O moda agora é notícia falsa. Os puristas estão indignados. Não deviam. Há muito tempo isso acontece. Fatos verdadeiros são chatos. No fun...

Pós-verdade: como o atropelamento de um cachorro provocou uma revolução

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O moda agora é notícia falsa. Os puristas estão indignados. Não deviam. Há muito tempo isso acontece. Fatos verdadeiros são chatos. No fundo, toda verdade é ficção. 

Imaginem: um presidente é assassinado. Os jornais espalham a bomba. Dias e dias acompanham
 a polícia na investigação do acontecimento. A imprensa publica detalhes da morte presidencial, suas possíveis motivações, enfim, tudo aquilo que o fato merece. 

Passam-se anos e livros ainda são escritos sobre o assunto. Novas versões, novas análises, interpretações variadas, repercussões históricas etc. 

Até que um belo dia, um espírito de porco vivendo no sul da Albânia, faz um post no Facebook mostrando, com foto e tudo, que o referido presidente está vivo. Em poucos minutos, milhões compartilham a informação. 

A avalanche provocada pela notícia (totalmente falsa) não só coloca em dúvida tudo o que foi escrito sobre o tema, como estabelece uma nova "verdade" sobre ele. Pós-verdade. 

Mesmo que a falsidade da notícia seja comprovada dias depois, não adianta, sempre tem alguém que não acredita e guarda um sentimento rançoso de logro da mídia maldita no peito. 

Aceita a tese da teoria conspiratória e passa a inventar um desdobramento sobre ele em seu cotidiano. Pós-verdade. É assim que se constrói partidos políticos, funda-se uma igreja ou organiza-se uma seita de fanáticos.

Todo jornalista deve ter ouvido alguma vez na vida a preciosa lição de que qualquer fato pode se tornar notícia no alto de uma página. 

O atropelamento de um cachorro é a mais clássica. Aparentemente, um assunto banal. Mas pode não ser. O cachorro podia estar doente. Essa doença podia ser contagiosa. O contágio podia começar a matar pessoas. A saúde pública, então, estaria sendo negligente. A negligência podia ter a ver com corrupção. E assim a coisa vai embora...

Agora, façam essa viagem na maionese comigo: um importante membro do Ministério Público Federal, num domingo ensolarado, está passeando com seu buldogue francês num condomínio fechado na capital do País.

Uma dondoca bêbada atravessa a rua em alta velocidade com seu carrão e mata o cãozinho. Inicia-se uma discussão dramática. A mulher minimiza o fato e grita com o dono do animal: "diz pra mim quanto custa essa bosta que compro outro pra você!".

O cara não se conforma. Manda investigar a mulher. Descobre que ela é casada com um empreiteiro. Manda investigar o empreiteiro. Descobre que ele está metido com dezenas de deputados. Aprofunda a investigação e abre o inquérito na Polícia Federal. Pronto: inicia-se a Operação Charlie (nome do buldogue). 

Mais alguns meses, o escândalo torna-se nacional e internacional. A República treme. O povo vai para as ruas, cai o presidente, o senado e a câmara dos deputados. Inicia-se um processo revolucionário. Os militares tomam o poder. A esquerda não aceita. Começa a guerra civil. 

Pergunta-se: qual o verdadeiro fato dessa história? 




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