Faz uns quatro anos que resolvi correr. No começo, depois de uma caminhada de quinhentos metros, pensava que ia ao chão, lânguido e mort...

Diário de um maratonista solitário

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Faz uns quatro anos que resolvi correr. No começo, depois de uma caminhada de quinhentos metros, pensava que ia ao chão, lânguido e morto de cansaço. Depois, com paciência e treinamento, fui evoluindo. Agora corro cerca de 10 km todos os dias, exceto aos sábados, que tiro para comer e beber à tripa forra.

Sou um maratonista solitário. Não corro em grupos nem participo de disputas. Deixo isso para os carentes afetivos e os necessitados de atenção. 

Reconheço que sou metódico quando me preparo para sofrer. Correr é a minha obsessão e uma forma de me relacionar com a dor. Preciso fazer minha celebração diária à loucura para que os deuses sobrevivam em mim. 

Como ateu claudicante, preciso de um ritual. Primeiro, organizo as músicas. O iphone é o meu terço de oração. A minha celebração exige uma fonografia especial. Cada faixa musical precisa ter pelos menos 5 minutos. É por meio de cada uma delas que calculo o tempo de corrida. Nos quase 70 minutos que levo para alcançar a distância entre mim e "Deus" tenho que ter no gatilho cerca de 20 músicas, estrategicamente selecionadas.

Nos primeiros 800 metros – os piores – geralmente vou de Sade, Marina Lima ou Tina Turner, sempre algo meio suave e que tenha uma batida sincopada que possa garantir a minha permanência no chão. Não é fácil. Quem corre, sabe: não havendo concentração e determinação a desistência é certa. É fundamental uma boa música. Ela estimula as sinapses cerebrais. É a estética da arte a favor do corpo. 

Passada a primeira fase, com a endorfina crescente, entro num lance mais agitado, ouvindo rock ou um pop mais nervoso. Vou de Lilly Alen, J Quest, Cazuza, às vezes faço uma imersão em Madonna, Michael Jackson, Jessie J, até mesmo resvalando para Fernanda Abreu, Jorge Ben Jor e outros menos cotados. 

Nesse momento é importante um estímulo adicional porque os músculos gritam, os pés queimam, o peito arfa e o mundo parece que vai acabar. Enfim, todos os pensamentos o levam para o meio fio da existência. 

Nos primeiros 30 minutos é preciso calibrar o ritmo da música com o movimento do corpo. Aos poucos a dor profunda desaparece. O cansaço torna-se diáfano. O suor escorre, as pernas dançam, os braços bailam num ritmo constante; e o peito estufa ocupando o espaço instransponível dos sentidos. 

É nesse momento que desfibrila a carga elétrica da adrenalina. É mais do que um êxtase. É melhor que cocaína na veia. Aí entra Led Zeppelin, Nirvana ou Jamiroquai. Em sequência calculada. O corpo é tomado por uma sensação suntuosa de prazer. Não sentimos mais nada. Só somos cérebro e olhos. Abaixo disso, apenas o manto sagrado da alegria açoitada pelo vento que nos flutua. 

Entra aí o fluxo de pensamento criativo: organizamos o porvir, construímos uma arqueologia particular dos desejos, "escrevemos" mentalmente poemas, contos, romances, artigos, ensaios, projetos e delírios; desenhamos no espaço imaginário uma arquitetura insustentável, até que sentimos que a imaginação ultrapassa as  possibilidades da concretude,  no ponto exato em que o coração faz o bombeamento sanguíneo quase explodir.

A partir daí, já avançando quase 7 km, começamos a reduzir a marcha. Entra no áudio a batida simpática e solene de Stevie Wonder. Nesta altura, os músculos das pernas tensionam, dão uma fisgada aqui e ali, os dedos dos pés parecem em carne viva, e só mesmo um som pesadão de Deep Purple pode criar um clima encorajador para nos empurrar até o final. 

Desse ponto em diante há uma luta inglória entre você e seus limites. Cada metro conquistado representa uma vitória de sua resistência física contra a exaustão total de sua vontade.

Faltando 2 km, finalmente entra a 5ª de Beethoven (devidamente editado em seus trechos mais candentes), anunciando que estamos quase chegando lá. É uma epifania meio dramática. 

Cada milímetro é calculado de acordo com os movimentos finais da sinfonia. Ficamos ansiosos esperando a hora de entrar Bach (também editado), que sinaliza a redução da marcha até que possamos diminuir o ritmo, em trote lento, com a sensação de que estamos vivos, apesar de tudo.  
Não é fácil seguir em frente diante de tantas pedras no caminho. Mas chegamos lá.














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