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Dante Filho: Diário do Exílio

 


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Faz muito frio por aqui. O Pontal está silencioso. Parece uma vila fantasma. A praia deserta evoca uma sensação de abandono e solidão. Sobrevoam garças e gaivotas. De vez em quando tropeço em pinguins mortos na areia. Vieram de muito longe e não suportaram travessia do hemisfério sul. Mesmo assim, é um cenário bonito: sinto que estou vivendo o outono sueco como nos filmes de Bergman. Lembro-me de um trecho do Canto I de Pound:"Nos lançaram ao largo, as velas infladas, por arte de Circe, a da bela coifa./Sentados no meio do barco, vento premindo o leme, a todo o pano, singramos até o fim do dia..."

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Cito Pound, mas não devia. Ele foi preso numa jaula depois da derrocada do fascismo na Itália, em 1945, e isso marcou a sua vida. Muitos até hoje não entenderam: um dos maores gênios da literatura aderiu a Mussolini como um ato de rebeldia contra a democracia das massas, tendo a antevisão de que a sociedade liberal seria o fim da civilização ocidental. Até hoje não sabemos se ele estava correto. Há sinais. Veremos...
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Meu amigo Edson Moraes escreve no face sua revolta com deputados do PT por terem votado favorável à PEC da Blindagem. Ele enaltece o PSOL por ter refutado o projeto que cria um cordão sanitário em torno de parlamentares e presidentes de partido. Caso eles cometam crimes, serão julgados em sessão secreta por uma comissão parlamentar criada para tal finalidade. Edson tem razão. Escrevo em resposta para ele que muitos deputados estão fazendo isso para retaliar a hipertrofia do STF, que atualmente se arvora em ser dono do Brasil. Na vida, todo ato tem consequência, às vezes desproporcional, mas tem. Aprendi a não ficar indignado com o Brasil. O País é isso que estamos vendo: é o conceito de Milton Cardoso (ex-governador de Minas) exercido no dia a dia:"democracia é a lei do mais forte". Isso é inercial. Não mudaremos tão cedo. Sorry...
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Tenho lido na nossa variada imprensa de interesse que a porta para a entrada no senado nas eleições do próximo ano está abarrotada. O espaço é estreito (só há duas vagas), mas dezenas de salvadores da Pátria se acotovelam sonhando em entrar. Algumas pesquisas fajutas foram divulgadas, animando as redações, mas como a campanha só acontecerá no próximo ano acho que é perda de tempo desenhar cenários sobre qual será a vontade do eleitor quando o debate político ferver.
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A imprensa de interesse é engraçada. Ela inventa e especula em consórcio com institutos de pesquisa, tentando simular falsas disputas, forjando o famoso esquema de criar dificuldades para vender facilidades. A jogada é tão manjada, foi usada repetidas vezes, com os mesmos protagonistas, que fica até chato fazer uma crítica moral a este tipo de atitude porque essa gente não se corrige mesmo. Eles não têm vergonha na cara. Deviam mudar o roteiro desta vez, tentando criar um protagonismo diferente, talvez mais afirmativo. Ser permanentemente o palhaço no picadeiro enjoa.
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O jornalismo está em baixa. Os colunistas da chamada imprensa de qualidade (antes tão credenciados...) não são mais as vozes referenciais a orientar a opinião pública. Os "leitores" agora se voltam aos podcast, postagens no whatsapp, mimimi nos instagrans da vida, recortes humorísticos de telejornalismo...enfim, há um nicho de criatividade cuja difusão forma opinião, cria conceitos e sedimenta impressões na cabeça do eleitor de forma muito mais eficaz do que o noticiário formal. Na verdade, uma coisa fica cada vez mais dependente da outra, onde a fragmentação favorece a confusão, a confusão modula as fake news, a verdade se relativiza e o modelo "fascista" ( tanto à direita como à esquerca) sobrepõe-se sobre todos os outros. O mundo está se tornando mais cruel. Estou detestando tudo isso...

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Vários leitores me perguntam o que achei de Fábio Trad ter ingressado no PT. Quase todos criticaram negativamente essa decisão. Respondi sinceramente: ele é dotado de razão instrumental suficiente para saber o que é melhor pra si. Se ele vai conseguir atingir seus objetivos, isso ninguém sabe, nem ele, mas ficou claro que Fabinho gosta de correr risco e não teve medo de tentar se reinventar. Se der certo, muitos vão achá-lo um gênio; se a coisa desandar, fica o consolo do enriquecimento da experiência humana.
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Com todos os senões que existem em torno do julgamento de Bolsonaro pelo Supremo, tentar emplacar uma anistia ampla, geral e irrestrita é um grande equívoco. O jogo foi jogado. Os acertos e erros serão depurados péla história. Claro que o triunfalismo de alguns é inadequado. Muita água ainda vai passar debaixo do pontilhão. Como disse aquele famoso economista: no Brasil até o passado é incerto. E o futuro está no céu, como afirmou titio Elon.





PS- Vocês repararam que não falei nada sobre o Governo Riedel. E precisa? O homem está fazendo o melhor governo de nossa história, a despeito dos saudosistas que adoram enaltecer personagens que já não estão entre nós mortais. A margem de erro do atual governador é muito baixa. Ele está flutuando. Não sou fã do apresentador Ratinho (porque meu elitismo não permite gostar daquele estilo histriônico), mas concordo que sua antena entende de demandas sociais. Seus elogios a Riedel valem mais do que 6 meses de propaganda oficial na mídia local. Sua avaliação espontânea e desinteressada me surpreendeu.