O romance seminal de James Joyce, “Ulisses”, é muito falado e pouco lido. Muito falado porque tornou-se um ícone chique dos nossos tempo...

O dia de Bloom

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O romance seminal de James Joyce, “Ulisses”, é muito falado e pouco lido. Muito falado porque tornou-se um ícone chique dos nossos tempos. Pouco lido porque o texto é uma pedreira. Quem se dispõe a encarar hoje em dia mais de 800 páginas de um palavrório que teóricos denominaram como “fluxo de consciência”?

Mas a onda do “Blommsday” pegou nos circuitos da moçadinha descolada e inteligente. Trata-se de homenagear o personagem mais famoso de Joyce. A história de Harold Blomm se passa num só dia, 16 de junho, em Dublin, no qual não se sabe direito o que é fato e o que é delírio.  

Resumindo: um cara sai de casa, anda pelas ruas, vê a cidade, encontra amigos e pessoas conhecidas, vive um drama meio edipiano, volta pra casa e descobre que sua mulher o está traindo. 

Tentei ler “Ulisses” duas vezes há cerca de 20 anos. Não conseguia ultrapassar 30 páginas. Passei a sentir complexo de inferioridade. Muitos comentavam salivando a grandeza da “obra prima” - e eu boiava. Tentava, tentava e achava a coisa mais chata do mundo. 

Foi quando caiu em minhas mãos uma biografia de Joyce (editora Globo, tradução de Lya Luft), editada no Brasil em 1982, de autoria de Richard Ellmann. Encarei o catatau de mais de mil páginas, corpo 10, que narra a vida do escritor Irlandês cotejando com sua produção literária. Logo de cara saquei que para se compreender “Ulisses” seria preciso entender a vida de Joyce. 

Como diz Ellmann, as relações do escritor “aparecem em seus livros sob tênues disfarces”. Com ele, nascia o chamado “monólogo interior”, um estilo em que a narrativa se confunde com as confusões do ato de pensar. Um crítico uma vez escreveu que o texto de “Ulisses” era como se alguém reproduzisse as palavras impressas como se a pessoa tivesse um microfone no cérebro.

Joyce usa seus personagens para falar de si mesmo sem conseguir ter respostas prontas, enredando vida, obra, Dublin, países, consciência, tradição, estilos, experimentos linguísticos e semânticos, tudo de uma só vez, à semelhança de um Homero moderno, que narra a aventura épica de um anti-herói, neste caso, um judeu pobre, desgraçado e corno manso. 

Joyce era um gênio. Mas era um canalha. Seu mau-caratismo às vezes é caricato. Sua vida pessoal foi a de um sujeito errante, aproveitador, bêbado, egocêntrico, que enlouqueceu a filha e devastou a vida do irmão e da esposa. Foi professor de inglês, morou na Itália, na França e na Alemanha, sempre sustentado por mulheres ricas da aristocracia européia, passando amigos para trás, brigando com editores, lutando contra uma cegueira crescente, que talvez o tenha enlouquecido no fim da vida.

Joyce começou a escrever “Ulisses” em 1907. Levou quase dez anos na empreitada. A obra demorou pra fazer sucesso. No primeiro momento vendeu pouco mais de 30 exemplares. Depois, com as críticas de Ezra Pound e T.S. Eliot, sua sorte foi mudando. Mesmo assim, sempre viveu na sujeira e na pobreza, pegando dinheiro emprestado e não pagando.

No Brasil há duas traduções de “Ulisses”. Uma, da Editora Abril, lançada em 1980, de Antônio Houaiss, criticada por extremo apego a formalismos. Outra, mais recente, de 2005, da Editora Objetiva, de Bernadina da Silveira Pinheiro, considerada mais arejada e "fácil". 

Não importa. A leitura deste romance complexo e multifacetado é uma experiência humana impressionante. Não somente pelos caminhos que temos que percorrer para compreendê-lo, como pelas reflexões que ele nos induz a mergulhar.

Não há mar nem sertão que nos desvende a alma de maneira tão completa e assustadora.  



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