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A arte de ser um masoquista inútil

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Estou tentando escrever um livreto de poesias. Estou sofrendo demais (risos). Trata-se do feito literário mais difícil, complexo e extenuante que já tentei colocar em prática. A prosa extensa (crônicas e contos) é mais fácil (eufemismo: é difícil porque a concisão e a economia de palavras exasperam). Mas o texto em prosa permite algumas facilidades porque são episódios perdoáveis.

O romance (estou escrevendo um há vários anos) é um pouco diferente: exige planejamento e arquitetura, algo que tem me levado a reescrever ao exagero, o que demonstra que estou psicologicamente inseguro para concluir o trabalho. 

Por isso, tenho protelado e abandonado o texto, voltando a ele, mexendo e remexendo num catatau de trezentas páginas, reconhecendo, enfim, minha falta de disposição física e mental para a empreitada. 

Mas sigo adiante. Vou deixar a “coisa” para o desespero dos herdeiros.

Textos jornalísticos são mais fáceis porque imediatistas, mesmo quando usamos certos recursos literários. 

Mesmo assim não existe sofrimento maior do que a luta pelas melhores palavras, a adjetivação certa, o advérbio adequado, pontos e vírgulas precisos, esses recursos que dão a cadência rítmica ao texto, num jogo em que sempre perdemos e nunca ficamos satisfeitos. 

O poema é diferente. É preciso um inimaginável senso de coesão e síntese, ritmo e sonoridade, movimento e precisão, o que faz dessa arte uma coisa para poucos, mesmo sabendo que muita gente “comete” seus versinhos aqui e ali, num volume assombroso, pelo que tenho visto.

Tem gente que acredita que desabafos íntimos, filosofices baratas, lavação de roupa suja em público, pode ser vertido para a poética. Por isso, existe tanta gente publicando “poesia” na mídia, lançando livros “inspirados”, achando-se um verdadeiro vate no meio da plebe ignara. 

Mesmo sabendo que tudo serve à poesia (desabafos, sofrimentos, elucubrações mentais etc), o problema permanece: como fazer disso uma arte? Como depurar, escovar, lapidar e talhar algo que possa ser ao mesmo tempo tudo e nada, dizer muito com pouco, desenhar estrelas com a imaginação, imaginar um tempo e um espaço que não existem, a não ser nas próprias palavras que redimem e edificam o verso? 

Não sei. Talvez sendo santo ou louco, mas insisto na tese de que poesia é para um número reduzido de pessoas, dentre as quais, sinceramente, cada vez mais mais acho que não faço parte. 

Mesmo assim, insisto, vou escrevendo no espanto, anotando insights, achando que uma hora a máquina de fazer palavras engrene e tudo comece a funcionar.

Por isso, dentre os escritores os poetas são os mais valorizados entre os próprios escritores, porque sabemos que esses conseguiram atingir o cume da lavratura da palavra no verso cavo das sensações estéticas. 

Claro: há poetas e poetas. A maioria – repito - não consegue chegar lá. Mas os grandes mestres, ah, esses transformam a cultura naquilo que possui de mais essencial: a revelação do espírito universal, o manejo da língua nos pontos cruciais que dão a fundamentação àquilo somos e o que estamos fazendo aqui. 

Dizem que poesia é uma arte intraduzível porque é a mais cara expressão de uma língua nacional, mas mesmo assim sempre acho que há traduções que nos indicam a existência de outras noções de mundo que não seja aquela exclusivamente nossa.

A poesia forma suas famílias e suas patotas. Há quem prefira um e outro; goste mais de um e de outro; defenda esse ou aquele. Mas é nesse processo de formação de gosto, de preferências, de identificação e similitude que nos definimos como indivíduos estéticos e culturais.

Vou em frente...



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