Sérgio Moro nasceu em 1 de agosto. Logo, logo, entrará em seu inferno astral. Agosto é o mês do desgosto. Sua vida atualmente não está ...


Sérgio Moro nasceu em 1 de agosto. Logo, logo, entrará em seu inferno astral. Agosto é o mês do desgosto. Sua vida atualmente não está fácil. Talvez fique pior. Bem, ele devia imaginar que um dia teria que enfrentar problemas por conta da Operação Lava Jato. Mexeu com alguns fundamentos do poder econômico e político mundial. Colocou Lula na cadeia e isso não foi uma coisa trivial: o cara se autodenominava o "grande mascate" dos interesses do capitalismo internacional. 


Moro e sua turma foram longe demais. Avançaram como nunca antes na história do País no desmonte de uma máquina monumental de corrupção e geradora de desigualdades sociais. Claro, não se faz omeletes sem quebrar os ovos. Contra uma estrutura complexa de crime organizado, que usa e abusa dos poderes do Estado para enriquecer milhares de militantes e oportunistas de partidos sem cor ideológica não dá para seguir regras postas sem ser às vezes pragmático e ardiloso. 

Alguém veria chance de jogo honesto numa disputa entre o time das irmãs carmelitas contra o time do Fernandinho Beira-Mar?

Cada brasileiro virou agora um jurisconsulto e todos opinam sobre hipóteses havidas quando o quadro era tenso, as decisões eram urgentes e a torcida urrava querendo ver alguns maganos na cadeia. Falar agora, depois do acontecido, é fácil; mas no torvelinho dos acontecimentos, coisas escabrosas aconteciam de todos os lados e, francamente, ninguém estava muito preocupado em seguir o estrito ordenamento jurídico de uma constituição sempre distorcida em função das conveniências do momento. 

Alguém se lembra do que Renan Calheiros e Ricardo Lewandowisk fizeram com a Carta Magna na famosa sessão do impeachment de dona Dilma no Senado Federal?

Se fossemos citar aqui todas "interpretações criativas do STF" dos últimos 36 meses veríamos que os nobres advogados, agora tão ciosos com o fluxo de informação informal mantido entre Juízes e Promotores – infelizmente, uma tradição deletéria no Brasil -, perceberíamos o quanto de hipocrisia e o quanto de bravata de quinta categoria nos invade a cada minuto pelas redes sociais. 

Ademais, o tema da insegurança jurídica é cada vez mais plangente, principalmente depois que a administração pública foi criminalizada de ponta a ponta. Todos vivemos com medo do judiciário. Juízes viraram semi-deuses. Promotores estalam os dedos e, pronto, uma mídia ávida por escândalos compra seus biscoitos sem se importar se eles foram feitos de veneno.

Mas voltemos a Moro e as "denúncias" publicadas pelo militante Glenn Edward Greenwald, que também é escritor, jornalista, advogado e especialista em direito constitucional, e que nos últimos dias vem pingando suas “reportagens” contra a República de Curitiba no site The Intercept Brasil, com base em informações anônimas de hackers.

(Engraçado, o famoso jornalista não disse se checou as informações publicadas até o momento, provando que elas são verazes e não frutos de fraude cibernética). 

A cada postagem o Lulismo é levado a um estado de euforia jamais visto nos últimos anos. No limite, parece estar havendo uma torcida a favor da corrupção e ao saque sistemático dos recursos públicos, com alguns membros do STF esfregando as mãos como se estivessem salivando de incontida alegria. 

Sim, essa é apenas uma impressão. Mas que estão postas nas entrelinhas das manifestações “comentadas” de maneira generalizada por figuras com notável saber jurídico e miopia voluntária de leitura de contextos. 

Claro, claro, estão defendendo a Constituição e a lisura dos procedimentos processuais (no fundo, dão gritinhos de “Lula Livre”, mesmo porque ninguém é de ferro), mas esquecem que quando Márcio Thomaz Bastos foi Ministro da Justiça ultrapassou todos os limites razoáveis para defender o Governo e nem por isso sofreu uma campanha tão pesada quanto vem enfrentando Moro. 

Claro, Bastos especializou-se na defesa de criminosos e isso o beatificava diante dos garantistas de ocasião. Acho que nem a vale a pena mencionar o fato de advogados frequentarem o Supremo vestidos esportivamente de bermudas num fim de semana para conversas amistosas com membros da egrégia Corte. 

A história da república é notabilizada por fatos esquisitos, de “nebulosas transações” como dizia aquele compositor engajado. Se juristas formarem um grupo de estudo para fazer uma mineração profunda naquilo que muitos consideram uma “mera distração” na interpretação das leis e como elas influíram nas decisões em suas várias instâncias encontrarão as razões pelas quais chegamos a esse ponto, com o trânsito de bilhões de dólares em malas, cuecas, contêineres, abastecendo contas secretas em paraísos fiscais. 

Talvez Moro e a República de Curitiba tenham descoberto um jeito de dar um cavalo de pau nessa situação, inspirados num quadro de combate à corrupção que vem se estruturando desde os anos 80, depois que os Estados Unidos enfrentaram o escândalo de Watergate, e o Congresso foi obrigado a criar leis mais rígidas para impedir a farra nos negócios públicos e privados mundo afora. A história é longa. 

