crescimento. Cabe à administração municipal orientar procedimentos, gerir interesses, ordenar fluxos de crescimento e atender as demandas sociais.

Trata-se de operação complexa porque as instituições e as leis que regulam uma cidade nem sempre estão de acordo com aquilo que o dinamismo interno da cidade induz e exige. 

O asfaltamento de uma rua residencial, por exemplo, poderá, com o passar dos anos, fazer surgir uma inusitada via comercial, alterando sua finalidade. Ou vice-versa: a implantação de uma grande avenida, às vezes, se transforma em área de lazer para os moradores, que a utilizam para caminhadas e encontros sociais. 

O centro de Campo Grande vivenciou esta experiência ao longo do tempo. Sua aptidão original foi se transformando à medida que a cidade crescia, embora mantivesse, na essência, sua vocação para o comércio. Foi assim que a Rua 14 de julho - e todo seu entorno - ganharam vida própria, definindo a identidade cultural de Mato Grosso do Sul. 

O centro tornou-se o palco do chamado “jeito moreno” de ser, lugar para onde se confluía pessoas de todas as origens, formação e condições sociais. A rua e a história de Campo Grande passaram a integrar o mesmo fenômeno social, interagindo e mesclando nosso povo, dando-lhe perspectiva e rumo.

Neste aspecto, a Rua 14 de julho, ao longo de mais de um século, transformou-se em ponto de encontro, região comercial, local de moradia, tornando-se o espaço urbano vital de toda a cidade. Ali a cidade se revela com todas as suas nuances e peculiaridades.

Mesmo assim, conforme novos bairros foram surgindo e novos traçados foram delineados, a cidade redefiniu-se, impactando de maneira negativa toda a área central. Foi assim que, já na década de 70, projetou-se a primeira reforma do miolo da cidade. Ela não avançou como se desejava, e ficou apenas na  implantação do calçadão da Rua Barão do Rio Branco. 

Com crescente degradação dos imóveis e das malhas viárias, várias administrações deram início aos estudos de modernização do centro, a partir da revitalização da 14 de julho. O projeto teve a fase de maturidade e, finalmente, conseguimos fechar o acordo de financiamento com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para executar o tão sonhado projeto. 

Cabe salientar que o Reviva Campo Grande não se trata apenas de uma obra física de reforma. Ela na verdade é um novo conceito de urbanização que certamente vai se irradiar culturalmente por toda a cidade, conforme a passagem do tempo. 

Como afirmamos no início desse artigo, o processo de desenvolvimento de uma cidade é revestido de fatores imponderáveis. Neste sentido, o modelo implantado na 14 de julho poderá servir de referência urbanística para toda cidade. O centro funciona como um espelho do que serão os bairros no futuro.

Esse será o legado que pretendemos deixar para as futuras gerações. Tenho muito orgulho de entregar essa obra para nossa população porque ela impactará positivamente não somente na nossa economia, como principalmente na nossa auto-estima. Trata-se de um trabalho que mostra a ousadia de uma gestão que não teve medo de enfrentar o desafio, com todos os riscos e desgastes políticos imaginados no decorrer do processo de execução. 

Reitero que conseguimos realizar uma obra de mais de R$ 60 milhões sem que houvesse qualquer escândalo proveniente de suspeitas de corrupção. 

Vencemos e estamos orgulhosos de nossa equipe de trabalho que soube atuar com harmonia e paciência para vencer todos os obstáculos advindos da incompreensão de alguns setores da sociedade. O Reviva Campo Grande agora tornou-se um símbolo de esperança que homenageia o passado e projeta nosso futuro. 

*Prefeito de Campo Grande(MS)


Nas últimas horas ouvi de pessoas de todas as tendências de pensamento político uma opinião semelhante, sem grandes modificações semânti...


Nas últimas horas ouvi de pessoas de todas as tendências de pensamento político uma opinião semelhante, sem grandes modificações semânticas: o SFT, por 6 votos a 5, modificou, contra a vontade da sociedade, o entendimento sobre a pena de prisão após o julgamento em segunda instância para mandar um recado ao poder incumbente.  

O Judiciário está contrariado com o Executivo.

De acordo com este parecer, Bolsonaro (e seu entorno) passou muitos meses falando “merda” e agora terá que atuar num quadro politicamente mais complexo, tendo seu principal antagonista (Lula) aos seus ouvidos, a lhe atazanar. 

Ou seja: o presidente provocou demais as instituições democráticas e agora passará pelo supremo teste de ter conviver com o contraditório. 

Não sei se essa avaliação de momento será avalizada no futuro. Aliás, apesar dos adivinhos de plantão, não sabemos como o caldo da polarização que está instaurada lidará com essa realidade. 

A reação do Congresso surpreendeu. Ao colocar a PEC da segunda instância de imediato em discussão parece indicar que o País corre perigo caso essa situação perdure por longo tempo. O brasileiro está cada vez mais raivoso e certamente alguém lá na frente riscará o fósforo fatal que nos transformará num lugar de horror e sedição. 

Por enquanto, não vejo chance de Lula & sua turma conquistar o centro político. Se ele radicalizar e Bozo se mostrar domesticável pelo establishment,  o Lulismo certamente ficará no nicho das esquerdas tradicionais. 

Se o presidente e seus familiares acreditarem na estratégia do silêncio dócil e vitimista, ele poderá ficar do tamanho que está e crescer nas frinchas da melhora gradual da economia. 

Ainda a ver. 

Tudo é incerto, porém. Nas próximas semanas veremos a dissipação de alguma fumaça e, aí sim, mexer com os búzios para adivinhar o que poderá acontecer lá na frente, sobretudo nas eleições municipais. 

Ontem FHC mostrou-se sensato ao declarar que o centro tem que se organizar para se tornar opção de poder. O problema é que cada vez mais menos pessoas ouvem o ex-presidente. FHC tornou-se objeto descartável no ambiente da política institucional, infelizmente. 

De tudo aquilo que aconteceu, uma coisa é certa: O STF tornou-se um partido político. Dividido internamente, mas ainda assim um partido. Havendo renovação de seus quadros, a Constituição será reinterpretada ao sabor da maioria ocasional. Nos próximos dois anos Bolsonaro indicará dois novos ministros. Ficará mais confortável. 

