Caiu transversalmente em minhas mãos a revista A Gente do último mês de dezembro. O homenageado é Manoel de Barros. A edição abre com v...


Caiu transversalmente em minhas mãos a revista A Gente do último mês de dezembro. O homenageado é Manoel de Barros. A edição abre com vários textos e poemas celebrando o aniversário do poeta (nascido em 19 de dezembro de 1916 e falecido em 13 de novembro de 2014), numa diagramação bem-feita, com certo apuro estético, tudo muito legal. 

É difícil não gostar da obra de Manoel. Ou melhor: tem gente que não gosta, mas não a despreza, dado sua fortuna crítica no plano nacional e internacional. 

A revista A Gente é uma publicação de dondocas, mas destacar o poeta revela que sua imagem associa-se perfeitamente ao mundo da moda, visto que traz elementos de sofisticação e luxo intelectual às frivolidades da vida. 

Há um texto-entrevista de Abílio de Barros (irmão do poeta), Martha (filha do poeta), Adélia Menegazzo (leitora inteligente do poeta), Thais Pompeo (tiete do poeta) e um tal de Douglas Diegues (aproveitador do poeta). 

Não vou entrar no mérito de cada artigo porque, obviamente, todos são celebratórios e não modificam um milímetro o rumo do universo. Percebe-se à distância, contudo, uma tentativa de se formar uma mitologia em torno de Manoel, o que pode ser justo e correto pra muita gente. Não discuto isso. 

Se tivesse que destacar algum texto escolheria o de Abílio no trecho em que ele diz que durante muitos anos Manoel publicava seus livros “e ninguém falava sobre eles”, ressaltando que o poeta só foi “descoberto quando tinha 70 anos”.

Abílio conta a história de Manoel morando no Rio de Janeiro, onde ele “conseguiu que alguém falasse sobre sua poesia”, ou seja, o jornalista Millôr Fernandes, da revista Veja. 

Na verdade, o comentário elogioso de Millôr deu-se graças ao resenhador de um livro de Manoel, o famoso Antônio Houaiss, que inclusive tinha fama de cobrar por fora para referendar obras de poetas ou escritores desconhecidos para os cadernos culturais da grande imprensa.

Isso, certamente, não invalida o valor da imensa obra de Manoel, mas panelinhas literárias são normais em todo mundo, principalmente quando há interesse em inserir elementos novos na roda que faz esse mundinho girar.

A fama de Manoel no plano local deu-se pelas mãos de José Octávio Guizzo. Há nisso uma curiosidade: ela nasceu concomitantemente à divisão de Mato Grosso. 

De repente, Guizzo intuiu que Mato Grosso do Sul tinha carência de referências culturais no plano da identidade nacional, e a poética de Manoel seria ideal para ocupar esse espaço. Ele estava corretíssimo.

Como se sabe, o sonho de todo artista local é ser famoso no eixo Rio-São Paulo. Manoel era o máximo em termos literários. Daí, por sorte, as peças foram se encaixando, a fortuna crítica foi ajudando, o “pantaneiro” retraído foi se soltando, dando entrevistas, aparecendo no cinema e na televisão, ganhando dinheiro no mercado publicitário, enfim, tínhamos nosso Roque Santeiro para falar e ser falado. 
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(Estou divagando. O centro desse artigo é outro.) 

Vou tentar novamente: paralelamente à exuberante qualidade da poesia de Manoel, formou-se uma seita, que podemos dividir em três grupos: os admiradores, os oportunistas e os guerrilheiros. 

Os primeiros são aqueles que o santificam no altar da arte literária (mesmo que se saiba que, dentre os 10 maiores poetas brasileiros, Manoel está muito longe de figurar entre eles). Os segundos são aqueles que enxergam na obra e no personagem um jeitinho de ganhar unzinho. E os terceiros são aqueles que detonam e detratam todo outro poeta e/ou escritor que não escreve na linguagem do tal Manoêles (o termo por si só revela a pobreza cultural dessas pessoas). 

Quem conhece os bastidores da literatura sul-mato-grossense (reduto diminuto de gente vaidosa, semiletrada e arrogante) enxerga três correntes nesse cenário: a turma de Manoel, a de Raquel Naveira e a de Hélio Serejo. 

(Tem também o pessoal do Lobivar de Matos, mas esse morreu precocemente, e sua obras, infelizmente, não amadureceram suficientemente, apesar de Manoel ser seu tributário).

Claro que a guerrilha Manoelina é mais forte porque é melhor respaldada pela crítica e pelo público. Esse grupo adora combater Raquel. O motivo tem razão de ser: Manoel, quando vivo, batia pesado em Naveira; achava sua poesia apressada, cheia de carolice religiosa, pouco elaborada. 

