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Alexsandro Nogueira: McCartney, o gênio que nunca foi santo

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Revolver, o álbum que precedeu o celebrado Sgt Peppers, dos Beatles, marcou o fim das apresentações ao vivo da banda. Era 1966 e um repórter de Manchester não gostou dos motivos pelos quais seu grupo musical predileto suspendeu os shows. E foi assim que Philip Norman, o jornalista do periódico The Sunday Times, resolveu arrumar um culpado para o fim das apresentações da banda: Paul McCartney.

Da figura mítica que esbanjava simpatia com os repórteres que tinham certo acesso à banda, McCartney transformou-se em inimigo de estimação de Normam. Foram mais de 35 anos de birra em que o jornalista aproveitava qualquer oportunidade para criticar o trabalho musical do ex-Beatle.

De lá pra cá, muitas notinhas e matérias cruéis maltrataram o ego do superstar britânico. Só agora, mais de quatro décadas depois do rompimento afetivo com Paul, o escritor resolveu reparar as coisas com o beatle canhoto, a ponto do texto de abertura do livro ser basicamente um pedido de desculpas.

São 856 páginas (editora Companhia das Letras)  que retratam a vida do maior artista do século XX desde a infância em Liverpool, passando pela beatlemania, o sucesso na carreira solo, até os episódios mais recentes mostrando um músico ainda atual e reverenciado no cenário musical contemporâneo.

Prestigiado como novelista no Reino Unido, Norman  mantém o mesmo estilo literário de seus romances para descrever um Paul McCartney oposto ao artista bonitinho, apresentado há mais de 50 anos à cultura pop.

Diferente de outras biografias superficiais que retrataram um beatle bom moço, o escritor expõe as vísceras de um homem calculista, determinado, avarento e inseguro. Seria injusto dizer que o escritor carrega na dramaticidade quando relata alguns episódio emblemáticos da vida de Paul.

É evidente que a intenção do autor é descrever um artista mais humano vivendo intensamente seus momentos de sombra e luz. O ponto alto do livro fica por conta da descrição minimalista do período 1970-1975, quando McCartney - após a dissolução dos Beatles - trabalhava para ressurgir como cantor e compositor no cenário musical.

Normam descreve um artista medroso e cada vez mais obstinado a voltar a frequentar as paradas de sucesso. Outra coisa que merece destaque é o fato do escritor não transformar a biografia em hagiografia. O autor relata em detalhes a turbulenta vida maconheira do músico, como também a arrogância musical de Paul, sempre disposto a interferir de modo autoritário na maneira como cada Beatle tocava seu instrumento.

A narrativa é detalhista ao extremo e revela que o artista egocêntrico tinha  seus momentos de apaziguamento quando, em 1975, convidou John Lennon para participar de seu quinto disco solo. O ex-parceiro quase foi, mas na última hora foi aconselhado por Yoko Ono a abortar a viagem para New Orleans (onde o disco foi gravado) porque a conjunção dos astros não favorecia um encontro naquele momento.

Há ainda outras surpresas que o escritor publicou no livro com a devida autorização do biografado. Talvez a mais polêmica delas seja os casos amorosos que Linda (fotógrafa com quem Paul foi casado por 30 anos) teve antes de conhecê-lo. O fato passaria despercebido se os amantes não fossem Mick Jagger e Jim Morrison e que as noites e amorosas aconteciam por insistência dela, com o único objetivo de garantir mais espaço no mercado editorial das revistas de rock.

O ponto baixo do livro são 70 páginas dedicadas ao relacionamento e o fim do segundo casamento de McCartney com a modelo Heather Mills.

Mas Philip Normam tropeçou ainda em outro detalhe: não abriu espaço para o artista gênio. Em nenhum momento do livro, o escritor fala do cantor, compositor e do multiinstrumentista (Paul toca 10 instrumentos) que grava discos sozinho. 

O autor não relata o trabalho autoral de Paul como compositor de peças sinfônicas registradas em três discos magistrais e celebrado por nomes importantes da música erudita. Felizmente a história de Paul não terminou e talvez essas informações (quem sabe) estarão em uma atualização de Normam posteriormente. Vamos aguardar.

Jornalista e escritor campo-grandense




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