O fato é que atualmente o crime organizado quer zerar o jogo. Está contando com a ajuda de vasta militância que sonha criar um ambiente de condenação pública, jurídica e institucional dos protagonistas das operações para anular os processos, as delações e as prisões de bandidos confessos. Vão conseguir? 

É provável que não. Mas todos estão apostando suas fichas nas denúncias de Glenn Edward, que, conforme comemoram, explodirá a base do Governo Bolsonaro, atingindo sua figura mais emblemática. Trata-se de aposta perigosa. 

Os precedentes abertos de todos os lados indicam que atores políticos de vários matizes – inclusive no Supremo – estão mandando às favas os recatos e os escrúpulos, indicando que o jogo pesado do subterrâneo não poupará ninguém. 

Será que todos vão ficar sentadinhos educadamente esperando que a The Intercept Brasil publique todos os diálogos hackeados no telegram de centenas de autoridades sem mover um fiozinho de cabelo?

Fico imaginando as movimentações de bastidores e o frenesi das investigações para trazer o caso por completo à tona. Depois disso é provável que seja possível fazer um julgamento. Ele poderá condenar Moro e sua turma. Mas também jogará as reputações de muitos na vala comum dos apodrecidos da vida republicana. 

Segue o jogo... 

By Edmilson Pontes* Deu no jornal Nacional: deputados do Estado de Tocantins pedirá o impeachment do governador Reinaldo Azambuja...



By Edmilson Pontes*

Deu no jornal Nacional: deputados do Estado de Tocantins pedirá o impeachment do governador Reinaldo Azambuja, de Mato Grosso do Sul. Assim que William Bonner noticiou que Azam era Governador do Tocantins, na semana passada, criou-se um movimento popular em Palmas para pedir sua cabeça por "usurpação territorial". 

O próprio Presidente da República, Jair Bolsotário, deixou seus intensos afazeres no Twitter para declarar que "temos que ver isso aí", convocando o professor Olavo de Carvalho para opinar a respeito de tão importante assunto: "vai dar merda!", declarou o filósofo nas redes sociais. 

Nesse meio tempo, enquanto Bonner apurava onde ficava o Tocantins e o Mato Grosso do Sul no mapa do Brasil, manifestações ocorriam nos dois Estados, ameaçando inclusive o desencadeamento de uma intervenção militar e a convocação de observadores da ONU para mediar a crise. 

Até o momento, contudo, há silêncio entre as autoridades dos dois Estados, apesar do Jornal Nacional ter esclarecido com exclusividade que uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa. Mas os seguidores do Presidente da República acreditam que há uma conspiração da Globo querendo fazer a troca de governador para desestabilizar a reforma da previdência. 

Estamos cavucando os bastidores para informar nossos leitores sobre a verdadeira natureza dessa notícia no qual, por alguns instantes, Tocantis virou o Mato Grosso do Sul. Os bastidores estão fervendo. 



*Edmilson Pontes (idade indefinida, passado misterioso e endereço incerto e não sabido) é o único correspondente do blog autorizado escrever reportagens exclusivas no Jornal A Verdade Imaginária, mostrando ao público leitor como o nosso jornalismo é um farol a iluminar as mentiras mais delirantes, elaboradas pelas mentes mais idiotas de todos os tempos.


comentários para : edmilsonpontes02@gmail.com

Volta e meia escutamos em conversas sociais a comparação do atual momento político brasileiro com a situação vivida pelos campo-grand...


Volta e meia escutamos em conversas sociais a comparação do atual momento político brasileiro com a situação vivida pelos campo-grandenses anos atrás, na esfera municipal.
Brigas políticas infindáveis, troca de ofensas desnecessárias entre executivo, legislativo e judiciário, futricas improdutivas, conspiratas, enfim, todos se lembram e sabem qual o resultado dessa mixórdia.
Muitas vezes cria-se um ambiente deletério no qual muitos imaginam que o vencedor de uma eleição pirou e deseja construir seu hospício particular.
Todos perdem. A casa fica desarrumada. Os rancores crescem e as fake news prosperam.
Depois do vendaval, para colocar as coisas em ordem leva-se muito tempo. Gasta-se uma energia terrível. Os recursos se escasseiam a longo prazo. Como a memória é curta, todos gritam, esquecendo-se como foi que nasceu o bebê.
Qualquer pessoa de bom senso sabe que a pacificação dos ânimos, a estabilidade institucional e a aposta no diálogo permanente dos contrários só produz ganhos sociais. Pode até demorar, mas produz...
A população de Campo Grande tem clareza sobre o quanto ganhou com a pacificação de nossa política. Isso não significa que não se deva divergir, mas reconhecer que a divergência tem que ter propósito, objetivo, rumo.
Quando o governante tem uma agenda central e uma noção de ponto de equilíbrio entre forças, respeitando-as todas na medida certa, a vida segue dentro da normalidade. Caso contrário...é isso aí que você está vendo...

T enho recebido muitos convites para festas e lançamentos de livros. Evito. Temo encontrar nesses lugares pessoas tóxicas. A simples pre...