(Lembrem-se: sou testemunha ocular da história.)

Em certo sentido, ele estava correto. Mas, pontualmente, Manoel sabia que Raquel tinha lampejos e fazia manobras criativas dentro da tradição modernista que ele não conseguia, ou seja, era alguém que poderia rivalizá-lo na fama e na poesia de qualidade. 

(Nos últimos tempos Naveira tem sido soberba.) 

A guerrilha de Serejo (nosso maior escritor regionalista, o chamado “homem dos ervais”) tem como alvo Manoel. No passado, os dois principais combatentes eram o jornalista José Barbosa Rodrigues (o factotum do Correio do Estado) e o professor Hildebrando Campestrini. 

(Desconfio que ali tinha alguma pinimba pessoal).

Ambos difundiam a ideia de que Manoel era um “enganador”, alguém que se aproximou da esquerda carioca para conquistar fama e sucesso e que escrevia uma poesia propositadamente hermética para efeito de pose intelectual. 

De fato, Mané foi comunista, algo que combinava muito com alguém que sobrevivia materialmente do latifúndio e da pecuária. (Talvez por isso que ele tenha dado relevo a esse cara que ele chama “Bernardo”, pois esse alter-ego o purgava do sentimento de culpa pelo fato dele exercer o papel de senhor “feudal” curtindo a vida numa boa no Rio de Janeiro, Nova York, Paris etc).

( Divago, divago... Preciso voltar a tomar meus remédios)

Mas não concordo com esses argumentos porque a preferência dessa turma Serejista cultiva outra linhagem literária, talvez mais voltada às formas clássicas do verso, um parnasianismo meio tosco e um regionalismo com uma narrativa mais voltada para neologismos do século XIX, coisas assim... 
Serejo não é poeta. Ele é um prosador. Na linha dele, acho louváveis seus esforços literários. Devia ser melhor e mais estudado. Mesmo que os amantes do modernismo eventualmente torçam o nariz. 

(Divago...puta merda!)
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Bem...voltando ao assunto: a revista A Gente não serve muito como documento de crítica literária. Digo a razão: os artigos são delirantes. Talvez esse tenha sido um recurso apropriado de apreensão do chamado Dasein da obra de Manoel, no qual fingir que é maluco seja mais apropriado. 

Mas vejam como é o mundo. Assim que acabei de ler a revista recebo de uma dileta amiga, na minha casa, um livreto intitulado “101 Reinvenções – um estudo sobre a influência do poeta Manoel de Barros sobre a criação literária do Estado de Mato Grosso do Sul”, cujos organizadores são Ana Maria Carneiro Bernardelli e Fábio Gondim.

Como ultimamente estou estudando filosofia budista, papos esotéricos e textos sobre parapsicologia achei que isso era um sinal. Um sinal forte e consistente de que devia escrever esse textão, sem a mínima preocupação de ser lido ou não (tomara que não). 

É incrível: o livro corroborava minha tese sobre a seita de Manoel de Barros. Estava tudo ali. Fiquei tão excitado que pedi que minha esposa lesse primeiro. Eu precisava de uma confirmação de que não estava ficando louco.

Ela leu e gostou. Pediu que eu ficasse calmo e me receitou uma dosagem extra de lexapro.

Mergulhei no livro. Os textos teóricos são excelentes. Principalmente os dos professores Volmir Cardoso Pereira e Paulo Cabral (falarei de um deles daqui a pouco). Do chamado Caderno de Prosa não comentarei. Estão abaixo da critica. 

O Caderno de Poesia é uma mixórdia dos imitadores de Manoel de Barros. Essa é a seita guerrilheira de que tanto falo. Tem de tudo: poetastros, semi-analfabetos e picaretas. 

O professor Volmir, no seu prefácio, faz um contorcionismo para ser generoso e elegante com os autores da coletânea. Imagino seu sofrimento. 

Lá pelas tantas ele escreve sobre o fardo que representa a herança “manoelina” sobre a poesia brasileira e mais ainda sobre a literatura sul-mato-grossense. 

Ele utiliza a metáfora de que essa herança “é um baú pesado, que pode impedir até mesmo o caminhar daqueles que tenta arrastá-lo consigo”. (Viram o risinho sórdido em minha boca?)

Ele reconhece: “não é fácil fazer poesia depois de Manoel de Barros”. Esqueceu de dizer que a guerrilha não deixa. 

