Texto originalmente publicado no jornal Correio do Estado: Era muito jovem, saído da adolescência, mas as suas perguntas logo me le...

Abílio de Barros: A um jovem envergonhado

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Texto originalmente publicado no jornal Correio do Estado:

Era muito jovem, saído da adolescência, mas as suas perguntas logo me levaram à percepção da sua inteligência e invulgar maturidade. Pareceu-me um modelo bem definido de nossa juventude, às vezes revoltada, mas principalmente desiludida, encabulada e envergonhada com nossos políticos. 

Ao ouvi-lo deixei-me levar pelos caminhos de seus interesses e preocupações. Dizia-me: por que política? Por que temos que ser governados por essa gente incompetente, desonesta? Para que governo?

Entendi o desabafo, posição hoje dominante neste Brasil de Glórias Mil. Mas logo chegamos ao elementar acordo de que só sabemos viver governados. Nunca existiu uma reunião de homens em que não houvesse chefia. 

Mesmo as tribos indígenas, as mais primitivas, da idade da pedra, faziam a eleição de um cacique. Somos animais gregários, só sabemos viver juntos, a solidão é uma ficção poética, mas a vida juntos exige liderança e conjugação de interesses, exige política. Essa exigência é um tributo que pagamos à racionalidade. 

Os outros animais, ditos irracionais, são guiados por conhecimentos inatos, já prontos, perfeitos que chamamos instintos. A racionalidade induz-nos a escolher, duvidar, decidir e, nesse caminho podemos chegar ao acerto ou erro. Os irracionais acompanham os instintos, não escolhem, não erram. Nós, os orgulhosos racionais, precisamos discutir, escolher, decidir e, muitas vezes erramos.

Filósofos, sociólogos e historiadores desde a antiguidade e ainda hoje discutem política sem um acordo totalmente aceito. A única unanimidade é de que entre racionais as divergências ou desacordos estarão sempre presentes. 

Dessa conclusão resultou os princípios da democracia em que se tenta fazer um governo do desacordo em que se elege uma oposição discordante para ajudar os governantes pela crítica e vigilância de seus atos. 

A democracia não é uma ideologia, não foi fruto de especulações metafísicas ou filosóficas, a democracia é um consenso fruto das experiências seculares da divergência entre os homens; é uma maneira muito sábia de governar em desacordo entre as partes. É a forma que melhor serve aos animais racionais que somos. 

Assim, uma hora somos governo outra hora oposição e, das duas formas, ajudamos a governar.

O risco da democracia é intrínseco a ela mesma e decorre do seu princípio fundamental que é o direito de divergir, de discordar que nos é dado pela racionalidade. Isto é, a garantia da liberdade de divergir é intrínseca à democracia e por ela garantida. Isso exige do animal racional uma desejada obediência às leis. Mas a racionalidade não nos faz santos, ao contrário, nos dá a liberdade de errar. 

Então, a democracia, apesar de sabiamente nos governar, não nos impede de manchá-la , destruí-la, corrompê-la, pois nós racionais, somos também, intrinsecamente, egoístas e, portanto, safados. Daí a necessidade da eterna vigilância.

A democracia não nos faz melhores e, às vezes parece querer premiar os nossos desacertos. Ela pode, às vezes, garantir a sua própria destruição. Isto é, protegidos pela liberdade como um direito, podemos dentro dessa garantia destruir a própria democracia.

Estamos fazendo isso com a corrupção institucionalizada. Estamos, por omissão, destruindo a nossa democracia. Estamos aceitando o roubo aos cofres públicos como um direito dos eleitos. Cinicamente ouço dizer que não existe políticos honestos. 

Não quero acreditar nisso e gostaria de ter capacidade para chamar essa juventude desiludida, encabulada e envergonhada para assumir seu papel de defensora da democracia. Corrupção é crime, é roubo e não há nenhuma lei que a proteja. Precisamos, urgentemente, da juventude para impedir que a corrupção destrua nossa democracia.

Escritor sul-mato-grossense



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