Tenho recebido muitos convites para festas e lançamentos de livros. Evito. Temo encontrar nesses lugares pessoas tóxicas. A simples presença desses personagens cria um ambiente aborrecido. Volto pra casa contrariado. Essas figuras estão ali apenas para ver, ouvir, interagir, e depois espalhar boatos que sua fértil imaginação ditou. O compromisso com a verdade é zero. Penso que reuniões sociais são uma ótima oportunidade de interação humana. Mas com o advento das redes sociais a participação presencial perdeu valor em si. O sujeito participa apenas para fazer selfie, postar e fofocar. Sou uma persona analógica. As coisas físicas ainda exercem sobre mim um imenso poder de atração. Gosto de ler jornais e revistas de papel. Gosto de sentir o peso dos livros. Se aparece textos interessantes na internet imprimo para ler sobre a mesa. Só acompanho noticiário na tela do computador porque não há como negar que informação instantânea é mais eficiente do que a do dia seguinte. Trabalho com jovens. Aliás, na equipe a que pertenço tenho a idade para ser o pai de todos e todas. É divertido, inclusive do ponto de vista antropológico. Acho a moçada digital mais criativa e solta do que a minha. A ideologia é menos arraigada. O papo é mais direto. É uma outra sensibilidade. Tenho aprendido muito, mesmo porque a minha cultura livresca não compete com a deles, mas juntamos-nos com esforço para vivermos felizes juntos e misturados. Já nas esferas ditas "intelectuais", com forte vezo acadêmico, há o componente da vaidade, uma espécie de pavoneamento artificial que pega o pior dos defeitos burgueses e mistura com uma dança em que a hipocrisia tenta fazer do vício uma virtude. Sinto que o convívio social está mudando. Outro dia entrei em uma pizzaria e me deparei com uma imensa mesa repleta de convivas de um aniversariante que não conhecia. Parecia uma festa da firma. Todos - literalmente - estavam de olho no celular e ninguém conversava com ninguém. Todos isolados em seus mundos particulares, trocando mensagens com pessoas distantes. Tem gente que acha isso absurdo. De minha parte, não acho nada, apenas um fenômeno dos novos tempos. Será sempre assim? Não sei. Nem quero saber... 

E sse ano pensei em desistir da política. Não da política em si, pois essa está intrinsecamente ligada às nossas vidas. O exercício da ...


Esse ano pensei em desistir da política. Não da política em si, pois essa está intrinsecamente ligada às nossas vidas. O exercício da nossa humanidade exige que pensemos e façamos política o tempo todo. A "política" que por ora deixei de lado é essa murunfa que estamos vendo, que ocupa o espaço dos interesses mesquinhos, da hipocrisia abjeta e do pragmatismo necessário para que o crime organizado sobreviva, apesar do combate de pessoas que acreditam num País mais decente. Comecei a ver coisas que, sinceramente, são demasiadamente fortes para meu estômago cada vez mais enfraquecido. Passamos uma fase histórica que indicou que havia uma intenção clara de sanitarizar as relações políticas. Ou seja: gente honesta somaria esforços com gente honesta para garantir um mínimo de condições higiênicas para que esse imenso hospital chamado Brasil ficasse protegido dos ataques das bactérias nocivas. Ledo engano. Elas são muitas. Elas infectaram o corpo social de maneira crônica. Bandidos voltam a assumir postos no topo da cadeia alimentar. Eles sorriem e debocham dos órgãos de controle, da polícia, do Judiciário. Na verdade, eles voltaram a assumir o comando dessas instituições numa clara demonstração de que nosso destino será sempre aquele que se situa entre a piada de mau gosto e a celebração da picaretagem. Por isso, quando inventaram o papo de "nova" e "velha" política coloquei essa conversa na conta das novas cepas viróticas que estavam chegando sorrateiramente com o entupimento das latrinas, exalando um odor estranho, esgueirando-se pelos ralos e se instalando nas nossas UTIs. Os mais cínicos haviam me alertado de que uma hora a ficha ia cair e a decepção, como se sabe, não tem outra função biológica na vida do que a de aumentar nosso nível de raiva. Eu sempre gostei de conversar com os cínicos. Eles tem senso de realismo, apesar da total falta de caráter. Mas não foi isso que está me fazendo desistir da política: no atual momento ela está boçalizada. Não só pela direita, mas principalmente pela esquerda. Todos fazem questão de se juntar à nau que se afunda. Como ainda não se sabe o que virá depois do naufrágio (que pode demorar algum tempo, mas vai acabar acontecendo) os ratos se aninham e ficam mordendo uns aos outros pelo melhor lugar na galé. É dessa luta que as novas bactérias estão nascendo e contaminando o ambiente. Os indivíduos mais pútridos parecem que momentaneamente adquiriram uma proteção natural para atuar livremente, fazendo aquilo que sempre fizeram: impedir que a sociedade seja mais saudável e que escrúpulo (palavra importante) seja um item inserido no conjunto de valores benéficos que possa, assim, abrir espaço para políticas - essas sim - saudáveis e culturalmente inclusivas. Sei que todos estão cansados de discursos, sei que análises não engordam as contas bancárias, sei que posts nas redes sociais não alteram um milímetro a ordem geral do universo. A prova está aí: os sicários de nossas almas estão vencendo. Retornam triunfalmente. Deram a volta por cima. Por isso, acho melhor dar um tempo. Estou com os nervos à flor da pele. Vou me distrair com outras coisas. Vou ler livros, ouvir músicas, escrever ficção. Criar forças para a hora certa da batalha. Não me iludo: aconteça o que acontecer as baratas vão sobreviver. Elas estão por aí nos últimos 6 milhões de anos. E não sou eu que vai exterminá-las de uma vez por todas. 