O texto é longo, profundo, bem escrito, iluminador. Segue as referências de Harold Blomm, The Anxiety of Influence: A Theory of Poetry (A angústia da influência: uma teoria da poesia), mostrando que a obra de Manoel foi uma soma de leituras e experiências que passam por Drummond (esqueceu Manuel Bandeira), atravessando os cânones modernistas como Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e alguns outros.

Fiquei meio que com inveja porque tudo que talvez imaginasse um dia escrever sobre o poeta está ali. Se Manoel fosse vivo e lesse o professor ficaria surpreso e não se reconheceria naquele manancial teórico altamente cabeça. Como não pertenço à academia ( arght!) faria a coisa com outro estilo, usando outra narrativa, mas quem sou eu...?

Talvez acrescentasse que a fase em que ele (Volmir) identifica como sendo a descoberta da “senda”, do “estilo” e da “persona” de Manoel (com a Gramática Expositiva do Chão, de 1966) trata-se, na verdade, de um plágio criativo do “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa. 

Isso não é demérito. Manoel sugou na melhor teta. Mas quem lê esse livro de Pessoa não consegue deixar de notar frases e pensamentos praticamente semelhantes aos de Manoel, com a diferença que o português escreveu essa obra na década de 30.

(Seria surpreendente saber que Mané não conhecesse o “Desassossego”, pois em assim sendo vou aprofundar meus estudos de paranormalidade e acrescentar novos remédios para meus delírios).

Agora, pra fechar: o que acho pessoalmente da poesia de Manoel de Barros? Como em todo poeta, tem coisas sublimes e tem momentos deploráveis. Mas o conjunto da obra garante que o coloquemos do panteão dos grandes inventores, apesar dos pesares.

(Vixi, vou divagar...Rivotril, por favor)

Tempos atrás li um livro interessante do filósofo francês Paul Ricoeur intitulado “A Metáfora Viva” (sugiro que minhas colegas de auditório leiam, se já não o fizeram).  

Sem querer cansar quem, heroicamente, chegou até aqui vou fazer a citação de um trecho que me chamou a atenção:

“A função poética e a função retórica apenas se distinguem plenamente quando se esclarece a conjunção entre ficção e redescrição”. Gostaram?

Para Ricoeur, essas duas funções visam persuadir as pessoas ao discurso com os ornamentos que o agradam ao mesmo tempo em que redescrevem a realidade pelo caminho indireto da “ficção heurística”. Sacaram?

Nesse aspecto, a metáfora surge como estratégia do discurso pela qual “a linguagem se despoja de sua função de descrição direta para aceder ao nível mítico no qual sua função de descoberta é liberada”. Complicado, né?

Em sendo assim, a poesia funda sua importância social de expansão do mundo das idéias pelas palavras além do que elas significam. Óbvio. Uns são mais felizes e transformam esse ato numa experiência mística e celebratória, enquanto outros (a grande maioria) permanecem no raso, no fru-fru, embora sem fazer mal a ninguém. 

Manoel teve seus instrumentos e conseguiu iluminar. Isso foi benéfico para ele e para a literatura. Mas está sendo maléfico para novos autores por causa da seita guerrilheira que se formou em seu entorno. 

Para esses, tudo que não imita Manoel não serve pra poesia. Tudo que não segue seus passos, não presta. Tudo que não habita esse ínfimo das vaidades e do oportunismo da literatura deve ser combatido com o veneno da maledicência em rodinhas das academias. 

O legado de Manoel está garantido e seguro. O exemplo maior desse fato é que,
 após seu falecimento, uma nova geração de poetas começa a sair da chamada sombra “Manoelina”. Mas tem gente que não quer deixar. São os conservadores e sicários da criatividade alheia. Espero que desapareçam.



A turma começou a chiar por causa da presença dela na festa de fim de ano da firma. Os colegas do marido a desprezavam e davam as costas...


A turma começou a chiar por causa da presença dela na festa de fim de ano da firma. Os colegas do marido a desprezavam e davam as costas como sinal de protesto à sua participação no evento.

Ela não dava bola para as provocações e seguia circulando por entre as mesas, até que, de repente, uma fulaninha, lá do fundo do salão, gritou bem alto: “Essa mulherzinha tá dormindo com meu homem toda semana!”.

Pronto, foi o maior climão. O marido traído não sabia onde enfiar a cara de vergonha e a mulher adúltera foi baixando a cabeça. No mesmo instante, o amante puxou a delatora pelo braço e ambos saíram da festa às pressas.

Os convidados, sem entender nada do que estava acontecendo, foram para a varanda do clube cochichar, enquanto a adúltera permanecia dentro do salão aos prantos, desfigurada e com a maquiagem toda borrada.

