Memória. Ave, memória. Imagens. Imagens. Tudo é longe e perto ao mesmo tempo. Não me lembro a data nem a circunstância em que conhec...

Maria da Glória Sá Rosa: O mar por onde navegamos

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Memória. Ave, memória. Imagens. Imagens. Tudo é longe e perto ao mesmo tempo.

Não me lembro a data nem a circunstância em que conheci a professora Maria da Glória Sá Rosa.  

Talvez tenha sido numa exposição de obras de arte, ou  numa sessão de cinema, ou num show musical, na saída de algum espetáculo teatral, ou na faculdade de direito da FUCMT,  em algum debate acadêmico, não sei,  faz tanto tempo que não me lembro. 

Tanto faz. Isso agora não interessa.  O que importa é que Glorinha esteve sempre presente em minha vida, de alguma maneira,  umas vezes mais próxima, outras mais distantes, mas sempre presente.

No tempo em que fomos mais próximos, fui seu aluno informal.  Ela vibrava com Guimarães Rosa, com escritores franceses, com a alma russa. 

Depois, nos correspondemos por e-mails. Trocávamos impressões sobre  assuntos variados: arte, cinema, literatura,  viagens. 

Depois, mais recentemente, nossos encontros tornaram-se episódicos.  

Mesmo assim, quando era possível, conversávamos e fofocávamos. Às vezes nos memoráveis almoços na casa de Abílio de Barros e Carolina, outras em lançamentos literários, restaurantes,  no seu apartamento.

Glorinha era mulher de finas ironias. Nada passava batido por aquele olhar sorridente com as pequenezes da vida. 

Nos seus textos, ela era sempre celebratória e elogiosa.  Nas conversas , era ácida e engraçada. 

Enfim, uma dama, uma luz, uma personalidade especial. 

Sua morte me dói.  Ela fazia parte de nossa paisagem. Nunca imaginei a ausência de Glorinha na nossa cena cultural.  

Lendo agora seu último texto publicado na imprensa, sinto frio na espinha.  Ele foi premonitório, publicado na última terça-feira. 

Ela  fechou o artigo com uma citação de Camões: “Clara manhã, obrigado. O essencial é viver”.

De nada, minha querida. Você não morrerá nunca.

(Dante Filho, 28 de julho de 2016)


O mar por onde navegamos*

No mar tanta tormenta e tanto dano
Na terra tanta guerra e tanto engano
Onde pode acolher-se um fraco humano
Onde terá segura a curta vida
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
Luís Vaz de Camões

É difícil não lembrar Camões, nos confusos dias em que forças da terra, do ar e do mar parecem ter perdido o controle e somos lançados por antecipação ao mundo do Apocalipse.
Além de tempestades, inundações, nevascas, incêndios, Oriente e Ocidente atravessam momentos de tensão com a perspectiva de atos terroristas, que transformam o medo no grande cúmplice da vidas de seres pequenos e frágeis, em sua contingência.

Basta abrir os jornais e ligar a TV para nos sentirmos participantes de uma guerra latente, eliminadora da tranquilidade interior. Por toda parte, escondem-se exércitos de mercenários com seu olhar cruel.

Além das barbaridades do Estado Islâmico, da violência das grandes nações, precisamos conviver com a proliferação das drogas, das traições, da fome, da corrupção nos órgãos públicos e dos preconceitos geradores de desprezo a raças e indivíduos que julgamos inferiores a nós. Que fazer, senão, levantar os olhos ao céu e pedir compaixão a Deus e todos os santos?

Ressoam em meus ouvidos as palavras do padre Manuel da Nóbrega: “Este mundo não é pátria nossa, é desterro./Não é morada, é estalagem./Não é porto, é mar por onde navegamos”. No mar de angústias em que nos perdemos, o bicho da terra pequeno e frágil, embora capaz de ir à Lua, de transformar desertos em cidades, não descobriu a fórmula mágica que dissolve ou ameniza as horas de desespero.

Ela repousa no próprio eu, onde ninguém soube detectá-la a contento. Uma amiga contou-me que sempre que, sentia vontade de chorar e abominava cada minuto da própria existência, abria uma janela e dizia com Manuel Bandeira: “Mas pra que tanto sofrimento se lá fora há o vento e um canto na noite?”.

Millôr Fernandes relatou certa vez que, longe de casa, desiludido da vida e dos homens, recuperou a vontade de viver lendo velhos jornais que descobriu no fundo de um quarto de hotel.

O remédio para as grandes dores é nunca perder a esperança, mesmo que ela esteja presa a fatores independentes de nossa frágil vontade; afinal, desde o tempo de Camões, o mundo já se tingia com as tintas da tragédia e, das trevas, a luz brotava, fruto da coragem dos homens de fé.

Há os que sobrevivem ao desaparecimento dos sonhos, à morte de seres amados, apelando para o consolo da religião.

Outros se embriagam com o licor do trabalho e não faltam os que ressurgem para uma vida melhor depois de curtir as agulhadas da dor. Num de seus mais belos poemas, Baudelaire nos aconselha a estar sempre ébrios: de vinho, do trabalho, da virtude.

Afinal, tudo passa, e cabe a nós, envolvidos nas teias do medo do desespero, do horror do dia de amanhã, levantar os olhos para o alto e dizer, como o poeta, que depois da noite vem o dia. Compete-nos armarmo-nos de coragem e dizer com toda a força dos pulmões: “Clara manhã, obrigado. O essencial é viver”.

*Crônica publica no dia 26 de julho no jornal Correio do Estado



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