O texto abaixo foi uma palestra proferida no ano 2000 para estudantes de artes e criação:  "Vou tentar descrever o meu process...

Dante Filho: o ato de escrever.

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O texto abaixo foi uma palestra proferida no ano 2000 para estudantes de artes e criação: 

"Vou tentar descrever o meu processo criativo. Vamos imaginar que eu esteja diante de um computador. Vou começar a escrever um texto qualquer. Tenho um assunto em mente, vagas idéias e informações desordenadas, compondo o material primevo para iniciar o trabalho. 

Tudo começa com o nada. Tenho à minha frente uma folha branca. Entre os olhos e os dedos há um universo infinito de possibilidades. É preciso fazer escolhas. O texto se constrói assim: sobre uma base concreta os pensamentos transformam-se em palavras, cujos sentidos expressam idéias e blá-blá-blá. 

É tudo muito simples e, aparentemente, fácil. O esforço é exatamente transformar esta superfície plana num mosaico contrastante entre o preto e o branco em algo que tenha expressão: letras, códigos e símbolos – na verdade, tudo são desenhos esculpidos sobre a tela lisa. É preciso, então, ordenar um pouco o caos para que ele possa estabelecer um discurso pessoal. Não tenham dúvida: criar é um ato de total violência. 

Como começar a escrever? Qual a palavra inicial? Qual a frase que dará início a tudo? Qual a mensagem que desejo transmitir? Qual comunicabilidade pretendo estabelecer com leitores imaginários? Como vou conseguir alcançar o outro, agarrá-lo pelo pescoço, seduzi-lo, torná-lo cúmplice de minha trama?  Dúvidas, dúvidas, dúvidas...

O mecanismo da dúvida aciona as idéias e as idéias, assim, se transformam em imagens. As imagens corporificam um encadeamento lógico e se transformam em pensamentos. E o texto começa a surgir, às vezes espontâneo, em outros momentos de maneira calculada – mas sempre com muito esforço, repleto de significados internos, exigindo intensa mobilização corporal e imensa  concentração mental. 

Por mais rápido e fluido que eu possa digitar, a elaboração e os rituais mentais que o texto exige são por demais penosos antes, durante e depois do próprio ato praticado. 

Antes, pela atenção torturante que exige. Durante, pela disposição física que requer – não é fácil ficar sentado por horas a fio fazendo a mesma coisa todos os dias – e, depois, pelo resultado, invariavelmente frustrante, não conseguir descobrir se as palavras certas foram usadas, se a gramática estava convencionalmente correta, se a pontuação era precisa...  tudo isso representa pouco diante da complexidade e riqueza de nossos pensamentos.

Descartando os elementos fantasiosos e glamourosos  do que significa o ato de escrever para cada um que vive deste ofício é  preciso dizer uma coisa óbvia, mas que muita gente insiste em não saber: para escrever é preciso ler sempre e escrever sempre. De outra forma, não é possível, ou melhor, até pode ser, mas o resultado é banal. O texto e o seu estilo correspondente são, invariavelmente, a imitação de algo que já foi escrito e repetido milhares de vezes. 

Ninguém escreve coisas novas no sentido de fundar novos códigos da comunicabilidade humana. Vivemos no tempo da reciclagem geral e total de todas as formas de pensamento que os teóricos gostam de chamar isso de pós-modernismo. O que restou a ser feito por nós, homens e mulheres do século XXI, é elaborar novas sínteses usando novas mídias. 

Cada jornalista ou escritor tem os seus mecanismos próprios motivados por vozes interiores apreendidas por anos e anos de prática e mimese. Nós poderíamos aqui discorrer sobre o método e o sistema de elaboração literária ou jornalística de vários escritores famosos. 

Mas uma coisa é certa: sempre será uma experiência profundamente individual, fundada em elementos subjetivos que, por mais explicitados que sejam jamais será compreendido integralmente pelo outro. Não existe fórmula mágica nem modelo universal. Dificilmente, alguém poderá aprender a escrever com estilo e beleza freqüentando um curso de letras, de jornalismo ou de macetes literários. Tudo depende – em grande parte - de esforço e iniciativa pessoal.