Assim terminava o ano de ouro nos negócios daquela empresa de calçados, onde  trabalhava boa parte dos moradores da cidade.

Lugarejo afastado, carregado de ternura e com clima interiorano, Vila Maciel tinha pouco mais de 20 mil habitantes e uma característica marcante: a fama de que parte das mulheres do pedaço traiam despudoradamente durante o período de expediente dos maridos. 

Era esse o motivo pelo qual boa parte dos convidados da festa mencionada acima rejeitava aquela mulher. Era uma maneira de sentar no próprio rabo e expurgar os próprios pecados acusando a outra de safada.

Adiante.

Depois do vexame na festa, o caso ganhou amplitude, motivos pelos quais ela não quis mais colocar os pés para fora de casa. Ficava no quarto de costura, amuada e concentrada nos arremates das roupas dos filhos e do marido.

Já o marido, acabrunhado, e com uma sensação estranha de algo crescia em sua magnífica testa. Os mais linguarudos juravam que aquilo era apenas prenúncio de outra guampa na têmpora e, desta vez, das grandes!

Nas esquinas, aquela velha turma de amigos que passava horas pontificando nos bares da vida olhava para o marido traído com sentimento de  piedade: “Pobre homem, dá o sustento da casa e aquelazinha deu conta de fazer isso com ele”, sussurravam.

Mas em meados daquele mês resolveu tomar atitude e mostrar para todo mundo que era sujeito “homi” e não um corno abobalhado. A melhor maneira para isso seria limpar sua honra e lavá-la com sangue do (ex) amante da sua mulher.

Para isso, arquitetou um plano infantil: acordou cedo, calçou os sapatos e andou pela redondeza na tentativa de arrumar uma arma clandestina. A empreitada foi em vão e ele voltaria pra casa com o sintoma emocional de que haviam  sinais  na sua testa.

Perto do fim de semana, viu se aproximar um homem esquisito, de voz rústica e de poucas palavras. A única frase que o camarada disse foi emblemática: “Faço o serviço pra limpar a honra do amigo e não cobro nada não”.

A proposta era atraente: custo zero, discrição e não precisaria sujar as mãos. Isso por si só já era o suficiente para  tramar algo com requintes de crueldade contra o amante.

O plano seria o seguinte: perto do fim do dia o matador montaria uma tocaia no terreno atrás da empresa e o sujeito cairia numa emboscada fatal, sem chance de reação. 

A arma do crime seria um canivete, que, conforme o marido traído, lavaria sua relação conjugal com o sangue provido das entranhas do morto. Trágico, mas justo.

No dia do crime, o céu amanheceu nublado, com nuvens carregadas, uma coloração acinzentada. Era o prenúncio de um crime passional perfeito.

Mas minutos antes das estocadas na barriga do (ex) amante, o marido traído teve uma crise de arrependimento e correu para desfazer o trato com o matador. Já era tarde demais. Ainda não tinha acabado de chegar à cena quando viu de longe os golpes que levaria o sujeitinho para o cemitério.

Em seguida, o matador saiu correndo para nunca mais ser visto naquela cidade. No local, um corpo estendido na calçada, um canivete ensanguentado e um homem arrependido chorando no chão.

Na esquina, uma multidão foi se formando, gritando e aplaudindo um mandante cheio de remorso: “Você se fez homem novamente e o sangue desse safado vai lavar sua união, amigo”.

Foi o tempo dele deitar seu abdômen sobre o mesmo canivete e estrebuchar sobre o corpo da vítima. Era uma forma de se redimir do crime e encontrar perdão a sete palmos do chão. Ninguém entendeu nada.

Minutos depois, o motivo do crime chegou. Por alguns instantes ela permaneceu quieta, fitando a cena até se debruçar sobre os dois cadáveres. Em seguida, sacou um batom bem vermelho da bolsa, espalhando por sua boca e começou a beijá-los ardentemente com a intensidade de uma despedida carnal.  

Antes de deixá-los, não agüentou o falatório e as acusações e soltou um grito que misturava irritação e revolta: “Eu não tenho culpa. Soube amá-los em vida e agora serei fiel a ambos na morte”.

Os amigos entenderam o gesto como uma provocação e partiram para cima dela. Acuada, ela correu para rodovia que ficava bem pertinho do local, mas não teve percepção em olhar para os lados e foi colhida por um caminhão. Era o ponto final de um triângulo amoroso que comoveu Vila Maciel.

No dia seguinte, metade da cidade chorava a tragédia. A outra parte lamentava, mas com um olhar vazio e voz rancorosa comentavam: “Ela pagou com a vida porque não merecia o perdão”.

*jornalista

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