Mas e o Brasil? Ficará melhor? Mais decente? Mais justo? Menos corrupto? 

Essas são as questões, Hamlet.




De repente, o casamento acabou. Fim. Foi tudo muito rápido. Mas os fios viscosos entrelaçados nas veias, nas entranhas, nas mucosas, nos...


De repente, o casamento acabou. Fim. Foi tudo muito rápido. Mas os fios viscosos entrelaçados nas veias, nas entranhas, nas mucosas, nos dramas diários, nas tramas do tempo, tudo estava lá há muito tempo, machucando, intoxicando, incomodando.

Dias antes, havia acontecido aquela discussão dura e resistente. Ela deu um soco na mesa da cozinha e gritou: “fascista!”. Ele devolveu no mesmo tom: “petralha!”. Ela bateu em seguida: “canalha!”. Ele lacrou: “babaca!”. 

Bateu a porta e saiu de casa. Foi dar uma volta no quarteirão. Fumar.

A última imagem ficara na cabeça: mostravam os dentes e salivavam na direção um do outro. A dança das ofensas ultrapassou a troca de rimas pobres, os chavões de sempre, o bater de portas, os chutes nas cadeiras e, finalmente, os palavrões de praxe, ensaiando uma luta corporal que ficou apenas nas ameaças das calistenias agitadas de um casal em fúria. 

Esta foi a cena do fim de tudo. O amor era ódio, as palavras eram feitas de raiva. E assim foi... assim ficou muito tempo... assim o tempo passou...

A memória humana tem sempre uma narrativa conveniente. Os anos de chumbo foram felizes. A gente se encontrava nas passeatas de protesto, ríamos quando era hora de fugir da polícia, falávamos bonito nas reuniões do partido, nos bares, nas festas; era um gozo, era lindo ver a gente gritando as palavras de ordem contra a ditadura, lutando contra o sistema, querendo mudar tudo, mudar o mundo, mudar o mundo...

Lembra da camiseta vermelha? Do pôster do Chê? Do Bob Marley? Do nosso jeito de ser? Lembra? Lembra? A gente se amava, a gente ouvia música, a gente viajava...Lembra?

Lembra do comício das diretas-já? A Praça da Sé lotada, e nós, com aquela bandeira linda do Brasil, abraçados chorando cantando caminhando e cantando... puxa...! era lindo, a gente se amava, tudo era bom, tudo tudo tudo era divino e maravilhoso. 

Lembra da nossa primeira briga? Você achava que era melhor seguir na Frente Ampla do MDB e eu achava que estava na hora de romper com a burguesia porque ela estava rendida, vendida, conciliando como sempre, e era hora da classe trabalhadora assumir o poder e você dizia que isso era porralouquice e eu dizia chega chega você dizia ainda é cedo ainda é cedo e eu dizia que a revolução era um processo e não ruptura
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como eu gosto de lembrar disso...
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como eu gosto de lembrar de tudo isso...
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Lembra da gente? Ficamos mais de um mês sem se conversar
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depois tudo se acomodou; a gente se amava dentro daquele apartamento
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eu como você; eu comia você e você me comia; a gente se amava e a gente voava nas asas da Panair...lembra? 

Lembra de mim? 

Quando foi mesmo que toda essa história começou? Não a NOSSA “história”, que foi uma esbórnia de alegria e juventude, cabelos ao vento e muita gente reunida...
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essa outra HISTÓRIA, a de 2013, tudo por causa de 20 centavos, quando a NOSSA TURMA levou porrada na avenida DE SUA TURMA, porra!, DE SUA TURMA!!!!
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o que foi aquilo, companheiro? quando nós, você e eu, nós e eles, ficamos diferentes, pensando o mundo de outro jeito, gritando um com o outro, querendo ganhar a luta na marra, com argumentos de duas palavras
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quando foi mesmo? 
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Lembra de nós? 
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Tudo foi ficando corrosivo. A raiva chegou devagar. Foi entrando, foi penetrando, foi ficando. As discussões políticas ganharam pouco a pouco todos os espaços em nossos ventres. 

Os corações foram se dividindo, a vida foi se partindo, o amor deixou de ser palavroso e transbordante, largo e aberto, e um silêncio cuidadoso começou a ocupar todos os espaços de nossas vidas.

O som ao redor era sufocante. Bastava um olhar diferente na hora do Jornal Nacional, que, de imediato, um manto de desconfiança mútua abraçava nossas diferenças e a eterna discussão começava. “Fascistinha!”. “Petralha!”

Primeiro, os comentários inocentes, as impressões momentâneas, depois as ironias; em seguida, as piadinhas de mau gosto; depois, gritos e, no final, a batida seca na porta do quarto. No dia seguinte, ao levantarmo-nos tudo era frio e seco. 

Aí veio o golpe. Aí veio impeachment. Aí veio a semântica. Aí veio a narrativa cacofônica. Aí veio aquela coisa na qual a razão desmorona e todos estão certos e errados ao mesmo tempo. 

Nos grupos de watts nós brigamos muito. O pai brigou com a mãe, depois brigou com os irmãos, depois brigou com os primos que brigou com a gente e a gente foi brigando com os amigos e nada sobrou diante de tanta ofensa, de ódio e raiva – sempre raiva – burro louco canalha fascistóide ladrão golpista

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Primeiro, acusaram; depois, prenderam; por último, veio a eleição. Nossas vidas foram invadidas pelas larvas e pelas chamas do ódio; no meio, os insultos, as brigas, os nervos à flor da pele; nosso casamento era esse tumulto dentro da multidão de todas as nossas raivas e loucuras, constituído de disputas, que, às vezes, parecia comédia... e assim o teatro encenado no palco vazio seguia sua marcha na direção das incertezas, dos temores, dos debates inócuos, até descobrirmos que éramos dois monstros habitando o mesmo pântano.