A democracia é um sistema de emissão de sinais. Quando surge algum ruído, é preciso atenção redobrada. Basta a geração de uma disfunc...


A democracia é um sistema de emissão de sinais. Quando surge algum ruído, é preciso atenção redobrada. Basta a geração de uma disfuncionalidade para degenerar seus mecanismos de sobrevivência. No limite, dependendo do volume do barulho, o processo democrático pode ser interrompido para dar lugar a arroubos autoritários. A história é repleta de exemplos e o Brasil conhece de perto como essas coisas acontecem.

Por isso, as instituições – com os pesos e contrapesos do regramento jurídico vigente – devem sempre se manter em alerta para evitar que esbirros legais tornem-se regras e ganhem proporções incontroláveis. 

Quem se debruça sobre a obra de Giorgio Agambén, talvez o filósofo mais instigante dos novos tempos, compreende que, cada vez mais, governos tentam introduzir “novidades” constitucionais sob “circunstâncias especiais” para, assim, conseguir normalizar distorções por meio da repetição e do disfarce. 

A principal idéia de Agambén é de que estamos caminhando para o estabelecimento gradual de um Estado de Exceção, caso nada seja feito para preservar a essência da democracia.

Geralmente, tudo começa pela supressão da liberdade de expressão. Uma censura aqui e outra acolá podem perfeitamente suprimir o oxigênio necessário para que a sociedade possa dizer o que pensa de seus governantes e, passo a passo, transformar as exceções pontuais em regras totalizantes. 

O polêmico inquérito aberto pela presidência do STF para dar combate às fake news, com a seguida decisão do Ministro Alexandre de Moraes de censurar o site Antagonista e a revista eletrônica Crusué, pode ser enquadrado como um desses espasmos teratológicos que, volta e meia, esgarça a lógica para além da razoabilidade . 

Daí, nada mais natural que a OAB e inúmeras outros grupos institucionais reajam de maneira estridente diante de fatos como esses, visto que a transgressão de normas legais pode se tornar um mau hábito, levando, no limite, a aventuras conhecidas de todos. 

Por essa razão, veio em boa hora o recuo do Ministro Moraes em suspender sua decisão de censura contra os dois veículos, primeiro por reconhecer que não se tratava de notícia falsa; e, segundo, porque a sociedade conhece a delicadeza do tema: custa caro retroagir em assuntos de liberdade, principalmente quando os tempos parecem cada vez mais estranhos. 

Mesmo assim, toda a polêmica merece uma reflexão mais aprofundada. O Supremo Tribunal Federal (STF) é um órgão colegiado, com grande diversidade de pensamento, mas permitir exotismos legais poderá nos levar em direção ao imponderável.

Existem mecanismos legais suficientes para coibir abusos que percorrem os caminhos da injúria, calúnia e difamação. Mas quando o órgão julgador arbitra todo o processo legal, ou seja, denunciando, investigando e decidindo monocraticamente seus interesses, o sinal vermelho acende, instaurando imensa cacofonia social. 

Depois do ocorrido, hoje sabemos que a maioria dos Ministros do Supremo passou por imenso constrangimento, com substancial desgaste na sua já debilitada imagem. Há consenso de que no campo da liberdade de imprensa não se pode descuidar. Cabe a pergunta: se o Supremo pode, isso significa que em circunstâncias semelhantes todos os outros poderes e suas instâncias inferiores poderão fazer o mesmo?

Esse é o grande problema da reiteração das medidas de exceção. Se a sociedade aceita passivamente, a medida se robustece com o passar do tempo. Há um exemplo concreto que vale a pena ser lembrado: trata-se da famosa Lei Patriótica, assinada pelo presidente George W. Bush, logo depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001, sob a justificativa de combate ao terrorismo, que terminou criando um gravíssimo problema internacional de suposta “legalidade” da invasão de privacidade. 
O mundo até hoje vive esse dilema. 

Presidente da OAB

Lula acorda cedo. Está em seu apartamento em São Bernardo. Vai até a sacada para ver o sol nascer. Em seguida, mesa posta, toma um belo...



Lula acorda cedo. Está em seu apartamento em São Bernardo. Vai até a sacada para ver o sol nascer. Em seguida, mesa posta, toma um belo café da manhã. O telefone toca. É Paulo Okamoto. Lula balbucia alguma coisa e diz que tomará um banho e que dentro de meia hora estará pronto para a viagem. 

Lula toma o elevador e desce até a garagem. Sete seguranças o esperam. Ele entra numa SUV preta e manda seguir para o aeroporto internacional de Cumbica. Está perfumado e veste um elegante Armani.

Vai direto para a sala vip. Oito assessores o esperam. Lula pede a agenda de palestras. A primeira será em Paris. Falará para um público de militantes e empresários ligados ao Partido Socialista Francês. 

São três os temas de sua fala: Bolsonaro, Macron e a fome no mundo. Depois, almoçará num bairro da periferia da Capital Francesa e à noite baterá um papo com Sarkozy, Carla Bruni, Hollande e alguns artistas europeus num restaurante chic próximo à Champs-Élysées. 

