Vou contar uma história banal: quando eu era menino e a escola era risonha e franca havia uma verdade inarredável: quem não soubesse cant...

Memória: A espiã nua que abalou Paris

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Vou contar uma história banal: quando eu era menino e a escola era risonha e franca havia uma verdade inarredável: quem não soubesse cantar direito o hino nacional era considerado subversivo. 

Errar a letra, desafinar a melodia, atravessar o ritmo, qualquer coisinha fora do tom, pronto, lá vinha o epíteto sentencioso: "subversivo".

Dava medo. Antes do início das aulas homenageávamos a bandeira brasileira cantando o famoso "ouvirandu" com a determinação dos grandes guerreiros. Peitos estufados, mãos direitas espalmadas sobre o coração, olhando sempre reto na direção do símbolo maior da Pátria, brandíamos todos com fervor a obra de Joaquim Osório Duque Estrada e Francisco Manuel da Silva.

Caso não fizéssemos isso corretamente sempre havia alguém a sugerir pelas frinchas venenosas da intriga o comentário sacramental: "esses garotos parecem subversivos...". 

Demorou um bom tempo para que eu criasse coragem e perguntasse a um amigo mais velho o que, afinal, significava a palavra "subversivo". A resposta veio rápida; "ora, subversivo, é comunista, sua anta!". Meio engasgado, tive a suprema coragem de perguntar quase tremendo: "e o que é comunista?".

O amigo me fuzilou com o olhar de perplexidade, perdendo a paciência, e respondeu: "se você quer mesmo saber vá até ao meio da praça e fique gritando bem alto 'Viva Fidel Castro!Viva Fidel Castro!'. Em pouco tempo você saberá tudo sobre o comunismo", comentou, e saiu de perto, como se estivesse fugindo de alguma confusão.

Como não entendi nada, decidi perguntar para o meu avô, que sabia tudo e era a minha enciclopédia particular. Quando o indaguei sobre os dois temas ele simplesmente deu risada e me disse para não perder tempo com essas "bobagens". Mandou-me ler romances.

Foi daí que caiu nas minhas mãos as famosas histórias de "Brigitte Montford – a espiã nua que abalou Paris". Na capa dos livretos de bolso aparecia a imagem de uma morena de corpo maravilhoso, olhos azuis, sempre de biquíni, arma na mão, pronta para combater os inimigos da civilização ocidental e defender os mais caros valores da democracia. Ela era agente da CIA. Considerada a mais perigosa dentre as mulheres mais perigosas do mundo.

Devorei a obra completa. Descobri, assim, literalmente, o onanismo subliterário, e acertei minhas contas com as fantasias de minha adolescência. 

Somente depois descobri que os livros eram escrito por um espanhol que usava o pseudônimo de Lou Carrigan. Acho que só assim as histórias se tornavam críveis e a respeitabilidade autoral se manteria no topo. Um nome saxônico é o segredo da fortuna literária moderna até hoje.

Já naqueles tempos o Brasil começava a ficar mais leve. Raramente ouvíamos o "subversivo", apesar de que "comuna" passou a ser mais usual. As discussões políticas tornaram-se mais abertas (dentro de certos limites) e já podíamos fazer algumas piadas sobre a carranca de Geisel e a insígnia meio assombrada de Golbery. Pelo menos na cidadezinha do interior onde eu morava.

Depois de um tempo era até permitido todo final de tarde ficar batendo papo na padaria central da cidade, numa mesa posta na calçada, bebericando cerveja, fazendo fofocas, comentando as novidades do dia. Eu gostava dos debates que travavam sobre os temas políticos porque havia um sujeito – nosso professor de Educação Moral e Cívica - que defendia com unhas e dentes o governo militar. Como era bom defender posições contraditórias. Acho que o nome do professor era Valdemar.

Ele era um sujeito magro que usava óculos de aros grossos, com lentes de fundo de garrafa, que falava como um poeta parnasiano, sempre didático, um raciocínio cortante, uma rigidez moral mandibular. Ele era o protótipo do fascista irritante, mas era respeitado porque tinha cultura clássica sólida e inteligência acima da média.

Um dia, num finzinho de tarde, depois de muita bebida, a discussão política se acirrou além da medida. Os comentários de lado a lado se tornaram provocações amistosas, sem grandes consequências. O nosso professor, com vários uísques acima da humanidade, de repente ficou furioso, pois seus argumentos se esvaiam diante de nosso discurso panfletário.

Era a famosa conversa de bêbado que não alterava um milímetro o rumo da vida.  Só que no final, não havia mais conversa. Um queria gritar mais alto que o outro. E foi assim, num gesto enlouquecido, num frêmito de ódio, que o professor ficou em pé sobre a mesa, com os pulsos fechados, os olhos em chamas, os nervos à flor da pele, e começou a repetir aos gritos com toda a força de sua loucura repentina: "Me respeitem! Me respeitem! Eu sou a Brigitte Montford! Eu sou a espiã nua que abalou Paris!". E partiu para a luta corporal.Precisamos chamar a ambulância. Temendo – aí sim – um verdadeiro ato "subversivo".



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