Depois ficamos nus. Descobrimos que dentro do guarda-roupa nada que havia servia, as cores perderam os sentidos, não dava pra tocar fogo no apartamento; não dava pra pensar, a gente só sentia ódio, eu quero ir embora, quero dar o fora e não quero que você vá comigo, fascistinha, comuna, vai pra Cuba e seja feliz na Venezuela sua tonta, seu tonto...
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Depois tudo piorou. Tudo foi quebrando, esfacelando, triturando. Ficamos cada vez mais fragmentados, caquinhos de vidro com as pontas para cima. Todos os filmes começaram a ficar em preto e branco. Pare de zurrar, porra?! Você adotou algum bandido de estimação, caralho?! Vai chupar o cu de sua mãe, corrupto! Porco! Asno! #elenão #elesim. 
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Mensagem: Olha, não fala mais comigo, reacinha. Você é fascistinha! Você é uma merda! Fica com seu pessoal que eu fico com o meu! Nunca mais quero ver você e sua família Adams!
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Lembra de nós? 





O Ministro Gilmar Mendes quer que o hackeamento das informações supostamente verdadeiras que estão sendo divulgadas a conta-gotas pelo si...


O Ministro Gilmar Mendes quer que o hackeamento das informações supostamente verdadeiras que estão sendo divulgadas a conta-gotas pelo site Intercept possam ser usadas como prova contra o Ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o Procurador Deltan Dallagnol, com o fito de anular inúmeras sentenças da Lava Jato.

É uma tese e tanto. Minha tendência é concordar com Mendes no atacado. Ele enxerga relevância naquelas conversas esquisitas e coloca em dúvida a imparcialidade de Moro quando juiz da causa. Caso tudo seja verdade, é irrefutável considerá-las como documentos válidos para julgamento.

O problema é convencer a maioria da Corte Suprema e parcelas ponderáveis da sociedade de que ele está correto.

O tempo dirá. Penso que Mendes vai perder. Porque o precedente poderá abrir as portas do inferno.

Minha opinião é de que não vivemos num mundo de santos e que o voluntarismo da turma da Lava Jato pode ter exacerbado o ânimo punitivo da pessoas (os procuradores de Curitiba e a PF) e as tenham levado a agir como uma matilha selvagem em busca de presas graúdas.

(Não vou estender aqui comentários sobre a grande picaretagem de Verdevaldo e do Intercept, deixando para outro momento as devidas considerações que hei de fazer).

Agora, vejam como são as coisas, hoje (dia 07 de outubro) ficamos sabendo que o auditor fiscal Marco Aurélio Canal, preso por estar envolvido com a prática de suborno dentro da própria operação Lava Jato, gravou documentos sigilosos da Receita Federal em vários HDs, dentre os quais envolvendo Gilmar Mendes, e repassou para várias pessoas com a recomendação de vazá-los caso algo aconteça com sua vida.

Digamos que esse papelório secreto venha à tona, repassado por uma fonte "anônima", e mostre para o Brasil e o mundo nebulosas transações que supostamente envolvam Mendes e amigos.

Será que valerá como prova nos tribunais? Será que o Ministro resistiria?

Aguardemos...

Antes não havia medo Antes havia o abraço das ruas  Antes éramos amantes dos Ventos Antes éramos os donos das palavras Antes os ...


Antes não havia medo
Antes havia o abraço das ruas 
Antes éramos amantes dos Ventos
Antes éramos os donos das palavras
Antes os nossos nomes voavam no tempo
Antes nossos corpos  lavravam o amor
Antes era outro mundo
Antes a superfície era o fundo
O raso era profuso
O plano era  espesso
Nós éramos de gesso
No espaço pleno
No desenho fino
Um esboço do rosto
No próprio espelho

O jogo político segue polarizado no Brasil. Nossa sorte é que a economia aos poucos está se arrumando e que o Congresso Nacional, junto...


O jogo político segue polarizado no Brasil. Nossa sorte é que a economia aos poucos está se arrumando e que o Congresso Nacional, junto com o Ministro da Economia, Paulo Guedes, avança em pautas cruciais para fazer a grande virada. 

Seria bom se Bolsonaro ficasse um pouco mais quietinho e que a esquerda abandonasse a pauta do Lula livre, livrando-se dessa obsessão de fundo libidinal contra o Ministro Sérgio Moro. 

Mas o mundo não é perfeito. A esquerda está pendurada na pauta legalista, acreditando que o hackeamento de autoridades vai salvá-la moralmente. 

O problema é que o assunto galvaniza o debate entre convertidos, mas não sensibiliza o centro político. Esse está preocupado com o cotidiano: custo de vida, emprego, consumo, segurança, saúde, educação etc., ou seja, perspectiva futura. 

Nesse aspecto, vejo que a esquerda está se isolando da mesma forma que as patacoadas de Bolsonaro coloca a direita e seus extremistas num nicho folclórico de picadeiro de circo. 

O problema – e a diferença – é que o Bolsonarismo está no poder. E a esquerda cada vez mais está sendo jogada pra fora do establishment. 

Em qualquer conversa informal com pessoas comuns – todas “alienadas” do frisson dos grandes debates – percebe-se, primeiro, uma grande desconfiança de todas as formas de poder; segundo, uma raiva latente de tudo que representa a esfera política; e, terceiro, um sentimento de desistência de colaborar de maneira, digamos, “patriótica” e desinteressada para encontrar soluções para o País. 

A cada denúncia e revelação sobre o que acontece e aconteceu no escurinho dos gabinetes dos poderosos esse mal-estar se alastra.  

Há um movimento mundial de fortalecimento do pensamento mais à direita. Existem centenas de explicações para esse desencanto com a social-democracia ou com o liberalismo progressista. 

O volume de produção intelectual nessa área é praticamente impossível de acompanhar. Tenho tentado. Vou dormir tarde todas as noites lendo e acompanhando a divulgação dos fatos. Às vezes fico tão ansioso que não consigo dormir. Tenho vontade de desligar tudo, pegar um romanção do Balzac e ficar meses trancado na minha biblioteca. 

Nas redes sociais acompanho as discussões do Brasil polarizado. Gosto de provocar os dois lados para tentar compreender o cerne de suas motivações e de suas estratégias de conquistas de corações e mentes. 

Infelizmente, vejo que a direita tem sido mais eficaz: ela é mais direta e brutal. A esquerda soa falsa, querendo mostrar uma bondade e intencionalidade desmentidas cruamente com os governos Lula/Dilma, pois até onde se sabe ser leniente com a corrupção (ainda mais nas proporções até agora sabidas) impacta no empobrecimento, no atraso e nas desigualdades sociais. 

