“Os momentos piores foram aqueles em que havia o processo eleitoral. Os funcionários se serviam daquele instante para fazer coro com meu...

Entrevista exclusiva Wilson Barbosa Martins (parte 8): o segundo mandato, a crise com o funcionalismo e a globalização

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“Os momentos piores foram aqueles em que havia o processo eleitoral. Os funcionários se serviam daquele instante para fazer coro com meus opositores. Eles também se tornaram meus opositores. E me vaiavam no governo, me vaiavam em frente de minha casa, me vaiavam em solenidades, me criaram uma situação difícil, na luta da administração pública, procurando esvaziar a minha autoridade. Mas não conseguiram. Fiz valer sempre a minha dignidade”.

Tema da entrevista realizada em 15 de junho de 1999: O segundo Governo, os embates com o funcionalismo, as esperanças do estado em FHC e as articulações sucessórias envolvendo o PSDB.


Nessa oitava entrevista com WBM, passamos em revista o seu segundo governo. Ao contrário do primeiro, a marca do desastre marcou fundo a sua administração. 

Nesse relato contundente, o ex-governador relata os dramas vividos com atrasos de salários do funcionalismo, as acusações da oposição e a decepção causada pelo governo FHC. 

Momentos que ficaram marcados na memória da sociedade como um governo problemático, mas que agora são explicados por quem viveu no olho do furacão.

P- Após a sua posse para assumir pela segunda vez o governo, certamente o sr. e a sua equipe estiveram debruçados para analisar a realidade em que se encontrava o estado. O sr. lembra na época qual foi o diagnóstico?

W- Nós tínhamos feito um prognóstico antes da posse com informações colhidas nas várias Secretarias de Estado pelas comissões organizadas para examinar a situação das finanças, a situação da educação e de todos os departamentos. Mas o que havia diante de nós era um quadro aterrorizador. O Estado estava com uma centena de obras paralisadas, com o salário do funcionalismo atrasado, fornecedores sem receber (...), era uma desarrumação geral - que eu já conhecia quando recebi, do mesmo governador Pedrossian -, o estado no meu primeiro mandato. Tinha sido feito uma renegociação de dívida com o Governo Federal, e quem se encarregou disso no Senado foi o Senador Levy Dias. Mas teríamos que marchar para uma nova renegociação. De outra forma, não tínhamos condições de caminhar. Os recursos eram muito escassos e o endividamento muito grande. Dívidas imediatas, dívidas mediatas e dívidas de longo prazo. E eu andei ao longo do meu governo procurando renegociar essa dívida. Afinal, consegui. Mas ao mesmo tempo que isso se fazia, tinha que melhorar a situação, reformar o aparelho arrecadador do Estado, através da Secretaria das Finanças. Era fraco o desempenho, como se podia perceber claramente pelas quantias pequenas de sua arrecadação. Os defeitos não eram apenas do aparelho arrecadador. Os defeitos eram também da própria economia do Estado. Começamos assim a trabalhar com o mesmo secretário de finanças que nos serviu no primeiro governo, Thiago Franco Cançado,e, depois, com Ricardo Bacha, tentando trazer recursos e chegando a trazê-los parcialmente  e a empreender uma reforma ampla da secretaria de finanças.

P- Dr. Wilson, voltando um pouco nessa questão do diagnóstico: todos lembram das obras paradas. O que isso prejudica um estado como o nosso?

W- Nós fizemos um recenseamento de todas as obras iniciadas e paralisadas. Era uma relação muito grande. Não me lembro exatamente qual era o número, mas isso não importa. Há muitos documentos escritos sobre esse assunto. Fizemos não só para o governo, mas fizemos também para um cadastro para enviar a um órgão que foi criado no Congresso Nacional e veio inclusive aqui uma comissão de senadores para examinar essas obras. Fizemos uma amostragem das obras paralisadas levando a essa comissão inúmeras delas. Algumas dessas obras nós pudemos concluir. Como, por exemplo, o Parque das Nações Indígenas. Uma obra importante, que se tratava de aproveitar um espaço no coração da capital...

P- Apesar de que falta ainda muita coisa para terminar...

