Nestes dias ausentes de futuro Quando os nossos sentidos se atenuaram Compassando as horas que não passam Criando esse cansativo nada Subt...

 



Nestes dias ausentes de futuro

Quando os nossos sentidos se atenuaram

Compassando as horas que não passam

Criando esse cansativo nada

Subtraímos dessa

Falta de urgência

O amor e o abraço

A fumaça das ruas

O barulho nas praças

E a busca de ar

Há uma esperança fugidia

Nas sombras dos dias tão iguais

E tudo ficou

fora de lugar

As palavras têm outra semântica

Os termos do contrato habitam uma nova casa

E Tudo ficou escuro

Sem que haja a certeza do talvez.

Noutro dia,

Quando o olhar voltar-se para o mistério da ausência

E o passado tornar-se presente

Nas mudanças da geografia do corpo,

Assim veremos com claro vislumbre

Que tudo foi medo

O medo de sempre

Ancestral e absoluto

Eternamente Infinito

  Dante Filho Nada mais apropriado do que ler, neste momento, a “História da Solidão e dos Solitários”, de Georges Minois (editora Unesp, 50...

 



Dante Filho



Nada mais apropriado do que ler, neste momento, a “História da Solidão e dos Solitários”, de Georges Minois (editora Unesp, 503 páginas), principalmente na travessia de uma pandemia cujo grande apelo é manter-se isolado, longe dos contatos mundanos, temendo que o convívio social estreito possa aumentar o contágio da doença e, em muitos casos, levar à morte. 

O livro deste historiador das mentalidades, autor de obras como a “História da Velhice no Ocidente”, “História do Ateísmo”, “História do Futuro” e tantas outras obras com a mesma potência analítica, revela que o debate em torno de um assunto meramente curioso para muitos – a solidão e os solitários – está em voga na sociedade moderna há mais de dois mil anos. 

Minois aprofunda esse tema percorrendo caminhos que vêm desde a antiguidade clássica até a era do hiperconsumo, o que pode ser um bom estímulo para  estudiosos de todas as áreas, das mais diversas tendências. 

Aristóteles, por exemplo, definiu o homem como um animal social, incapaz de viver isolado, enquanto outros filósofos da época e posteriores a ele consideravam ser necessário manter-se em retiro para dar provação e consistência à sabedoria. 

Há casos e casos. Diógenes era considerado maluco, vivendo nas montanhas, comendo folhas e ervas. Aristóxenes era aquele que ria sozinho e, quando perguntavam o porquê,  respondia  que o motivo “era exatamente por estar sozinho”. Demócrito era outro que pregava em praça pública o retorno dos homens a si mesmos, sem perceber o paradoxo que o envolvia. 

E assim vai...

Os primeiros sinais de eremitismo e cenobitismo apareceram nas franjas do mar mediterrâneo, na antiguidade clássica, criando uma mística em torno dos solitários e de seus poderes mágicos de cura e profecia, desenhando as inúmeras facetas da civilização em seus primórdios. Antes disso, é provável que optar pela solidão era o mesmo que decidir morrer nas garras de feras, de doença e de fome.

Mas foi Jesus que consagrou a grande onda rumo ao deserto, à solidão ascética, dando status ao “homem só”, conferindo a esse personagem uma grandeza jamais vista, influenciando gerações de anacoretas, padres revoltados, misantropos, enfim, estabelecendo um corte social que, de certa maneira, derrubava um consenso social de que o solitário era uma pessoa perigosa. 

Claro que a opção de evadir-se para qualquer canto do mundo e fugir de outras pessoas para viver em sofrimento denota transtornos mentais na maioria dos casos, mas em outros dava embasamento a fundamentos filosóficos, convicções pessoais, posturas místicas, o que abrandava a visão negativa do solitário convicto. 

A grande pegada de Minois é que ele aprofunda o tema e o desdobra nas suas mais intensas variações e complexidades, garantindo aos leitores um alargamento de visão sobre o fenômeno, principalmente quando personalidades públicas utilizam do estratagema da solidão para ganhar fama, dinheiro, prestígio. 

A “História da Solidão...” percorre assim vários séculos, compilando obras, textos,  referências bíblicas e estudos aprofundados deste aspecto da natureza humana, tudo para mostrar que a vida social é a regra, mesmo compreendendo que do ponto vista biológico o homem nasce, vive e morre só. 