É difícil perdoar aqueles que na sua imaginação foram seus algozes mesmo que por um breve momento tenham oferecido o paraíso das delícias do consumismo.

Sempre achei que se a esquerda fizer uma profunda autocrítica de seus erros ela perderá no curto prazo, mas ganhará no futuro. Mas o imediatismo é o Zeitgeist  que nos acolhe e ninguém acha correto deixar perdida uma guimba jogada ao chão. 

O grande problema da esquerda é que ela esgotou seus macetes e cacoetes. Seus movimentos ganharam um condicionamento previsível. Todo seu discurso e jogadinhas foram, durante mais de 30 anos, tão repetidos que, como se diz, o repertório cansou. O pessoal tá pedindo outra música, uma nova dança, um rebolado diferente.

Nesse caso das denúncias do site Intercept todos os movimentos feitos seguem o mesmo roteiro que a esquerda pratica há anos. Eu que me formei politicamente dentro dos aparelhos nos anos de chumbo consigo antecipar com semanas de antecedência quais serão os próximos passos, o próximo estratagema, a palavra de ordem a ser lançada, enfim, a programação mental de movimentos políticos que se transformaram em seitas fundamentalistas. 

Uma boa parte da antiga esquerda migrou para a direita e para o centro nos últimos anos. São quadros que se formaram acompanhando e ajudando a fazer a movimentação de massa, politizando segmentos sociais específicos, aparelhando o pensamento correto para que o sonho da revolução libertadora do proletariado fosse uma realidade. 

Esse pessoal – no qual me incluo – adotou a contra-revolução ou o cinismo como método de combate da esquerda que atualmente está totalmente contaminada pela hipocrisia e pela sanha da boquinha pública. 

Por isso, ações como de Greenwald, Gleise Hoffmann, Manoela Dávila, Fernando Haddad etc etc etc contra a cavalaria Bolsonariana não cola e não ilumina. 

Ao contrário: elas aumentam a rejeição à esquerda, e cumprem a função de mantê-la num gueto onde eles apenas conversam consigo mesmos. 

O grande centro – esse espectro difuso, despolitizado, inculto, pouco esclarecido, descontextualizado – está muito mobilizado na esfera do anti-petismo. Se a esquerda ainda pretende ter algum sonho o primeiro passo é superar a polarização e dialogar com o mundo real. Não fazendo isso, a direita penhoradamente vai agradecer.



Não existe mais jornalismo diário. A pauta agora muda a cada 30 minutos. A leitura de notícias nos jornais parece cada vez mais algo inú...


Não existe mais jornalismo diário. A pauta agora muda a cada 30 minutos. A leitura de notícias nos jornais parece cada vez mais algo inútil e enfadonho. Fatos se tornam desimportantes com rapidez alarmante. Ler jornais pela manhã ou à noite, antes de deitar, parece um exercício arqueológico de exumação de múmias. 

Certamente, a internet, a TV e o rádio generalizam os assuntos e se concentram na matéria bruta. Aos jornais e revistas cabem entrar nas frinchas e nos detalhes dos fatos, fornecendo informações importantes que escapam das notícias veiculadas a cada minuto nos outros meios.

Só que, mesmo assim, o jornalismo impresso parece não estar conseguindo manter aquele espanto necessário para prender a atenção do leitor. Quando folheamos as páginas temos a impressão de que estamos acompanhando material velho. Só as lemos porque temos uma mania de reiterar concretamente informações que pertencem ao mundo etéreo e dar mais crédito àquilo que estamos segurando nas mãos. 

Teóricos do jornalismo afirmam que a saída para os jornais impressos é combinar com certa maestria fatos, interpretação e opinião no mesmo texto. Com isso será possível diferenciar-se das mídias virtuais e manter a fidelidade dos leitores. Aqui e ali, temos visto essa experiência funcionar – mais na imprensa estrangeira do que na nossa -, mas desconfio que isso só está agregando públicos de determinadas faixas etárias ( acima de 45 anos). 

Muita gente boa do mercado jornalístico imagina que em menos de dez anos o modelo atual de imprensa não exista mais. Com as redes sociais e outros instrumentos a comunicação talvez seja mais tribal. Não sei. Acho que os grandes conglomerados de mídia vão continuar se fortalecendo porque tem maior capacidade de ocupar espaço, sem contar que conseguem contratar equipes profissionais mais equipadas intelectualmente. 

Por mais que se mudem os formatos, a criatividade e o poder de influência dos profissionais de mídia são os elementos diferenciadores que garantirão a permanência do jornalismo nas nossas vidas. O consumidor de notícias é apenas isso: ele deseja consumir fatos que lhe pareçam novidades. O produtor de notícias é alguém que olha o tempo todo para a vida depurando e perguntando-se a si mesmo se as coisas podem ou não gerar boas pautas para os leitores. 

Neste aspecto, não podemos esquecer que os poderes, o cotidiano, os países e as sociedades são geradores de acontecimentos surpreendentes que, a todo segundo, faz germinar notícias que ajudam a formar uma ideia tênue sobre o mundo em que vivemos. Assim seguimos, pegando estilhaços do cotidiano, juntando-os, conectando-os, até formar um conjunto de experiências e conhecimentos que se transforme em elementos históricos. 

Fico imaginando a riqueza de detalhes que os estudiosos dos próximos séculos terão nas mãos para contar para seus contemporâneos como foi o início do século XXI e como o material jornalístico os auxiliará para desvendar coisas que hoje não conseguimos porque estamos por demais dentro dos fatos. Sim, nada areja mais do que olhar para os acontecimentos com certo distanciamento crítico, buscando extrair deles o que foi essencial e descartando aquilo que foi simplesmente acessório. 

Por mais abrangente que seja a busca por notícias, sempre alguma coisa escapa, passa batida, ou simplesmente é ignorada. Uma descoberta científica, uma tese surpreendente, um acontecimento mantido em segredo, um crime não investigado, uma jogada política desprezada, um movimento econômico não diagnosticado, enfim, fatos que crescem dentro de si mesmos e acabam se desdobrando como fatores determinantes para que a vida seja transformada. 

