Publicado originalmente na Folha de S.Paulo na edição de hoje No meio do papanicolaou, meu ginecologista, casado há mais de 30 anos, m...

Tati Bernardi: Funcional

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Publicado originalmente na Folha de S.Paulo na edição de hoje


No meio do papanicolaou, meu ginecologista, casado há mais de 30 anos, me perguntou quando eu pararia com os romances frugais e teria um filho, uma família. Ele, me escavando por dentro, disse a seguinte e maravilhosa frase: "Tem que tomar cuidado pra não acabar sozinha". Saí de lá com uma receita de antidepressivo e uma aula sobre o que é ser funcional. Pessoas funcionais não "acabam sozinhas", ele disse.

No gastro, meses depois, aconteceu algo muito parecido. Eu queria todos os remédios do mundo para queimação, azia, refluxo, mas ele queria apenas saber o motivo de "uma moça bonita dessa idade não estar casada e com filhos". Eu expliquei que família é essa entidade que planeja "onde vamos passar o Ano Novo" com oito meses de antecedência e que tudo nessa frase me apavora.

Saí de lá com uma receita de antidepressivo e uma aula sobre o que é ser funcional. Pessoas funcionais não têm fobia de comemorar o ano novo em praias da moda com milhares de outras pessoas funcionais que, quase sempre, só conversam coisas meio tolas e da moda. Conversar coisas tolas, inclusive, faz um bem danado e, por isso, é umas das prioridades dos funcionais. O funcional tem como base fundante estar bem. Se você tem como base fundante estar mal, você não é um funcional.

Quando digo a qualquer psiquiatra que "não curto exatamente viajar" é como se eu apertasse o play de uma música chata, um hit de verão, com um único refrão que diz: au-au-au você não é funcional! Pessoas funcionais amam viajar, amam juntar uma turma enorme e viajar, amam praias lotadas, estradas e bares cheios. Amam festas de casamento e festas de Ano Novo e amam, sobretudo, casar e desejar "feliz Ano Novo" quando é aniversário de alguém.

Pensemos assim. Se eu olhasse agora, de cima do meu prédio, e visse um bando de gente, você estaria camuflado ali no meio da manada, com sua armadura de funcional, ou você seria um louco, na contramão, querendo entender sua angústia mesmo sabendo que ela só se chama angústia porque é justamente a parte que não entendemos?

Mas calma. Se você é um pouco triste, um pouco tremelica o peito e dá ânsia, um pouco "só tinha gente chata então fui embora", isso não é você, isso é a sua doença e um remédio pode te curar rapidamente.

Pra que ser você se você pode ser eles? Por que seus amigos odeiam o trabalho que escolheram, o cônjuge que escolheram, a vida que escolheram, mas seguem intactos, sem nenhuma olheira de neurose? Porque eles são funcionais. Porque eles, no fundo, nem odeiam nada, você é que acha. Você, que não é funcional, não cabe mais nesse mundo dos médicos formados pelo Família Tradição e Propriedade. Você precisa de remédio. Você precisa casar e ter filhos e trabalhar numa firma e planejar seu Ano Novo com oito meses de antecedência.

Olhe à sua volta, veja como são todos felizes caminhando com suas famílias em parques. Veja como conseguiram adquirir carros, casas, caixas para organizar tudo. O nome disso é ser funcional. Veja como trabalham como robôs e não se angustiam com o fato de serem robôs que trabalham como humanos. O nome disso, segundo os médicos formados pelo Tradição Família e Propriedade, é ser funcional. Que maravilha ter nascido normal, não é mesmo? Mas não se desespere, é só tomar um remédio e pronto. Você deixa de ser você e se torna o que há de melhor no mundo: mais um ser humano com lista de presentes na Camicado! É muita alegria! Corra agora a uma farmácia e adquira já a sua carteirinha do clube dos funcionais!

Escritora, redatora,roteirista de cinema e televisão e tem quatro livros publicados. 


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