Por essa razão, processos criativos não se explicam didaticamente passo a passo. O que se explica são os métodos utilizados para que cada um construa o seu próprio caminho. Todos nós temos o nosso ritual, nossas manias, nossos vícios. 

Eu, por exemplo, gosto de escrever sob intensa pressão. Caso contrário, protelo ao máximo a realização de um trabalho. Este texto que estou lendo aqui e agora, só conseguiu terminá-lo algumas horas atrás. Se tivesse que vir aqui falar amanhã, concluiria amanhã. Se fosse para segunda-feira, idem... e assim por diante... 

Para efeito didático, o que o meu trabalho com as palavras me ensinou nestes anos todos é que não existe experiência mais excitante e, ao mesmo tempo, mais decepcionante. Procure um escritor ou jornalista e pergunte se alguma vez na vida ele ficou inteiramente satisfeito, depois de reler um trabalho publicado no passado, ou mesmo no dia seguinte, e se não foi tentado a fazer correções aqui e ali, ou até mesmo jogar no lixo páginas e páginas produzidas com entusiasmo. Se ele disser que não, esqueça-o, pois certamente ele pertence ao segundo time. O trabalho de criação literária é o da permanente insatisfação consigo mesmo.

Vou separar agora, discricionariamente, o trabalho jornalístico do literário, apesar que muitas vezes não sabemos diferenciá-los por inteiro. O texto que escrevemos para jornal pode ser chamado de fast food do pensamento. Ele geralmente é escrito apressadamente, muitas vezes repleto de erros, num coloquialismo tão pobre que, sempre, no dia seguinte, envergonha o autor. Contudo, trata-se de um exercício mental muito importante, porque exige o máximo de concentração e o mínimo de bom senso. 

Neste momento, o jornalista despe-se de cuidados estéticos, infla-se de irresponsabilidade, pensa única e exclusivamente na melhor forma de comunicação e escreve com as patas. Alguns, é inegável, conseguem resultados surpreendentes, sobretudo os colunistas que publicam seus artigos uma vez por semana. Outros ainda, mesmo diariamente, conseguem produzir obras geniais, como, por exemplo, Nelson Rodrigues; mas a grande maioria produz lixo que, mesmo assim, é digerido por milhares de pessoas todos os dias. Muitos gostam...

O processo criativo em jornalismo geralmente é despido de autocrítica. O relógio não permite que se pense muito. As decisões têm que ser rápidas. As escolhas são as mais limitadas possíveis. Não há vida inteligente que resista às pressões. Por esta razão, os grandes jornais hoje estabeleceram critérios rígidos de divisão de trabalho, onde os jornalistas produzem material especializado, distribuídos pelas editoriais. O chamado jornalista generalista – que domina muitos assuntos ao mesmo tempo - está acabando. 

Com a criação literária é diferente. Um bom romance ou um livro de contos ou mesmo poemas leva muitos anos para ser escrito. É um trabalho que exige dedicação. A construção dos textos requer planejamento, roteiro, riqueza de detalhes, estilo, inovação, enredo, observação permanente, investigação, pesquisa etc. Claro que no ato de concepção do texto não se pensa muito nestas coisas, mas todos estes elementos estão reunidos em algum lugar da mente e, espontaneamente, se reúnem por ato involuntário. 

A minha primeira experiência literária surgiu com uma tentativa de produzir um romance. Comecei a escrevê-lo há cerca de três anos. Tudo começou com uma frase. Aos poucos, como se as idéias fossem se encadeando, começou a haver interconexão com várias outras idéias, misturadas com questões pessoais vividas, situações imaginárias que se imbricavam na trama, e, quando dei por mim, já tinha escrito mais de dez mil palavras. Descobri que tinha uma história. Comecei em seguida retrabalhá-la.  Reescrevi esse primeiro trecho, dividido em quatro capítulos, dezenas de vezes. O trabalho começou a crescer. Eu estava entusiasmado.

