O normal de quem preenche todos os requisitos para viver mais tempo, é a possibilidade de percorrer o longo trajeto da vida, cheio de d...


O normal de quem preenche todos os requisitos para viver mais tempo, é a possibilidade de percorrer o longo trajeto da vida, cheio de desafios, e acumular alguns registros interessantes. Primeiro você atravessa a perigosa fase da infância, lotado de energia, sobrevive às quinas de mesas, tomadas elétricas, panelas com água fervente no fogão, consegue não morrer afogado em piscinas , terraços, playgrounds malucos, escadas e outras ameaças que tornam quase impossível a uma criança, alcançar a juventude viva e sem sequelas físicas. 

Depois da infância, vem a juventude, também perigosa pelo excesso de ofertas de riscos e das novas experiências. Nessa fase tem o interminável caminho do imponderável mundo da imprudência. Aí, você consegue sair vivo, também, dessa nova etapa, e entra no mercado de trabalho. Um empreguinho aqui, outro ali e a vida começa tomar um rumo. 

O currículo vai somando algumas conquistas e a vida vai tomando jeito. Mas você começa a ficar viciado em pequenas conquistas. Ai vai somando uma lista e as conquistas vão virando o seu combustível para a próxima, sempre a próxima. Portanto, o fato de colecionar conquistas, sejam elas extemporâneas ou duradouras, enriquecem a trajetória. Depois que mandei a modéstia à merda e assumi meu lado Átila, o huno, não vou deixar passar registros vitoriosos na minha vida e que fazem parte do meu currículo.

O que vou contar aqui é a prova de que eu sou foda. Não toda hora, mas vez em quando eu fico insuportável. Há um razoável tempo, sai com minhas filhas e alguns amigos para  jantar, em São Paulo. O lugar, vocês já conhecem ou ouviram falar, Cantina Jardim de Napoli, no bairro Higienópolis. A especialidade deles é o famoso Polpetone, uma especialidade que fez a fama da cantina. Estávamos em oito, escolhemos uma sala quase isolada, com apenas duas mesas grandes. 

O jantar foi ótimo, polpetone, claro, vinho, conversa boa rolando, muita risada, enfim um agradável jantar. A noite avançou e ninguém entre nós estava com pressa. De onde estávamos não dava pra ver o salão do restaurante, o que nos mantinha isolados. A única coisa que estranhei era a presença de algumas pessoas, a cada espaço de tempo, que surgiam por ali, apenas olhavam sem dizer nada e sumiam da nossa vista. Nenhuma preocupação com isso. A noite continuou avançando, estávamos no cafezinho, sem vontade de pedir a conta.

Num determinado momento decidi ir ao toalete. Para chegar lá passei pela entrada, onde tinha um balcão perto do caixa. Estavam ali reunidos, em pé, um bloco de pessoas, uns de terno e outros fardados, militares de alta patente. Debruçado no balcão e no meio do grupo, tomando uma bebida qualquer, vi o FHC, naquela época presidente em exercício. 

Claro, em sua hora de folga, hora do recreio, digamos. Minhas reflexões, enquanto fazia xixi, levaram a concluir que o presidente e a sua turma, estavam só aguardando a liberação da minha mesa. Era a única mesa isolada do restaurante, e não havia outra possibilidade à vista. Aahaaaa, pensei. Voltei pra mesa e, sem dizer nada a ninguém induzi a todos pedir uma nova rodada de café, agora com licor, apenas para esticar o papo. 

Esse meu lado pentelho-eufórico não aguentou muito tempo e acabei revelando que o FHC estava lá fora, só aguardando a gente sair. Nosso tempo acrescentou uns vinte minutos de ágio, em razão disso. Nada contra FHC, mas diante da sua importância, nosso valor como reguladores de mercado (segmento mesa) havia crescido de forma assustadora. 

Vencidos pelo cansaço e pela própria empáfia, finalmente saímos. Na passagem pelo balcão ainda cumprimentei o presidente, que retribuiu de forma efusiva levantando seu copo e agradecendo. Era a república se rendendo ao poder de ocupação de mesa e reconhecendo a precedência de quem chegou primeiro. Sou foda..

*Pedro Mattar, cronista, escritor e publicitário

Há semanas tento enfrentar a página em branco. Um fantasma que ronda meu imaginário e coloca em xeque minha capacidade criativa. A coisa...


semanas tento enfrentar a página em branco. Um fantasma que ronda meu imaginário e coloca em xeque minha capacidade criativa. A coisa começou devagarinho: dificuldade na construção de frases, lentidão com as palavras, até bater uma insegurança quanto à minha eficácia na hora de redigir um texto. 

O começo da agonia veio perto das festas de fim de ano e minha estranha fascinação em escrever ensaios natalinos a partir da narrativa do conto do escritor Charles Dickens e sua obra mais conhecida, “Um Cântico de Natal”. Cheguei com garra e boa vontade em frente ao computador, mas na hora agá, não saiu nada, só uma repetição de palavras.

A humilhação introspectiva veio em seguida quando tentei rascunhar - em poucos parágrafos - uma matéria falando das perspectivas da seleção brasileira para a Copa do Mundo na Rússia. Não consegui e o vexame seguiu seu curso.

A decepção interna aumentava à medida em que apareciam ideias para artigos e matérias e  eu não conseguia traduzi-las e formatá-las em um texto convincente que acalmasse minha angústia interior. 

Por causa disso, comecei a pensar em outras alternativas para escrever, e ler textos literários foi a primeira delas. Pelas minhas mãos passaram o suíço Joel Dicker, a “Víbora”, de Joel Silveira, e a releitura de uma novela do genial Otto Lara Resende, mas nada disso despertava o gatilho das palavras adormecidas.

Depois dessas frustradas tentativas de recuperar a criatividade, comecei a ficar em pânico quanto ao meu futuro profissional. Como ganhar a vida se eu vivo das palavras? E a resposta continuou uma incógnita.

Mais adiante, já como último fio de esperança, comecei o farfalhar das páginas de um romance policial do psicanalista e escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza e seu emblemático delegado Espinosa.

A leitura despretensiosa foi numa tacada só e frases começaram a puxar pela memória, com as palavras saindo das catacumbas para regressar ao meu universo imaginário.

Roza sabe do riscado, tem uma narrativa envolvente, ambientada com riqueza de detalhes, mostrando na sua literatura, sentimentos ambíguos e personagens complexos que circulam anonimamente no submundo carioca de Copacabana.

O clímax das suas histórias tem certa relação entre o homem e a complexidade de seus desejos mais secretos, geralmente sufocados dentro da monotonia doméstica e suas atribuições diárias.

O enredo apresenta Espinosa, um delegado sensível à maldade humana, que busca entender a natureza dos crimes assim como quem procura apreender o contexto social das relações humanas.

No meio de tudo isso a natureza e a temporalidade de cada personagem aparecem numa série onde todos envelhecem e amadurecem.

No final de cada romance a obra se fecha, mas deixa espaço para os próximos capítulos e o retorno - em grande estilo - de um Espinosa bem-humorado que suscita até com certa leveza a carga dramática das relações que o cercam.

Fico tentando compreender a motivação de Garcia-Roza para escrever seu primeiro romance aos 60 anos. Certamente já previa a relação viciante dos leitores para com sua obra. No meu caso, mais do que isso: a dependência intelectual do seu jogo com as palavras.

*Jornalista

Tecnologia do Blogger.