Somos pequenos demais para controlar os acontecimentos. É aquela história: uma borboleta bate as asas numa ilha do Pacífico e provoca furações no Atlântico norte. O jornalismo tem essa fragilidade. Ele não sabe que forças está libertando, mas segue perscrutando e investigando fatos de maneira atabalhoada. Quem poderia imaginar que um esqueminha tolo de lavagem de dinheiro num posto de gasolina de Brasília poderia se transformar na Operação Lava Jato? Quem poderia imaginar que uma entrevista idiota de três ministros do Governo pedindo a cabeça do relator das pedaladas fiscais do TCU pudesse ser o fato determinante para mudanças estruturais do País? 

É complicado. Uma coisa puxa a outra e ninguém sabe o que virá a ser. Onde, afinal, esconderam os ossos de Dana de Tefé? 

(artigo publicado em 2015 originalmente no jornal O Estado de Mato Grosso do Sul)



Vendo minha casa. Vendo meu carro. Vendo minha moto. Vendo minha loja. Vendo meus quadros e meus livros. Vendo meus tapetes. Vendo meus...


Vendo minha casa. Vendo meu carro. Vendo minha moto. Vendo minha loja. Vendo meus quadros e meus livros. Vendo meus tapetes. Vendo meus discos e meus CDs. Meu computador (nesse mesmo que estou escrevendo agora) está à venda. Vendo meus móveis; alguns imóveis ( na lua e na terra).
Vendo minha bicicleta. Vendo minha máquina de lavar roupa. Vendo meu forno microondas. Vendo meu fogão, vendo minha esteira, os vasos da sala, o espelho do banheiro. 

Vendo meu cartão de crédito junto com o plano de saúde. Vendo meu cachorro e meu gato. Pensei bastante, mas vendo também meus passarinhos. Meus peixinhos de aquário, esses (triste, né?) podem levar. Uma bagatela. Vendo algumas garrafas de vinho fajuto. Vendo meia garrafa de uísque e aguardentes mexicanos. 

Vendo meus cadernos de anotações. Vendo alguns contos e poemas não publicados. Vendo meus lápis coloridos. Vendo as fotografias de minhas tias dos anos 50. Vendo jornais velhos. Vendo dois abajures que não funcionam. Vendo um aparelho de DVD queimado. Vendo uma TV dos anos 70 (ainda funciona). Vendo minha aparelhagem de som. Vendo meu faqueiro. 

Vendo algumas roupas velhas, ternos usados de linho, calças boca de sino, camisas floridas, sapatos de couro de crocodilo, meias de seda furadas, tênis sujos e apodrecidos, camisetas de algodão descoloridas, bermudas com 12 bolsos, cuecas americanas, calcinhas de antigas namoradas, lencinhos de alguns amigos bibas, cabides, além de alguns apetrechos como gravatas, coletes de couro e abotoaduras acrílicas douradas. 

Estou vendendo xícaras de porcelana barata, copos e taças, cortadores de papel, lanternas sem pilha, panelas de aço, placas de homenagens, álbuns de figurinhas, cubo mágico de madeira, caixas de papelão para presente, óculos quebrados, capas de celulares que penduram na aba das calça, sabonetes jamaicanos e perfumes de putas.

Para quem interessar possa, estou entregando a preço vil duas caixas de ferramentas de carpintaria, uma lata de bolacha (vazia) fabricada na Suíça, um jogo de velas perfumadas, dois pares de chinelos havaianas, um guarda-sol de praia meia boca, três conjuntos de flores de plástico (nas cores azul, vermelho e amarelo) e um tapetinho de gel fabricado na Alemanha para ser usado durante o banho, e não escorregar.

Depois de muito pensar, decidi vender (quanta dor no coração!) alguns carnês em atraso das Casas Bahias (tudo com deságio), além de várias cartas de cobrança da Secretaria da Receita Federal. De lambuja, passo para frente IPTUs, IPVAs, contas de luz e água, e toda a sopa de letrinhas que pagamos para o Governo dizer que está tudo bem e que o sofrimento durará até 2056. 

Aproveito para comunicar que vendo meu emprego, meu salário, minha sala e minha mesa. Vendo minha rua esburacada, os semáforos quebrados e os canteiros centrais das avenidas. Se for possível, vendo a cidade com toda a sujeira que tem dentro dela. 

Vendo o tempo de trabalho e de descanso. Vendo meu choro e minha risada. Fiz as contas, vendo minha aposentadoria futura. Vendo o sol e a lua. Vendo o que não tenho e nunca vou ter. Vendo meus sonhos e meus pesadelos. Vendo minha raiva e minha indignação. Vendo a desesperança de minha geração. Vendo o ar que me rodeia, o meu respirar e o suspirar. Minhas medalhas e as velhas cartas de amor.

Vendo tudo por qualquer preço. Vendo o gesto da oferta e as mãos que calculam. Vendo minha memória e meu dom de mentir. Vendo tudo sem medo. Vendo até meu corpo. Se você achar que está muito caro, tudo bem, entrego junto minha alma.


*  texto publicado no final do Governo Dilma

Sérgio Moro nasceu em 1 de agosto. Logo, logo, entrará em seu inferno astral. Agosto é o mês do desgosto. Sua vida atualmente não está ...


Sérgio Moro nasceu em 1 de agosto. Logo, logo, entrará em seu inferno astral. Agosto é o mês do desgosto. Sua vida atualmente não está fácil. Talvez fique pior. Bem, ele devia imaginar que um dia teria que enfrentar problemas por conta da Operação Lava Jato. Mexeu com alguns fundamentos do poder econômico e político mundial. Colocou Lula na cadeia e isso não foi uma coisa trivial: o cara se autodenominava o "grande mascate" dos interesses do capitalismo internacional. 

Moro e sua turma foram longe demais. Avançaram como nunca antes na história do País no desmonte de uma máquina monumental de corrupção e geradora de desigualdades sociais. Claro, não se faz omeletes sem quebrar os ovos. Contra uma estrutura complexa de crime organizado, que usa e abusa dos poderes do Estado para enriquecer milhares de militantes e oportunistas de partidos sem cor ideológica não dá para seguir regras postas sem ser às vezes pragmático e ardiloso. 

Alguém veria chance de jogo honesto numa disputa entre o time das irmãs carmelitas contra o time do Fernandinho Beira-Mar?