Depois de três dias passeando na França, Lula seguirá para Londres. Repetirá a dose, deixando Macron de lado e analisando, do alto de sua imensa sagacidade política, o Brexit e a crise mundial. Deitará falação contra a extrema-direita e o crescimento do fenômeno da xenofobia. Deverá conversar também com Toni Blair. 

Enquanto estuda a agenda, comenta que está aguardando a confirmação de um encontro rápido com a Rainha Elisabeth, no Palácio de Buckingham, onde fará o beija mão para fotos, pois sabe que é importante a imagem de um ex-líder operário cortejando a aristocracia. Ninguém é de ferro. 

Depois, nos dois dias seguintes, ficará liberado para passeios e farra. 

Claro que tanto em Paris como em Londres dará entrevistas com declarações fortes para repercutir no Brasil, pois brasileiro adora que seus líderes pontifiquem para o mundo. 

Terminada a tournée européia, Lula terá agenda em Nova York. Falará para o público do partido Democrata. Tema da palestra: Bolsonaro, Trump e Nicolás Maduro. Vai se encontrar com Obama. Já calcula o impacto de suas declarações quando propor ser intermediário de uma negociação de paz entre EUA e Venezuela. 

Ganhar o prêmio Nobel da Paz não é fácil, pensa rindo para si mesmo.

Gostaria de se hospedar no Waldorf Astoria, mas fica sabendo que está fechado para reforma. Ficará então numa suíte do Pierre. 

Lula desenha toda a viagem na cabeça e já se vê jantando no Franchette. Jorge Soros o acompanhará e avisou que levará uma garrafa de Château Lafite, safra 1937. Lula brinca que prefere o da safra 1933, “mas é melhor não contrariar o cara”, brinca. 

Depois seguirá para o Grand Havana Room. Fumará charutos cubanos e tomará conhaque cuja garrafa custa US$ 17 mil. Tudo pago pelos patrocinadores. 

Lula se imagina dando baforadas e conversando com amigos. Joga tufos de fumaça aureolada para o alto, que, aos poucos, perfazem o desenho de uma serpente e, assim, se transforma numa névoa densa que sobe, sobe e toma conta da sala criando um clima de filme de terror.

De supetão, Lula acorda agitado. São quatro horas da madrugada. Ele acende a luzinha do abajur e percebe aos poucos que estava tendo um sonho cinematográfico. Olha sua pequena cela da PF de Curitiba. Suspira. Balança a cabeça e tartamudeia: “esse f.d.p do Moro cortou meu barato!”.


Caiu transversalmente em minhas mãos a revista A Gente do último mês de dezembro. O homenageado é Manoel de Barros. A edição abre com v...


Caiu transversalmente em minhas mãos a revista A Gente do último mês de dezembro. O homenageado é Manoel de Barros. A edição abre com vários textos e poemas celebrando o aniversário do poeta (nascido em 19 de dezembro de 1916 e falecido em 13 de novembro de 2014), numa diagramação bem-feita, com certo apuro estético, tudo muito legal. 

É difícil não gostar da obra de Manoel. Ou melhor: tem gente que não gosta, mas não a despreza, dado sua fortuna crítica no plano nacional e internacional. 

A revista A Gente é uma publicação de dondocas, mas destacar o poeta revela que sua imagem associa-se perfeitamente ao mundo da moda, visto que traz elementos de sofisticação e luxo intelectual às frivolidades da vida. 

Há um texto-entrevista de Abílio de Barros (irmão do poeta), Martha (filha do poeta), Adélia Menegazzo (leitora inteligente do poeta), Thais Pompeo (tiete do poeta) e um tal de Douglas Diegues (aproveitador do poeta). 

Não vou entrar no mérito de cada artigo porque, obviamente, todos são celebratórios e não modificam um milímetro o rumo do universo. Percebe-se à distância, contudo, uma tentativa de se formar uma mitologia em torno de Manoel, o que pode ser justo e correto pra muita gente. Não discuto isso. 

Se tivesse que destacar algum texto escolheria o de Abílio no trecho em que ele diz que durante muitos anos Manoel publicava seus livros “e ninguém falava sobre eles”, ressaltando que o poeta só foi “descoberto quando tinha 70 anos”.

Abílio conta a história de Manoel morando no Rio de Janeiro, onde ele “conseguiu que alguém falasse sobre sua poesia”, ou seja, o jornalista Millôr Fernandes, da revista Veja. 

Na verdade, o comentário elogioso de Millôr deu-se graças ao resenhador de um livro de Manoel, o famoso Antônio Houaiss, que inclusive tinha fama de cobrar por fora para referendar obras de poetas ou escritores desconhecidos para os cadernos culturais da grande imprensa.

Isso, certamente, não invalida o valor da imensa obra de Manoel, mas panelinhas literárias são normais em todo mundo, principalmente quando há interesse em inserir elementos novos na roda que faz esse mundinho girar.

A fama de Manoel no plano local deu-se pelas mãos de José Octávio Guizzo. Há nisso uma curiosidade: ela nasceu concomitantemente à divisão de Mato Grosso. 

