As crianças e as estátuas (Para Dudu e Gabi) As crianças gostam de brincar com as palavras O A pode ser uma aventura O B pode...



As crianças e as estátuas

(Para Dudu e Gabi)

As crianças gostam de brincar com as palavras
O A pode ser uma aventura
O B pode ter sabor de morango
O C tem cara de risada
As crianças não entendem as estátuas
Elas não conhecem o bronze
Não mergulham na sílica
Mas sabem que a dura matéria não
Combina com os sentimentos

Gramática dura


Palavra: 
lavra cavada
Pedra dura
Cova rasa
Poço profundo
Som breve
Gesto tênue
Alocução suave
Loucura infrene
Letra após letra
Sílabas e frases
Sons e lábios
Lavoura etrusca



Na história da anatomia humana jamais existiu um homem com as dimensões genitais de Zé Marcone. O cara era exagerado. Às vezes, ele mesm...


Na história da anatomia humana jamais existiu um homem com as dimensões genitais de Zé Marcone. O cara era exagerado. Às vezes, ele mesmo se espantava com o tamanho daquela coisa comprida, que mais parecia uma enguia.

Zé cresceu envaidecido pela anomalia e se valeu dessa particularidade para impressionar a mulherada. A primeira delas foi Claudinha, moça humilde, lá da Coophavilla, que de tão entusiasmada com as pinceladas do rapaz passou a descrevê-lo como ‘pé de mesa’ para as amigas.

Com tamanha propaganda vinda da periferia, Zé Marcone começou a fazer sucesso na região nobre da cidade: Jardim dos Estados, lugar onde conheceu uma paraguaia de coxas gorduchas, dando mole no pedaço.

Logo no início do romance, a mãe de Marcone se posicionou contra a relação. Indignada, ela dizia que aquela união não tinha cabimento e prevenia o casal  a respeito da imaturidade de ambos para um relacionamento sério. Depois foi a vez do pai do rapaz embaçar o romance e lançar olhares desdenhosos e críticas  severas sobre a paraguaia.

Até ali, tudo parecia conspirar contra o namoro, mas àquela altura, mesmo sem o respaldo da família,  nenhum apelo emocional fazia mais sentido. A relação estava consolidada desde que Marcone passou a pernoitar na casa da paraguaia.

Aqui faço um reparo: não se entende até hoje como um homem de esperteza sem tamanho foi fisgado daquela maneira e, pior, fazendo infeliz as mulheres que o tinham em rodízio.

O tempo passou e aos poucos a família foi digerindo a paraguaia, assimilando sua voz estridente, sua cara lambida, seus costumes gulosos e aquele jeitão preguiçoso da fronteira.

Dez anos depois, com dois filhos e uma rotina conjugal tediosa, Marcone não aguentou mais bancar o tipo marido fiel e passou a desfrutar da poligamia.

A coisa foi acontecendo naturalmente. Uma escapulida aqui, outra ali, até o cara  pôr os olhos em cima de uma colega de serviço.

A coisa começou devagarinho: conversinhas insinuantes, piscadinhas, convites para cervejinha e tira-gostos no pós-expediente, até Marcone arrastá-la desprevenida para a mesa do almoxarifado onde se amaram com fúria, fazendo estremecer até as divisórias do local.

No começo, ela fez jogo duro e aquele tipo de mulher reservada. Mas bastou o cara  aparecer no serviço se insinuando com uma roupa justa ao corpo e um volume grande empapuçando a região da braguilha, que a coisa mudou de figura.

Com a família de Zé Marcone oferecendo resistência e gastando-se em palavras contra o novo romance, o casal não teve outro jeito senão permanecer recluso na periferia. Não recebiam visitas, não atendiam  o telefone e saiam de casa só para trabalhar e tomar umas biritas.

Com salários atrasados e uma situação financeira difícil, Marcone e a nova mulher resolveram buscar uma saída para manter as contas da casa em dia. A ideia era arrumar um bico como complemento salarial para diminuir as dívidas do casal.

No começo, Marcone vendia kibe, kafta e outras iguarias árabes pra sair do vermelho, mas como a coisa apertou, ele aceitou um convite inusitado de um primo para trabalhar no ramo do entretenimento sexual.

A proposta era a seguinte. Como Marcone era uma cara avantajado, seria fácil oferecê-lo  a senhoras carentes em troca de alguns cobres. O público alvo seria cinquentonas gordinhas, destas de carne amolegada e dispostas a tudo por alguns minutos brincando com a anaconda de Marcone.

O negócio foi crescendo e  Zé Marcone acabou sendo requisitado para atender em outros cafundós. O foco agora eram as cidades do interior onde ele formaria uma clientela fiel e disposta a tudo por umas estocadas.

Marcone chegava nas cidades em cima da hora e ficava recluso no camarim das boates. Depois, surgia triunfal no palco metido em uma cueca de seda lilás  e um cap de guarda na cabeça. Em seguida, o assistente ligava as luzes e ele saia dançando o clássico I Surviver, com  um sortimento de mulheres com notas graúdas prontas para lhe prestigiar noite adentro .

A coisa pegava fogo durante a performance de Marcone, com a mulherada ao delírio gritando seu nome de guerra: “Guloseima, Guloseima”. O cara fazia maior sucesso.

Tempos depois, já com as contas em dia e satisfeito com a cartela de clientes conquistadas no Estado, Zé Marcone resolveu se aposentar da vida de casas noturnas, shows eróticos e deixou a segunda mulher.

Voltou à sua cidade natal disposto a mudar de vida e frequentar uma igreja pra expurgar os pecados do corpo e da alma.