W- Sim, pudemos concluir as obras, não na sua totalidade, mas de modo que elas pudessem ser entregues a população. E realmente as obras foram entregues. E o povo hoje pode gozar o seu lazer andando e descansando ali no Parque. Outras obras não tínhamos fôlego nem há fôlego hoje para tocá-las. Como tocar todas essas obras que estão paralisadas?

P- Qual mal que isso provoca na economia do Estado?

W- Essas obras, que simplesmente não foram prevista em orçamento, empobrecem a população, atrasam a economia, mas deixam uma falsa boa imagem no governante que começou. Essa é a realidade. E não há até hoje previsão de recursos para concluí-las. Agora, fala-se em terminar o Fórum, que também é outra obra que aí ficou, mas que não há recursos no momento para concluí-lo. Fala-se em buscar recursos da CESP, mas esses já tinham sido comprometidos pela em negociações anteriores para indenização dos municípios  que tiveram áreas cobertas pelas águas da usina de Porto Primavera. Então a situação de um modo geral era caótica. As dívidas grandes, recursos poucos e assim tivemos que fazer das tripas o coração. Ir a banco, pagar o funcionalismo e incentivar a receita, procurar formas de melhorar os gastos e assim ir tocando o estado. Foi uma luta terrível.

P- Diante desse quadro, era possível naquele momento estabelecer minimamente uma agenda positiva para o futuro?

W- Nós tentamos estabelecer. Houve um momento em que nós melhoramos a situação financeira, pelo menos a controlamos, e fizemos um projeto de obras para o desenvolvimento do Estado. Estas obras estavam todas previstas nesta espécie de  programa que foi feito mais ou menos no meio do governo. E demos início a essas obras. Concluímos escolas, e reformamos muitas. Concluímos quase todos os postos de saúde e hospitais e maternidades que tinham sido iniciadas, que eram as obras mais urgentes. Inauguramos parcialmente as obras do hospital geral do estado. E construímos estradas de rodagens que se faziam necessárias, melhoramos e fizemos o reparo de muitas outras, melhoramos estradas de terra, asfaltamos, fizemos um plano geral de melhorias rodoviárias e das obras que tinham ficado da gestão anterior (...), mas sempre nos faltou dinheiro. Houve um instante em que pudermos desafogar-nos. Foi quando vendemos a Enersul. Então, me recordo que pagamos os atrasados, pagamos o décimo terceiro, houve o desafogo do comércio, o funcionalismo ficou muito satisfeito, o governo teve também um alento. Daí em diante começou a luta de ir a Brasília, voltar de Brasília, obter promessas, concluir a renegociação das dívidas, que afinal foram renegociadas.

P-O sr. acha que as dívidas foram renegociadas satisfatoriamente?

W- Acho que sim. Diminuíram-se os juros que nós pagávamos e diminuiu a quantia que tínhamos que desembolsar mensalmente a favor do tesouro nacional. Nós tivemos um alívio. E as nossas dificuldades cresceram nesse governo porque o Presidente da República entendeu de fazer uma reforma tributária, mas não de âmbito geral, com a presença de todos os governadores. Ele (FHC) pretendia contar com o consenso de todos os governadores e não conseguiu. Eu próprio dizia a ele que o que se ia tirar - e acabou sendo tirado do Estado em matéria de ICMS - era uma sangria que o Mato Grosso do Sul não podia suportar. Nós somos um estado que vivemos da produção do campo, daquilo que exploramos da terra, da venda da carne e da venda dos produtos agrícolas. Não obstante os nossos protestos nas reuniões de governadores e em todas as discussões  havidas para a reforma tributária, protestos esses que visavam impedir que houvesse a perda de uma parte do ICMS, de nada adiantou e tudo foi feito pelo governo federal com num passe de mágica, num momento em que estavam reunidos três ou quatro, onde nós não fomos ouvidos. Daí passou-se a depositar esperança na lei Kandir. A lei kandir veio como que para remediar esse desfalque na nossa receita. E então passamos a visitar Brasília com o pires na mão, para receber o que perdemos mais o que já tínhamos perdido.