Cada brasileiro virou agora um jurisconsulto e todos opinam sobre hipóteses havidas quando o quadro era tenso, as decisões eram urgentes e a torcida urrava querendo ver alguns maganos na cadeia. Falar agora, depois do acontecido, é fácil; mas no torvelinho dos acontecimentos, coisas escabrosas aconteciam de todos os lados e, francamente, ninguém estava muito preocupado em seguir o estrito ordenamento jurídico de uma constituição sempre distorcida em função das conveniências do momento. 

Alguém se lembra do que Renan Calheiros e Ricardo Lewandowisk fizeram com a Carta Magna na famosa sessão do impeachment de dona Dilma no Senado Federal?

Se fossemos citar aqui todas "interpretações criativas do STF" dos últimos 36 meses veríamos que os nobres advogados, agora tão ciosos com o fluxo de informação informal mantido entre Juízes e Promotores – infelizmente, uma tradição deletéria no Brasil -, perceberíamos o quanto de hipocrisia e o quanto de bravata de quinta categoria nos invade a cada minuto pelas redes sociais. 

Ademais, o tema da insegurança jurídica é cada vez mais plangente, principalmente depois que a administração pública foi criminalizada de ponta a ponta. Todos vivemos com medo do judiciário. Juízes viraram semi-deuses. Promotores estalam os dedos e, pronto, uma mídia ávida por escândalos compra seus biscoitos sem se importar se eles foram feitos de veneno.

Mas voltemos a Moro e as "denúncias" publicadas pelo militante Glenn Edward Greenwald, que também é escritor, jornalista, advogado e especialista em direito constitucional, e que nos últimos dias vem pingando suas “reportagens” contra a República de Curitiba no site The Intercept Brasil, com base em informações anônimas de hackers.

(Engraçado, o famoso jornalista não disse se checou as informações publicadas até o momento, provando que elas são verazes e não frutos de fraude cibernética). 

A cada postagem o Lulismo é levado a um estado de euforia jamais visto nos últimos anos. No limite, parece estar havendo uma torcida a favor da corrupção e ao saque sistemático dos recursos públicos, com alguns membros do STF esfregando as mãos como se estivessem salivando de incontida alegria. 

Sim, essa é apenas uma impressão. Mas que estão postas nas entrelinhas das manifestações “comentadas” de maneira generalizada por figuras com notável saber jurídico e miopia voluntária de leitura de contextos. 

Claro, claro, estão defendendo a Constituição e a lisura dos procedimentos processuais (no fundo, dão gritinhos de “Lula Livre”, mesmo porque ninguém é de ferro), mas esquecem que quando Márcio Thomaz Bastos foi Ministro da Justiça ultrapassou todos os limites razoáveis para defender o Governo e nem por isso sofreu uma campanha tão pesada quanto vem enfrentando Moro. 

Claro, Bastos especializou-se na defesa de criminosos e isso o beatificava diante dos garantistas de ocasião. Acho que nem a vale a pena mencionar o fato de advogados frequentarem o Supremo vestidos esportivamente de bermudas num fim de semana para conversas amistosas com membros da egrégia Corte. 

A história da república é notabilizada por fatos esquisitos, de “nebulosas transações” como dizia aquele compositor engajado. Se juristas formarem um grupo de estudo para fazer uma mineração profunda naquilo que muitos consideram uma “mera distração” na interpretação das leis e como elas influíram nas decisões em suas várias instâncias encontrarão as razões pelas quais chegamos a esse ponto, com o trânsito de bilhões de dólares em malas, cuecas, contêineres, abastecendo contas secretas em paraísos fiscais. 

Talvez Moro e a República de Curitiba tenham descoberto um jeito de dar um cavalo de pau nessa situação, inspirados num quadro de combate à corrupção que vem se estruturando desde os anos 80, depois que os Estados Unidos enfrentaram o escândalo de Watergate, e o Congresso foi obrigado a criar leis mais rígidas para impedir a farra nos negócios públicos e privados mundo afora. A história é longa. 

O fato é que atualmente o crime organizado quer zerar o jogo. Está contando com a ajuda de vasta militância que sonha criar um ambiente de condenação pública, jurídica e institucional dos protagonistas das operações para anular os processos, as delações e as prisões de bandidos confessos. Vão conseguir? 

É provável que não. Mas todos estão apostando suas fichas nas denúncias de Glenn Edward, que, conforme comemoram, explodirá a base do Governo Bolsonaro, atingindo sua figura mais emblemática. Trata-se de aposta perigosa. 

Os precedentes abertos de todos os lados indicam que atores políticos de vários matizes – inclusive no Supremo – estão mandando às favas os recatos e os escrúpulos, indicando que o jogo pesado do subterrâneo não poupará ninguém. 

Será que todos vão ficar sentadinhos educadamente esperando que a The Intercept Brasil publique todos os diálogos hackeados no telegram de centenas de autoridades sem mover um fiozinho de cabelo?

Fico imaginando as movimentações de bastidores e o frenesi das investigações para trazer o caso por completo à tona. Depois disso é provável que seja possível fazer um julgamento. Ele poderá condenar Moro e sua turma. Mas também jogará as reputações de muitos na vala comum dos apodrecidos da vida republicana. 

Segue o jogo... 

By Edmilson Pontes* Deu no jornal Nacional: deputados do Estado de Tocantins pedirão o impeachment do governador Reinaldo Azambuj...



By Edmilson Pontes*

Deu no jornal Nacional: deputados do Estado de Tocantins pedirão o impeachment do governador Reinaldo Azambuja, de Mato Grosso do Sul. Assim que William Bonner noticiou que Azam era Governador do Tocantins, na semana passada, criou-se um movimento popular em Palmas para pedir sua cabeça por "usurpação territorial". 

O próprio Presidente da República, Jair Bolsotário, deixou seus intensos afazeres no Twitter para declarar que "temos que ver isso aí", convocando o professor Olavo de Carvalho para opinar a respeito de tão importante assunto: "vai dar merda!", declarou o filósofo nas redes sociais. 

Nesse meio tempo, enquanto Bonner apurava onde ficava o Tocantins e o Mato Grosso do Sul no mapa do Brasil, manifestações ocorriam nos dois Estados, ameaçando inclusive o desencadeamento de uma intervenção militar e a convocação de observadores da ONU para mediar a crise. 