“A vida é luta pela sobrevivência e pela perpetuação da espécie, e nos processos de seleção natural o outro é ao mesmo tempo o concorrente e o parceiro sexual, mas a natureza não previu nenhuma estrutura cerebral para a fusão das consciências”, explica Minois, acrescentando que gregarismo depende da condição solitária e vice-versa. 

No decorrer da história o embate entre vida solitária e mundanismo deixa claro que a necessidade da solidão formatou a consciência humana e o processo civilizatório. 

É certo que sempre existiram os solitários profissionais, indivíduos que acreditam que esta é uma pose que atrai fiéis, admiradores e fanáticos, mas também é verdade que o ato de criar, imaginar, dialogar consigo mesmo, além de estabelecer critérios morais de sobrevivência, trata-se sempre de mergulhar no próprio oceano psíquico, à qual é inalcançável pela multidão próxima ou distante. 

O historiador francês constrói a estrada de sua tese surpreendente, com texto elegante e didático, para demonstrar que o isolamento social não tem nada a ver com a solidão strictu sensu, pois são dimensões opostas da mesma realidade. 

O homem pode se sentir sozinho no meio de grandes multidões, bem como se sentir integrado estudando em uma biblioteca: o fundamental é como ele constrói suas relações com o chamado mundanismo e quais são suas opções categóricas para se aproximar dele ou de manter distância. 

Assim, o livro destaca os fundamentos filosóficos que a história ocidental percorre desde os gregos antigos, passando pelos pensadores da idade média, da Renascença e dos tempos modernos, unindo todas as correntes e pontos de vista na estrutura do “colapso ontológico” que vivemos. 

Certamente, sua crítica aos mistificadores da solidão é contundente à medida que demonstra que é coisa bem antiga vender a imagem de “padre do deserto” para explorar a crença dos incautos. 

Claro que, nesse meio, há gente sincera e bem-intencionada, que fez do recolhimento uma forma de viver. Mas isso sempre foi para os fortes e corajosos. 

Neste aspecto, é preciso reconhecer que a solidão transformou-se num produto de consumo que se materializa na onda das terapias alternativas, livros de auto-ajuda,  ou até mesmo do turismo de retiros controlados que pregam o afastamento e o celibato provisório como lenitivo para agruras cotidianas. 

Uma frase do escritor J.M.G. Le Clézio ganha destaque no livro de Minois: “O homem, privado de unidade, desequilibrado, despossuído de si mesmo, se encontra tal como no começo: tomado por terrores, marcado pela angústia, pressentindo os perigos e os abismos que não pode compreender”.

Ou seja: atravessamos séculos e séculos para chegar ao mesmo lugar. 

A leitura de a “História da Solidão e dos Solitários” é uma empreitada de fôlego, que surpreende e emociona (até) porque dá sentido a uma aventura que segue sem que haja conclusão final, visto que a construção do futuro depende da argamassa do passado, cujos temas que encantam e afligem a alma humana não se alteram na linha do tempo.


Diante da obra, a conclusão não poderia ser outra: o “homem só” ou é um mentiroso,  ou um canalha ou um santo. 






















Tornou-se invisível num dia de sol Calhou de não estar em lugar nenhum Permanecendo ausente dos acontecimentos sem ser percebido, o...




Tornou-se invisível num dia de sol
Calhou de não estar em lugar nenhum
Permanecendo ausente dos acontecimentos
sem ser percebido,
oculto no porvir.
Assim, se foi esquecendo
Cortando bitucas ao meio
nas brechas do instante
embrenhado nas lacerações do tempo
seguindo em direção
do estou indo embora para nunca mais voltar...
Passou a viver para sempre em sua ausência
que substantivava a permanência 
e a  leveza do vento...
estava no presente 
no passado
no futuro fugaz
Longe do alcance das mãos,
Inacessível ao olhar
No ponto exato do som 
(Que se abria no intervalo do silêncio)
De cada palavra dita,
No estalar das frases,
pela língua que se encerra: maldita.
Ficou assim, não sei quando e como.
Deu de caminhar pelas bordas
Habitando sarjetas,
Revirando livrarias
Esgueirando pelos becos
Perdido nos labirintos do acaso
Nas sombras do medo
Fazendo da solidão um lugar de paz.
Sendo assim: invisível – nada - zero
Trucidando palavras 
farrapo indigesto
Um corpo feito na direção contrária do olhar
Uma ideia sem importância,
Um ponto inútil perdido
Na escuridão do dia.
(sai pra lá, sujeito nojento)



Tecnologia do Blogger.