E ssa crônica foi escrita em 2014 e enviada para o saudoso jornalista Alexandre Imparatto, que nunca a recebeu por uma falha na internet...

Dante Filho: Onde bimbalham os sinos

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Essa crônica foi escrita em 2014 e enviada para o saudoso jornalista Alexandre Imparatto, que nunca a recebeu por uma falha na internet. Depois, no ano seguinte, foi  publicada originalmente no jornal. O Estado de Mato Grosso do Sul. 


Era véspera de natal. O dia amanhecera nublado. Uma chuvinha fina fustigava a janela do quarto. Ele aproveitou para ficar um pouco mais na cama, olhando para o teto, pensando em nada, imaginando o que faria nas próximas 24 horas. 

Gostava de ficar deitado e preparar um roteiro antecipado das coisas que faria nas dobras dos movimentos do tempo e de si mesmo. Nessa projeção imaginária ele conseguia encontrar um pouco de alívio e satisfação com sua existência tênue e destituída de emoção. 

Era viúvo, os filhos viviam na Europa, não havia parentes por perto, os raros amigos estavam viajando, e, no fim das contas, aquele dia seria como outro qualquer, repleto de solidão, filminhos na TV, telefonemas rotineiros etc e tal. 

Após o almoço daria a costumeira volta ao quarteirão, e, se o tempo permitisse e o apetite das ruas fosse despertado, sairia andando sem rumo, olhando indiferente para as pessoas fazendo compras de última hora.

Imaginou essa caminhada com prazer. Ver a correria; ver as pessoas caminhando na direção de compromissos familiares; ver aqueles personagens ávidos por festas, embalados por músicas natalinas. 

Talvez fosse esse trepidar das coisas que fazia com que ele se sentisse diferente naquele mundo que a cada dia tornava-se mais estranho. 

Não que houvesse um sentimento de inadaptação social, mesmo porque tivera no passado participação direta e ativa naquele frenesi emotivo. Era, na verdade, uma desistência, uma decepção com as coisas mundanas, um desprezo pelas pessoas que acreditam que comprando presentinhos podiam salvar-se a si mesmas.

Só que agora, vivendo isolado, cansado e com raiva, reduzindo tudo ao pequeno apartamento em que morava no centro da cidade, é que percebeu que sua vida começara a mudar, que as coisas pareciam nubladas e que, todo final de ano, tudo parecia sem sentido, como se ele estivesse se aproximando do fim, deixando apenas traços de memória espalhados pelas frinchas do assoalho que depois seriam varridos pelo tempo.

Imaginava-se andando pelas ruas iluminadas no fim da tarde, com os olhos fixos nos buracos das calçadas, esforçando-se para que uma centelha de esperança pudesse o envolver ao dobrar a próxima esquina. Esperava que um acontecimento surpreendente mudasse totalmente o roteiro de sua vida. Para pior ou melhor, não importava. 

Como isso era praticamente impossível de acontecer (o imprevisível também tornou-se uma impossibilidade), o aborrecimento crônico era um sinal inequívoco de que ele estava entregando os pontos, que tudo lhe parecia insuportável, e que talvez não vivesse o suficiente para os festejos natalinos do próximo ano. Ele não acreditava que pudesse fazer falta a alguém.

Assim, depois de vislumbrar as próximas horas, esperando o bimbalhar dos sinos, o foguetório tradicional, as comemorações na TV, os personagens costumeiros falando as mesmas coisas, os famosos obituários de gente famosa, os fatos marcantes do ano, enfim, o cacarejar rumoroso de sempre, deu um sorriso sombrio, dobrou-se na cama e mergulhou num cochilo fugaz. Dormiu, sonhou e acordou abruptamente.

Horas depois, comeu e bebeu o de todos os dias, esperando o tempo passar. Sentia-se inconformado, mas havia somente uma coisa que verdadeiramente o irritava: havia perdido a capacidade de rir de si próprio.

Olhou pela janela e viu o atropelamento de um sujeito vestido de Papai Noel. Houve correria e sirene de ambulância. Ele assistiu à cena com indiferença pétrea. Talvez isso fosse um sinal misterioso. Algo diferente poderia vir a acontecer, pensou, lembrando de uma cigana que conheceu um dia no deserto de Orus. 

Nem tudo, afinal, estava perdido. 



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