Não sou capaz de pensar em quantos livros já li. Nesses anos todos como leitor já foram tantos acertos e tantas desistências literárias que também não sei precisar qual minha obra predileta. Embora tenha predileção por história, vez ou outra me pego relendo alguns ensaios dos franceses Luc Ferry e Pascal Bruckner. Talvez seja essa a minha forma de tentar achar meu lugar no mundo.
O curioso é que em todas às vezes que me pego com tais títulos em mãos, tenho a constrangedora impressão de que de literatura e, assim como da vida, nada sei.
Esse sentimento também me persegue cada vez que começo a farfalhar as páginas de um novo romance, de uma biografia ou até mesmo daqueles livros que nos ensinam a escrever melhor, com uma gramática mais ágil e menos rebuscada.
Recentemente fui surpreendido com "Escrever é Humano", do jornalista Sérgio Rodrigues, uma obra vistosa, dessas que a gente não desgarra e leva pouco tempo para terminar. Sem o tom acadêmico que costuma afastar leitores, o livro se aproxima mais de uma conversa literária do que de um manual gramático, desmontando vícios e mitos da escrita com leveza e precisão. Um raro equilíbrio.
Ler não é verbo desgarrado. Nem questão de quantidade. Ler é uma questão de qualidade. Não interessa que o sujeito leia muito, importa que leia com atenção, espírito crítico e disposição para absorver novos valores. Talvez por isso alguns livros permaneçam, enquanto outros se dissipam antes mesmo de chegar ao fim da página.
Há quem acredite que a leitura torna as pessoas melhores. É uma ideia tentadora, mas um raciocínio ingênuo e anti-humanista. Se fosse assim, como explicar oficiais da Alemanha Nazista que liam Gustave Flaubert e ouviam Richard Wagner enquanto participavam do assassinato de centenas de judeus? A cultura, ao que tudo indica, não redime a barbárie. No máximo, a recobre com um verniz que apenas a torna menos visível e, por isso mesmo, mais difícil de reconhecer.
Tenho certa dificuldade com livros de autoajuda porque acredito que as respostas para as minhas dores e inquietações estão presas e sufocadas dentro de mim. Cabe ao meu analista me ajudar a decifrá-las e a conviver melhor com meus traumas. Desconfio de soluções fáceis para problemas difíceis e recorrentes. No fundo, a maioria desses livros vende consolo e consolo, quase sempre, é só uma forma educada de autoengano.
