Ah, os segredos de família... esse patrimônio intangível guardado a sete chaves, sussurrado entre quatro paredes, escondido entre ranger...

Crônica familiar

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Ah, os segredos de família... esse patrimônio intangível guardado a sete chaves, sussurrado entre quatro paredes, escondido entre ranger de dentes e espasmos soluçantes, revelados em tom fúnebre no confessionário sombrio de nossas vidas frágeis e pálidas.

"Segredos de família"... evocação misteriosa, reservada para momentos solenes, entre os quais sussurra um vento tépido e uma advertência soturna, com vozes do passado que ressuscitam os parentes mortos que habitam os cômodos da casa.

Ouçam: um zunido estranho assombra as paredes, arrombando as portas trancadas, dando lume às histórias que clamavam ser transformadas em peças arqueológicas.

Falemos baixinho: no desvario da carne estão os dramas que vieram para ficar e morar para sempre entre as louças trincadas, dentro do relógio de parede (que não funciona), dos cristais antigos, dos mimos sobre os aparadores da sala ou os objetos guardados nas caixas depositadas nos cantos mofados dos guarda-roupas.

Os fundos dos armários são os porões da existência de cada um. Neste espaço as histórias são paralisadas no recôndito silêncio familiar; os fatos clamam pelo desejo de gritar. Mas é tudo guardado para ser transmitido para a próxima geração, no baú das aventuras e das emoções duradouras, em momentos de assombro e transposição de desejos e heranças.

Assim é que ocorrem as revelações surpreendentes: há sempre um acontecimento antecipatório pronunciando o ciciar do imemorial e do intangível para o plano das coisas mundanas. É como se fosse o sopro de um vento frio e cruel a ferir corpos desprevenidos, espreitando as cortinas da sala, aguardando a hora certa para o bote final. O etéreo se transforma em pedra; o mental se transforma em mineral.

Assim esse mundo oculto revela-se de surpresa, diante da ocorrência de uma tragédia, de um ato falho, de um pedaço inaudível de conversas ouvidas pelas portas entreabertas, transmudando em desabafo novelesco a fúria ou o desespero - como se a dor retida no canto do peito precisasse ser extirpada para que não se transformasse em força demoníaca a destruir os alicerces da casa.

É sempre dessa maneira que tudo acontece. Os segredos ficam latentes esperando o momento crucial para ressurgir e transformar o antes no depois. A máquina mental entra em funcionamento, acionando engrenagens supostamente enferrujadas para vivificar a plenitude de histórias humanas esquisitas, os dramas pessoais inconversíveis, os amores frustrados, os desejos retidos, as taras e loucuras inimagináveis. Há choros, gritos, melancolia e olhos perdidos no vazio do tempo.

Depois da disrupção, tudo passa. Só permanece viva a memória incongruente das coisas dispersas pela brisa dos eventos. Aquela tia que fugiu com o padre. O avô argentário que negou à filha um reles dinheiro para o remédio essencial. As traições entre irmãos. Os amantes de mamãe. O primo que traficava drogas. A esquizofrenia hereditária da bisavó. As relações incestuosas de Zinha com Anho. O genro homossexual que se casou três vezes e que depois se tornou ermitão morando ao redor do rio Aquidauana. A corrupção na origem da fortuna. A herança que desapareceu no navio durante uma viagem entre a Espanha e o Brasil. O manuscrito secreto revelando que vovô era um assassino de meninas virgens.

Assim o mundo transborda. Na caixa de pandora de cada um os deuses enlouquecem. A dimensão humana se reduz a histórias estranhas e, mesmo assim, seguem-se as viagens, transpõem-se os universos, atiram-se as pedras nos rios que nunca banham os mesmos corpos. Os segredos de cada um voltam para seu lugar de origem: o silêncio sombrio das almas mortas.

No fim está sempre o começo de tudo. Depois, os dramas se dissipam. O que fica é a literatura. Fica a narrativa que ressoa o toque mágico das coisas que morreram embora permaneçam vivas nas palavras. "Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira".


PS- Esse texto foi escrito na década de 80 depois que terminei de ler “Anna Karenina”, de Leon Tostói.  



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