Há semanas tento enfrentar a página em branco. Um fantasma que ronda meu imaginário e coloca em xeque minha capacidade criativa. A coisa...

Alexsandro Nogueira:Garcia-Roza e minha página em branco

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semanas tento enfrentar a página em branco. Um fantasma que ronda meu imaginário e coloca em xeque minha capacidade criativa. A coisa começou devagarinho: dificuldade na construção de frases, lentidão com as palavras, até bater uma insegurança quanto à minha eficácia na hora de redigir um texto. 

O começo da agonia veio perto das festas de fim de ano e minha estranha fascinação em escrever ensaios natalinos a partir da narrativa do conto do escritor Charles Dickens e sua obra mais conhecida, “Um Cântico de Natal”. Cheguei com garra e boa vontade em frente ao computador, mas na hora agá, não saiu nada, só uma repetição de palavras.

A humilhação introspectiva veio em seguida quando tentei rascunhar - em poucos parágrafos - uma matéria falando das perspectivas da seleção brasileira para a Copa do Mundo na Rússia. Não consegui e o vexame seguiu seu curso.

A decepção interna aumentava à medida em que apareciam ideias para artigos e matérias e  eu não conseguia traduzi-las e formatá-las em um texto convincente que acalmasse minha angústia interior. 

Por causa disso, comecei a pensar em outras alternativas para escrever, e ler textos literários foi a primeira delas. Pelas minhas mãos passaram o suíço Joel Dicker, a “Víbora”, de Joel Silveira, e a releitura de uma novela do genial Otto Lara Resende, mas nada disso despertava o gatilho das palavras adormecidas.

Depois dessas frustradas tentativas de recuperar a criatividade, comecei a ficar em pânico quanto ao meu futuro profissional. Como ganhar a vida se eu vivo das palavras? E a resposta continuou uma incógnita.

Mais adiante, já como último fio de esperança, comecei o farfalhar das páginas de um romance policial do psicanalista e escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza e seu emblemático delegado Espinosa.

A leitura despretensiosa foi numa tacada só e frases começaram a puxar pela memória, com as palavras saindo das catacumbas para regressar ao meu universo imaginário.

Roza sabe do riscado, tem uma narrativa envolvente, ambientada com riqueza de detalhes, mostrando na sua literatura, sentimentos ambíguos e personagens complexos que circulam anonimamente no submundo carioca de Copacabana.

O clímax das suas histórias tem certa relação entre o homem e a complexidade de seus desejos mais secretos, geralmente sufocados dentro da monotonia doméstica e suas atribuições diárias.

O enredo apresenta Espinosa, um delegado sensível à maldade humana, que busca entender a natureza dos crimes assim como quem procura apreender o contexto social das relações humanas.

No meio de tudo isso a natureza e a temporalidade de cada personagem aparecem numa série onde todos envelhecem e amadurecem.

No final de cada romance a obra se fecha, mas deixa espaço para os próximos capítulos e o retorno - em grande estilo - de um Espinosa bem-humorado que suscita até com certa leveza a carga dramática das relações que o cercam.

Fico tentando compreender a motivação de Garcia-Roza para escrever seu primeiro romance aos 60 anos. Certamente já previa a relação viciante dos leitores para com sua obra. No meu caso, mais do que isso: a dependência intelectual do seu jogo com as palavras.

*Jornalista



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Um comentário:

  1. Caro Dante, bom ter leitores como você. Quem sabe um dia podemos conversar sobre o Espinosa ou até podemos conversar sobre os nossos Espinosas. Um grande abraço, Luiz Alfredo Garcia-Roza.

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