Dante Filho Quando eu era jovem, puro e besta participei como mesário e presidente de mesa de votação e apuração de várias eleições. Nos diz...

No tempo do voto impresso

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Dante Filho

Quando eu era jovem, puro e besta participei como mesário e presidente de mesa de votação e apuração de várias eleições. Nos diziam que era uma chance honrosa de participarmos de um momento cívico importante, no qual éramos convocados para executar um trabalho voluntário que levava geralmente de 3 a 4 dias, das 8 até depois das 23 horas, dependendo dos problemas encontrados nas urnas – o que acontecia frequentemente. 

Na época eu reclamava muito não só porque não tínhamos praticamente o direito de escolha e o trabalho era estafante, exigindo esforço, concentração e tolerância para com aqueles que não se conformavam com os resultados finais das urnas. Muitas vezes, éramos acusados de favorecimento, o que exigia recontagem, além das interpelações agressivas dos candidatos e fiscais de partido.

O cenário da apuração era uma mistura de celebração coletiva com bagunça festeira: a justiça eleitoral instalava centenas de cidadãos munidos de autoridade provisória num ginásio esportivo, formando bancadas com carteiras escolares, e ali, neste ambiente improvisado e precário, contávamos manualmente voto a voto, num esforço contábil para que não houvesse dúvidas no final. Sempre havia.

O lugar se transformava numa verdadeira zona de guerra. Milhares pessoas (servidores do judiciário, policiais, juízes, promotores, fiscais dos partidos, candidatos, jornalistas, curiosos etc, etc) acompanhavam o processo como se estivéssemos numa final de copa do mundo. Muito barulho, muita expectativa e muita tensão. Tinha lá sua graça e emoção, mas posso afirmar que o resultado final era sempre carregado de fraude e artificialismo. Aos perdedores, o inconformismo; aos vencedores, o escárnio e a pecha de ladrão.

Nós, os apuradores, éramos o centro das atenções e das vilanias. Na mesa, em pouco tempo de interação, sabíamos acerca das preferências eleitorais de cada um, mas a vigilância era intensa, sendo conveniente fazer a contagem da melhor forma, sendo correto sempre, sob risco de impugnação da urna e evitar horas perdidas para recontar tudo, fazendo os números bater com o mapa da urna. 

Por várias vezes, pra melar o jogo espertinhos jogavam cédula fora ou as engolia. Não era fácil.

Mesmo assim, a camaradagem entre os apuradores que acabava se criando entre os apuradores durante os dias de trabalho, fazia com que todos levassem alguma falha na vista grossa, principalmente quando se tratava de preferências pessoais. "Deixa eu passar um voto por debaixo dos panos, afinal o candidato é meu amigo..."

Havia divergências por filigranas, lógico, pois a desconfiança de fraude era geral e assim, volta e meia, havia gritos, sopapos e intervenção policial.  

Os votos majoritários eram de fácil apuração. O eleitor marcava com um xis num quadro impresso na frente do nome do candidato, bastando, dessa forma, separar nominalmente os votos e fazer a contagem final. 

Ainda assim, nem sempre a cédula vinha marcada corretamente. A identificação do voto era colocada erroneamente ao lado ou em cima dos nomes. A maioria do eleitorado ficava perdido diante de um papel oficial repleto de marcações e regras na quais ele teria que preencher sem rasuras. Estamos falando de eleição em Campo Grande nos anos 80. Imagine o interiorzão, onde todos se conheciam, eram amigos e vizinhos, parentes etc. A fraude fazia festa...

A rigor, os votos preenchidos incorretamente (a maioria) devia ser, por lei, anulados, mas os juízes instruíam os mesários para que avaliássemos a “intenção do voto”, formalizando um consenso sobre sua validade ou não. “Olha esse voto, o cara escreveu Tonhão do Tiradentes no canto da cédula, vamos ver se tem algum candidato com o nome de Antonio ou Tonhão que mora no Tirandentes...”. Se tivesse, o voto era validado. 

