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Dante Filho: a dor de discordar de quem você ama

"Vocês me amaram, depois me odiaram, no fim me mataram 
e profanaram meu cadáver. Mas pra quê!? Eu estou de volta!".

Já virou chavão: vivemos tempos complicados. Às vezes sento-me diante da tela e tenho um impulso irremorovível para escrever um texto sobre coisas que considero importantes. Depois recuo. Me levanto e vou fazer outra coisa. Tenho lido poemas e romances. Tenho visto filmes. Tenho pintado uns quadros. E de madrugada, pego meus cadernos e vou escrevendo à mão dois trabalhos que, acho, vão se transformar em romances.

Tenho vontade de comentar temas políticos. A condenação de Bolsonaro pelo STF, as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, as medidas apavorantes de Donald Trump, mas depois me contenho, travo meu impulso e desisto, silente e reflexivo, perguntando-me se vale a pena falar no meio de tantos gritos intolerantes, gente soltando a baba raivosa por coisas pequenas, numa algaravia que faz algum barulho e exala mau cheiro.

Estou acompanhando a série no Mubi, "Mussolini: o filho do século", do diretor americano Joe Wright. São 8 capítulos. Até agora foram 2. No primeiro, a narração de Mussolini cobre as imagens documentais das multidões celebrando o Duce. Ele fala: vocês me amaram, depois me odiaram, no fim me mataram e profanaram meu cadáver. Mas pra quê!? Eu estou de volta!".

Sim, o fascismo está de volta. Não só ele. O stalinismo, o maoismo, o nazismo (todos subprodutos do facismo), eles estão entre nós, plenos, triunfantes, na boca de gente que se julga intelectual, humanista, misturados a ogros e jecas raízes, numa combinação exdrúxula e intensa, disputando quem vence o "debate", preparando-se para uma circunstancial disputa à bala.

Tenho também vontade de comentar a política de Mato Grosso do Sul, embora ainda ache tudo muito prematuro porque o conjunto de atores ainda não se encontra totalmente instalado para que possamos fazer uma avaliação estrutural do processo. 

Há movimentações, especulações, pesquisas fajutas, zum-zum das donas marias e de se seus josés da vida. Há muita bobagem na imprensa, mas é assim que funciona quando não se há fatos consistentes, apenas diz-que-diz.

Amigos e amigas me convidam para conversar sobre a conjuntura num bom restaurante, bebendo  vinho chique, com o fito de traçar cenários futuros, mas adianto que o pressuposto da tertúlia é a civilidade e as eventuais discordâncias não podem nos tragar para o olho do furacão da polarização afetiva. Dão risadas. Não deviam.

Na verdade, sinto que tem um pouco de ingenuidade nisso. Não há possibilidade, nos dias que correm, que haja conversas políticas humanizadas, serenas e equilibradas. Isso acabou no final da década de 90, depois das jornadas de junho e do impeachement de Dilma. A partir dali desviamos os caminhos e entramos no vácuo das perplexidades e do puro ódio que sentimos ao ter contato com o noticiário e com as redes sociais.

Queremos dissenso. Detestamos quem pensa diferente. O discordante é inimigo. Viramos militantes inconscientes de uma campanha eleitoral perpétua. Não há mais espaço para as artes, para a contemplação, para a serenidade dos dias calmos...

E o mais grave: isso parece estar acontecendo no mundo inteiro. Em cada País, com sua história e  sua especificidade, encontrou seus motivos divisivos para dar combate aos inimigos e traidores da pátria. Sem dó nem piedade.

Cada parte abraçou sua bolha e, aos poucos, fomos convencidos que estávamos com a verdade nas mãos e o outro era gado, burro, canalha, ladrão. comunista, extrema-direita ou extremista da ordem dos cavaleiros andantes. Ufa!

Um ressentimento profundo tomou conta de nossas conciências, levando-nos a considerar o próximo não como irmão, irmã, amigo, amiga, esposa, marido, filho, filha etc etc, etc e, sim, como "direita", "esquerda", "reacionário", enfim, alguém a ser abatido, às vezes com um tiro, uma facadas, com fogo em brasa, acreditando que só a barbárie redime e só os memes têm a graça que nos fará felizes novamente.

Pausa.

Releio o que escrevi. Penso em apagar tudo e dar uma volta, levar a cachorra para passear. É inútil. Palavras já fizeram revoluções, eterneceram corações, abrandaram a raiva, provocaram reflexões, contribuíram para novas invenções e conceitos. Mas agora, a palavra está se tornando munição para provocar e desqualificar. Pior: para que desarmemos o amor, para que mortifiquemos a dor, para que tonifiquemos a estratégia do poder.

Faça um teste: entre numa roda de conversa e repare a reação das pessoas. Primeiro, elas têm medo de se expor  sobre isso ou aquilo porque teme represálias de algum professor de deus. Quem leu "Mente Cativa", de Czeslaw Milosz, sabe do que estou falando. 

Elas ficam caladas. Tentam não se autodenunciar pelo olhar porque é dessa maneira que o outro pode intuir o que se está pensando; em seguida, quando não se suporta mais aquela ausência de fala tentamos entabular um raciocínio. Não deixam. Todos estão falando ao mesmo tempo. E, no final, todos estão gritando. Dependendo do assunto, a discussão é resolvida no braço.

Aqui chegamos. Assim estamos. Assim vamos ficar. Assim estaremos. Mesmo que o Alexandre de Morais baixe um decreto e determine que somos obrigados a viver em paz, porque assim preceitua o Estado Democrático de Direito, no fundo surgirá a gargalhada daquele personagem do filme do Batman.