De repente, chegou um momento em que o romance não avançava. Eu não conseguia escrevê-lo. Algo me paralisava. Por mais que eu trabalhasse no texto, na hora de reler verificava que o resultado era insatisfatório. 

Descobri, então, que o projeto era ousado demais e que eu ainda não havia reunido interiormente vivências e experiências suficientes para concretizá-lo. Resolvi, assim, suspendê-lo temporariamente. Enquanto isso, comecei a escrever vários contos simultaneamente. Para a minha satisfação, conseguir concluir esse livro no ano passado. Distribui algumas cópias para que  algumas pessoas fizessem uma leitura critica e espero que, este ano, possa publicá-lo, sem mais protelações.

Mas volto ao meu romance. Trata-se de uma história simples. Um escritor perde sua esposa num acidente automobilístico. A perda o faz entrar num profundo processo depressivo e autodestrutivo. Tendo ficado órfão quando criança, a única pessoa de suas ligações é um homem chamado José, que vive em Paris e que, por intercorrência de um derrame cerebral, está completamente imobilizado. José não se mexe, não fala, enxerga pouco, escuta e, apesar de tudo, continua lúcido. 

O escritor decide, então, enviar correspondências quase que  diárias ao seu amigo, como forma de manter sua sanidade por meio da confissão de suas intimidades e também como maneira de expiar suas culpas. O romance é constituído por essas cartas, e-mails, bilhetes, papéis avulsos. A trama transcorre sempre de forma indireta. A estrutura narrativa é a visão quase que  exclusiva do escritor. As peças que compõem o roteiro do livro – cujo título provisório é:“É tudo Mentira” – misturam confissões íntimas dos personagens, ensaios e enredo policial. 

Por coincidência, em determinado momento do romance, o escritor-personagem escreve uma carta ao amigo relatando o seu processo criativo. Achei interessante trazê-lo aqui para compartilhar com vocês, visto que, de certa forma, corrobora com algumas idéias que tenho. Vou ler um pequeno trecho:

.....................José ,  preciso confessar um segredo -  mas tenho medo.

Todas as vezes que eu partia para finalizar um livro - e isso levava, invariavelmente, alguns meses- só o isolamento e a solidão tornavam a torturante verdade possível: era preciso escrever era preciso inventar. A minha vida dependia disso. Era um ensaio de suicídio.

Mas eu sempre pergunto a mim mesmo: o que é escrever sob o peso escaldante da dúvida? Que escolha fazer diante de tantas estradas perdidas que o texto nos indica levar?
Como transformar os elementos abstratos do pensamento em formas concretas por meio das palavras?

Que esforço é esse que nos leva a querer criar vidas humanas para substituir idéias difusas  e evanescentes sobre a inevitabilidade da morte?

Tenho uma teoria: o homem inventou a palavra porque sentia a necessidade de dar forma ao seu enigmático sofrimento corporal. Escrever dói. Diante de uma página há sempre algum músculo obscuro propenso a sentir alguma dor. Há sempre um alguém estranho saindo das entranhas de nossas mãos emaranhadas de vidas alheias. 

E, assim, as histórias começam aos poucos a se estruturarem dando a ilusão de uma verdade ao que, aparentemente, é apenas um discurso da verdade. Só que tudo é falso. Não há vida. Só a combinação lógica de palavras, preto no imaculável branco. 

Durante toda a minha vida de escritor uma única sensação foi verdadeira: a de que a batalha com os meus limites era interminável. O desejo de ser outro, de ver a vida de outra forma, com outro estilo, com  mais talento e mais graça, com um pouco, talvez, de mágica , sem  ficar em pânico diante do fracasso e sem permitir que a preguiça me abraçasse com seus tentáculos, tentando impedir que eu chegasse ao fim , ao ponto final, ao fecho da trama (esse desejo impossível habita as profundezas de todos os nossos infernos).

Escrever só se torna uma atividade prazerosa quando você perde o controle emocional de seu corpo. Quando não se é mais capaz de subordinar o raciocínio a regras mecânicas da temporalidade e objetividade. Quando tudo parece um monólogo contínuo e  interminável. O texto se transformando em música -  e o ritmo das frases, numa sinfonia corporal. 