Até o momento, contudo, há silêncio entre as autoridades dos dois Estados, apesar do Jornal Nacional ter esclarecido com exclusividade que uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa. Mas os seguidores do Presidente da República acreditam que há uma conspiração da Globo querendo fazer a troca de governador para desestabilizar a reforma da previdência. 

Estamos cavucando os bastidores para informar nossos leitores sobre a verdadeira natureza dessa notícia, na qual, por alguns instantes, Tocantis virou o Mato Grosso do Sul. Os bastidores estão fervendo. 



*Edmilson Pontes (idade indefinida, passado misterioso e endereço incerto e não sabido) é o único correspondente do blog autorizado escrever reportagens exclusivas no Jornal A Verdade Imaginária, mostrando ao público leitor como o nosso jornalismo é um farol a iluminar as mentiras mais delirantes, elaboradas pelas mentes mais idiotas de todos os tempos.


comentários para : edmilsonpontes02@gmail.com

Volta e meia escutamos em conversas sociais a comparação do atual momento político brasileiro com a situação vivida pelos campo-grand...


Volta e meia escutamos em conversas sociais a comparação do atual momento político brasileiro com a situação vivida pelos campo-grandenses anos atrás, na esfera municipal.
Brigas políticas infindáveis, troca de ofensas desnecessárias entre executivo, legislativo e judiciário, futricas improdutivas, conspiratas, enfim, todos se lembram e sabem qual o resultado dessa mixórdia.
Muitas vezes cria-se um ambiente deletério no qual muitos imaginam que o vencedor de uma eleição pirou e deseja construir seu hospício particular.
Todos perdem. A casa fica desarrumada. Os rancores crescem e as fake news prosperam.
Depois do vendaval, para colocar as coisas em ordem leva-se muito tempo. Gasta-se uma energia terrível. Os recursos se escasseiam a longo prazo. Como a memória é curta, todos gritam, esquecendo-se como foi que nasceu o bebê.
Qualquer pessoa de bom senso sabe que a pacificação dos ânimos, a estabilidade institucional e a aposta no diálogo permanente dos contrários só produz ganhos sociais. Pode até demorar, mas produz...
A população de Campo Grande tem clareza sobre o quanto ganhou com a pacificação de nossa política. Isso não significa que não se deva divergir, mas reconhecer que a divergência tem que ter propósito, objetivo, rumo.
Quando o governante tem uma agenda central e uma noção de ponto de equilíbrio entre forças, respeitando-as todas na medida certa, a vida segue dentro da normalidade. Caso contrário...é isso aí que você está vendo...

T enho recebido muitos convites para festas e lançamentos de livros. Evito. Temo encontrar nesses lugares pessoas tóxicas. A simples pre...



Tenho recebido muitos convites para festas e lançamentos de livros. Evito. Temo encontrar nesses lugares pessoas tóxicas. A simples presença desses personagens cria um ambiente aborrecido. Volto pra casa contrariado. Essas figuras estão ali apenas para ver, ouvir, interagir, e depois espalhar boatos que a sua fértil imaginação ditou. O compromisso com a verdade é zero. Penso que reuniões sociais são uma ótima oportunidade de interação humana. Mas com o advento das redes sociais a participação presencial perdeu valor em si. O sujeito participa apenas para fazer selfie, postar e fofocar. Sou uma persona analógica. As coisas físicas ainda exercem sobre mim um imenso poder de atração. Gosto de ler jornais e revistas de papel. Gosto de sentir o peso dos livros. Se aparece textos interessantes na internet imprimo para ler sobre a mesa. Só acompanho o noticiário do dia na tela do computador porque não há como negar que informação instantânea é mais eficiente do que a do dia seguinte. Trabalho com jovens. Aliás, na equipe a que pertenço tenho a idade para ser o pai de todos e todas. É divertido, inclusive do ponto de vista antropológico. Acho a moçada digital mais criativa e solta do que a minha. A ideologia é menos arraigada. O papo é mais direto. É uma outra sensibilidade. Tenho aprendido muito, mesmo porque a minha cultura livresca não compete com a deles, mas juntamos-nos com esforço para vivermos felizes juntos e misturados. Já nas esferas ditas "intelectuais", com forte vezo acadêmico, há o componente da vaidade, uma espécie de pavoneamento artificial que pega o pior dos defeitos burgueses e mistura com uma dança em que a hipocrisia tenta fazer do vício uma virtude. Sinto que o convívio social está mudando. Outro dia entrei em uma pizzaria e me deparei com uma imensa mesa repleta de convivas de um aniversariante que não conhecia. Parecia uma festa da firma. Todos - literalmente - estavam de olho no celular e ninguém conversava com ninguém. Todos isolados em seus mundos particulares, trocando mensagens com pessoas distantes. Tem gente que acha isso absurdo. De minha parte, não acho nada, apenas um fenômeno dos novos tempos. Será sempre assim? Não sei. Nem quero saber... 

E sse ano pensei em desistir da política. Não da política em si, pois essa está intrinsecamente ligada às nossas vidas. O exercício da ...