P- No primeiro momento, de acordo com o noticiário da imprensa na época, o sr. apoiou a lei Kandir, não é? Inclusive solicitou aos deputados da bancada de Mato Grosso do Sul que votassem a favor. E aí depois houve uma reversão de expectativa. O que aconteceu, afinal?

W- A Lei Kandir provocou uma perda substancial da parte do ICMS. E era uma lei que visava indenizar os estados que tinham perdido recursos tributários. E isso não foi feito. Então tinha que aprovar uma lei que vinha remediar um mal que tinha sido feito aos estados como o nosso. Mas em verdade a lei Kandir era um remédio dado em conta gotas. Em vez de se indenizar todas as vezes que tínhamos prejuízo, nós recebíamos recursos uma ou duas vezes por ano. Em 1998, no mês de abril ou maio, eu já estava com o  Dr.  Pedro Parente  pedindo a ele que incluísse Mato Grosso do Sul no rol dos estados que estavam perdendo receita. E o governo federal mandou ao congresso um projeto incluindo outros estados e excluiu o Mato Grosso do Sul. Alegaram esquecimento. Na reunião que houve  para tratar desse assunto lá no Ministério da Fazenda eu interpelei e um desses conselheiros lá do Ministério da Fazenda levantou a mão e disse que ele era o responsável pela omissão. E o que podia eu fazer? Podia novamente pedir que enviasse então um projeto urgente para que fossemos atendidos. Era a única coisa que restava fazer. E o projeto não pode ser remetido porque já estávamos dentro do processo eleitoral e dentro desse período não era possível  repassar recursos ao estado: tivemos que aguardar o transcurso do período das eleições e só viemos receber recursos no mês de dezembro, na undécima hora do governo. E esses recursos quando chegaram foram trancados pelo Poder Judiciário. Houve o bloqueio das contas do Estado.

P- O que houve, então, foi um desacerto administrativo...

W- Houve um desacerto administrativo e fatos que trouxeram dificuldades e impossibilidade do governo de pagar, no momento certo, os recursos recebidos. Foi um período difícil, desgastante, que muita gente não consegue compreender suas causas, embora tenham sentido as conseqüências...

P- Eu estava lendo o discurso de posse do senhor com muita atenção e uma coisa compreender é que em todo o discurso havia muito otimismo e esperança em relação ao Governo do Fernando Henrique Cardoso, de que ele poderia auxiliá-lo para superar as dificuldade que o sr. sabia que iria enfrentar. Afinal, o que aconteceu?

W- Eu só podia ter muita esperança no governo do presidente Fernando Henrique. Porque tínhamos um relacionamento muito estreito no nosso convívio no senado. E tornamo-nos muito amigos. Infelizmente, a situação do País também era muito difícil. E o Estado de Mato Grosso do Sul não pode sair das dificuldades em que estava quando assumi o governo. Posso dizer que nada recebi do governo Fernando Henrique que representasse uma ajuda efetiva para o estado. Houve empreendimentos do governo federal que ajudaram o estado, sem dúvida. Impossível negar a importância da construção do gasoduto Bolívia-Brasil, da Ferronorte, que não é uma estrada de ferro construída pela Nação como foi a noroeste do Brasil , no começo do século. A Noroeste do Brasil foi uma obra construída pelo governo da República, quando o presidente Rodrigues Alves e o ministro da fazenda Lauro Miller tomaram a decisão estratégica de implantá-la. Essa estrada começou em 1903 e devia chegar até Cuiabá. Chegou naquele tempo até Porto Esperança, depois de ter seu traçado modificado. A estrada Ferronorte é uma estrada que representa um grande benefício também para o estado de Mato Grosso do Sul. Vamos fechar o século como uma outra estrada. Uma estrada nova, moderna, vigorosa – e não construída pela União, essa construída por capitais privados, mas com a ajuda da União. Temos, sem dúvida, que agradecer, ela representa uma grande força no escoamento da produção, dos produtos do estado, soja, carne e outros produtos do estado. E ela passa na região de grande importância do Estado, na região nordeste.

P- O Sr. conheceu o Fernando Henrique em que circunstâncias ?

