Esse artigo foi publicado em junho de 2015 no jornal O Estado de Mato Grosso do Sul. Relendo-o, considero que o tempo ainda não alterou ...

Ideologia: tempo e memória

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Esse artigo foi publicado em junho de 2015 no jornal O Estado de Mato Grosso do Sul. Relendo-o, considero que o tempo ainda não alterou sua validade. Por isso, vou publicá-lo no Blog para avaliar mais tarde se ele resistiu ao tempo. 

um debate oco no Brasil sobre o ressurgimento da direita na formação da opinião pública intelectualizada. Compreende-se. A ditadura criou uma intensa polarização de pensamento e posições políticas que deixou como herança, até os dias atuais, modelos consolidados de ranço ideológico. 

Diferentemente de alguns, ainda considero que a díade criada na revolução francesa (esquerda e direita) ainda tem validade como nota explicativa de posições que assumimos perante fatos da vida.

Não que sirva para todas as posições que adotamos em relação a isso ou aquilo, mas reconheço nesta categorização uma forma definidora daquilo que somos quando instados a tomar posições públicas em relação a acontecimentos humanos de repercussão social. Claro que no fundo essa divisão tem uma vacância assombrosa e alguns prefiram dividir os homens e mulheres entre conservadores e progressistas, mas no fundo é tudo uma questão de gosto.

Muitos justificam que essa divisão ideológica não tem mais sentido no mundo moderno. Estes conceitos foram perdidos diante da confusão mental criada após a queda do Muro de Berlim, quando o socialismo dito real sucumbiu com a realidade esmagadora da mercantilização da existência.

Criou-se o truísmo de que a democracia só seria possível com as liberdades proporcionadas pelo capitalismo e que as massas seriam mais felizes com a realização de seus desejos pelo consumismo conspícuo do que com a libertação de seus grilhões patronais. A esquerda brasileira até hoje não compreendeu perfeitamente esse dilema, mas quem sabe um dia...

A partir daí, com a perda referencial de Marx e a ascensão de pensadores como Hayek, as amarras do politicamente correto foram desatadas e, com isso, a esquerda passou a ser maltratada por correntes de pensamento mais ativas no campo do uso da polêmica como força retórica.

Assim, a intelectualidade formada na luta contra a ditadura - e seus rebentos das ciências sociais ligados ao petismo universitário - viu-se atingida no flanco, sem saber o que fazer com vozes dissonantes que davam enfoques diferentes no tratamento de assuntos de amplitude política e social. 

Viu-se de repente que nem tudo era determinismo econômico. Havia mais coisa além de Gramsci e das teorias revolucionárias cubanas.

Por esperteza e oportunismo, diante do argumento de que nesse novo mundo não “existe mais direita e esquerda”, essa turma fez a dobra dialética e começou a afirmar que somente a direita utiliza esse tipo de desqualificação ideológica para se livrar da pecha do conservadorismo. 

No momento vive-se este esforço: como classificar correntes de opinião fortemente amparadas pelo conhecimento histórico, com lastros refinados de cultura clássica, com amplo apuro estético e filosófico, que se dedicam a desmistificar a chamada “esquerda” de boutique de nossos dias?

Daí a tentativa desesperada de rotular esse pessoal de “direitista” quando, na verdade, o que se constata é uma inédita dificuldade de classificação de pessoas que, cada vez com maior influência na mídia, descobriram que podem fazer sucesso de público e de crítica detonando os cacoetes da “velha esquerda”. São os casos de polemistas como Reinaldo Azevedo, Luis Felipe Pondé, Demétrio Magnoli, Olavo de Carvalho dentre outros.

Talvez o que se está querendo mostrar é que a realidade “moderna” está a exigir outro tipo de coerência e outro tipo de compromisso conceitual. Nesta cacofonia geral de pensamentos fora dos modelos tradicionais existem cada vez mais posições estranhas misturando-se ao sabor de fatos e acontecimentos altamente estilhaçados. 

Certamente, os sentimentos à direita e à esquerda estão presentes em todos nós, mas são cada vez mais diluídos, pois está claro que o conceito de liberdade de expressão vem criando uma espécie de domínio – para o bem e para o mal – que faz com que que tudo que é sólido desmanche no ar.






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