De repente, Guizzo intuiu que Mato Grosso do Sul tinha carência de referências culturais no plano da identidade nacional, e a poética de Manoel seria ideal para ocupar esse espaço. Ele estava corretíssimo.

Como se sabe, o sonho de todo artista local é ser famoso no eixo Rio-São Paulo. Manoel era o máximo em termos literários. Daí, por sorte, as peças foram se encaixando, a fortuna crítica foi ajudando, o “pantaneiro” retraído foi se soltando, dando entrevistas, aparecendo no cinema e na televisão, ganhando dinheiro no mercado publicitário, enfim, tínhamos nosso Roque Santeiro para falar e ser falado. 
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(Estou divagando. O centro desse artigo é outro.) 

Vou tentar novamente: paralelamente à exuberante qualidade da poesia de Manoel, formou-se uma seita, que podemos dividir em três grupos: os admiradores, os oportunistas e os guerrilheiros. 

Os primeiros são aqueles que o santificam no altar da arte literária (mesmo que se saiba que, dentre os 10 maiores poetas brasileiros, Manoel está muito longe de figurar entre eles). Os segundos são aqueles que enxergam na obra e no personagem um jeitinho de ganhar unzinho. E os terceiros são aqueles que detonam e detratam todo outro poeta e/ou escritor que não escreve na linguagem do tal Manoêles (o termo por si só revela a pobreza cultural dessas pessoas). 

Quem conhece os bastidores da literatura sul-mato-grossense (reduto diminuto de gente vaidosa, semiletrada e arrogante) enxerga três correntes nesse cenário: a turma de Manoel, a de Raquel Naveira e a de Hélio Serejo. 

(Tem também o pessoal do Lobivar de Matos, mas esse morreu precocemente, e sua obras, infelizmente, não amadureceram suficientemente, apesar de Manoel ser seu tributário).

Claro que a guerrilha Manoelina é mais forte porque é melhor respaldada pela crítica e pelo público. Esse grupo adora combater Raquel. O motivo tem razão de ser: Manoel, quando vivo, batia pesado em Naveira; achava sua poesia apressada, cheia de carolice religiosa, pouco elaborada. 

(Lembrem-se: sou testemunha ocular da história.)

Em certo sentido, ele estava correto. Mas, pontualmente, Manoel sabia que Raquel tinha lampejos e fazia manobras criativas dentro da tradição modernista que ele não conseguia, ou seja, era alguém que poderia rivalizá-lo na fama e na poesia de qualidade. 

(Nos últimos tempos Naveira tem sido soberba.) 

A guerrilha de Serejo (nosso maior escritor regionalista, o chamado “homem dos ervais”) tem como alvo Manoel. No passado, os dois principais combatentes eram o jornalista José Barbosa Rodrigues (o factotum do Correio do Estado) e o professor Hildebrando Campestrini. 

(Desconfio que ali tinha alguma pinimba pessoal).

Ambos difundiam a ideia de que Manoel era um “enganador”, alguém que se aproximou da esquerda carioca para conquistar fama e sucesso e que escrevia uma poesia propositadamente hermética para efeito de pose intelectual. 

De fato, Mané foi comunista, algo que combinava muito com alguém que sobrevivia materialmente do latifúndio e da pecuária. (Talvez por isso que ele tenha dado relevo a esse cara que ele chama “Bernardo”, pois esse alter-ego o purgava do sentimento de culpa pelo fato dele exercer o papel de senhor “feudal” curtindo a vida numa boa no Rio de Janeiro, Nova York, Paris etc).

( Divago, divago... Preciso voltar a tomar meus remédios)

Mas não concordo com esses argumentos porque a preferência dessa turma Serejista cultiva outra linhagem literária, talvez mais voltada às formas clássicas do verso, um parnasianismo meio tosco e um regionalismo com uma narrativa mais voltada para neologismos do século XIX, coisas assim... 
Serejo não é poeta. Ele é um prosador. Na linha dele, acho louváveis seus esforços literários. Devia ser melhor e mais estudado. Mesmo que os amantes do modernismo eventualmente torçam o nariz. 

(Divago...puta merda!)
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Bem...voltando ao assunto: a revista A Gente não serve muito como documento de crítica literária. Digo a razão: os artigos são delirantes. Talvez esse tenha sido um recurso apropriado de apreensão do chamado Dasein da obra de Manoel, no qual fingir que é maluco seja mais apropriado. 

Mas vejam como é o mundo. Assim que acabei de ler a revista recebo de uma dileta amiga, na minha casa, um livreto intitulado “101 Reinvenções – um estudo sobre a influência do poeta Manoel de Barros sobre a criação literária do Estado de Mato Grosso do Sul”, cujos organizadores são Ana Maria Carneiro Bernardelli e Fábio Gondim.

Como ultimamente estou estudando filosofia budista, papos esotéricos e textos sobre parapsicologia achei que isso era um sinal. Um sinal forte e consistente de que devia escrever esse textão, sem a mínima preocupação de ser lido ou não (tomara que não). 

É incrível: o livro corroborava minha tese sobre a seita de Manoel de Barros. Estava tudo ali. Fiquei tão excitado que pedi que minha esposa lesse primeiro. Eu precisava de uma confirmação de que não estava ficando louco.

Ela leu e gostou. Pediu que eu ficasse calmo e me receitou uma dosagem extra de lexapro.