W- A primeira vez que conversamos foi no Hotel Nacional, em Brasília, quando Tancredo Neves passava mal. Até então, eu ainda não tivera nenhum diálogo com ele. Eu me aproximei dele e perguntei a situação real do Tancredo. Ele me disse que era desesperadora, não tinha como salvá-lo. E depois disso convivemos no Senado. Quando eu estive com ele pela primeira vez eu ainda era governador. E o nosso relacionamento no senado foi por um longo período de contatos (...)fui inclusive companheiro dele no PSDB quando houve uma crise na política do Estado e eu permaneci algum tempo no PSDB(...).Eu via da parte dele sempre um desejo de atender Mato Grosso do Sul. Eu sentia que havia esse desejo. Tanto que quando fiz um pedido para que ele assumisse o Projeto Pantanal por parte da União ele  não teve dúvida em fazer.

P- E é um projeto importante...

W- É um grande projeto, com aplicação de cerca de 200 milhões de reais aqui nesta área do sul, mais 200 milhões na área do norte. É um projeto para beneficiar as cidades ribeirinhas do rio Paraguai e a região, digamos que não é um projeto que vá sanar todas as dificuldades  que existe na área, mas é um projeto que bem feito, bem formulado como está ele pode trazer uma grande melhoria para nossos problemas.

P- Começa-se a mudar o perfil sócio-econômico dessa região.

W- Sim, seria um momento eloquente para essa região toda(...),nós temos uma bacia muito grande no pantanal, maior até que a bacia do Paraná. A linha divisória da bacia do Paraguai é essa da estrada que segue de Campo grande a Cuiabá. E atrás do Projeto Pantanal número um vinha o segundo, vinha o terceiro. 

P- Temos a impressão, não sei se corresponde à realidade ou não,  que quando o sr. foi governador teve muito pouco contato pessoal com o Fernando Henrique. Os contatos administrativos eram feitos muito mais com o ministério da fazenda e outros. Foi isso que aconteceu?

W- Não, eu tive numerosos contatos com ele. Examinei esse assunto exaustivamente com ele. Esse e outros. Nós conversamos muito sobre os problemas do Estado . Ele dizia sempre que o que a Nação pudesse fazer, faria. Mas a Nação não pode fazer praticamente nada. (risos).

P- Mas vamos voltar a um assunto sobre o seu governo, na questão dos salários atrasados. Eu sei que isso pesou muito em seu governo. Mas qualquer governo que não atende as demandas do funcionalismo paga um preço muito alto.  O sr. não acha que há uma tendência aqui no estado de os governantes acabarem se   tornando refém do corporativismo?

W- Acho que o estado tem uma população muito rarefeita. Nós temos 2 milhões de habitantes. Campo Grande tem hoje 700 mil habitantes. Aqui está o maior núcleo do funcionalismo do estado. E tem um poder muito forte. Nós temos um funcionalismo com 50 mil funcionários. Quantos vivem aqui na capital? Um grande número. Um grande número de famílias de Campo Grande tem alguém que é funcionário público. Então, o peso político do funcionalismo é muito grande. Os funcionários públicos , eu reconheço, ganham mal. Sempre reconheci isso. Eu os deixei no primeiro governo numa situação excelente, mas no segundo eu tinha que procurar estar ao lado do estado. O estado estava depauperado. Uma parte do funcionalismo tinha regalias indevidas. Eu tive muitos problemas com o funcionalismo. Tive que pagar atrasados do funcionalismo. Inclusive os que não estão mais na ativa, que são aposentados. E os atrasos que eu próprio tive que suportar na minha administração tornaram ônus terríveis na minha vida. Isso me trouxe muitas dificuldades. Os momentos piores foram os momentos em que havia o processo eleitoral. Os funcionários se serviam daquele instante para fazer coro com meus opositores. Eles também se tornaram meus opositores. E me vaiavam no governo, me vaiavam em frente de minha casa, me vaiavam em solenidades, me criaram uma situação difícil, na luta da administração pública, procurando esvaziar a minha autoridade. Mas não conseguiram. Fiz valer sempre a minha autoridade.

P- O sr. acha que o seu governo foi vítima de um processo histórico de ajuste da economia brasileira em função da estabilidade provocada pelo plano Real?

