N a quina da cama, meu avô escorou as pernas. Estava com passos vacilantes e ligeiramente curvado. Teve de novo aquele pesadelo. Sua mente ...

Alexsandro Nogueira*: A dama de Rochedinho

/
0 Comentários

Na quina da cama, meu avô escorou as pernas. Estava com passos vacilantes e ligeiramente curvado. Teve de novo aquele pesadelo. Sua mente está repleta de lembranças e povoada por fantasmas. Ele tentava decifrar um sonho: uma mulher de voz áspera e braços abertos que aparecia no meio do quarto e soletrava o nome de um lugarejo: “Ro-che-di-nho”. 

Meu avô ficou perturbado com aquelas visões na madrugada. Não conseguia tocar a vida pra frente. Ficava à espera de respostas. Tinha uma espécie de conexão com o lugar. Por isso, foi até lá.

Partiu cedo para estrada. No caminho, viu raios de sol nas plantas, borboletas e o sentiu o cheiro de orvalho da madrugada. Além do gado e da braquiária, havia gente de bicicleta por lá. Ciclistas uniformizados pedalando num ritmo intenso.

Antes de chegar em Rochedinho, parou no sítio de um compadre. Era um lugar agradável e hospitaleiro. Ali, um pequeno agrupamento de mangueiras sustentava a sombra em volta de uma casa feita de barro. Tinha um palpite de que encontraria as primeiras respostas por lá. 

Logo a comadre Zilá apareceu na janela e o chamou para entrar. Em seguida, um trator em marcha lenta se aproximou da casa.  Era o compadre Nino, com a voz embargada, pronunciando o apelido da família: “Pica-Pau!”.

Meu avô nem parecia escutar o chamado do amigo. Estava em transe, com o pensamento longe, revivendo passagens e sonhando com a possibilidade de voltar a viver naquele lugarejo tão peculiar.

Quando recebeu os abraços e o carinho do casal de compadres, sentiu um aperto no peito e deu a chorar. O homem duro e genioso de décadas passadas, amolecia o coração e era só ternura. 

A comadre, emotiva com a presença do velho amigo, serviu lhe um copo de água com açúcar e pôs a ferver um líquido escuro na chaleira, para acrescentar ao chá de cidreira. Era muita emoção.

Passado a comoção da receptividade, meu avô de mansinho começou a desabafar com os amigos. Disse que andava cabreiro com uns pesadelos e que não tinha a menor ideia do motivo das mensagens. 

Nino ouviu atento o caso, mas sem tirar os olhos da esposa. Ficou de butuca na mulher, com medo dela se envolver no assunto. Dona Zilá era benzedeira, tinha fama na região de antever acontecimentos e quebrar encantos.

Com pena do amigo, a comadre resolveu dar algumas pistas. Antes, advertiu que estava enferrujada para esse tipo de trabalho. Nino com um olhar sério e furioso reprovava a atitude da esposa.

No meio da conversa, meu  avô mostrava suas particularidades. De vez em quando, levantava uma das pernas, sacolejava a calça e soltava uns sons estranhos que se assemelhavam ao ronco de uma lambreta. O compadre, sem jeito,  inalava a contragosto o odor e resmungava em voz baixa.

Foi então que, subitamente, a comadre arrebitou a boca de poucos dentes e começou a falar. Disse a meu avô que teve um pressentimento a respeito das visões. O motivo dos pesadelos seria um alerta.  

Arrepiada e inquieta a comadre parecia em transe. De repente, começou a sacudir os ombros, erguendo os braços para o alto. Parecia uma conexão com o além. Meu avô, sem entender nada, tentava decifrar a mensagem.

Com a voz esquisita, ela disse ao meu avô que dois de seus filhos corriam perigo por causa das extrepulias fora do casamento. Com o rosto vazio e destituído de qualquer expressão, meu avô retornou à cidade com a missão de convencê-los a mudar de vida.

De volta à cidade, fez questão de conversar reservadamente com os dois. O mais velho, não deu bola para as advertências do pai. Mesmo porque, construiu uma reputação inabalável de pegador profissional.

O homem era só libido.  Por onde trabalhou, fazia exibições musicais cantando boleros e tocando sanfona nas confraternizações. Mas para tranquilizar o velho, garantiu que desde a cirurgia na próstata, não sentia mais “aquele” músculo pulsando (ou seria nervo?) como antes.

Já o outro filho, levou a advertência na brincadeira e confirmou as suspeitas de que perambulava pelos bairros, frequentando casas de famílias, com o objetivo de despir moças, tratando-as como bebês.

Foi aí que meu avô identificou nos filhos alguns traços peculiares. Os Pica-paus tinham predileção por arrumar casos com mulheres simplórias que moravam em bairros distantes. Era uma forma de não levantar suspeita e viver o furor do amor clandestino. Outra característica marcante dos filhos era oferecer presentes caros e cursos profissionalizantes às suas parceiras sexuais.

A vida seguiu seu curso e  meu avô se acostumou às práticas amorosas dos filhos. Dizia aos amigos que dormia e acordava com as boas lembranças de Rochedinho. Ainda ouvia o cachorro latindo, o galo cantando e a esposa reclamando no fim de cada madrugada. Até que, mergulhou na despedida da vida e sobreviveu na lembrança e na memória do entes queridos.


(A história acima é uma ficção, tendo como ponto de partida um fato real.)

* Jornalista e escritor



Posts Relacionados

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.