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Alexsandro Nogueira: Dickens e o natal

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Provavelmente nenhum texto traduz tão bem o espírito das festas natalinas quanto “Um Cântico de Natal” do escritor e romancista inglês Charles Dickens.

Mas o fato que precede a obra é tão realista quanto o valor sentimental que o enredo do livro impôs às tradições festivas do Ocidente a partir da segunda metade do século XIX.

Era 1843. Aos 31 anos, Dickens um autor famoso nos países anglófonos, vivia um período inexpressivo e conturbado na vida profissional. 

Longe dos holofotes, deprimido e endividado, viajou para cumprir um compromisso beneficente na cidade de Manchester, pulmão industrial do Reino Unido.

Sabe-se que no interior da Inglaterra, distante da vida intelectual londrina e esquecido pelo público, Dickens percebeu um mundo sem o filtro da fantasia aristocrata inglesa. Naquele momento, uma sociedade miserável despia-se ao olhar sensível do escritor, mostrando uma desigualdade social e uma taxa de mortalidade infantil em que 57% das crianças morriam antes de completar cinco anos.

A experiência em Manchester mexeu com seus sentimentos e o mundo imaginário do autor não seria mais o mesmo. Felizmente, o caminho escolhido pelo escritor não foi a submersão, mas a iniciativa de tocar a vida pra frente com um novo e ambicioso projeto.

De volta a Londres, Dickens anunciou  em 36 dias a novela “Um Cântico de Natal”, uma fábula que narra a crise existencial de um miserável judeu cheio de remorso. E do impacto da miséria em Manchester, o escritor emprestaria sua dor ao enredo. Nascia assim o velho Ebenezer Scrooge, o misantropo que resolve ajudar os pobres na véspera do Natal.

O livro foi um sucesso de público e crítica. Em poucos dias, esgotava os primeiros seis mil exemplares nas livrarias da Grã Bretanha.

Felizmente não é preciso narrar a história toda porque a obra, em prestígio, só perde para as versões heroicas da Bíblia. Exceto para dizer que, ao percebermos a pequenez de Scrooge nos deparamos com nossos sentimentos mais ambivalentes: amor e ódio; vingança e perdão;  bondade e maldade.

Curiosamente, lembrei-me dessa história porque o período que antecede as festas de fim de ano geralmente é marcado por declarações afetuosas, crises existenciais e desejo de mudança.

Nesses dias em que milhões de famílias encontram-se para celebrar o Natal o clima emocional está à flor da pele. Uma coisa  meio surrealista, mas com certa lógica: afinal, ninguém é completamente feliz. Somos seres incomodados pelas nossas ambições e frustrados pela nossa incapacidade em obtê-las.

Mas Divago. Meu assunto aqui é outro. Na verdade, estou mais interessado em celebrar a obra de Dickens e a maneira como ele apresentou o espírito natalino a sociedade moderna: famílias reunidas à mesa, trocas afetuosas de presentes e crianças em volta da árvore.

Mais: o mérito do escritor não esteve em erguer uma novela literariamente perfeita.  Nem precisava. Dickens reinventou o natal. Uma data sem qualquer afirmação bíblica e que, mesmo no calendário religioso, não tinha a mesma importância ritual da Páscoa.

Pelo contrário, apesar de ter sido determinado pelo papa Júlio 1º, no século IV, como a data do nascimento de Jesus, o dia 25 era, muitas vezes, o termo de um período vagamente pagão, marcado pelo excesso e pela libertinagem -- seguindo, aliás, o espírito das festas de Saturnália, o antecedente histórico do natal cristão.

Dickens "secularizou" e "humanizou" o natal. Apresentou a data como o momento em que os homens de boa vontade se reúnem para celebrar a irmandade da espécie e pensar nos menos afortunados.

É o mesmo sentimento de amor e generosidade que o Reino Unido e outros países de maioria protestante redescobriram então no natal, não mais como uma festa católica, mas um evento fraterno.

*jornalista/Campo Grande-MS



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