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Pedro Mattar: Pequenos trechos

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 Tem duas coisas que eu não gosto em conversa de velho. Uma delas é que toda conversa acaba por falar de doença. A outra é aquela história de mencionar “no meu tempo” as coisas eram assim e assado. 

Nada contra os fatos que aconteceram antes e podem até ser aproveitados como experiência de vida, mas enche o saco pela repetição e chega uma hora que “no meu tempo” dá a impressão que o cara que diz isso já morreu e quem está falando é uma entidade que permanece só pra ensinar a gente que, no tempo dele, era de outro jeito.

Envelhecer na forma de pensar é pior que a decadência do corpo. O corpo é apenas um transporte para levar e trazer nosso pensamento de um lugar a outro.  

Outro dia um amigo me disse que se pudesse voltar no tempo faria tudo diferente. Falar, depois de ter feito as cagadas e numa posição que permite enxergar melhor, é fácil. 

Ele só percebeu isso agora, um tipo de percepção atrasada que é o que mais acontece com a maioria dos idiotas como eu e, talvez, você. Felicidade precisa de atenção pra ser sentida, jamais depois que perdeu a validade. 

O fato é que passamos por ela, sempre desatentos, olhando invariavelmente mais adiante e esquecendo de desfrutar o trecho presente.  Essa história de valorizar o passado, que os velhos insistem, acaba sendo uma forma de pedir desculpas pelo distração de não curtir o que merecia ter sido na hora certa. 

Quando ouço mencionar “no meu tempo”, me ocorre que é mais um arrependido, como eu, tentando amenizar sua frustração pelos bons momentos perdidos.  Ocorre que o futuro é igual horizonte, ele se afasta na mesma medida em que nos aproximamos.

Hoje presto mais atenção nas coisas boas e minimizo as ruins. Tento não perder o foco positivo e estou deixando de perseguir defeitos que existem em tudo e em todos. 

Dá mais trabalho, no início, mas depois de um tempo acaba sendo natural, isso se incorpora e passa a fazer parte de você. Não torna sua felicidade uma coisa automática, mas ativa a sensibilidade aos pequenos trechos que merecem ser valorizados.

Há um preceito budista de que a felicidade só ocorre quando o indivíduo consegue um estágio mental de absoluta abstração.  

Ou seja, quando sua mente se desvencilha das pressões conscientes e inconscientes que atuam sobre você. É o tal Nirvana que elimina as cargas mentais e permite que você entre num estágio de branco absoluto.  É igual uma fuga para um patamar isolado e privilegiado no alto da sua cabeça.

A tese da felicidade também passa pela alienação. Tem uns caras que afirmam que felicidade só alcança os verdadeiros alienados, cidadãos absolutamente despreocupados com qualquer questão, seja social, política ou financeira. Há uma lógica nisso, afinal a maioria de nós não desliga a consciência sobre o que se passa no mundo.

Mesmo que sua vida esteja indo de vento em popa, é quase impossível dissociar sua consciência da realidade. Crianças morrem e passam fome em todas as partes do mundo, seres humanos são massacrados por tiranias, guerras e interesses políticos e tudo isso povoa o nosso cotidiano. 

Enchentes, terremotos e desabamentos mostram que a tragédia é uma inseparável parceira da humanidade. Ser feliz num cenário desses sem se alienar é uma tarefa difícil. 

*Escritor, publicitário e “jovem”.



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