Com o fim dos cassinos na era Dutra, o Rio de Janeiro deu contornos sofisticados a um gênero musical que nasceu nas rodas dos subúrbios...

Alexsandro Nogueira: Noites Cariocas

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Com o fim dos cassinos na era Dutra, o Rio de Janeiro deu contornos sofisticados a um gênero musical que nasceu nas rodas dos subúrbios cariocas: o samba-canção. Dos arcos da Lapa e adjacências, o estilo mudou de endereço e passou a frequentar os majestosos salões da zona sul. Lugares como Sacha, Casa Blanca, Vogue e outras tantas tornaram-se redutos de boêmios e membros dos mais altos clãs da sociedade fluminense.
Os primeiros a se deixar contagiar por esse ambiente foram os artistas que encontraram nos salões dessas boates um rastilho de prazer para aguçar a criatividade, muitas vezes adormecidas no cotidiano carioca.
Gente como o poeta Paulo Mendes Campos e os escritores Fernando Sabino e Ruben Braga eram figuras presentes nos saraus festivos das madrugadas.
Entre drinks e baforadas nas piteiras, assistia-se nos palcos a estréia de Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto e Dick Farney. No Rio capital da República, o Governo Federal estava em ebulição com as trapalhadas de Getúlio e os achaques de figuras obscuras que gravitavam nos corredores do Catete.
Naquela época, o tédio da classe política, tão comum naqueles dias, era aliviado nas doses de uísques e no requebrar das companhias amorosas de morna e úmida sensualidade.
Alguns anos depois, esses lugares de transgressão e prazer viram o brotar da Bossa Nova e, com ela, seus maiores expoentes. Nos versos modernistas de Vinicius de Moraes, nas harmonias de Tom Jobim e nos acordes de João Gilberto, o gênero alcançou seu apogeu e brilhou até em outros continentes.
Era 1959 e àquela altura o Brasil campeão do mundo também  estava prostrado ao talento da cantora e compositora Dolores Duran, que morreu precocemente aos 29 anos e deixou para trás um legado de memoráveis interpretações. Dolores sucumbiu a um infarto fulminante enquanto dormia, mas arrebatou uma legião de fãs quando marcou para si uma página da MPB ao compor “A noite do meu bem”.  Passado o apogeu das boates o gênero ficou restrito a discos e interpretações. Ao contrário do que dizem por ai, o estilo não morreu. Na verdade rejuvenesceu quando cooptou Francis Hime, Ivan Lins e Toquinho. Continua discreto, agora longe das luzes, mas é a reserva melódica e emocional da música brasileira.



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