No começo de minha carreira de jornalista, no interior de São Paulo, todas as semanas viajava até a cidade de São José do Rio Preto para...

Memória da imprensa dos anos 70

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No começo de minha carreira de jornalista, no interior de São Paulo, todas as semanas viajava até a cidade de São José do Rio Preto para fazer o fechamento do jornal em que trabalhava.

Naquele tempo o processo industrial para diagramar e imprimir um hebdomadário (urgh!!!) era feito à base de chumbo derretido. As fotos eram aplicadas sobre uma base de alumínio e madeira chamada clichê.

A coisa funcionava mais ou menos assim: a redação produzia as reportagens, notas, colunas em máquina de escrever. Depois, com o calhamaço de papel numa pasta, levávamos tudo para a gráfica em São José.

Lá os técnicos redigitavam os textos numa máquina que soltava lâminas de chumbo em relevo, que depois alinhávamos e diagramávamos num quadro de madeira retangular.

Ali era uma espécie de segunda redação. Jornalistas, gráficos e fotógrafos de vários municípios da região atuavam no mesmo lugar, onde cada grupo fazia seu jornal local.

Era o que a economia da época permitia que se fizesse: impressão barata e "rápida", o que garantia a existência de veículos locais.

Foi nesse ambiente que conheci Nárcio Rodrigues, jornalista, tempos atrás presidente do PSDB de Minas Gerais, hoje preso pela Polícia Federal.

Naquela época, Nárcio era um sujeito magrinho, circunspecto, concentrado.

Sua entrada no noticiário da corrupção me surpreendeu. Naqueles tempos, ele um sujeito com um rigor moral impressionante. Qual será que foi seu ponto fora da curva?

Começamos a ter afinidades em conversas na hora do lanche porque ambos fazíamos oposição à Arena, vinculados ao MDB de nossas cidades, com certo pendor à esquerda.

Conversávamos sempre sobre política,não havia outro assunto, imaginando estratégias para combater a ditadura de então.

No final do dia, antes de carregar os exemplares impressos do jornais nos nossos carros para levá-los para nossas cidades, trocávamos as edições. Foi assim que me tornei leitor do Folha de Frutal, o jornal do Nárcio.

Tinha uma coisa interessante: todas - literalmente todas - as matérias do jornal levavam a assinatura de Nárcio. Era uma coisa curiosa: mesmo notícias chupadas de outros veículos o cara fazia questão de assiná-las.

Um dia, Nárcio me ligou e me pediu um favor. Se eu podia montar em Rio Preto o Folha de Frutal. Ele tinha um problema particular que o impedia de comparecer ao local. Mandaria os textos por um amigo para me entregar.

Concordei e assim foi. Montei seu jornal, com todas aquelas matérias assinadas por ele. No final da noite, exausto, fiz a última revisão do jornal. Dei ok. e mandei tudo para Frutal.

Na semana seguinte, Nárcio não me olhou na cara. Estava magoado. Fiquei na minha. Pensei: esse cara deve estar com um problemão na vida. No fim do dia, não aguentei e fui perguntar para ele: pô, o que está acontecendo?

Ele me fuzilou com o olhar, pegou o exemplar da Folha de Frutal e me esfregou na cara.

- Você viu o que você publicou? Estou tendo que aguentar piadinhas na minha cidade.

Peguei o jornal, olhei e não vi nada. Disse: não tô entendendo?

- Olha a assinatura da matéria principal!

E lá estava assinado: NARCISO RODRIGUES.

O cara nunca mais conversou comigo. Derrapei na revisão e no subconsciente e, com isso, perdi o amigo.

Mas agora ele está preso. Deixa pra lá...


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