W- Sim, eu governei num momento muito difícil. O País vivia um processo de crise, havia um momento em que não se podia gastar, depois veio o plano do Fernando Henrique, o Plano Real. O Plano Real travou as despesas. E passado aquele processo de inflação aberta que possibilitava ganhos monetários, o governo fazia depósitos nas contas , e esses depósitos ao longo do tempo remuneravam o governo. Com esse dinheiro nós pagávamos a folha de salários. Com a desvalorização da moeda o governo  podia pagar seus compromissos. Quando veio o Plano Real o governo foi quem mais sofreu. E com isso não pode pagar em dia seus compromissos. E isso era o motivo para que os funcionários tinham, ao lado dos meus adversários, para fazer um grande coro contra a competência do governo que foi chamado de inepto, de incapaz,  e que, realmente, se viu em dificuldades inúmeras vezes.

P- O sr. pessoalmente sofreu muito isso?

W- Isso me trouxe um sofrimento muito grande. O maior sofrimento de um homem é o sofrimento moral. O ataque injusto que você não pode revidar. Você não tem forças, não tem como revidar. Esse foi o ataque diante do qual eu me vi colocado. Pela força dos ataques  e pelas dificuldades que eu tinha de me movimentar e de fazer valer as forças do estado.

P- Quando tomou posse imaginou que viveria essa situação?

W- Não, nunca imaginei. Eu pensei que as dificuldades do estado não fossem tão profundas. Que nós não fossemos cair num buraco, num abismo que caímos. E não foram somente as dívidas que eu recebi, foram também as dívidas que eu próprio tive que contrair e as dívidas que foram feitas pela receita que a própria União tirou do Estado.

P- Dr. Wilson, sobre essa situação do Estado, eu procurei ouvir vários técnicos que atuam no setor público há muitos anos, e, em resumo, eles dizem o seguinte: Marcelo Miranda, no seu governo, abriu um rombo incomensurável nas contas do Estado, desmobilizando e desarticulando o aparelho estatal, inclusive em função de muita corrupção; em seguida, Pedro Pedrossian, que deveria ter trabalhado para tentar fechar esse buraco, o ampliou mais ainda. Nasceu daí o abismo ao qual o sr. se  referiu,  que levará nos próximos 20 anos todo governante ao desespero, visto que será impossível equacionar o problema do Estado, a não ser com medidas drásticas. O sr. compartilha dessas análises?

W- As dificuldades do estado são enormes. Eu sei que para se resolver isso só há uma maneira: aumentar a arrecadação e diminuir as despesas. Não tem segredo. Como fazer isso? Temos que fazer crescer o Estado. Não podemos aumentar os gastos, temos que diminuir o número de funcionários, e o que está se vendo é que está aumentando.

P- Mas a principal promessa dos candidatos era acabar com desemprego, não é? Então, tem que aumentar o número de funcionários públicos...(risos)

W- A campanha que se fez na minha sucessão era absolutamente equivocada. O estado estava em graves dificuldades a vista de todos, os funcionários não estavam em dia, estavam inclusive em greve, e todas as promessas eram feitas para a solução dos problemas. Entramos naquele clima em que esquecíamos os problemas e prometíamos que faríamos mágica para solucionar tudo. Ninguém faz campanhas realistas. Quem faz, perde.

P- As medidas que o sr. estava escolhendo para solucionar os problemas do estado são de médio e longo prazo. E no curto prazo?

W- Bem, no curto prazo o que se fez foi pagar as despesas de imediato do funcionalismo, fazer uma renegociação, essa renegociação é política no sentido de pagar primeiro quem tem mais força dentro do quadro de funcionários e pagar por último aqueles que não têm voz e não tem força. Mas o que se tinha que se fazer seria melhorar o desempenho da secretaria de finanças e trabalhar que na reforma da Constituição para que os estados obtivessem a melhor parte possível do bolo de recursos da União.

P- Se o sr. tivesse mais tempo de governo deixaria o estado em situação diferente?

W- Dentro do quadro de dificuldades que estamos vivendo eu não posso afirmar em sã consciência que pudesse fazer isso. Se eu estivesse seguro de que poderia fazê-lo eu encontraria meios, força dentro de mim mesmo, para disputar a reeleição. Se eu estivesse seguro de que poderia ajudar o estado, eu disputaria o terceiro mandato...