Mergulhei no livro. Os textos teóricos são excelentes. Principalmente os dos professores Volmir Cardoso Pereira e Paulo Cabral (falarei de um deles daqui a pouco). Do chamado Caderno de Prosa não comentarei. Estão abaixo da critica. 

O Caderno de Poesia é uma mixórdia dos imitadores de Manoel de Barros. Essa é a seita guerrilheira de que tanto falo. Tem de tudo: poetastros, semi-analfabetos e picaretas. 

O professor Volmir, no seu prefácio, faz um contorcionismo para ser generoso e elegante com os autores da coletânea. Imagino seu sofrimento. 

Lá pelas tantas ele escreve sobre o fardo que representa a herança “manoelina” sobre a poesia brasileira e mais ainda sobre a literatura sul-mato-grossense. 

Ele utiliza a metáfora de que essa herança “é um baú pesado, que pode impedir até mesmo o caminhar daqueles que tenta arrastá-lo consigo”. (Viram o risinho sórdido em minha boca?)

Ele reconhece: “não é fácil fazer poesia depois de Manoel de Barros”. Esqueceu de dizer que a guerrilha não deixa. 

O texto é longo, profundo, bem escrito, iluminador. Segue as referências de Harold Blomm, The Anxiety of Influence: A Theory of Poetry (A angústia da influência: uma teoria da poesia), mostrando que a obra de Manoel foi uma soma de leituras e experiências que passam por Drummond (esqueceu Manuel Bandeira), atravessando os cânones modernistas como Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e alguns outros.

Fiquei meio que com inveja porque tudo que talvez imaginasse um dia escrever sobre o poeta está ali. Se Manoel fosse vivo e lesse o professor ficaria surpreso e não se reconheceria naquele manancial teórico altamente cabeça. Como não pertenço à academia ( arght!) faria a coisa com outro estilo, usando outra narrativa, mas quem sou eu...?

Talvez acrescentasse que a fase em que ele (Volmir) identifica como sendo a descoberta da “senda”, do “estilo” e da “persona” de Manoel (com a Gramática Expositiva do Chão, de 1966) trata-se, na verdade, de um plágio criativo do “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa. 

Isso não é demérito. Manoel sugou na melhor teta. Mas quem lê esse livro de Pessoa não consegue deixar de notar frases e pensamentos praticamente semelhantes aos de Manoel, com a diferença que o português escreveu essa obra na década de 30.

(Seria surpreendente saber que Mané não conhecesse o “Desassossego”, pois em assim sendo vou aprofundar meus estudos de paranormalidade e acrescentar novos remédios para meus delírios).

Agora, pra fechar: o que acho pessoalmente da poesia de Manoel de Barros? Como em todo poeta, tem coisas sublimes e tem momentos deploráveis. Mas o conjunto da obra garante que o coloquemos do panteão dos grandes inventores, apesar dos pesares.

(Vixi, vou divagar...Rivotril, por favor)

Tempos atrás li um livro interessante do filósofo francês Paul Ricoeur intitulado “A Metáfora Viva” (sugiro que minhas colegas de auditório leiam, se já não o fizeram).  

Sem querer cansar quem, heroicamente, chegou até aqui vou fazer a citação de um trecho que me chamou a atenção:

“A função poética e a função retórica apenas se distinguem plenamente quando se esclarece a conjunção entre ficção e redescrição”. Gostaram?

Para Ricoeur, essas duas funções visam persuadir as pessoas ao discurso com os ornamentos que o agradam ao mesmo tempo em que redescrevem a realidade pelo caminho indireto da “ficção heurística”. Sacaram?

Nesse aspecto, a metáfora surge como estratégia do discurso pela qual “a linguagem se despoja de sua função de descrição direta para aceder ao nível mítico no qual sua função de descoberta é liberada”. Complicado, né?

Em sendo assim, a poesia funda sua importância social de expansão do mundo das idéias pelas palavras além do que elas significam. Óbvio. Uns são mais felizes e transformam esse ato numa experiência mística e celebratória, enquanto outros (a grande maioria) permanecem no raso, no fru-fru, embora sem fazer mal a ninguém. 

Manoel teve seus instrumentos e conseguiu iluminar. Isso foi benéfico para ele e para a literatura. Mas está sendo maléfico para novos autores por causa da seita guerrilheira que se formou em seu entorno. 

Para esses, tudo que não imita Manoel não serve pra poesia. Tudo que não segue seus passos, não presta. Tudo que não habita esse ínfimo das vaidades e do oportunismo da literatura deve ser combatido com o veneno da maledicência em rodinhas das academias. 

O legado de Manoel está garantido e seguro. O exemplo maior desse fato é que,
 após seu falecimento, uma nova geração de poetas começa a sair da chamada sombra “Manoelina”. Mas tem gente que não quer deixar. São os conservadores e sicários da criatividade alheia. Espero que desapareçam.



A turma começou a chiar por causa da presença dela na festa de fim de ano da firma. Os colegas do marido a desprezavam e davam as costas...


A turma começou a chiar por causa da presença dela na festa de fim de ano da firma. Os colegas do marido a desprezavam e davam as costas como sinal de protesto à sua participação no evento.

