Antonio Gramsci, intelectual comunista italiano homônimo de uma das vozes na cabeça de Olavo de Carvalho, criou o conceito de hegemonia p...

Celso Rocha de Barros: Ideias sobre hegemonia

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Antonio Gramsci, intelectual comunista italiano homônimo de uma das vozes na cabeça de Olavo de Carvalho, criou o conceito de hegemonia para descrever o processo de liderança de uma sociedade por uma classe que lhe propõe um projeto de progresso, um conjunto de valores e regras que refletem uma visão do que seria uma vida desejável, todo um modo de viver que passe pelo teste da prática.

A hegemonia capitalista, por exemplo, se garante não só pelo progresso material que o capitalismo proporciona, mas também pelos valores liberais e pelas instituições que o refletem, pela capacidade de o liberalismo dialogar com os valores já existentes na sociedade, de incorporar ideias de projetos desafiantes e de inspirar nas pessoas uma visão do que elas gostariam de ser e de como gostariam de viver.

Escrevendo nos anos 1930, durante a maior crise de hegemonia da história do capitalismo, Gramsci acreditava que o socialismo, uma "heresia da religião da liberdade", também seria capaz de oferecer progresso econômico, já sem os desequilíbrios e as crises do capitalismo; e propôs como tarefa para os socialistas a criação de valores e regras que fossem, ainda mais que os capitalistas, capazes de dialogar com as tradições, incorporar visões alternativas e montar alianças as mais inclusivas possíveis. Nada disso passou no teste da prática.

No pós-guerra, o capitalismo reconstruiu sua hegemonia gloriosamente. Iniciou-se um novo ciclo de prosperidade nas sociedades de mercado. Os trabalhadores foram reconquistados para o capitalismo com políticas sociais e keynesianismo. Finalmente, o socialismo real colapsou, incapaz de competir com o crescimento do Ocidente (não, não foi o Reagan).

No processo de globalização que se seguiu, o centro do capitalismo industrial passou a ser a China comunista. Se o adversário começar a competir nos seus termos, você ganhou o jogo "hegemonia" (mas pode perder a primazia internacional para os chineses, ou as eleições para partidos de esquerda moderados).

Há uma crise de hegemonia global desde 2008. Até agora, como documentou Daniel Drezner em "The System Worked", as instituições foram capazes de impedir um retorno generalizado ao protecionismo, que em 1929 fez a crise financeira ter consequências muito piores. Mas a eleição de Trump pode destruir esses diques. A democracia não colapsou ao redor do mundo, como nos anos 30, mas claramente vai mal em países pobres e ricos. A explosão é, até agora, muito mais contida, mas os explosivos parecer ser os mesmos.

Isso é crise de hegemonia, como a que o comunista Gramsci descreveu na prisão de Mussolini. Aqui, como lá fora, precisamos ter boas ideias, inclusivas, pragmáticas e inspiradoras, antes que venha a guerra.

PS: Enquanto isso, os intelectuais que informam a nova direita brasileira acham que Gramsci propunha infiltrar as instituições até chegar ao mais próximo possível do topo, após ter forçado o outro lado a aceitar seus valores e suas políticas e desarmado inteiramente o adversário, de modo que fosse possível derrubá-lo sem violência. Ou seja, para a nova direita brasileira, hegemonia é o impeachment da Dilma.

Doutor em sociologia pela Universidade de Oxford, com tese sobre as desigualdades sociais após o colapso de regimes socialistas no Leste Europeu. É analista do Banco Centra



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