P- Se tivesse sido possível manter pelo menos a folha de salário em dia haveria menos desgaste e poderia haver perspectiva de...

W- ...eu tinha tomado algumas providências para diminuir essas despesas de custeio do funcionalismo e inclusive encomendei ao Jairo Fontoura que analisasse  junto a uma empresa  uma profunda análise da nossa folha pagamentos. Sempre houve funcionários que recebiam salário indevidamente. Isso foi feito. E foi entregue ao governador para que ele examinasse e adotasse as providências cabíveis. Procuramos detectar as fraudes que havia na folha de pagamento. Sempre houve fraudes. Paga-se a quem não deve receber, que já morreu, que não é mais funcionário , que recebe mais do que devia, enfim, pedimos um trabalho específico sobre todos esses problemas. São problemas estruturais que perduram. É a herança de nosso patrimonialismo. Algumas pessoas se acham donas do estado.

P- E o valor das fraudes era alto?

W- Um escândalo!

P- Foi-lhe cara a decisão de privatizar a Enersul, muito em função de sua história de luta política contra uma empresa de energia elétrica privada aqui em Campo Grande, que inclusive foi uma bandeira política sua na década de 50? Havia alternativa?

W- Eu nunca tomaria essa decisão por mim mesmo. Fui forçado a fazer isso. Primeiro, pela política nacional que caminhou toda nesse sentido, da privatização das empresas públicas. Segundo, pelas dificuldades invencíveis do tesouro estadual. Eu não poderia fazer face aos pagamentos de despesas sem tomar providências heroicas. E uma delas teria que ser esta. Eu me rendi a essas duas forças ; não tive como deixar de privatizar a  Enersul, que é uma empresa na qual eu confiava muito, porque representava um dos maiores esforços do nosso estado.

P- Muitos dizem que em longo prazo haverá a estatização novamente dessas empresas. O que sr. acha disso?

W- Quem conhece a dinâmica dos movimentos sociais sabe muito bem que isso acontece. Não estou vaticinando isso. Mas não poderemos nunca ficar inermes e adstritos a possíveis erros cometidos  por dificuldades de circunstâncias. Temos que ter valor, temos que ter força, temos que ter idealismo, para  não ficarmos perdidos no caminho. A história se move por caminhos estranhos, não é?

P- O que o sr. acha desse processo de privatização empreendido pelo governo Fernando Henrique?

W- Eu tenho procurado entender bem, mas tenho dificuldade de fazer uma avaliação lúcida do assunto. Na verdade, as empresas públicas criaram uma política errada e cheia de privilégios para seus próprios funcionários. Por outro lado, estamos vendo que todos os recursos auferidos pelo tesouro nacional são insuficientes para atender os compromissos  da União e, sobretudo, os apetites do capital internacional. Veja que as nossas reservas, que pareciam grandes e fortes para fazer frente as eventualidades e dificuldades que porventura aparecessem, se pulverizaram rapidamente. Derreteram no processo do capital que hoje se manipula através de computadores  e que  hoje estão no Brasil , amanhã estão nas Filipinas, em Taiwan , como num passe de mágica. Então, dentro de uma conjuntura  de um mundo como esses você não pode achar  que está seguro. Não se tem a certeza de que transformando suas empresas em recursos, esses recursos estarão inteiramente seguros e não se dissipem rapidamente dentro desse mundo louco que nós estamos vivendo.

P- Voltando agora um pouco a uma questão local. Por que o seu governo não conseguiu  aumentar a arrecadação de ICMS como tem sido aumentado agora?

W- Eu tenho refletido e conversado sobre esse assunto com alguns ex-auxiliares. Em primeiro lugar nós estávamos num processo de melhoria da secretaria de finanças. E este processo prossegue com recursos do Banco Mundial. A cada dia o aparelho arrecadador está melhor. Em segundo lugar nós estávamos num processo de esvaziamento político e fomos nos perdendo nesse esvaziamento. Fomos perdendo força perante a sociedade. E essa força que íamos perdendo representavam também os recursos que deixavam de entrar para o tesouro que se reprimiam e que aguardavam o período da sucessão para, então, serem levados ao tesouro. Isso ocorreu bastante. Em terceiro lugar, benefícios que o tesouro estava concedendo a produtores com o objetivo de estimular o aumento da produção passaram a deixar de ser concedidos. E há uma política crescente  no sentido de aumentar esse esvaziamento das isenções.