Legalmente era errado, mas o que se há de? Estamos no Brasil.

Na contagem dos votos dos candidatos proporcionais (vereadores, deputados, senadores)  o drama social sobressaia como a concretização da metáfora de nossa pobreza estrutural. 

O eleitor podia escrever o número ou o nome do escolhido, ou ambos. Ali é que nos deparávamos com a realidade brasileira. Na verdade, com a tragédia da democracia, com grande número de eleitores confusos, pouco alfabetizados, sem nenhuma familiaridade informativa de como proceder na chamada cabine indevassável, sem poder solicitar esclarecimentos aos mesários, fazendo vir à tona, por meio das cédulas preenchidas com garranchos, riscos obscuros, às vezes palavrões, em hieróglifos secretos, o retrato sem retoques de nossa sociedade caótica, sem instrução, que escolhia candidatos por mera formalidade, sem compreender a extensão de seu gesto. 

Para um jornalista iniciante na carreira era uma experiência gratificante, pois podia verificar ao vivo, sem filtros, de forma transparente, quem era o/a eleitor(a) brasileiro (a). Era um horror. Mas era este o País que tínhamos. 

Em dois pleitos eleitorais fiquei treinado na decifração de escritas enigmáticas. Passei a orientar inclusive juízes na interpretação daquela maçaroca que se chamava “intenção do eleitor”. Às vezes o cidadão rabiscava números e nomes que demandava horas e grupos inteiros para se chegar à uma conclusão. Outras vezes decidíamos validar um voto esquisito para beneficiar candidatos obscuros, com chance zero de se eleger. Afinal, tínhamos coração.

O voto manual em cédulas era o sepultamento de qualquer noção de democracia. Se fossemos rigorosos na apuração e cumprir a legislação como mandava o figurino mais de 70% dos votos eram anuláveis. Este era o fato. Que piorava com os longos dias de apuração e anuncio dos resultados, que sempre terminava em judicialização e polarização duradouras.

Claro, com o voto eletrônico isso acabou. Acho que o sistema passou a ajudar o eleitor na hora da escolha, não somente pela simplificação do sistema, como pela rapidez da divulgação dos resultados. Posso dizer que também ajudou a encobrir a tragédia de nosso semi-analfabetismo, a pobreza cultural, a falta de esclarecimento, não permitindo que possamos mais fazer, a cada eleição, uma radiografia de nosso subdesenvolvimento. 

Enfim, em tudo há ganhos e perdas. Olhando para trás, acho que o voto eletrônico foi um passo à frente. Se existe fraude ou não há aí um campo de incerteza, mas acredito que as eleições sejam mais limpas, mais seguras, menos caóticas do que eram no passado. 

Se acho que é o caso de imprimir comprovantes para efeito contábil e mudar radicalmente a estrutura que funciona hoje? Esta discussão é extensa, demorada e cansativa. Acho que vamos andar em círculos. Parece que o Bolsonarismo deseja perpetuar uma zona espectral em nossa realidade institucional. É cansativo. Prefiro voltar a assistir filmes da Disney...




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3 comentários:

  1. Eu fui contador de votos em 1982. Três semanas de contagem de votos. Bomba e polícia. Ao final Wilson Martins eleito governador de MS

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  2. Eu participei das eleições de 1992, no qual o então já falecido Juvêncio César da Fonseca foi eleito com mais de 53 por cento dos votos. Eu estava cedido para o TRE e ajudei na convocação dos escrutinadores. Era uma mão de obra e tanto. Passavam a noite contando os votos. Na dúvida os votos eram recontados.

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  3. Eu também fui mesário, escrutinador e depois "promovido" a presidente de urna. Era mesmo muito trabalhoso, embora às vezes divertido, porque tinha cada pérola escrita nas cédulas de arrancar risos. Prefiro confiar na urna eletrônica, que é sim auditável, do que retroceder àqueles tempos.

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