Esse ano pensei em desistir da política. Não da política em si, pois essa está intrinsecamente ligada às nossas vidas. O exercício da nossa humanidade exige que pensemos e façamos política o tempo todo. A "política" que por ora deixei de lado é essa murunfa que estamos vendo, que ocupa o espaço dos interesses mesquinhos, da hipocrisia abjeta e do pragmatismo necessário para que o crime organizado sobreviva, apesar do combate de pessoas que acreditam num País mais decente. Comecei a ver coisas que, sinceramente, são demasiadamente fortes para meu estômago cada vez mais enfraquecido. Passamos uma fase histórica que indicou que havia uma intenção clara de sanitarizar as relações políticas. Ou seja: gente honesta somaria esforços com gente honesta para garantir um mínimo de condições higiênicas para que esse imenso hospital chamado Brasil ficasse protegido dos ataques das bactérias mais nocivas. Ledo engano. Elas são muitas. Elas infectaram o corpo social de maneira crônica. Bandidos voltam a assumir postos no topo da cadeia alimentar. Eles sorriem e debocham dos órgãos de controle, da polícia, do Judiciário. Na verdade, eles voltaram a assumir o comando dessas instituições numa clara demonstração de que nosso destino será sempre aquele que se situa entre a piada de mau gosto e a celebração da picaretagem. Por isso, quando inventaram o papo de "nova" e "velha" política coloquei essa conversa na conta das novas cepas viróticas que estavam chegando sorrateiramente com o entupimento das latrinas, exalando um odor estranho, esgueirando-se pelos ralos e se instalando nas nossas UTIs. Os mais cínicos haviam me alertado de que uma hora a ficha ia cair e a decepção, como se sabe, não tem outra função biológica na vida do que a de aumentar nosso nível de raiva. Eu sempre gostei de conversar com os cínicos. Eles tem senso de realismo, apesar da total falta de caráter. Mas não foi isso que está me fazendo desistir da política: no atual momento ela está boçalizada. Não só pela direita, mas principalmente pela esquerda. Todos fazem questão de se juntar à nau que se afunda. Como ainda não se sabe o que virá depois do naufrágio (que pode demorar algum tempo, mas vai acabar acontecendo) os ratos se aninham e ficam mordendo uns aos outros pelo melhor lugar na galé. É dessa luta que as novas bactérias estão nascendo e contaminando o ambiente. Os indivíduos mais pútridos parecem que momentaneamente adquiriram uma proteção natural para atuar livremente, fazendo aquilo que sempre fizeram: impedir que a sociedade seja mais saudável e que escrúpulo (palavra importante) seja um item inserido no conjunto de valores benéficos que possa, assim, abrir espaço para políticas - essas sim - saudáveis e culturalmente inclusivas. Sei que todos estão cansados de discursos, sei que análises não engordam as contas bancárias, sei que posts nas redes sociais não alteram um milímetro a ordem geral do universo. A prova está aí: os sicários de nossas almas estão vencendo. Retornam triunfalmente. Deram a volta por cima. Por isso, acho melhor dar um tempo. Estou com os nervos à flor da pele. Vou me distrair com outras coisas. Vou ler livros, ouvir músicas, escrever ficção. Criar forças para a hora certa da batalha. Não me iludo: aconteça o que acontecer as baratas vão sobreviver. Elas estão por aí nos últimos 6 milhões de anos. E não sou eu que vai exterminá-las de uma vez por todas. 

A democracia é um sistema de emissão de sinais. Quando surge algum ruído, é preciso atenção redobrada. Basta a geração de uma disfunc...


A democracia é um sistema de emissão de sinais. Quando surge algum ruído, é preciso atenção redobrada. Basta a geração de uma disfuncionalidade para degenerar seus mecanismos de sobrevivência. No limite, dependendo do volume do barulho, o processo democrático pode ser interrompido para dar lugar a arroubos autoritários. A história é repleta de exemplos e o Brasil conhece de perto como essas coisas acontecem.

Por isso, as instituições – com os pesos e contrapesos do regramento jurídico vigente – devem sempre se manter em alerta para evitar que esbirros legais tornem-se regras e ganhem proporções incontroláveis. 

Quem se debruça sobre a obra de Giorgio Agambén, talvez o filósofo mais instigante dos novos tempos, compreende que, cada vez mais, governos tentam introduzir “novidades” constitucionais sob “circunstâncias especiais” para, assim, conseguir normalizar distorções por meio da repetição e do disfarce. 

A principal idéia de Agambén é de que estamos caminhando para o estabelecimento gradual de um Estado de Exceção, caso nada seja feito para preservar a essência da democracia.

Geralmente, tudo começa pela supressão da liberdade de expressão. Uma censura aqui e outra acolá podem perfeitamente suprimir o oxigênio necessário para que a sociedade possa dizer o que pensa de seus governantes e, passo a passo, transformar as exceções pontuais em regras totalizantes. 

O polêmico inquérito aberto pela presidência do STF para dar combate às fake news, com a seguida decisão do Ministro Alexandre de Moraes de censurar o site Antagonista e a revista eletrônica Crusué, pode ser enquadrado como um desses espasmos teratológicos que, volta e meia, esgarça a lógica para além da razoabilidade . 

Daí, nada mais natural que a OAB e inúmeras outros grupos institucionais reajam de maneira estridente diante de fatos como esses, visto que a transgressão de normas legais pode se tornar um mau hábito, levando, no limite, a aventuras conhecidas de todos. 

Por essa razão, veio em boa hora o recuo do Ministro Moraes em suspender sua decisão de censura contra os dois veículos, primeiro por reconhecer que não se tratava de notícia falsa; e, segundo, porque a sociedade conhece a delicadeza do tema: custa caro retroagir em assuntos de liberdade, principalmente quando os tempos parecem cada vez mais estranhos. 

Mesmo assim, toda a polêmica merece uma reflexão mais aprofundada. O Supremo Tribunal Federal (STF) é um órgão colegiado, com grande diversidade de pensamento, mas permitir exotismos legais poderá nos levar em direção ao imponderável.

Existem mecanismos legais suficientes para coibir abusos que percorrem os caminhos da injúria, calúnia e difamação. Mas quando o órgão julgador arbitra todo o processo legal, ou seja, denunciando, investigando e decidindo monocraticamente seus interesses, o sinal vermelho acende, instaurando imensa cacofonia social. 

Depois do ocorrido, hoje sabemos que a maioria dos Ministros do Supremo passou por imenso constrangimento, com substancial desgaste na sua já debilitada imagem. Há consenso de que no campo da liberdade de imprensa não se pode descuidar. Cabe a pergunta: se o Supremo pode, isso significa que em circunstâncias semelhantes todos os outros poderes e suas instâncias inferiores poderão fazer o mesmo?

Esse é o grande problema da reiteração das medidas de exceção. Se a sociedade aceita passivamente, a medida se robustece com o passar do tempo. Há um exemplo concreto que vale a pena ser lembrado: trata-se da famosa Lei Patriótica, assinada pelo presidente George W. Bush, logo depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001, sob a justificativa de combate ao terrorismo, que terminou criando um gravíssimo problema internacional de suposta “legalidade” da invasão de privacidade. 
O mundo até hoje vive esse dilema. 

Presidente da OAB

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