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Carlos Heitor Cony: A potência e o ato


Artigo publicado na edição de hoje da Folha de São Paulo.
Por definição, arte e cultura são ilustrações do conceito aristotélico da potência ao ato. Existe muita potência na política, na guerra, em cada setor da criação humana. No momento, está na berlinda a Lei Rouanet que substituiu a Lei Sarney. Ambas procuraram encontrar um modo decente e eficaz para ajudar a criação artística em todos os seus níveis.
Potencialmente, tudo pode ser transformado em arte e cultura, não fosse a intromissão entre a potência e o ato num instrumento no qual entram interesses escusos, na maioria políticos e partidários.
A Lei Rouanet, fruto da experiência e capacidade do ex-ministro e ex-embaixador Sérgio Paulo Rouanet, atualmente um dos grandes nomes da Academia Brasileira de Letras, pode não ser perfeita no modo e no tempo, mas é um estágio superior pelo qual o Estado pode transformar a potência em ato.
Contudo, os abusos das classes cultural e artística corrompem o processo que elevaria o Brasil em arte e cultura. São muitos os golpes que estragam a brilhante ideia de Rouanet. Não é de hoje a intromissão de vigaristas que pretendem se beneficiar da ajuda oficiosa. Tivemos agora o episódio de um casamento que apelou para a Lei Rouanet, vendido potencialmente como ato cultural e artístico.
Houve no passado aberrações históricas. No governo de Carlos Lacerda, foi criada a CAIC, destinada à produção de filmes que representavam o estágio cultural e artístico daquela época. O então Banco do Estado da Guanabara financiaria todos os projetos considerados manifestações da cultura e da arte. Se não me engano, a verba era insuficiente para qualquer projeto mais sério.
Apesar disso, foram inúmeros os casos abomináveis, como a daquele produtor que aplicou verba oficial na compra de uma Kombi para levar a sua mulher e seu cachorro a um circuito turístico pelo Brasil afora.