Em meados do século passado , quando eu ainda era um adolescente romântico, metido a escrever poemas e letras de música, quase toda minha ...

Alexsandro Nogueira: Tempo perdido

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Em meados do século passado, quando eu ainda era um adolescente romântico, metido a escrever poemas e letras de música, quase toda minha geração venerava o compositor Renato Russo. Ele era o cara. Compôs Faroeste Caboclo, Índios, Por Enquanto e tantas outras baladinhas que me causavam inveja. Mas uma especial mexia comigo: Andréia Dória.

Toda vez que eu parava pra ouvir essa música, imaginava tocando seus acordes e uma multidão cantando o coro, num desses festivais transmitidos pela Globo. 

Vivi algum tempo atormentado pelo desejo de ser um astro do rock, até perceber que a minha capacidade como compositor e instrumentista se resumia ao meu universo particular.

Vinte e cinco anos, algumas rugas e cabelos brancos depois, ouço essa música novamente. 

Enfim, tive a chance de encarar toda aquela minha inveja reprimida e reviver o passado. Mas meu coração não palpitou. Percebi então que meu gosto há tempos pertence a outros estilos. E da minha discografia de adolescência, só os Beatles ainda tem minha admiração.

Revisitei a discografia da Legião Urbana com vontade de enaltecer o talento de Renato Russo, mas não encontrei nada em suas composições que justifique uma veneração perpétua ou a alcunha de gênio.

Digo isso ouvindo a obra de Antonio Carlos Jobim, com quem podemos balizar qualquer compositor brasileiro com pretensão a gênio e colocar cada um em suas verdadeiras proporções.

O trabalho musical de Renato Russo não é ruim. É trivial. Um rock convencional que por um período serviu como trilha sonora para a efervescência estudantil que sacudiu o Brasil e rompeu conceitos comportamentais arcaicos.

Para essas gerações, Renato Russo foi um mito aparecendo ao mundo com um visual largado de quem dava pouca importância às coisas materiais e valoriza todo tipo de relação afetiva. 

Tudo balela que encantou uma garotada inocente disposta a gritar para o mundo como "herdeiros da virtude que perdemos".

Nesses últimos 25 anos, muita coisa mudou. Não tenho mais 20 anos, nem toco em banda. Também percebi que Renato Russo foi um ícone do rock nacional, cuja rebeldia comportamental nunca produziu um efeito prático. Amadureci.



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