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Alexsandro Nogueira: A vida diante da morte

"A morte é  um medo contra o qual todas 
as nossos desejos e ambições se protejem"

A morte é o tema que atravessa séculos sem perder a atualidade. Mudam as tecnologias, mudam as ideologias, mudam as promessas de felicidade, mas a finitude permanece como o maior mistério da condição humana. Gostamos de fingir que ela é um detalhe estatístico, um problema médico a ser administrado. Não é. É um medo contra o qual todas as nossos desejos e ambições se protejem.

“Imortalidades”, o livro mais recente do professor Eduardo Giannetti não pretende esclarecer tal mistério. E talvez essa seja sua maior virtude. O que acontece depois da morte está, por definição, fora da experiência possível. Não há experimento ou evidência que atravesse essa fronteira. A filosofia pode ordenar perguntas, mas não pode produzir fantasmas. A lucidez começa pelo reconhecimento do limite.

A literatura já entendeu isso há muito tempo. Para William Shakespeare, a morte era chamada de “o país ignorado de cujos confins jamais voltou viajante algum”. A imagem é poderosa porque dispensa ornamentos: trata-se de uma terra sem correspondentes, sem cartas, sem relatos. Diante dela, até os mais ousados hesitam. A coragem humana sempre esbarra nessa ausência de retorno.

Ainda assim, insistimos em driblar o destino. Todo mundo quer experiências inesquecíveis. Queremos deixar marcas, acumular histórias, produzir algo que sobreviva ao nosso desaparecimento físico. A ciência amplia a expectativa de vida, decifra o genoma, mapeia o universo — mas o que ela nos faculta conhecer é raso diante da pergunta essencial. Saber como o corpo funciona não é o mesmo que saber o que significa morrer.

O filósofo francês Luc Ferry observa que os homens buscam a imortalidade por vias indiretas. Alguns apostam em grandes feitos: conquistas políticas, obras intelectuais, gestos heroicos. Outros preferem gerar muitos filhos, multiplicar o próprio sangue, espalhar o sobrenome como quem estende raízes. Há ainda os que constroem obras grandiosas — prédios, livros, instituições — na esperança de que o tempo seja menos severo com o concreto do que com a carne. É uma estratégia compreensível: se não podemos durar biologicamente, tentamos durar simbolicamente.

Paralelamente, bilhões de pessoas espalhadas pelo mundo procuram levar uma vida digna e correta, na esperança de uma recompensa depois. A fé organiza o presente com base numa promessa futura. Pode ser consolo, pode ser convicção profunda. Em qualquer caso, ela funciona como resposta prática à angústia. Quando a razão reconhece seus limites, a crença ocupa o espaço que sobra.

Talvez seja preciso aceitar nossa condição de espectadores de um universo que não controlamos. A morte não é falha do sistema; é parte da engrenagem. Diante dela, restam-nos duas opções: o desespero ou a transformação. Há mais de quatro mil anos, na Mesopotâmia, “A Epopeia de Gilgamesh” já narrava a saga de um rei sumério que tentou escapar da finitude e terminou compreendendo que a única imortalidade possível é moral: viver no coração e na memória dos outros como alguém que fez o bem. Não é a eternidade metafísica que desejamos. Mas talvez seja a única que nos esteja disponível.


Alexsandro Nogueira (Sandrinho), escritor, jornalista e músico. Artigo escrito originalmente para o Blog