O texto abaixo não tem valor literário, mesmo sendo ficcional. Escrevi como desabafo tempos atrás para consegui sobreviver, depois de pre...

Ao pai que sou

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O texto abaixo não tem valor literário, mesmo sendo ficcional. Escrevi como desabafo tempos atrás para consegui sobreviver, depois de presenciar uma injustiça inominável com um pai no Fórum de Campo Grande. Não sei o motivo, mas o desespero do homem me fez atravessar uma madrugada insone com vontade de "explodir a ilha de Manhattan".  Isso aconteceu há quatro anos, mas não esqueço.

Tempos atrás, numa dessas madrugadas frias, tristes e sombrias, navegando pela TV, assisti a um filme estranho. Não sei se iraniano ou israelense, talvez uma produção marginal do Afeganistão, mas percebi lá pelas tantas que era um drama universal.

Não prestei atenção ao título nem ao diretor. Não importava. O enredo era tocante, o tempo indefinido, o lugar era esquisito. Fiquei de olhos bem abertos até o amanhecer do dia. 

Devo confessar que vivia uma questão pessoal terrível. Por esse motivo o filme grudou em mim como se fosse uma espécie invólucro adicional de minha crise existencial. 

Algo me empurrava para um abismo escuro à medida que minhas reflexões buscavam a todo custo ter alguma esperança na humanidade. Era difícil. 

Por isso, aquele filme – com fotografia sofrível e atores piores ainda – acabou me agarrando pelo pescoço, colocando-me distante a poucos centímetros da necessidade de afogar-me para sempre. Foi o destino. 

A história era a seguinte: um jovem promove uma festa de despedida. Ele ia viver longe dos amigos de sempre. Havia alegria e saudades antecipadas. Neste lugar não se bebia nem fumava. Parece também que não havia sexo. Meninos e meninas entreolhavam-se em castidade absoluta. 
Sim, havia amor, só que esse amor era diferente: puro, risonho e sublime. 

Tudo transcorre na mais absoluta alegria epifânica, animada pela música sincopada nas variações atonais típicas do oriente, até o momento em que a polícia aparece e prende todo mundo. 

O jovem é acusado de proteger um amigo que – conforme as versões oficiais - estava usando a festa para montar uma trama que iria resultar num ataque terrorista aos Estados Unidos. 

Como ele mesmo já participara de protestos anti-americanos sem saber direito o que era aquilo, tornou-se suspeito de radicalismo islâmico. 

Até aí o filme me provocava bocejos. A coisa mudou à medida que o pai do jovem – sujeito correto, pacato e patriota – enfrenta o judiciário local para tentar tirar o filho do "sistema". 

Neste momento o filme universaliza-se porque o manuseio da narrativa vai deixando claro que tudo ali poderia acontecer em qualquer País. 

Percebe-se claramente uma justiça desumana, fossilizada, povoada por juízes anódinos e funcionários escrotos, no qual a necessidade de aumentar a população carcerária estava diretamente vinculada à necessidade indiscriminada de aumentar o orçamento público para atender aos padrões corruptos do sistema. 

Cada preso tinha um custo per capita. E sobre este custo produziam-se valores monetários. E a estes valores eram acrescidas comissões (por dentro e por fora) para atender ao fausto de burocratas ávidos por status e riqueza pessoal. 

Tudo era vaidade e dinheiro. Por isso, pessoas eram presas por razões banais. A ideia era vender a sensação de segurança.

O pai do jovem penetra nesse mundo de horror tentando salvar o filho. Não consegue nada. Os advogados estão perdidos num cipoal burocrático de regras no qual a falta de um simples comprovante de residência retroage o processo em labirínticos caminhos sem volta. 

Um simples papel vale mais do que seres humanos. Os juízes e seus assessores são impenetráveis. Dizem seguir "rigorosamente a lei", mas interpretam-nas de acordo com uma regra absurda: aos de cima todas as frinchas normativas garantidas por juristas estrelados; aos miseráveis e inocentes de baixo a masmorra gosmenta e fétida. 

Enfim: o sistema penal e carcerário servia apenas para fazer girar um circulo vicioso visando garantir a existência de si mesmo, gerando recursos para pagar salários vultosos de um corpo burocrático frio, preguiçoso e corrupto, que vive para produzir e autoproduzir injustiças. 

No fim do filme – vou contar porque dificilmente alguém o assistirá numa destas madrugadas tristes e sombrias – o jovem é assassinado durante um motim e o pai, aos prantos, ajoelhado, pergunta para todos e a si mesmo qual a razão dessa loucura. 

Não há respostas. 



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