Escrevi esse artigo em 2012 e achei que nunca mais ia precisar dele. Mesmo com alterações da lei eleitoral, reli na madrugada de ontem e ...

Com que voto eu vou...

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Escrevi esse artigo em 2012 e achei que nunca mais ia precisar dele. Mesmo com alterações da lei eleitoral, reli na madrugada de ontem e achei que ainda está valendo. O que vocês acham? 

Primeiro, vou começar pelo óbvio: o resultado eleitoral é uma construção coletiva, apesar de o voto ser individual.

É da soma geral das vontades que se chega a um denominador comum: os candidatos eleitos. Votar é fazer da solidão de um gesto a expressão da coletividade.

É da unicidade do voto que a representação da diversidade ganha espaço. No momento de apertar os botões na famosa cabine indevassável o ato tem apenas valor estatístico, embora saibamos que o conteúdo daquela escolha defina parcela de nossa cidadania. Isso pode parecer chavão, mas é um fato.

Segundo, outra obviedade: não importa que o eleitor seja o sujeito mais rico do País; seu voto, assim como todos os outros, tem o mesmo valor numérico.Muita gente chama isso de democracia eleitoral. Costumo relativizar. Se o eleitor tiver dinheiro e colocar na cabeça que o seu voto não é suficiente para atender aos seus desejos (ou interesses pessoais ou corporativos), basta que ele use seus recursos e outros meios para transformar e multiplicar sua escolha pessoal.

Assim, estabelece-se outro fato irrecorrível: a da multiplicação indireta da votação como expressão de poder. A isso se pode chamar plutocracia.

Quem leu “Política” de Aristóteles sabe disso. Ele narra centenas de casos de gente rica comprando votos dos pobres. Era assim que os endinheirados assumiam o poder em inúmeras cidades-estados na Grécia antiga.

Geralmente isso resultava em democracia oligárquica ou, em muitos casos, em tirania. O fato é que compra de votos já acontecia com certa desenvoltura há mais de 300 anos A.C.. Não mudamos muito de lá pra cá.

Enganam-se aqueles que acreditam na idéia patriótica da pureza do voto. Como discurso do bem, pode até funcionar, mas na prática os diabinhos de dúvidas saltitam sobre as nossas cabeças.

Nossas escolhas são sempre complexas. O voto é um matagal de emoções que se espraia numa pradaria poeirenta de razão e loucura.

Conheço gente que defendeu com unhas e dentes um determinado candidato numa determinada campanha e, no dia da eleição, por causa do pedido da namorada (uma moça linda e cheia de seduções), votou no adversário. Coisas da vida.

Digo sempre: o voto é um número, mas tem personalidade. Ele pode ser volúvel, corrupto, indiferente, inerte, ativo, entusiasmado, conveniente, e pode ser concedido a este ou aquele candidato como manifestação de protesto ou de gentileza, por ideologia ou pragmatismo, por simpatia ou por dívida moral ou pecuniária, mas não há dúvida de que o voto revela mais sobre o sujeito do que sonha nossa vã filosofia.

Existem vários tipos de voto. Existe o voto enrustido, o voto militante, o voto revoltado, o voto comprado, o voto de cabresto, o voto partidário, o voto distraído, o voto de traição, o voto de redenção. Todos eles são votos autênticos, mas no seu substrato indica o perfil psicológico do indivíduo na sociedade.

Tem o voto mauricinho (mamãe-me-pediu), o voto blasé (não-tô-nem-aí), o voto conceitual (do-mal-menor), o voto distraído (na-hora-eu-vejo), o voto indignado (ninguém-presta-mesmo), o voto amigo (eu-conheço-ele-desde-criancinha), o voto encomenda (vota-que-te-compenso-depois), o voto apaixonado (você-não-presta-mas-eu-te-amo), o voto generoso (ele-tá-precisando-coitado), o voto socialista (contra-burguês-voto-no-freguês), voto capitalista (ele-me-deu-lucro), voto religioso (ele-tem-cara-de-santo), voto estético (olha-que-corpaço), voto midiático (vou-ver-na-televisão-depois-resolvo).

Tem o voto malufista (rouba-mas-faz), o lulista (a-culpa-foi-do-moro), o fernandista (vaidade-é-tudo-verdade), o brizolista (viverá-para-sempre-no-coração), o alckimista (picolé-de-xuxu), o serrista (tô-de-mau-humor), o dilmista (é golpe-golpe-golpe), o aecista (faço-qualquer-negócio) etc, etc, etc.

Claro, existe o mais raro (e mais falado) de todos os votos: o “consciente”. Esse, pensando bem, a rigor, não existe. Como o eleitor poderá desvendar a alma de um candidato a ponto de conhecê-lo tão profundamente para que a escolha seja “consciente”?

Se tudo for analisado por este prisma, concluiremos que o candidato mais votado deverá ser o Nulo da Silva Xavier, pois a consciência representa a manifestação e observação de todos os aspectos do objeto. Neste caso, não vale a pena perder tempo...

E, nesse campo, o inconsciente é mais poderoso do que a própria consciência, como afirma com grande categoria os nossos freudianos de barzinho.

O importante, contudo, é que o voto seja compreendido como uma manifestação de como a pessoa encara a vida. O voto é um espelho cuja imagem refletida é a da realidade à nossa volta. Simples assim.

Nessas eleições, eu-não-quero-votar.



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