Lembro-me de uma cena quando penso nesse assunto. É tudo muito simples: resolvo caminhar de madrugada pelos canteiros centrais da Avenida Afonso Pena. Eles estão vazios e toscamente iluminados. E andando feito um bêbado, fico horas imaginando quantos textos estão ali ocultos, só esperando que alguém os faça renascer através dos fantasmas que há tempos imemoriais aguardam que os arranque do chão e se dê início às milhares de histórias latentes que desejam ressuscitar do asfalto, das calçadas e dos gramados - que se espraiam em direção ao parque dos poderes -  sugerindo o encontro do cerrado com o mar. 

Então, nessa hora estranha, fico acreditando que, um dia, um ser humano especial qualquer, por não suportar mais ver a vida passar por ali na sua aterrorizante falta de importância, no seu vazio inútil, no caos inconsútil da mesmice cotidiana, escolha, aleatoriamente, dois rostos, dois corpos, dois acasos que entrelacem vida e morte, e comece,  enfim,  a corporificação da teia indissolúvel dos acontecimentos que não se sucederam , mas que se sucedem  nas páginas que brotam do esforço mental provocado pela solidão inexorável, inventando  histórias soberbas de loucos e índios, de bravos e idiotas, de indivíduos individualizados na própria indigência existencial, pessoas que cometem o desatino de viver com a esperança de que o amanhã será tudo diferente, mesmo sabendo que a diferença não é o mais importante,  pois o ato de estar vivo por si só se tornou algo extraordinariamente importante.

É dessa maneira, de forma abrupta, sem motivo aparente, no febricitante tatear da imaginação em busca de luz, que se começa o velho e conhecido ritual de a palavra desencadear a palavra na cadência sublime da mentira.  

Escrever é impregnar de estilo os vazios entre os arcanos do verbo. É no silêncio silábico que ouvimos o retinir forjando as frases. Cada voz modula seu próprio ser. Cada pausa entre os sons liberta uma torrente de temores. Entre o ato de inspirar e expirar, um universo inteiro perpassa pelo nosso corpo. E nesse vazio construímos mundos imensos - cheios de dor, desejo, alegria e nojo. Por isso, às vezes, quando grito dou risadas...   

Como se pode ver, nesta mistura de ensaio acadêmico e texto literário, está descrito quase que um processo de criação. Em seguida a esse trecho o escritor-personagem deste romance suspenso até segunda ordem descreve como escreveu cada um de seus livros, fazendo revelações, que muitos aqui, se um dia o ler, poderão concluir tratar-se de um obsessivo à beira de um ataque de nervos. Mas prefiro não adiantar mais, para não tornar essa intervenção ainda mais enfadonha.

O fato que desejo demonstrar aqui é que na literatura o processo de criação muitos vezes é fragmentário. Claro, quando o leitor se depara com a obra, ela é um monolito geralmente com começo, meio e fim, não necessariamente nesta ordem. O processo de produção pode ser cartesiano, mas sempre é  construído por pedaços. Não depende de inspiração e sim de método, disciplina , leitura, observação e , acima de tudo, vivência interior. Eu sempre digo: escrever ficção é a cada momento inventar enigmas para si mesmo. Quanto mais intrincado o enigma, as dificuldades da trama, as armadilhas do enredo, mais original o trabalho. 

Por fim, vou citar um texto de Céline, que acho ser emblemático de tudo aquilo que foi dito aqui. Ele diz, a título de prólogo de seu romance Viagem ao fim da Noite:

Viajar é muito útil, faz a imaginação trabalhar. O resto não passa de decepções e cansaços. Nossa viagem, a nossa, é inteiramente imaginária. É essa sua força. 

Ela vai da vida à morte. Homens, animais, cidades e coisas, tudo é imaginado. É um romance, nada mais que uma história fictícia...

E além disso todo mundo pode fazer o mesmo. Basta fechar os olhos.

É do outro lado da vida.  

Obrigado.

Campo Grande ,06 de maio 2000"


Ilustração: Cláudia de 
Villar



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