No começo, as coisas iam de vento em popa: arrumou emprego, voltou aos bancos escolares e passou a procurar uma mulher honesta para se relacionar.  Mas bastou uma colega de sala convidá-lo para um baile na madrugada que Marcone pois tudo a perder. 

Diz a lenda que quando ele sente a força da lua no céu sai de casa com a obstinação de um bode atrás de cabra no cio.

A família já perdeu as esperanças de vê-lo sossegado e longe dos conflitos que abrasam o coração. Marcone vive por ai e convive com a angústia do conflito da carne. A última vez que soube de seu paradeiro tinha engatado um caso na região pantaneira. De lá, poucas notícias, há indícios de novas e devastadoras aventuras amorosas, mas essa história fica para o próximo capítulo.

Continua....

Desbravando matérias jornalísticas nas minhas primeiras horas matinais deparei-me com determinada nota estimulante de desconforto e indig...

Desbravando matérias jornalísticas nas minhas primeiras horas matinais deparei-me com determinada nota estimulante de desconforto e indignação aos meus princípios.
Certos assuntos em nosso País, devido carência de critérios morais dos legisladores pátrios, nos causam maléficas perplexidades psico-ideológicas.

Antes de aprofundar no assunto, questiono-me quanto prováveis equívocos ao defender teses de que um cidadão com idade superada não possa mais contribuir com a vida pública salvo para transfusões de sabedoria e conhecimento a terceiros interessados.

“Aos 86 anos, o deputado Paulo Maluf, que vem mantendo seu potencial de votos nos últimos anos, vai disputar a reeleição para Câmara dos Deputados”. (Correio do Estado; 05-12-2017)

A indigestão ocasionada com esta matéria atinge agressivamente raciocínios lógicos ansiosos por oxigenação nas vias públicas em seus mais diversos parlamentos.

Um cidadão que já viveu áureos tempos, hoje individualizado por seus únicos interesses e egos incandescentes, ofuscam intransigentemente o novo na arena pública onde se exige mais energia e menos discurso.

Vejo, ouço e sinto pessoas nos mais diversos ambientes enojados com a palavra “política”. Estão certas. Vivemos um momento de asco pelas condutas imorais desta espécie de gente que menosprezam o caráter humano.

O que uma população pode esperar de um parlamentar com seus 86 anos de idade? Um poder engessado.

Com muita sobriedade, reservo minha posição ofensiva à questão poupando-me de um maior desgaste mental. 

Estamos diante gêneros sarcásticos que visam um bem estar social, holofotes e vaidades vitalícias.

Importante e necessário nesta hora o enraizamento de um projeto defendendo idade máxima para detentores de mandato. 

Precisamos determinar uma ofensiva no tocante limite de idade para o exercício da função bem como dar fim a qualquer tipo de reeleição aqueles que visam colaboração com a vida pública.

Sendo mais audacioso, precisamos alimentar a ideia daquele que já serviu a algum mandato não poder mais exercê-lo novamente, salvo outras espécies ainda não desenvolvidas. É o mister da rotatividade de pensadores em favor de uma sociedade. 

Precisamos acastelar uma implacável política de contribuição extinguindo, por fim, os infestados mandatos “profissionais” que aprisionam e soterram mentes brilhantes repletas de energia, ociosas por fazer o bem. 

ADVOGADO

Errar, errei Todas as culpas  Que tenho Esfarelo nas mãos E dou para os passarinhos Comer Andando em frente Sem parar Um dia sei...


Errar, errei
Todas as culpas 
Que tenho
Esfarelo nas mãos
E dou para os passarinhos
Comer

Andando em frente
Sem parar
Um dia sei 
Que vou voar.


Ninguém gosta de ser preso. As prisões são desagradáveis. As brasileiras são verdadeiras masmorras medievais, afirmou tempos atrás um Mi...


Ninguém gosta de ser preso. As prisões são desagradáveis. As brasileiras são verdadeiras masmorras medievais, afirmou tempos atrás um Ministro da Justiça. Ficar confinado numa cela representa uma contenção moral e uma derrota pessoal. Entrar numa penitenciária e sair inteiro – independentemente do tempo de permanência – não é para qualquer um. 

Viver numa prisão é um horror que depende de disciplina, frieza psicológica e uma intensa capacidade de sublimação e alienação. 

Para aqueles em que o cotidiano de pobreza, injustiça e sofrimento foi incorporado à vida, ser preso pode significar apenas mudança de paradigma. Mas para aqueles que se situam nas camadas mais enriquecidas da sociedade, principalmente os que se aproveitaram dos fáusticos espaços entre o público e o privado, não é fácil. 

Como se sabe, as prisões foram feitas para a ralé que pratica crimes banais. Para os maganos, na verdade, foi feita a lei com suas frinchas tortuosas. Ela permite salvaguardas eternas, sobretudo para quem guardou dinheiro surrupiado para pagar advogados estrelados. 

Nos últimos anos uma nova clientela tem ocupado as nossas prisões. Empresários de proa, corruptos deslumbrados, ex-governadores, deputados, prefeitos, vereadores, enfim, aquela turma diferenciada que conhecemos. 

Ficamos sabendo que muitos estão deprimidos, purgando suas dores, preocupados com a reputação da família, sofrendo com aquela sensação de vazio que acomete quem acreditavam que o poder conferia o status de semideuses aos personagens que incorporaram. 

Para casos como esses, as cadeias talvez possam servir para reflexões mais aprofundadas acerca de feitos e valores cultivados pelas décadas de impunidade. 

Se de tudo isso as prisões melhorarem um pouquinho, tornando-as mais limpas, menos lotadas, mais eficazes, certamente se poderá dizer que mudamos. Caso contrário, possivelmente voltaremos ao estágio anterior. 

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