Acompanho com interesse profissional os temas vinculados à educação no País. A rigor, nunca acreditei no discurso de que a política educ...

A educação pela pedra

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Acompanho com interesse profissional os temas vinculados à educação no País. A rigor, nunca acreditei no discurso de que a política educacional possa resolver nossos problemas. Por formação pessoal sou adepto do autodidatismo. Nada substitui a voracidade do interesse próprio em saber que nada sabe. Nada modula mais o pensamento do que a voragem que instiga nossa curiosidade perante os mistérios insondáveis do universo. 

Mesmo assim, tudo é válido e necessário.

O ensino fundamental é importante porque inicia crianças nos aprendizados básicos da vida. O ensino médio, por sua vez, fornece régua e compasso a adolescentes e jovens para que eles possam fazer escolhas orientadas sobre o que vão fazer na vida adulta. E a universidade, enfim, consolida a formação filosófica, estética e profissional e, de certa maneira, garante a evolução da espécie. 

Dito assim, é tudo muito simples. A escala e a escada social seguem em frente como se não houvesse obstáculos para a marcha contínua da humanidade. 

Mas as pessoas teimam em ser complicadas. Cada ser humano tem características próprias, temperamentos contraditórios, genéticas diferentes, estruturas emocionais diversas, que terminam transformando a educação numa plataforma (muitas vezes precária) que, no frigir dos avos, não combina com a lógica da massificação. 

Quando se estabelece métodos gerais, grade curricular relativamente homogênea, sistemas de avaliação democratizados, matérias delimitadas por uma tradição que remonta ao século XVIII, graus variados de graduação, modelos que privilegiam o esforço da repetição (decoreba), dentro de uma sociedade profundamente desigual, certamente estar-se-á reproduzindo essa desigualdade em larga escala e de maneira incontrolável. 

Não há muito o que se fazer.

Os mais adaptativos vão sobreviver. Aqueles "menos enquadrados" vão ficar à margem, formando um imenso contingente de loser, que se transformarão no exército de cupins do serviço público, da estrutura de benefícios sociais,  afastados das oportunidades de consumo, dinheiro e poder que formam a base de nossa sociedade moderna. 

Nesse contexto, existem os criativos, gente "desenquadrada", que terminam sendo absorvidos pelo sistema porque fornecem, em muitos casos (não em todos), material excitante que fomentam a "industria da genialidade" mistificadora. 

O problema reside no fato de que o modelo que desejamos é o da universalização das rendas públicas e do igualitarismo de oportunidades a qualquer custo. 

A conta nunca vai fechar porque os esforços, o ponto de partida e os componentes ideológicos (coloco religião e os costumes no meio) são elementos multiplicadores da diversidade e nunca da unidade. 

Vejo meninas e meninas revoltados, fechando escolas no braço, com as mudanças propostas do Governo em relação ao ensino médio. Vejo professores fazendo proselitismo sobre a PEC do Teto, mentindo na cara-dura. Vejo denúncias de fraudes nos exames do Enem. Vejo críticas contundentes de lado a lado sobre a proposta da Escola Sem Partido. 

Nada disso altera um milímetro o processo educacional do País. São factóides diversionistas. Os professores e pais dos alunos sabem disso. 

No fundo, no fundo, todos sabem o que faz mesmo a diferença: é o impacto do debate e do esforço coletivos sobre iniciativas individuais que, como na fricção das pedras, geram fagulhas que iluminam a vida e fazem diferença no mundo. 

O resto é discurso e cuspe. 


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