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Paulo Cabral: o intelectual que nos obrigava a pensar com sofisticação

Paulo Cabral, historiador e sociólogo - 25 janeiro de 1949/27 fevereiro 2024 -


Quando recebi a notícia do falecimento de Paulinho, lembrei imediatamente do nosso último encontro. A data é distante, ele era o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Campo Grande (IHGCG). Eu havia assumido uma cadeira na instituição (cadeira que foi um dia ocupada por Guia Lopes da Laguna) e raramente dava as caras nas reuniões que lá ocorriam, acho que quinzenalmente.

Paulinho estava magoado comigo porque ele esperava mais de mim, com contribuições literárias e ensaísticas nas publicações do Instituto. Ele achava que eu estava sendo desleixado e preguiçoso, por isso me deu um ultimato: ou assumia pra valer a cadeira ou pedia pra sair. Percebi que ele estava nervoso, porque de certa forma vinha sendo cobrado por seus pares pelas minhas longas ausências dos encontros entre os membros ativos do IHGMS.

Fiquei calado. Esperei abrandar a tensão do ambiente. Sabia que ali não era o sujeito mais popular do mundo (nunca fui) por razões que não cabem aqui, neste momento, explicar. Na época estava trabalhando na prefeitura de Campo Grande, mas estava enfrentando problemas de ordem pessoal e financeira por causa de inúmeros processos advindos da campanha eleitoral. 
A turma de Reinaldo Azambuja estava pegando pesado, cercando-me por todos os lados, pressionando Marquinhos para que me exonerasse, além de estarem fechando todas as portas do mercado de trabalho. Foram dois anos complicados.

Na saída, conversei em particular com Paulinho, contei-lhe toda a história, ele sorriu, e me disse que estava sabendo de tudo, era um assunto público, inclusive a pressão sobre ele era consequência desse processo. Que eu ficasse tranquilo, que seguisse em frente, tocasse a minha vida e, quando pudesse, entraria de cabeça na instituição.

Depois desse episódio, nunca mais nos encontramos pessoalmente. Trocávamos opinião pelas redes sociais. E assim o tempo passou.

Com o advento de sua morte, lembrei-me que conheci o sociólogo e historiador Paulo Cabral quando Leonardo Nunes da Cunha foi secretário de estadual de Educação, no começo dos anos 80. 

Houve um momento em que a ex-vereadora Nelly Bacha (amiga do governador Wilson) resolveu implicar com Nunes da Cunha, abrindo o campo das denúncias escandalosas na Tribuna da Câmara de Vereadores de Campo Grande sob a alegação de que a secretaria de Educação era comandada por comunistas.

O Correio do Estado dava ampla repercussão à vereadora porque o velho Barbosa queria um cargo de relevo para sua esposa, professora Enedina, e Leonardo negou a nomeação.

Assim, no auge da crise, o partidão me convoca e pede que participe de um grupo de defesa do Secretário, que não era comunista, mas um democrata liberal respeitável entre as esquerdas. Ele formou um grupo para escrever uma defesa detalhada de Cunha para mostrar o jogo ardiloso de Nelly Bacha,

A equipe foi formado (com a anuência do governador). Éramos eu, Paulo Cabral, Elisa Cesco e Marisa Bittar. O relatório tinha que ser preparado em três dias e apresentado ao governador para orientá-lo numa reunião que ele teria com Nelly e um grupo de professores anticomunistas. Conforme a mídia na época a cabeça de Leonardo seria entregue na bandeja no altar celebratório da direita.

Na divisão de trabalho da equipe couberam a mim e a Paulo a redação do documento, com base nos dados levantados por Elisa e Marisa. Depois de três dias trabalhando de madrugada adentro em segredo, conseguimos fechar o texto - um catatau de quase duzentas páginas - que percorria em detalhes as decisões e programas que tanto contrariavam Nelly Bacha e sua turma.

Enfim, Wilson leu e sustentou a posição do secretário numa luta sangrenta de bastidores de embate entre esquerda e direita havida naqueles tempos.

Vem daí minha amizade com Paulinho, uma relação produtiva, generosa, com permanente troca de ideias e informações, entrevistas, publicação de artigos etc.

Nos últimos tempos nossas divergências aumentaram um pouco por causa de minhas posições liberais dentro espectro da polarização vigente, visto que eu passei a desconfiar cada vez mais do identitarismo e do politicamente correto. 

Mesmo assim, nunca tivemos um embate estridente porque nossa amizade, nossa história de luta contra a ditadura, pela democracia, foi um sedimento sólido para compreender-nos um ao outro, sempre com bom humor e comentários sutis sobre os personagens públicos que inventamos para sobreviver.

A grande vantagem em ser amigo de Paulo Cabral é que na presença dele você tinha que se esforçar para pensar com sofisticação, porque sua cultura imensa não admitia ser trivial. Sua figura fará falta. Mesmo assim, acho que o legado que ele deixa representa um ponto elevado de nossa cultura.  

Adeus Paulinho, você viverá para sempre em minha memória. Nossa convivência foi gratificante. Vou sentir saudades. Adeus.