Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo: Enquanto o mundo se engalfinha com "pós-verdade" e suas concorrentes, a t...

Sérgio Rodrigues: palavra do ano é Falência

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Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo:

Enquanto o mundo se engalfinha com "pós-verdade" e suas concorrentes, a tarefa de eleger a palavra do ano no Brasil nos lança num buraco mais fundo. Não que o país seja imune ao novo ambiente digital de descompromisso da versão com os fatos. Acontece que nosso surto mais agudo de pós-verdade ocorreu há dois anos, quando Dilma Rousseff venceu a eleição bloqueando com tapumes a visão do abismo.

Agora que despencamos, debater a pós-verdade soa (quase) como frescura. Questões de sobrevivência material sempre dão um jeito de ganhar prioridade.

Às vezes a palavra que define uma época ou um momento é discreta. Parece um paradoxo, mas não: justamente por ser onipresente é que ela tenta ficar invisível, fundida à paisagem. Enquanto outros termos são gritados alternadamente em megafones, o vocábulo-síntese é o ruído de fundo que nunca cessa.

O escritor americano David Foster Wallace contou certa vez a fábula dos peixinhos jovens que, indagados sobre como está a água, se entreolham confusos: "Água? O que é água?". É por isso que a palavra de 2016 no Brasil é "falência", do latim tardio "fallentia", parente da falha e do falecimento.

Enquanto a falência generalizada, polissêmica, ia roendo as fundações da rotina com o silêncio daqueles cupins parrudos do filme "Aquarius", outras palavras e expressões se candidatavam ao título de mais gritadas do ano: "golpe"/"impeachment", "fora, Dilma"/"fora, Temer", "coxinhas"/"petralhas". Todas com pontos de exclamação embutidos.

Como se vê, elas formam pares. Metade do país gritava uma e ouvia a outra de volta, como um eco distorcido. O problema é que ninguém encontra a palavra do ano de uma língua ou país conversando com metade dos falantes. É preciso ir além, buscar a transcendência. Ou ficar aquém, cavucando o solo comum.

Num caso e no outro, encontramos "falência".

O sentido mais óbvio da palavra é econômico: o de quebra, bancarrota, insolvência. O país faliu. Os Estados faliram. Os municípios estão falindo. Pessoas jurídicas e físicas se deparam em peso com a possibilidade da insolvência –em muitos casos concretizada. Os pedidos de recuperação judicial bateram recorde. O desemprego atingiu 12 milhões de brasileiros. Em todas as regiões, não há galeria ou rua comercial em que o número de lojas fechadas deixe de chamar a atenção de quem, dinheirinho contado, ainda se arrisca por lá.

Ocorre que "falência" tem outros sentidos. A tarefa histórica de fazer frente à derrocada econômica de um Estado morbidamente obeso, perdulário, ineficiente e ladrão coube a um Executivo sem legitimidade, sitiado por acusações graves e secundado por um Legislativo e um Judiciário que são parte do mesmo modelo falido.

É essa falência mais ampla –política, institucional, moral– que tira a razão de todos. Queira-se ou não, condenar a fixação de um teto para os gastos públicos é fazer bilu-bilu no Estado morbidamente obeso, perdulário, ineficiente e ladrão. Já quem aplaude a PEC aprovada terça-feira (13) corre o risco de pôr na cabeça o chapéu cônico de burro por acreditar que, nas mãos das quadrilhas que nos governam, ela será usada para construir um país mais responsável e não para aguçar a perversidade social dos privilégios de sempre.

Mas 2017 está aí mesmo. A falência só é total quando corrói até mesmo a teimosia.

Jornalista e escritor, publicou "Viva a língua brasileira!" (Cia. das Letras), em 2016. 


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