P- Nesse sentido, a avaliação que se faz, inclusive por técnico da secretaria de finanças, é de que havia um conluio  entres setores da máquina arrecadadora com setores do mercado para sonegar e evadir os cofres públicos. O sr. acredita nessa hipótese?

W- Acredito. Acredito nisso. Recursos que deixaram de entrar para o meu governo e entraram no governo seguinte para fortalecer este e para desaprumar o meu governo. Também com objetivos de corrupção. Isso aconteceu. 

P- Dr. Wilson, uma pergunta de ordem política, apesar de o senhor já ter falado sobre isso, mas acho interessante voltar: quais as razões de fato que pesaram para que fosse indicado Ricardo Bacha para ser seu sucesso, uma pessoa de qualidade, mas politicamente inviável?

W- Nós tínhamos uma aliança com o PSDB. Ricardo era um homem do PSDB. Ele era qualificado, sob o ponto de vista moral e de eficiência profissional para ocupar o posto. Na impossibilidade de contarmos com o Lúdio, que era candidato do PSDB - e que de moto próprio desistiu de ser candidato alegando motivo de doença -, eu achei que devíamos atender as colocações que sempre me eram feitas no estado pelos amigos, especialmente no interior que eu tinha muito presente essas solicitações para renovar a máquina política.

P- O Sr. então decidiu correr um risco político?

W- Decidi correr um risco político. Houve ai um momento, na convenção do PMDB que se pediu o nome do Juvêncio. Juvêncio era um bom nome eleitoralmente. Sem dúvida melhor do que o do Bacha pra ganhar a eleição, mas eu achava que nós teríamos dificuldades em convencer o PSDB  em aceitar o nome do Juvêncio. O PSDB queria a cabeça de chapa. Então, não tínhamos alternativa.

P- Apesar de que o Bacha era do PSDB por uma circunstâncias muito específica. Ele era mais vinculado ao sr, mais pessoalmente do que partidariamente ao PSDB.

W- Ele era vinculado a mim pelos laços da administração, não é? E pessoais também. Mas eu não desejava fazer do Bacha um governador que seguisse a minha panela (risos). Que fosse reeditar os meus programas de governo . Primeiro porque os discursos dele eram feitos por ele, os técnicos que ele contratou eram próprios e ele fez a campanha dele como quis. Eu nem participei dessa campanha.

P- Teve vontade de participar?

W- Achei que não devia. Nas circunstâncias em que vivíamos não tinha também como ajudá-lo. Sentia que não poderia ajudá-lo. Eu politicamente estava muito desgastado. Não ajudaria, Como já não tinha participado da campanha do André. Este sim um candidato que fui eu indiquei. Decisão pessoal.

P- Vou fazer uma última pergunta: terminado esse governo, ao mesmo tempo em que o Sr. decidiu não ser candidato à reeleição, não candidatar-se ao senado, o sr. decidiu também encerrar a carreira política?

W- Eu posso dizer que continuo sempre interessado pelos problemas que dizem respeito ao nosso estado. Acho que nunca nós encerramos a carreira política. Somos sempre políticos. Estamos ainda agora tratando de política. Estamos revendo posições, avaliando fatos, fazendo juízos e tudo isso é um trabalho político. Estou recebendo companheiros  do nosso e de outros partidos, conversando, que é também um trabalho político. Eu acho que não posso recuar da minha posição e de manter até o ultimo suspiro a obrigação de tratar dos interesses que dizem respeito ao crescimento de nossa terra.

P– O sr. pensa em candidatar-se a algum cargo?

W- Não penso. Não cogito. Mas quero tratar de assuntos políticos, quero que a minha experiência possa ajudar um pouco ainda mais o nosso estado. 
   
(Continua...)



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