Ela não dava bola para as provocações e seguia circulando por entre as mesas, até que, de repente, uma fulaninha, lá do fundo do salão, gritou bem alto: “Essa mulherzinha tá dormindo com meu homem toda semana!”.

Pronto, foi o maior climão. O marido traído não sabia onde enfiar a cara de vergonha e a mulher adúltera foi baixando a cabeça. No mesmo instante, o amante puxou a delatora pelo braço e ambos saíram da festa às pressas.

Os convidados, sem entender nada do que estava acontecendo, foram para a varanda do clube cochichar, enquanto a adúltera permanecia dentro do salão aos prantos, desfigurada e com a maquiagem toda borrada.

Assim terminava o ano de ouro nos negócios daquela empresa de calçados, onde  trabalhava boa parte dos moradores da cidade.

Lugarejo afastado, carregado de ternura e com clima interiorano, Vila Maciel tinha pouco mais de 20 mil habitantes e uma característica marcante: a fama de que parte das mulheres do pedaço traiam despudoradamente durante o período de expediente dos maridos. 

Era esse o motivo pelo qual boa parte dos convidados da festa mencionada acima rejeitava aquela mulher. Era uma maneira de sentar no próprio rabo e expurgar os próprios pecados acusando a outra de safada.

Adiante.

Depois do vexame na festa, o caso ganhou amplitude, motivos pelos quais ela não quis mais colocar os pés para fora de casa. Ficava no quarto de costura, amuada e concentrada nos arremates das roupas dos filhos e do marido.

Já o marido, acabrunhado, e com uma sensação estranha de algo crescia em sua magnífica testa. Os mais linguarudos juravam que aquilo era apenas prenúncio de outra guampa na têmpora e, desta vez, das grandes!

Nas esquinas, aquela velha turma de amigos que passava horas pontificando nos bares da vida olhava para o marido traído com sentimento de  piedade: “Pobre homem, dá o sustento da casa e aquelazinha deu conta de fazer isso com ele”, sussurravam.

Mas em meados daquele mês resolveu tomar atitude e mostrar para todo mundo que era sujeito “homi” e não um corno abobalhado. A melhor maneira para isso seria limpar sua honra e lavá-la com sangue do (ex) amante da sua mulher.

Para isso, arquitetou um plano infantil: acordou cedo, calçou os sapatos e andou pela redondeza na tentativa de arrumar uma arma clandestina. A empreitada foi em vão e ele voltaria pra casa com o sintoma emocional de que haviam  sinais  na sua testa.

Perto do fim de semana, viu se aproximar um homem esquisito, de voz rústica e de poucas palavras. A única frase que o camarada disse foi emblemática: “Faço o serviço pra limpar a honra do amigo e não cobro nada não”.

A proposta era atraente: custo zero, discrição e não precisaria sujar as mãos. Isso por si só já era o suficiente para  tramar algo com requintes de crueldade contra o amante.

O plano seria o seguinte: perto do fim do dia o matador montaria uma tocaia no terreno atrás da empresa e o sujeito cairia numa emboscada fatal, sem chance de reação. 

A arma do crime seria um canivete, que, conforme o marido traído, lavaria sua relação conjugal com o sangue provido das entranhas do morto. Trágico, mas justo.

No dia do crime, o céu amanheceu nublado, com nuvens carregadas, uma coloração acinzentada. Era o prenúncio de um crime passional perfeito.

Mas minutos antes das estocadas na barriga do (ex) amante, o marido traído teve uma crise de arrependimento e correu para desfazer o trato com o matador. Já era tarde demais. Ainda não tinha acabado de chegar à cena quando viu de longe os golpes que levaria o sujeitinho para o cemitério.

Em seguida, o matador saiu correndo para nunca mais ser visto naquela cidade. No local, um corpo estendido na calçada, um canivete ensanguentado e um homem arrependido chorando no chão.

Na esquina, uma multidão foi se formando, gritando e aplaudindo um mandante cheio de remorso: “Você se fez homem novamente e o sangue desse safado vai lavar sua união, amigo”.

Foi o tempo dele deitar seu abdômen sobre o mesmo canivete e estrebuchar sobre o corpo da vítima. Era uma forma de se redimir do crime e encontrar perdão a sete palmos do chão. Ninguém entendeu nada.

Minutos depois, o motivo do crime chegou. Por alguns instantes ela permaneceu quieta, fitando a cena até se debruçar sobre os dois cadáveres. Em seguida, sacou um batom bem vermelho da bolsa, espalhando por sua boca e começou a beijá-los ardentemente com a intensidade de uma despedida carnal.  

Antes de deixá-los, não agüentou o falatório e as acusações e soltou um grito que misturava irritação e revolta: “Eu não tenho culpa. Soube amá-los em vida e agora serei fiel a ambos na morte”.

Os amigos entenderam o gesto como uma provocação e partiram para cima dela. Acuada, ela correu para rodovia que ficava bem pertinho do local, mas não teve percepção em olhar para os lados e foi colhida por um caminhão. Era o ponto final de um triângulo amoroso que comoveu Vila Maciel.

No dia seguinte, metade da cidade chorava a tragédia. A outra parte lamentava, mas com um olhar vazio e voz rancorosa comentavam: “Ela pagou com a vida porque não merecia o perdão”.

*jornalista

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